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sábado, 31 de março de 2012

Querer

«Todo o querer procede duma necessidade, isto é, duma privação, isto é, dum sofrimento. A satisfação põe-lhe um fim; mas, para um desejo que é satisfeito, dez, pelo menos, são contrariados; além disso, o desejo é demorado, e as suas exigências tendem para o infinito; a satisfação é curta, e é parcimoniosamente medida. Mas este contentamento supremo é apenas aparente: o desejo satisfeito dá lugar em breve a um novo desejo; o primeiro é uma decepção reconhecida, o segundo é uma decepção ainda não reconhecida. A satisfação de nenhum desejo pode conseguir contentamento durável e inalterável. É como a esmola que se lança a um mendigo: ela salva-lhe hoje a vida para prolongar a sua miséria até amanhã. - Enquanto a nossa consciência está preenchida pela nossa vontade, enquanto estamos subjugados pelo impulso do desejo, pelas esperanças e pelos temores contínuos que ele faz nascer, enquanto somos súbditos do querer, não existe para nós nem felicidade duradoura, nem repouso. Continuar ou fugir, temer a infelicidade ou procurar o gozo, é na realidade tudo o mesmo: a inquietude duma vontade sempre exigente, sob qualquer forma que se manifeste, enche e perturba sem cessar a consciência; ora, sem repouso a verdadeira felicidade é impossível. Assim o súbdito do querer assemelha-se a I xião amarrado a uma roda que não deixa de rodar, às Danaides que tiram sempre água do poço para encherem o seu tonel, a Tântalo eternamente sequioso.»

Arthur Schopenhauer, O Mundo como vontade e representação 

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