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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Contemplo os meus filhos com o carinho extremado de um pai que simultaneamente se deleita na contemplação de dois seres em crescimento, mas também na imensa maravilha que constitui o futuro que dia a dia eles vão desbravando. Ajudo-os o mais que posso porque sei que as aparentes facilidades com que vão crescendo nada mais são do que o fruto de um esforço em lhes proporcionar os alicerces das suas casas futuras. Frequentemente me confrontam com perguntas que exigem uma resposta directa, objectiva, com perguntas através das quais me exigem as verdades com que pretendem encontrar um enquadramento para os seus mundos. Do mesmo modo, também é frequente deparar-me com a situação de lhes ter de explicar que o mundo não é constituído apenas pelo branco e pelo preto, que a paleta que temos ao nosso dispor contém matizes muito diversificados. Além disso, no tempo em que vivemos, é por vezes muito difícil expor um raciocínio sem que nele tenhamos de abarcar explicações complementares que enquadrem a argumentação apresentada. Acontece, porém, que poucas pessoas estão nos nossos dias dispostas a “perder” tempo com explicações complementares a respeito de um determinado assunto. A falta de paciência é hoje um reflexo e uma consequência de uma incapacidade em se lidar com uma explicação detalhada. O mundo apenas está receptivo aos dados imediatos, ao usufruto instantâneo de um qualquer produto. Tudo o que seja explicativo passa a ser considerado supérfluo e, por esse motivo, causador de aborrecimento.
Ao afirmar que “conhecer é caminhar para trás”, Nietzsche antevia, já no seu tempo, este estado de coisas. Ele sabia bem que no seu tempo, como no nosso (e talvez como em todos os tempos), a natureza dos homens não é capaz de lhes providenciar paciência, dedicação e esforço suficientes para que sejam capazes de se deter nessa infinita investigação à retaguarda a que ele próprio chama conhecimento.
Um dia, um autor italiano resolveu fazer até onde lhe foi possível esse percurso “para trás”. Descobriu, então, que esse seria o primeiro passo para a tarefa maior da sua vida. Nunca mais deixou de conhecer, nunca mais deixou de ser paciente, determinado, teimoso. A sua vontade de conhecer manifestou-se, não apenas em textos da historiografia, de política, de filosofia, mas também na literatura, que julgava apenas conhecer por via da crítica.
A falta de paciência é, portanto, uma das mais graves falhas do nosso tempo, revelando-se em todos os domínios da vida pública, do mesmo modo que em todos os domínios da vida privada.
Embora do ponto de vista histórico o exemplo não seja original, o facto é que a política actual e o modo como ela se desenvolve, apresenta preocupantes indícios de que a falta de paciência, chegada a determinados limites, pode conduzir a um exercício cada vez mais superficial do poder, a uma ausência cada vez maior na resolução dos problemas mais delicados e importantes da coisa pública. O povo, ao exercer democraticamente o seu direito de voto, não se preocupa em pensar nas diferentes propostas que lhe são apresentadas. Com o tempo, as pessoas deixaram de se interessar pela vida pública. Contudo, aparentemente, isto não é assim. Na verdade, qualquer cidadão que assista aos noticiários televisivos, tende a extrair uma opinião que, na maior parte das vezes não é mais do que o ponto de vista que lhe quiseram apresentar.

1 comentário:

Carlos Lopes disse...

Não há outro remédio senão ter paciência...
Um abraço.