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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Chet Baker - Almost blue

Remorso por qualquer morte

 Já livre da memória e da esperança,
quase futuro, ilimitado, abstracto,
não é um morto, o morto: ele é a morte.
Como esse Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se os predicados,
o morto ubiquamente alheio
é só a perdição e ausência do mundo.
Roubamos-lhe tudo,
não lhe deixamos uma cor nem uma sílaba:
é este o pátio que os seus olhos já não partilham
e aquele o passeio onde perscrutou a sua esperança.
Até o que pensamos poderia ele pensar;
repartimos por nós como ladrões
todo o caudal das noites e dos dias.

Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires

domingo, 15 de agosto de 2021

Paz

 A máquina avança pela estrada
do fim do mundo
onde conduzem as linhas 
da estrada
delimitada pelo horizonte sombrio 
da noite de verão

O voo do pássaro 
indica o verdadeiro caminho
apenas visível na imensidão 
que se perde entre a montanha 
e o mar sem fim

O tempo deixa os seus contornos
e do meio do marulhar das ondas 
e do vento forte
emerge em tumulto
o abraço que traz consigo 
a ilusão de eternidade.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

4

 Não há montanhas se não há palavras.
Não foge a bala se não há um espaço.
Não sobe o céu se não houver distâncias.
Não cabe o túnel se nunca estão paredes.

Correrem dias todos nós sabemos
serem serenos de punhais no meio;
mas sem montanhas nunca pode haver
um certo dia, grande nos foi dado.

O que esperámos era a Morte Larga,
o que pedimos era só um Homem,
madeira e ferro que soubemos dar.

Tudo existiu para que ele o desse,
tudo existiu para que ele caia.
Não há montanhas se não há palavras.

Pedro Tamen, O Sangue, A Água e o Vinho, poema em três cânticos, 1958 

sábado, 26 de junho de 2021

Saffron Laudanum

Queda

 «A tradição conta-nos ainda que o filho de Deus e primeiro homem sobre a Terra continha os sete metais no seu corpo de luz e que esses sete metais estão em correspondência com os sete planetas que constituem o mundo. Sucede que este homem feito de luz e nascido das causas primeiras desceu à Terra, passando pelas sete esferas planetárias e impregnando-se da natureza de cada um dos senhores dessas esferas. No entanto, ao olhar para baixo, viu a sua imagem refletida na matéria a apaixonou-se por ela. Ao descer em sua busca, ficou, porém, prisioneiro da vil natureza das coisas materiais. É deste modo que podemos compreender a dupla natureza do ser humano, que reúne em si, de forma inextricável, elementos da sua origem divina e liberdade essencial, bem como traços da sua irremediável condição de prisioneiro do mundo inferior.»

 Thomas Mann, José e os seus irmãos I

domingo, 23 de maio de 2021

Aborrecimento

 «Eu inventava para mim aventuras e fantasiava a minha vida para quê? Para ter uma vida. Tantas vezes me aconteceu, digamos, ofender-me - por nada, propositadamente; eu próprio sabia, entretanto, que estava a ofender-me por nada, fomentava a ofensa por dentro, mas levava a coisa a um ponto tal que, por fim, sentia-me de facto ofendido. Durante toda a minha vida me senti impelido a tramar estes truques, a ponto de, por fim, perder o domínio de mim. Aconteceu-me sentir vontade de me apaixonar à força, até por duas vezes. O que eu sofri, meus senhores, palavra de honra. No fundo da alma, eu não acreditava que sofria, agitava-se dentro de mim um sarcasmo, e mesmo assim sofria, ainda por cima a sério, e muito; tinha ciúmes, perdia as estribeiras... E tudo por causa do aborrecimento, meus senhores, do aborrecimento; a inércia oprimia-me. Porque o fruto directo, legítimo e espontâneo da consciência é a inércia, ou seja, o ficar-de-braços-cruzados. Já o mencionei atrás. Repito, repito e insisto: todas as pessoas e personalidades espontâneas são activas precisamente porque são lorpas e limitadas. Como se explica isto? É assim: como consequência de serem limitadas, tomam as causas superficiais e secundárias por causas primeiras, desta maneira se convencendo mais fácil e prontamente do que os outros que acharam um fundamento indefectível para as suas acções, e isso sossega-as; e é isso o mais importante: o sossego. Porque, para começar a agir, é necessário estar-se prévia e completamente em sossego e que não existam já dúvidas nenhumas.»

terça-feira, 18 de maio de 2021

Peter Frampton - Do You Feel Like We Do (Live in Detroit)

Outra Anunciação

 Porém, nessa manhã,
entre gumes e medos,
eu descomposta, o frio, a flor tão branca,
o rosto dele em gelo e desafio,
nessa manhã de azul,
coisas ergueram-se

Meço com fio de tinta
e um pano longo
bordado a cor de sangue:

a distância entre mim
e a Palavra

e vejo-a de gigante:

Falar não me dirá do teu acaso
e a haste a tinta,
presa a medo e sangue,
suspende-se, atrasada,
em longo desafio

ao Tempo

Ana Luísa Amaral, Ágora

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Ravi & Anoushka Shankar

Literatura

 

«MJS – Correndo o risco de achares que não tem sentido fazer esta pergunta sacramental, pergunto: O que é para ti a literatura?

