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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Confissão

«Daí, sem dúvida, uma metamorfose na literatura: de um prazer de contar e de ouvir, que estava centrado na narração heróica ou maravilhosa das «provas» de bravura ou de santidade, passou-se para uma literatura ordenada à tarefa infinita de fazer erguer do fundo de cada um, entre as palavras, uma verdade de que a própria forma da confissão faz cintilar como sendo o inacessível. Daí também esta outra maneira de filosofar: procurar a relação fundamental com o verdadeiro, não simplesmente em si próprio - em qualquer saber esquecido ou num certo vestígio originário -, mas no exame de si próprio, que revela, através de tantas impressões fugitivas, as certezas fundamentais da consciência. A obrigação da confissão é-nos agora devolvida a partir de tantos pontos diferentes, está agora tão incorporada em nós, que já não a entendemos como o efeito de um poder que nos constrange; parece-nos, pelo contrário, que a verdade, no mais secreto de nós próprios, não «pede» outra coisa senão fazer-se luz; se a não atinge, é porque uma coerção a retém, porque a violência de um poder pesa sobre ela e não poderá articular-se finalmente senão à custa de uma espécie de libertação. A confissão liberta, o poder reduz ao silêncio; a verdade não pertence à ordem do poder, mas está numa relação parentesco originário com a liberdade: estes são temas tradicionais da filosofia, que uma «história política da verdade» deveria reexaminar, mostrando que a verdade não é livre por natureza, nem o erro servo, mas que a sua produção é integralmente atravessada pelas relações de poder. A confissão é um exemplo disto.»

Michel Foucault, História da Sexualidade - I, A vontade de saber

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