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domingo, 5 de junho de 2011

Imperfeição

«É evidente que nós continuamos a pintar os homens sobre um fundo dourado como os Primitivos. Nós, eles, os homens, continuamos diante do indeterminado, de uma coisa indeterminada, por vezes postos sobre ouro, outras, mais frequentes, sobre cinzas, por vezes na luz, mais vezes ainda na escuridão insondável.
Para conhecermos os homens, é preciso isolá-los. O fundo dourado (ou cinzento) isola naturalmente. Esse isolamento cancela, apaga todas as diferenças, as pequenas, ínfimas e grandiosas diferenças de toda a coisa por relação a cada coisa, porque as faz descolar, sem peso, sem o peso da terra, para o avesso de uma paisagem, não-lugar para onde nos desterram as expressões da subjectividade pura, do puro espírito.
Se conhecer é um acto de isolamento, então é uma forma de colocar os homens diante do indeterminado. Mas conhecer comporta graus: o conhecimento amadurecido descobre entre os homens as suas relações, prepara a transformação do indeterminado, mesmo aquele de ouro puro, em paisagem. Em rigor, não se passa para lá da preparação, pois as cinzas caem sem cessar, as cinzas chamam-nos, inundam, apagam constantemente a paisagem. Vale-nos o recurso ao ouro, em cuja alquimia as cinzas começam a brilhar, e a escuridão insondável se torna em insondável beleza.»

Maria Filomena Molder, A Imperfeição da Filosofia

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