AF- A pergunta «o que é…?» faz todo o sentido no campo da Física, por exemplo, onde para perguntas como «o que é a densidade?», ou «o que é a massa?», há, presumo, respostas exactas. Mas usar essa forma sintáctica da interrogação peremptória para domínios como a literatura, é aplicar um critério a uma área de problemática em que esse tipo de critério não é funcional. Neste sentido, essa é uma pergunta que, em relação a este objecto particular – a literatura -, talvez não faça sentido. Aquilo que se procurou durante muito tempo descrever como a característica central do que é «o literário», e que portanto definiria a literatura, nunca foi formulado de modo preciso. Houve tentativas brilhantes, como a dos formalistas russos que caracterizavam esse princípio como o da «literariedade». A literariedade, o característico do literário, poria em evidência a ostensividade do enunciado, a natureza estranha daquele modo de dizer, em detrimento do que está a ser dito. Isto não funciona, no entanto, porque na vida real as pessoas utilizam este mesmo tipo de procedimento sem estarem a fazer literatura. Para além disso, a literatura é um corpo muito instável. Hoje poucos percebem que Pessoa, tal como Pascoaes, considerasse Guerra Junqueiro o maior poeta do seu tempo. Entretanto, Junqueiro sofreu um eclipse quase total. Esta questão invoca necessariamente um conhecido debate contemporâneo, o debate sobre o chamado «cânone». O cânone é o conjunto daquelas obras que é objecto de discurso e de referência obrigatórios, bem como de presença atenuada nos programas escolares. Há uma série de teorias em relação a esta persistência dos «clássicos». Teorias conspirativas pretendem que o cânone é uma construção política, descrevendo esse elenco obrigatório de autores como motivado por interesses particulares. As pessoas que falam com grande ferocidade teórica contra a existência de um cânone, na prática não sugerem, todavia, alterações a introduzir no elenco de nomes. Ou seja, com o lado esquerdo da boca denunciam a sua existência, mas com o lado direito não nos dizem por que razão deverá substituir-se, por exemplo, Eça de Queirós por Pinheiro Chagas ou Arnaldo Gama. Em Portugal, há poucos candidatos recém-chegados ao cânone que o perturbem. Há uma peculiaridade adicional: quem impugna teoricamente a existência do cânone, persiste, no entanto, em falar dos autores canónicos. Mas decerto deverá explicar o porquê dessa obstinação, sob pena de ser visto como conivente com os interesses que denuncia, ou ter de explicar qual a natureza do valor que reconhece nos autores de que persiste em falar. A discussão sobre a noção de cânone foi importada dos Estados Unidos, país onde, de facto, alterações parcelares do cânone se dão, e o debate sobre isso é virulento. Têm um significado político, peculiar a uma democracia fortemente igualitária, e traduzem recomposições demográficas. Um aumento significativo da população hispânica, por exemplo, força o currículo a incorporar autores que digam alguma coisa a esse segmento da população. O panteão está desenhado para acolher mentores. É uma espécie de mesa do orçamento literário, que nenhum mandarinato cultural controla, ou se arroga sequer a mera ideia de controlar.»

Entrevista de Maria João Seixas  a António M. Feijó

domingo, 16 de maio de 2021

Answer Me, My Love

Certo e errado

 «Ainda não tinha alcançado que em respondendo à questão «vive em conformidade com o progresso», falava tal como alguém que está num barco à deriva, ao sabor das ondas e do vento que quando questionado sobre a mais importante e vital questão, «para onde vou?» evita responder dizendo, «estamos a ser levados algures.»
Nesta altura nada disto eu vi. Apenas ocasionalmente, levado mais pelo instinto que pela razão, rebelei-me contra a superstição tão prevalecente na nossa era, na qual as pessoas se refugiam do seu fracasso em entender a vida. Deste modo, durante a minha estadia em Paris, a visão de uma execução revelou-me a precariedade da minha superstição em progresso. Quando vi cabeças serem separadas dos corpos e as ouvi cair, uma a seguir à outra, para dentro da caixa entendi, e não apenas com o intelecto, mas com todo o meu ser, que nenhuma teoria da racionalidade da existência e progresso pode justificar este crime. Entendi que ainda que toda e qualquer pessoa desde o dia da criação de acordo com qualquer teoria, julgasse isto necessário, eu sabia que era desnecessário e errado, e assim os julgamentos do que é certo e necessário, não deveriam ser baseados naquilo que os outros dizem e fazem, ou no progresso, mas nos instintos da minha própria pessoa.»

