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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

terça-feira, 8 de março de 2016

Caos

«A vida ali era tão rigorosamente regulada e determinada que poderia ser compreendida geométrica e biologicamente. Era difícil acreditar que aquilo pudesse estar relacionado com as condições de vida intensas, selvagens e caóticas de outras espécies, por exemplo, com as concentrações excessivas de girinos ou de alevins ou de larvas de insectos, onde a vida parecia surgir de um poço inesgotável. Mas assim era. O caos e a imprevisibilidade são características essenciais da vida e do seu fim, não sendo possível a primeira sem o segundo, e embora empreendamos quase todos os nossos esforços para tentar evitar o fim, não é necessário mais do que um breve momento de desespero para que vivamos à sua luz, e não à sua sombra, como agora.. O caos é uma espécie de força de gravidade, e o ritmo que conseguimos perceber na História, da ascensão e queda de civilizações, talvez seja devido a isso. É admirável que os extremos se pareçam, pelo menos num certo sentido, pois, tanto no caos absoluto como num mundo rigorosamente regulado e determinado, o indivíduo não é nada, a vida é tudo. Do mesmo modo que ao coração não interessa por que vida palpita, a cidade não se importa com quem cumpre as suas várias funções. Daqui a cento e cinquenta anos, quando toda a gente que hoje se movimenta pela cidade tiver morrido, o tumulto da actividade humana ainda se fará sentir obedecendo aos mesmos velhos padrões. A única coisa nova serão as caras das pessoas, embora não assim tão nova, porque se parecerão connosco.
Atirei a beata do cigarro para o chão e bebi o último gole de café, já frio.
O que eu via era a vida, aquilo em que pensava era na morte.»

Karl Ove Knausgard, A Minha Luta:1, A Morte do Pai

Renato Zero - Chiedi - Official Videoclip (Album Alt - 2016)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Curiosidade (pubertária)

«Por um lado tínhamos medo de um verdadeiro ataque aéreo ou à bomba ou de terror à nossa cidade, que até a esse meio-dia de Outubro fora inteiramente poupada, mas, por outro, nós todos (educandos) desejávamos efectivamente, em segredo, ser confrontados com um desses ataques aéreos ou à bomba ou de terror como uma verdadeira vivência, não tivéramos ainda a nossa vivência de um terrível acontecimento dessa natureza, e a verdade é que nós, por curiosidade (pubertária), sentíamos um enorme desejo de que, depois das centenas de cidades alemãs e austríacas que já tinham sido bombardeadas e em grande parte ou mesmo completamente destruídas, como nós sabíamos e o que não só não nos ocultavam, como também todos os dias nos era forçosamente dado a conhecer através de toda a espécie de relatos pessoais ou do que os jornais publicavam com todo o seu horror de autenticidade, também a nossa cidade fosse bombardeada, o que realmente veio a acontecer, creio que no dia dezassete de Outubro.»
Thomas Bernhard, Autobiografia

sexta-feira, 4 de março de 2016

Avishai Cohen - "Dreaming" Live at Nancy Jazz Pulsations 2015

Há coisas de que se evita falar


Não é cómodo falar daquilo que verdadeiramente importa quando se fala de democracia, de liberdade, de justiça, de escola. Por esse motivo, carregamos de verniz as conversas que vamos mantendo, evitando melindrar os outros, pois é comum, por mais liberais que as pessoas se apresentem, ao verem-se confrontadas com uma ideia que está do lado de fora das suas crenças, recuarem e fecharem-se no seu cantinho de segurança. A ideia de segurança contém em gérmen a de hipocrisia, o facto de se fazer tudo para manter uma aparência de ordem onde não existe a possibilidade de essa ordem existir. O que existe é uma hipocrisia instalada.
Os ricos, por exemplo, têm razões para serem hipócritas e pretenderem defender uma ordem particular. Eles são ricos, não pretendem que se verifiquem alterações no seu modo de estar no mundo e na vida. O problema são os pobres. A pobreza não tem que implicar uma hipoteca da dignidade. No entanto, muitos pobres receiam a mudança, parecendo crer que têm mais para viver do que a própria miserável vida que levam. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

