Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
quarta-feira, 31 de março de 2021
Pontos fundamentais a sublinhar: a afinidade (aqui sob a forma do parentesco entre obra de arte e problema filosófico) é o conceito-chave da categoria da relação em Benjamin. O problema filosófico surpreende-se como possibilidade de formulação do teor de verdade da obra, que terá de ser desenterrado. Com frequência, a crítica - aqui claramente equiparada à filosofia - é comparada a um acto de desenterrar, de escavar na terra. O crítico é assim como um mineiro ou um descobridor de tesouros. Diante da obra, a pessoa que tem um segredo que não confessará pela violência,, exige-se paciência, perseverança e reverência. Daí a verdade ser reconhecível e não questionável, pois pertence à ordem do mistério. Esta é uma ideia que Benjamin nunca põe de lado: a verdade não é um objecto de questionação, é uma exigência. Guardemos o reenvio do belo ao verdadeiro para mais tarde. Sublinhe-se desde já a confiança de Benjamin em relação à legitimidade de continuar a falar do vínculo entre beleza e verdade, sempre que se trata de pensar o que é a filosofia.
O Químico e o alquimista - Benjamin, Leitor de Baudelaire
O professor, pelo menos desde o Ménon platónico, não é, em primeiro lugar, alguém que sabe ensinar quem não sabe. É antes alguém que tenta recriar o objeto de estudo na mente do estudante, utilizando uma estratégia que permita, antes de qualquer outra coisa, que o estudante reconheça o que potencialmente já sabe, o que implica desmontar as forças que reprimem a sua mente e o impedem de saber aquilo que sabe. É por isso que cabe ao professor, e não ao aluno, fazer a maior parte das perguntas.
O Código dos códigos, Northrop Frye
sábado, 16 de janeiro de 2021
Silêncio
Quando Luísa lhe disse que lhe ligava quando tivesse alguma coisa para lhe dizer, João compreendeu que o mundo tinha mudado, pelo menos o seu mundo. Antes, não era preciso dizer nada, bastava o brilho que em ambos se cruzava proveniente das esperanças que acalentavam e na satisfação que sentiam pelo simples facto que estarem juntos. Isso aconteceu antes, quando ainda não se tinha a noção da dimensão do buraco para onde a pandemia os estava a levar. Desde março que tudo mudou, a princípio ainda havia a expetativa de que a vida voltaria ao normal num horizonte aceitável, se se pode assim dizer. Contudo, o tempo foi passando e, com ele, não foi apenas a manutenção do estado das coisas, mas também a acentuação de um afastamento. Com o tempo, as pessoas passaram a viver para dentro, a fechar-se em casulos repletos de receios, hesitações, medos. O fechamento de cada um para dentro de si próprio, começou por se revelar nas relações com os mais próximos, para, aos poucos, começar a fazer estrada e a conduzir muitas pessoas por caminhos até então desconhecidos. Fechadas nos seus casulos, as pessoas, porque alheias ao mundo exterior, porque o passaram, entretanto, a ver como uma ameaça, adquiriram um espírito de medo em relação ao outro, ao seu semelhante, como se não estivéssemos todos na mesma situação. O outro, aos poucos, passou a ser, ele próprio, a raiz da ameaça e, então, deu-se um fenómeno inquietante. Considerando-se perseguidas por uma ameaça invisível, muitas pessoas começaram a reagir de maneira epidérmica, levadas por uma irritação incontrolável, que procuravam tratar como quem tem uma borbulha e a coça constantemente. O resultado foi o esperado, a borbulha infetou. O pus resultante da infeção, rapidamente começou a alastrar e, gradualmente, contagiadas, as pessoas começaram a reagir como se o mal que sobre todos caiu tivesse sido causado pela primeira pessoa que lhes aparecia à frente. Um mundo com tais contornos é um mundo doente.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Ruído
À superfície existe um ruído, nascido de um murmúrio, insistente. Com a sua continuidade, o murmúrio deu lugar a este ruído bruto, insone. Um ruído provocado pela insatisfação e pelo ressentimento. Durante a minha vida, procurei sempre combater o ressentimento e as suas origens, em virtude de tudo aquilo que por detrás dele se esconde.O ressentimento é a ferramenta de que a frustração se serve para se manifestar. Nem sempre estive desperto para a dimensão da poesia de Ricardo Reis, mas, com o tempo, fui-me apercebendo de que a paz que nele se observa, advinda da sua capacidade para se colocar à margem do ruído desnecessário, bem como da inexistência de expetativas, é um meio para se alcançar uma salvação de características particulares. Com efeito, a ausência de expetativas não é necessariamente a manifestação de um procedimento em perda permanente, mas, em grande medida, o espelho de uma compreensão particular do mundo que remete para a ideia de que a humanidade é o que é e que em relação a ela não devemos criar a ilusão de que se venha a manifestar num modo virtuoso. Eu sou um cristão desnaturado, daqueles que trazem consigo a marca mais elevada da experiência manifestada, através do exemplo de Cristo. O perdão é a chave para uma vida virtuosa, pois é o perdão que é capaz de fazer nascer em cada dia, através de um coração limpo do pó da estrada, a esperança redentora da fraternidade.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Il Padre che manca alla nostra società