Lev Tolstoi, Confissão

sábado, 15 de maio de 2021

GNR - Asas Eléctricas - [ Official Music Video ]

Pedreiro

 « - O trabalho do pedreiro - prosseguiu o orador - que por agora se realiza ao ar livre, completa-se, se não sempre no oculto, pelo menos para o oculto. Cobre-se o terreno regularmente disposto e até à altura em que levantamos as paredes ninguém se lembra de nós. Os trabalhos do canteiro e do escultor saltam à vista e até devemos dar-nos por satisfeitos quando o pintor apaga completamente as nossas dedadas e se apropria da nossa obra, cobrindo-a e dando-lhe lisura e colorido. A quem se deve estimar mais - continuou dizendo - que ao pedreiro, que acha bem o que faz, quando o faz bem? Quem tem mais ocasiões que ele de prestar contas à consciência? Logo que a casa está de pé, o chão coberto e lajeado, a parte exterior coberta com adornos, ele, todavia, continua a ver através dessas envolturas e reconhece estruturas regulares, primorosas, a que o conjunto do edifício deve a sua existência e a sua firmeza. E assim como aquele que cometeu uma má acção deve temer que, por fim o seu crime seja descoberto, apesar de todas as precauções tomadas, assim também deve esperar, aquele que fez o bem em segredo, que este acabe por ser conhecido, ainda que contra a sua vontade. Por esta razão, desta pedra de fundação faremos também um monumento.»

J. W. Goethe, As Afinidades Electivas

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Nick Cave & The Bad Seeds - Into My Arms (Official Video)

Verdade

 «- e também sabia que nessa verdade residia o dever de toda a arte, o dever que se reconhece a si próprio de achar a verdade e de exprimir a verdade, dado como tarefa ao artista, para que a alma, realizando o grande equilíbrio entre o eu e o universo, percebendo no seu auto-reconhecimento que o aprofundar do eu era um crescimento da substância do universo, do mundo, especialmente da humanidade, e muito embora esta crescimento duplo tenha sido apenas simbólico, preso de antemão ao simbolismo do belo, ao simbolismo do limite do belo, muito embora fosse uma simples percepção simbólica, foio precisamente através disso que lhe foi permitido alargar os intransponíveis limites interiores e exteriores da existência até uma nova realidade, alargando-os não apenas até uma forma nova mas até ao novo conteúdo da realidade, que se revelou o segredo da correlação, a relação mútua existente entre as realidades do eu e do mundo, o que atribuiu ao símbolo a nitidez do acerto e o elevou à altura da imagem da verdade, correlação que gera a verdade, da qual provém toda a criação da realidade, avançando, tacteante, intuitivamente, através das camadas sucessivas, até às inacessíveis, escuras regiões do início e do fim, avançando até à insondável zona divina do universo, do mundo, da alma do próximo, avançando até ao último esconderijo de deus, que, pronto a ser descoberto e despertado, se encontra em todo o lado, mesmo na alma mais perversa - isto, a descoberta do divino através do conhecimento introspectivo da própria alma é a tarefa humana da arte, a sua tarefa em favor da humanidade, a sua tarefa de conhecimento, e justamente por isso, a sua razão de ser, demonstrada através da proximidade da morte, porque só nessa proximidade se pode tornar verdadeira arte, assim se desdobrando num símbolo de alma humana; na verdade, isso ele sabia,»

Hermann Broch, A Morte de Virgílio

Dido and Æneas - Henry Purcell (Dido's Lament) + Fr lyrics

Paz Universal

 Às vezes a vida chama-nos à razão. 
Repentinamente. 
O rouxinol deixa de cantar 
e, no seu silêncio, 
anuncia a chuva a bater na vidraça. 
Melhor, 
logo que interrompe o seu canto, 
a chuva invade-nos 
e varre tudo à sua passagem. 
Abruptamente. 
Sem aviso, 
aquilo que ontem era marcado 
por um horizonte 
a perder de vista, 
tornou-se 
paisagem devastada 
em sombrios ocasos.
O fulgor luminoso de ontem 
deu lugar à escuridão 
de uma paisagem devastada.
Ouvido, então, o choro da terra, 
por maior que seja a treva, 
irrompe 
pela superfície dos oceanos 
e vem lembrar-nos 
que à escuridão 
sucede sempre a luz, 
seja quando for, 
em que circunstâncias for.
No esforço redobrado para seguir o seu caminho, 
o homem levanta-se. 
Simplesmente. 
Mesmo que seja num 
trânsito sem destino, 
em direção a nenhures. 
Só que o facto de identificar este destino 
é já o prenúncio 
de uma vontade nomeada. 
A vontade, 
enquanto existe a aspiração
 a um canto de rouxinol recuperado, 
é o princípio de salvação. 
Salvemo-nos 
e que sejamos capazes de caminhar
 em direção ao lugar 
onde as almas se encontram 
e onde possamos encontrar 
uma redenção. 
Aí chegados, 
em resultado de uma atitude determinada, 
seremos inteiros, imbatíveis divinos.
Sonhemos 
com a reconstrução do templo da paz universal.    