The Passions - I'm in love with a German film star (live version)

Trovoada

«Lembro-me dessa nuvem, e de rezar ao pé da minha avó, à luz da cera benta, luz parada, que parecia morta, diante dum crucifixo de marfim. Avisto ainda as fosforescências,rubras e azuladas,nos vidros das janelas, seguidas dum estrondo medonho de aéreos desabamentos. A voz do céu faz tremer o mundo. Até a nossa tristeza o impressiona e transfigura. O sonho domina a realidade. Que é a nebulosa, senão um sonho de Deus? A própria História tem uma origem sonâmbula. Os seus primeiros factos são fabulosos, porque foram gerados durante os sonhos dos heróis. A Mitologia é a mesma História, no seu princípio, desenvolvida ainda em pleno sono ou esquecimento. Quem se recorda de haver nascido? Que homem ou povo se recorda? Este esquecimento indefine o começo da nossa existência, quimérico e ilusório, como o seu fim. O berço e o túmulo não são para os olhos de quem neles está deitado.»

Teixeira de Pascoaes, São Jerónimo e a Trovoada

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Beach House - Levitation

Para a Dedicação de um Homem

Terrível é o homem em que o senhor
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia

Ruy Belo, «Aquele grande rio Eufrates»

segunda-feira, 29 de junho de 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Não criamos as palavras

Não criamos as palavras.
O Verbo é que, em nós,
Se fez palavra.

A palavra humana
deriva do Verbo divino
e toca o silêncio das coisas,
mudas porque disseram tudo.

E, porque disseram tudo,
são perfeitas
no seu recorte definido.

A voz
só existe nos seres indefinidos
ou que têm ainda que dizer.

Mas a palavra
entoa no silêncio das coisas
e torna-se mais profunda.

Teixeira de Pascoaes

sábado, 13 de junho de 2015

Best Coast - "California Nights" (Live from Public Radio Rocks at SXSW 2...

O Remorso

«O Remorso não é igual ao que era, quando a Crença era forte e a Religião viva e austera. No findar deste século passam-se dramas pavorosos, que em vão a Humanidade procura explicar - e que atiram para a loucura os desequilibrados...
Aí tem Marcas, o violento aquafortista, cuja obra, de uma originalidade quase feroz, arrepia. Vivia à parte e a Arte era tudo para ele, sem se sacrificar ao público, arredado e intratável.
Músico de génio também, as suas águas-fortes, que o eminente crítico Ch. Maurice cita quase como um prodígio, ressentem-se da sua paixão pelas músicas desordenadas e evocadoras de coisas sinistras em decoros simples e trágicos. Um dia deste mês passado chega à polícia, perdido, o olhar fixo, e diz:
- Ela quer que diga que fui eu que a assassinei. Podem-me prender...
Estava doido? Não: a sua confissão era verdadeira. A traços rápidos eis aqui a parte importante da sua história:
Nervoso, e de uma sensibilidade de doente, intratável, como disse, a Vida, que para ele era dura, afligia-o. Desconhecido o seu génio, insultado muitas vezes; quando recolhia, fazia sofrer a mulher, uma pobre alma tímida, que só a ele via na terra. Muitas vezes compreendo esta necessidade de torturar alguém quando sofro... Um dia de perversidade, talvez desesperado, por ver que ela o sofria sempre resignada, matou-a. O crime foi atirado para as costas de um assassino vulgar. A concierge disse ter visto uma cara suspeita subir as escadas do prédio, e ninguém pensou que Marcas fosse capaz de matar.
Mas a sua vida, então, passou a ser estranha. Cavado pelo remorso, alucinado, não podia estar só, viver só: morria de pavor. A música, que ele tocava no violino, enlouquecia, como feita de gemidos de assassinados, ora rouca, com estertores de epilepsia, já triste e simples como fora talvez o último olhar da sua mulher. Perdia-se nos becos, andava sempre, para se cansar, para dormir; mas chegado a casa, impossível!... Ei-la que lhe aparecia, não em atitude de se vir vingar, mas pior, bem pior, resignada e triste!... A princípio vomitava-lhe infâmias, numa fúria. Lembrou-se do álcool, para se esquecer, e nunca conseguiu que ela o deixasse: até que um dia - conta ele -, com um olhar de piedade, a alma de sua mulher materializada pegou-lhe na mão e levou-o à polícia...»