Marisa Monte - Ainda Bem

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Antropofagias

 Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocá-la no «espaço»
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas «fulminantes»
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
«ponto de referência» ou como «pretexto espaço-tempo»
para aplicação da dança
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
 «imagem» e metam-na «para dentro» assim imóvel
e fiquem parados «aí» com a imagem parada talvez brilhando
é qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela «parece» que o movimento parte de novo
é uma «linguagem» e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do «verbo primeiro e último» apanhem a figura «absoluta»
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita «prolonga-se»
vamos achar bem que o stique seja a «respiração»
extrema e extensa
a bola põe-se a «caligrafar» todo um sistema de planos
intensos leves
«metáfora» decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
«que jogo é este para o entendimento dos olhos?»
a resposta «alegria» tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma «necessária dimensão»
«o jogo respira?» perguntam e diz-se «que respira»
«então deixem-no lá viver» como se se tratasse de
«uma criatura»
podemos confundir «isto» com «acertar»?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
«jogo»
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em «iminência»
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de «ser» e parando e continuando
e ainda «apagando e recomeçando» como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
«referido a quê senão ao absurdo de um espelho?»
«a enviar-se» cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela «ausência viva»
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo «básico» de «estar a ser»

Herberto Helder, in Antropofagias, Texto 6

domingo, 2 de maio de 2021

Pink Floyd - Wish You Were Here / Comfortably Numb

Negociações

 Há muitas coisas que não entendo em mim mesmo. Por esse motivo, dou comigo muitas vezes a cismar. Que inadequação é esta que sinto constantemente entre mim e os outros, ou entre mim e o mundo? Deste facto não me lamento, apenas porque não se discute a natureza das coisas. As coisas são o que são e ponto final. Eu possuo uma natureza que é o que é e ponto final.
Na verdade, foi em contraste com os outros que desde muito cedo me fui construindo e recordo as vezes em que, ainda criança, a minha mãe me dizia para eu não me meter em asneiras só porque as outras crianças o faziam. Nessa altura, a minha mãe achava que eu era vulnerável aos instintos dos outros. Na verdade, ao longo da vida, várias pessoas, que de mim apenas conheciam a superfície, terão feito juízos desta natureza.
No entanto, aquilo que sempre me moveu foi um espírito de harmonia, de diálogo, de comunhão entre as partes que à minha volta se apresentaram sempre em conflito. Nos meus trabalhos para obter essa harmonia, muitas vezes dei comigo a ir ao outro de cada uma das partes, aproximando-me com a intenção genuína que daí resultasse uma aproximação, uma negociação.
A vida é feita de negociação permanente. Com o tempo, fui percebendo que existem pessoas que não permitem essa aproximação, de tal modo se sentem certas nos seus propósitos que não imaginam sequer uma possível negociação.
Dessas pessoas, afastei-me gradualmente, pois constatei que, com elas não seria possível uma conciliação. Ao proceder deste modo, compreendi que a minha relação com aquilo em que acredito e a respetiva defesa continham princípios inegociáveis e que, desse modo, eu próprio, nas minhas intenções, me aproximava daqueles de quem fugia, na maneira de atuar.
Afinal de contas, em que ficamos?

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Sétima Legião - Mar d´Outubro

O Último Dia

 Estava o dia nublado. Ninguém se resolvia
soprava um vento ligeiro: «Não é o grego é o
            siroco» disse alguém.
Alguns ciprestes esguios cravados na encosta e o 
            mar
cinzento com lagoas luminosas, mais além.
Os soldados apresentavam armas quando começou a chuviscar.
«Não é o grego é o siroco» a única resolução que
           se ouviu.
Todavia sabíamos que na alba seguinte não nos restaria
mais nada, nem a mulher bebendo ao nosso lado o sono
nem a memória de que fomos homens alguma vez,
mais nada na alba seguinte.

«Esta vento traz à mente a primavera» dizia a amiga
caminhando a meu lado olhando para longe «a primavera
que de repente caiu no inverno perto do mar fechado.
Tão inesperadamente. Passaram tantos anos. Como vamos
           morrer?»

Uma marcha fúnebre vagueava por entre a chuva miudinha.

Como morre um homem? Estranho ninguém refletiu
          nisso.
E os que pensaram nisso era como memória de crónicas
          velhas
da época dos cruzados ou da - em Salamina - batalha
          naval.
Todavia a morte é algo que é feito; como morre
          um homem?
Todavia alguém ganha a sua morte, a sua própria morte,
          que não pertence a nenhum outro
e este jogo é a vida.
Baixava a luz por sobre o dia nublado, ninguém se
          resolvia.
Na alba seguinte não nos restaria nada; tudo entregue;
          nem sequer as nossas mãos;
e as nossas mulheres trabalhando para outros nos fontanários e
          os nossos filhos
nas pedreiras.
A minha amiga cantava caminhando a meu lado
          uma canção amputada:
«Na primavera, no verão, escravos...»
Lembrávamo-nos de mestres anciãos que nos deixaram 
          órfãos.
Um casal passou a conversar:
«Fartei-me do crepúsculo, vamos para casa
vamos para casa acender a luz.»

Yorgos Seferis (trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)  

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Patricia Kaas Avec Le Temps

O antropomorfismo destas estranhas cabeças dirá

 O antropomorfismo destas estranhas cabeças dirá
o quê? A prisão do gesto do escultor
na forma do seu corpo ou pelo contrário

o triunfo do princípio da metamorfose e o
reino da possibilidade? OU dirá tão
simplesmente as concretas determinações

de tal reino. E que um corpo tem na sua cabeça
uma deformação necessária: Coroação
e decapitação; mudança de formas;

ironia da invenção; sabedoria do gesto
que explode e declina no desenho rigoroso.
Eles - diz o mestre - não sabem desenhar.

Manuel Gusmão

Comme un boomerang

5. A resposta de Apolo à Inveja (Hino a Apolo, 105-112)

 A Inveja falou em segredo ao ouvido de Apolo:
«Não me agrada o poeta cujo canto não tenha a extensão do mar.»
Apolo afastou a Inveja com o pé e disse:
«É grande a corrente do rio assírio, mas muitas
lamas de terra e imundície de toda a espécie arrasta.
Não é uma água qualquer que as ovelhas levam a Deméter,
mas aquela que, pura e sem mistura, brota
de uma nascente sagrada: bebida pouca, suprassumo de qualidade.»

Calímaco (trad. Frederico Lourenço)

Déshabillez moi Juliette Greco

Onda

 Ambos soubemos 
sempre
que por mais que as ondas 
se sucedam interminavelmente
a uma onda jamais sucederá uma outra 
que lhe seja igual

No desejo de encontrar a perfeição 
cada onda traz consigo
esse propósito divino 
do encontro
absoluto

Mas nós não somos divinos
apesar de em momentos 
esplendorosamente fugazes
sermos capazes 
de bater à porta 
da divindade

O que torna a onda perfeita
é a sua capacidade de procurar
permanentemente esse lugar absoluto
na sua busca se entusiasmando
e iludindo




quarta-feira, 28 de abril de 2021

Charlotte Gainsbourg - L´un part, l´autre reste.

Bebido o Luar

 Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgámos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos e as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

John Coltrane - Naima (Take 1 / Audio)

50.

 Das minhas asas volto para meu lar, 
asas da minha perda repentina.
Fui cântico, e Deus, a rima
ainda em meu ouvido a murmurar.

Torno-me de novo simples e silencioso,
e minha voz se abre à solidão;
curvou-se o meu rosto ditoso
para melhor oração.
Para os outros fui como um vento desavindo,
quando os chamei sacudindo.
Onde estão os Anjos, longe, estive eu
alto, onde a luz para o nada correu...
mas Deus profundamente obscureceu.

Os Anjos são o último ar
na orla do seu cimo;
dos seus ramos se separar,
é para eles como um sonho peregrino.
Aí mais na luz cada um acreditou
do que Deus força mais negra,
Lúcifer se refugiou
na sua proximidade como regra.

Ele é o príncipe no país da luz,
e a sua fonte está num lado
tão íngreme no nada que reluz,
que ele, de rosto chamuscado,
trevas implora.
É o claro deus do tempo que se demora,
para quem alto desperta,
e porque muitas vezes com dores grita
e muitas vezes com dores ri na realidade,
o tempo na sua felicidade acredita
e adere à sua autoridade.

O tempo é como seca margem
na folha de um livro usado.
É o manto brilhante de viagem
por Deus rejeitado,
quando Ele, que sempre foi profundidade,
do voo se cansou, da sua intensidade,
e se escondeu de cada ano começado
até que seu cabelo enraizou
e, crescendo, todas as coisas atravessou.