Raúl Brandão, in A Pedra ainda espera dar flor» 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Mogwai - Take me somewhere nice

Democracia

A democracia deixou de existir. De tal modo se vulgarizou a ideia igualitária, de acordo com a qual todos são iguais e todos sabem tudo, que agora se generalizou uma outra ideia, a de que qualquer pessoa pode emitir uma opinião sobre tudo, mesmo com um elevado grau de certeza. Até porque o eleitor deixou de ser um cidadão, mas sobretudo um consumidor. Nomeadamente eleitoral. O voto passou a ter um preço.
Uma coisa são os direitos consagrados por lei, os direitos constitucionais, por exemplo, outra coisa, bem diferente, é pensar-se que se pode dizer tudo o que apetece, com toda a certeza do mundo e do modo mais assertivo possível.
A este propósito apetece convocar a ideia de morte e a simbologia particular do Panteão Nacional. Nos últimos tempos a última morada dos homens e das mulheres ilustres do meu país estava consagrada apenas aos poucos que, de facto, se tinham entregado a uma missão superior ao serviço dos outros, nos domínios cultural e político. Com a entrada de um jogador de futebol nesse panteão, tudo se altera.
Com efeito, de um momento para o outro, e apenas movidos por um interesse imediato e eleitoralista, todos os partidos representados na Assembleia da República decidiram que o Panteão Nacional se deveria democratizar. Eu direi, vulgarizar.
Noutros países existem lugares específicos onde se imortalizam aqueles a quem o povo dedica afeição, mesmo depois de falecidos. Em Portugal isso não chega.
De certo modo, ao ver entrar algumas figuras públicas no Panteão Nacional, o povo sente que também ele ali está representado, e sente-se aconchegado...
O problema diz respeito aos patamares de exigência que colocamos em nós próprios e, por conseguinte, na vida e no mundo que nos rodeia.
O patamar de exigência português é muito raso.

Lisa Gerrard & Denez Prigent - Gortoz A Ran

Crepúsculo

«Crepúsculo é a palavra mais rica de sentido: o verbo das fontes e a Bíblia, a revelação das trevas e da luz, a do primeiro vagido e a do último suspiro. É a passagem do aquém para o além, do nada para o tudo; e é esse indefinido misterioso em que aparece e desaparece a Criação. Não é o homem o crepúsculo vespertino do Orango e o matinal de Adão? Assim seja...»

Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Le Donne lo Sanno - Ligabue(Live San Siro 2006)

54.

«O que faz, afinal, toda a filosofia moderna? Desde Descartes - e isso mais a despeito dele do que baseado nele - todos os filósofos cometem um atentado contra o velho conceito de alma, sob a aparência de uma crítica do conceito de sujeito e de predicado - isto é: um atentado contra o postulado fundamental da doutrina cristã. A filosofia moderna, como cepticismo teórico do conhecimento, é, abertamente ou às ocultas, anticristã: ainda que, diga-se para os ouvidos mais subtis, de modo nenhum seja anti-religiosa. Outrora acreditava-se «na alma» como se acreditava na gramática e no sujeito gramatical: dizia-se «eu» é condição, «penso» é predicado e condicionado - pensar é uma actividade para a qual é necessário supor um sujeito como causa. Tentou-se então, com uma tenacidade e uma astúcia admiráveis, sair desta teia, - ver se o contrário não poderia, talvez, ser verdadeiro: «penso» condição, «eu» condicionado; «eu» seria, portanto, só uma síntese feita pelo próprio pensamento. No fundo, Kant queria demonstrar que o sujeito não podia ser demonstrado a partir do sujeito, - o mesmo em relação ao complemento: a possibilidade de uma existência aparente do sujeito individual, da «alma» portanto, não parece ter-lhe sido sempre estranha, pensamento este que, como filosofia do Vedanta, já existiu e teve enorme poder sobre a terra.»

Nietzsche, Para além de bem e de mal 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Roxy Music - Love Is The Drug

Poeta

«O que é para um poeta ser "representativo" de uma época? Em sentido comum e mais mediano seria aquele que consagrasse os cortes e as medidas segundo a moeda corrente e os valores a ela adaptados. O que parece mais extraordinário é que esse "representativo" de uma época nunca pode aderir completamente a ela, sob perigo de ser engolido pela mesma voragem, pelo mesmo sopro tumular; há um desvio, um silêncio audível, que não foi coberto pelo palavreado dominante na época. Ora, surpreendentemente, os três poetas escolhidos como os maiores representantes poéticos da Europa, Dante, Shakespeare e Giethe, não podiam ter deixado de nascer um no século XIV, outro no século XVII e outro no século XVIII, nem podiam ter deixado de ser um italiano, outro inglês e outro alemão. Mas, mais ainda, continua Eliot, reconhecemos neles as marcas da sua terra natal, as suas particularidades, as suas convicções, partilhadas por contemporâneos e conterrâneos:

Eles [Dante, Shakespeare e Goethe] são locais devido à sua concretude: ser humano é pertencer a uma região particular da terra [...]. O europeu que não pertencesse a nenhum país seria um homem abstracto - um rosto vazio, falando todas as línguas, sem qualquer pronúncia, fosse ela nativa ou estrangeira. E o poeta é o menos abstracto dos homens, porque é o que está mais afeiçoado à sua própria língua,aliás ele não tem meios para conhecer uma outra língua tão bem, porque para o poeta explorar os recursos da sua própria língua é a tarefa a que dedica toda uma vida»

Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado

sábado, 5 de julho de 2014

APPARAT(BAND) Live - Ash Black Veil

Eu

«Contudo abençoada pela imagem e pela imagem amaldiçoada é a vida humana; só em imagens ela consegue captar-se a si própria, impossíveis de desterrar são as imagens, estão em nós desde os primórdios dos rebanhos, são anteriores e mais fortes do que o nosso pensar, estão na intemporalidade, encerram em si passado e presente, são dupla recordação de sonhos e são mais poderosas que nós: ele próprio era imagem, ele que ali jazia, e dirigindo-se para a realidade mais real, levado por invisíveis ondas, mergulhando nelas, era a imagem do navio a sua própria imagem, vinda das trevas, metendo-se nas trevas, mergulhando nas trevas, ele próprio era o barco imenso, que é simultaneamente ele mesmo a imensidade, e ele próprio era a fuga, que se dirige para esta imensidade, ele próprio o barco em fuga, ele próprio a meta, imenso ele próprio, imenso, impossível de abranger, impossível de imaginar, uma infinita paisagem corpórea a paisagem do seu corpo, uma imagem do mundo subterrâneo da noite que poderosamente se estende, de tel modo que ele, despojado da unidade da vida humana, despojado da unidade da saudade humana, já há muito se considerava incapaz de dominar o seu próprio eu, conhecendo todas as separadas regiões e províncias em que o Eu uno, único, estendido por sobre o infinito, tivera de se dividir...»

Herman Broch, A Morte de Virgílio

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fleet Foxes - Montezuma / He Doesn't Know Why (Live)

L'étonnement

«L'étonnement, au début comme
aujourd'hui encore, a poussé l'homme
à philosopher [...] mais qui questionne
et s'étonne a le sentiment
de l'ignorance [...]. Afin donc d'échaper
à l'ignorance, les hommes commencèrent
à philosopher.»

Aristóteles