Rainer Maria Rilke, O Livro de horas


The Penguin Cafe Orchestra - Air à Danser [When in Rome]

Silence

 «The great poem. As I say it, it becomes clear to me that I have accepted it, until quite recently, as something which certainly exists, putting it highhandedly beyond any suspicion of coming into being. Even if the originator behind it were to appear, I should not be able to imagine the power which all at once had broken so great a silence. Just the builders of the cathedrals shot up, like grains of seed, immediately and without residue, into growth and blossom in their work, which stood there as if it had always been, no longer explicable as deriving from them: so the great poets of the past and the present remain entirely incomprehensible to me, the place of each being taken by the tower and bell of his heart. Only since a most proximate younger generation, striving upward and into the future, has embodied, not insignificantly, their own growth in the growth of their poems, does my eye seek to recognize, alongside of their achievement, the circumstances of the creative personality. But even now, when I must acknowledge that poems are formed, I am far from thinking them invented; it seems to me ratheras if there appeared in the soul of the poetically inspired a spiritual predisposition, which was already present between us (like an undiscovered constellation).»

Rainer Maria Rilke, Where the silence reigns

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Luz Casal Lo eres todo

ADIÓS

 Cualquier cosa valiera por mi vida
esta tarde. Cualquier cosa pequeña
si alguna hay. Martirio me es el ruido
sereno, sin escrúpulos, sin vuelta,
de tu zapato bajo. Qué victorias
busca el que ama? Por qué son tan derechas
estas calles? Ni miro atrás ni puedo 
perderte ya de vista. Ésta es la tierra
del escarmiento: hasta los amigos
dan mala información. Mi boca besa
lo que muere, y lo acepta. Y la piel misma
del labio es la del viento. Adiós. Es útil,
normal este suceso, dicen. Queda
tú con las cosas nuestras, tú, que puedes,
que yo me iré donde la noche quiera.

Claudio Rodriguez

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Carlos Maria Trindade / Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu (1991, Full Album)

Boredom

 «It is by no means essential to my argument to maintain that boredom came into existence only when it was first named. One can never prove taht a new feeling has entered the world. The emotion Shakespeare's Hippolita experiences may in fact have precidely corresponded to what we understand as boredom, but the language assigned to her emotion differs from the twentieth-century vocabulary of boredom, and I maintain the importance of the difference. If new feelings arguably never manifest themselves, new concepts uniquivocally do. Boredom was in the eighteenth century a new concept, if not necessarily a new event. The emergence of a new concept marks a significant cultural happening because it allows articulation of fresh ways to understand the world.

Patricia Meyer Spacks, Boredom

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Bruce Springsteen - I'm on Fire

Ritmo

 «O ritmo não é apenas um aliado da memória, pois também é um catalisador dos nossos prazeres - a dança, a música e o sexo jogam com a repetição, o compasso e as cadências. A linguagem também possui infinitas possibilidades rítmicas. A épica grega flui em hexâmetros, que criam um peculiar ritmo acústico através de combinações de sílabas longas e breves. Pelo contrário, o verso hebraico prefere os ritmos sintáticos: «Há um breve momento para tudo e um tempo para cada coisa sob o céu: um tempo para nascer e um tempo para morrer, um tempo para plantar e um tempo para arrancar o que se plantou; um tempo para matar e um tempo para curar, um tempo para destruir e um tempo para edificar...» Dir-se-ia que estas frases do Eclesiastes cantam e, de facto, o músico Pete Seeger compôs uma canção, inspirada nelas - Turn! Turn! Turn! (To everything there is a season) que chegou ao topo das listas de êxitos em 1965. Na origem da poesia, o prazer do ritmo foi posto ao serviço da continuidade cultural.»

Irene Vallejo, O Infinito num junco

segunda-feira, 12 de abril de 2021

L'Orchestre du Roi Soleil. Jean-Baptiste Lully (1632 - 1687)

O Outro filho (irmão do pródigo)

«O vitelo mais gordo»
disse o pai. Mas era para o outro
que falava

E ele interrogou-se confundido,
o coração pesado de negócios,
esquecido de viagens e sonhos
por fazer

Deve ser coisa estranha
a lealdade,
como penoso o ofício 
de amar

Perdida a juventude
entre contas e servos,
entre terras vedadas e cega obediência
que lhe restava

senão juntar-se à festa
e comer o vitelo
e fingir alegria
em pródigos sorrisos?

Ana Luísa Amaral

Marc Antoine Charpentier Te Deum Les Arts Florissants William Christie

Erguem-se os ventos e contra mim se assanham

 Erguem-se os ventos e contra mim se assanham,
se rebelam, gritam-me fúrias antigas, incontidas,
e assomam às portas assobiando velhas canções tristes.

Dizem que por eles morreram já algumas aves.
E que os trigos cederam à tentação de os seguir
e se perderam para sempre na planície, como as crianças.

Nunca lhes digas o meu nome, não lhes contes que existo.
Guarda-me agora em ti como um outro segredo -
o teu sono era quente, lembro-me da janela do teu quarto
a dar para o céu, os ventos passavam nela devagar,
mas nunca se detinham

e depois, de manhã, acordávamos sempre junto ao sol.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nite Jewel - Boo Hoo (Official Video)

 No texto «Sobre a linguagem em geral e a linguagem humana» (...), a essência linguística do ser humano é a nomeação, a qual acaba por coincidir com a sua essência espiritual. Isto é, o homem manifesta a sua compreensão através do poder que tem de dar nomes, pelos quais reconhece a irradiação expressiva dos seres, a sua magia, como Benjamin lhe chama.
O nome dá conta dos seres com todas as suas manifestações imediatas. Como é que uma árvore se manifesta imediatamente? Pela sua morfologia, pela sua resistência ao vento, pelo crescimento das folhas, pelo crescimento dos frutos, pela sombra que dá. Como é que nós utilizamos uma árvore? Descansando à sua sombra, comendo os seus frutos, arrancando os seus ramos para nos aquecermos, deitando-a abaixo para a transformar em madeira com vista à construção de casas, de pontes (nalgumas destas acções podemos observar uma superação do utilitarismo). Mas aí a linguagem da árvore tornou-se em grande parte indirecta (embora comer os frutos e descansar à sombra ainda mantenham a irradiação expressiva da árvore). Ela só se manifesta de maneira imediata quando está íntegra, quando se mantém enquanto tal. A partir do momento em que é transformada, a sua linguagem foi traduzida sob forma utilitária. Mas também pode ser transformada sob forma artística. E no caso artístico, nos melhores casos artísticos, parece que subitamente percebemos o que é uma árvore ou, indirectamente, percebemos o que é a madeira ou o que é uma pedra.
É preciso ainda assinalar um aspecto muito importante em «Sobre a linguagem em geral e a linguagem humana», e para o qual Benjamin adverte o leitor: não se trata de exegese do texto bíblico. Apesar de não ser crente, a tradição que ele tem à mão é a tradição em que foi educado - o texto do Antigo Testamento fornece-lhe o quadro segundo o qual, de acordo com as suas palavras, pode compreender a linguagem nas suas aporias. E como é que a linguagem nas suas aporias é compreendida a partir do Génesis? No contexto da criação, Deus disse: faça-se isto. E achou que era bom. A linguagem divina é criadora: dita a palavra luz, a luz aparece. Em relação ao homem, porém, Deus não disse: faça-se o homem, mas molda-o a partir do barro, a partir da terra. Esta versão é a mais antiga. Não será de mais sublinhar que Benjamin pensa o ser humano como um ser que pertence à Terra. A Terra é a Terra dos homens e nenhuma argumentação permitirá superar tal evidência. Digamos, o homem é feito de terra e a Terra está ao cuidado do homem. E como é que se vê isto no Antigo Testamento? Pelo movimento divino de prescindir da palavra em relação ao homem: Deus não diz: faça-se o homem, molda o homem com a terra dando-lhe essa vocação de pertença à Terra e, ao mesmo tempo, libertando a palavra no homem. É o homem agora que terá de falar. Passando a palavra de Deus para o homem, passa de criadora a nomeadora. Em resumo: a essência espiritual do homem é aquilo que constitui e exprime o ser humano em relação a tudo o que há, incluindo aquele que é a fonte do dom da vida, aquele a quem se dirige a palavra, aquele que não será nomeado, Deus. A linguagem humana dirige-se para a sua fonte, não é criadora - isto é muito importante, porque evita qualquer tentação de idolatria.

O Químico e o alquimista, Benjamin, Leitor de Baudelaire, Maria Filomena Molder


quarta-feira, 31 de março de 2021

BADBADNOTGOOD | Speaking Gently

 Pontos fundamentais a sublinhar: a afinidade (aqui sob a forma do parentesco entre obra de arte e problema filosófico) é o conceito-chave da categoria da relação em Benjamin. O problema filosófico surpreende-se como possibilidade de formulação do teor de verdade da obra, que terá de ser desenterrado. Com frequência, a crítica - aqui claramente equiparada à filosofia - é comparada a um acto de desenterrar, de escavar na terra. O crítico é assim como um mineiro ou um descobridor de tesouros. Diante da obra, a pessoa que tem um segredo que não confessará pela violência,, exige-se paciência, perseverança e reverência. Daí a verdade ser reconhecível e não questionável, pois pertence à ordem do mistério. Esta é uma ideia que Benjamin nunca põe de lado: a verdade não é um objecto de questionação, é uma exigência. Guardemos o reenvio do belo ao verdadeiro para mais tarde. Sublinhe-se desde já a confiança de Benjamin em relação à legitimidade de continuar a falar do vínculo entre beleza e verdade, sempre que se trata de pensar o que é a filosofia.

O Químico e o alquimista - Benjamin, Leitor de Baudelaire

AIR - Playground Love (Official Video)

 O professor, pelo menos desde o Ménon platónico, não é, em primeiro lugar, alguém que sabe ensinar quem não sabe. É antes alguém que tenta recriar o objeto de estudo na mente do estudante, utilizando uma estratégia que permita, antes de qualquer outra coisa, que o estudante reconheça o que potencialmente já sabe, o que implica desmontar as forças que reprimem a sua mente e o impedem de saber aquilo que sabe. É por isso que cabe ao professor, e não ao aluno, fazer a maior parte das perguntas.

O Código dos códigos, Northrop Frye

sábado, 16 de janeiro de 2021

Grutera - A Partir Daqui - CLAV Live Sessions

Silêncio

 Quando Luísa lhe disse que lhe ligava quando tivesse alguma coisa para lhe dizer, João compreendeu que o mundo tinha mudado, pelo menos o seu mundo. Antes, não era preciso dizer nada, bastava o brilho que em ambos se cruzava proveniente das esperanças que acalentavam e na satisfação que sentiam pelo simples facto que estarem juntos. Isso aconteceu antes, quando ainda não se tinha a noção da dimensão do buraco para onde a pandemia os estava a levar. Desde março que tudo mudou, a princípio ainda havia a expetativa de que a vida voltaria ao normal num horizonte aceitável, se se pode assim dizer. Contudo, o tempo foi passando e, com ele, não foi apenas a manutenção do estado das coisas, mas também a acentuação de um afastamento. Com o tempo, as pessoas passaram a viver para dentro, a fechar-se em casulos repletos de receios, hesitações, medos. O fechamento de cada um para dentro de si próprio, começou por se revelar nas relações com os mais próximos, para, aos poucos, começar a fazer estrada e a conduzir muitas pessoas por caminhos até então desconhecidos. Fechadas nos seus casulos, as pessoas, porque alheias ao mundo exterior, porque o passaram, entretanto, a ver como uma ameaça, adquiriram um espírito de medo em relação ao outro, ao seu semelhante, como se não estivéssemos todos na mesma situação. O outro, aos poucos, passou a ser, ele próprio, a raiz da ameaça e, então, deu-se um fenómeno inquietante. Considerando-se perseguidas por uma ameaça invisível, muitas pessoas começaram a reagir de maneira epidérmica, levadas por uma irritação incontrolável, que procuravam tratar como quem tem uma borbulha e a coça constantemente. O resultado foi o esperado, a borbulha infetou. O pus resultante da infeção, rapidamente começou a alastrar e, gradualmente, contagiadas, as pessoas começaram a reagir como se o mal que sobre todos caiu tivesse sido causado pela primeira pessoa que lhes aparecia à frente. Um mundo com tais contornos é um mundo doente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Brahms Ein deutsches Requiem - Op 45 Abbado

Ruído

 À superfície existe um ruído, nascido de um murmúrio, insistente. Com a sua continuidade, o murmúrio deu lugar a este ruído bruto, insone. Um ruído provocado pela insatisfação e pelo ressentimento. Durante a minha vida, procurei sempre combater o ressentimento e as suas origens, em virtude de tudo aquilo que por detrás dele se esconde.O ressentimento é a ferramenta de que a frustração se serve para se manifestar. Nem sempre estive desperto para a dimensão da poesia de Ricardo Reis, mas, com o tempo, fui-me apercebendo de que a paz que nele se observa, advinda da sua capacidade para se colocar à margem do ruído desnecessário, bem como da inexistência de expetativas, é um meio para se alcançar uma salvação de características particulares. Com efeito, a ausência de expetativas não é necessariamente a manifestação de um procedimento em perda permanente, mas, em grande medida, o espelho de uma compreensão particular do mundo que remete para a ideia de que a humanidade é o que é e que em relação a ela não devemos criar a ilusão de que se venha a manifestar num modo virtuoso. Eu sou um cristão desnaturado, daqueles que trazem consigo a marca mais elevada da experiência manifestada, através do exemplo de Cristo. O perdão é a chave para uma vida virtuosa, pois é o perdão que é capaz de fazer nascer em cada dia, através de um coração limpo do pó da estrada, a esperança redentora da fraternidade.