L' AFFIEVOLIMENTO e poi la scomparsa della figura paterna hanno molte cause; le più evidenti sono di natura economica ma non sono le sole e neppure le più essenziali. Alla base di questa vera e propria rivoluzione istituzionale c' è da un lato l' emancipazione della donna, dall' altro la perdita della trascendenza, due elementi fondanti della modernità e della laicizzazione. Da questo punto di vista la scomparsa del padre sarebbe un fatto positivo e non reversibile, almeno nelle sue forme arcaiche basate sul comando e sull' autorità esercitata per diritto divino. Eppure una società non può vivere senza modelli che le consentano di rispecchiarsi e di conservare memoria di sé. Il disagio che ha pervaso la società occidentale e in particolare quella della seconda metà di questo nostro secolo deriva appunto dall' assenza di rispecchiamento e di memoria. La stessa decadenza delle classi dirigenti ha la sua causa nel deperimento dei modelli paterni. Non a caso venivano chiamati "padri fondatori" coloro che stabilivano le regole della convivenza sociale e politica. Venuti meno quei modelli, la società ha perso la capacità di darsi regole condivise; si parla di continuo della loro necessità, ma nessuno è più in grado di produrle poiché a nessuno viene riconosciuta un' autorità fondativa che superi gli interessi settoriali e s' imponga in nome dell' interesse generale. Una società senza padri è dunque destinata a una continua e progressiva parcellizzazione che ne paralizza il funzionamento e rende impossibile la produzione di regole democraticamente accettate. Gli individui non sono in grado di uscire da questa disagiata condizione che, esaltando gli interessi settoriali e gli egoismi di gruppo, si allontana sempre di più dalla "auctoritas" produttrice di norme generali; ma il malessere cresce ed è comunemente avvertito. Sicché, proprio nella fase in cui la figura paterna ha ceduto il campo, risorge il bisogno di recuperare almeno alcune delle funzioni a essa affidate; anzitutto quella di indicare le regole basilari del comportamento, di amministrare la giustizia sulla base di quelle regole, di praticare la "caritas" e la "pietas", due attributi tipici della figura paterna e dell' autorità fondativa. Ma soprattutto la nostalgia del padre è motivata dal bisogno di sicurezza psicologica che egli diffonde. Senza di lui il mondo diventa insicuro per i figli orfani e non preparati a surrogarlo. E questa è diventata infatti la società di fine millennio malgrado le sue mirabili acquisizioni tecnologiche: un luogo insicuro, labile, inutilmente motorio, privo di credenze ma ingombro di superstizioni. * * * Ovviamente non si nasce padri; lo si diventa col vivere e attraverso il vivere. Lo si diventa quando si riesce a comprendere l' Altro superando le ristrettezze nelle quali l' Io inevitabilmente ci racchiude. I figli sono fisiologicamente i portatori dell' Io; i padri, quelli veri, superano quella costruzione difensiva e vivono per i figli, costruendo le condizioni del loro futuro. è superfluo avvertire che, in un tempo come il nostro che ha vissuto nell' emancipazione della donna la sua più grande rivoluzione, la funzione paternale non è legata al sesso. Ci sono state e sempre più ci saranno donne in grado come e più degli uomini di darsi carico dell' altrui. In realtà la donna si è sempre data carico dell' altrui molto più dell' uomo, ma questo avveniva nella sfera del privato. Proprio per il fatto di esser stata confinata in quella sfera da una società governata dagli uomini, il darsi carico da parte della donna difficilmente poteva uscire dall' ambito familiare con la conseguenza di una ipertrofia dei figli che canalizzava quasi interamente le risorse affettive delle madri. Questo limite tende ora non già a scomparire ma ad allargarsi. Le capacità affettive della donna costituiscono non a caso una delle risorse essenziali della carità volontaria che sta diventando uno dei fenomeni più rilevanti e più positivi della società moderna e del moderno umanesimo. Ecco perché la "auctoritas" paterna, con il suo corredo di giustizia, comprensione, regole condivise, carità e "pietas" non sarà appannaggio soltanto maschile in un mondo dove i limiti del sesso sono stati infine dissolti in una più ampia concezione della "humanitas". * * * Il nostro Parlamento dovrà eleggere tra sei mesi un nuovo presidente della Repubblica, la persona cioè che ha il compito di rappresentare la nazione. Nessuno ignora quanto questa carica sia ambita per i poteri che contiene e per l' immagine che conferisce. E nessuno ignora che attorno a essa si accenderanno contrasti e vivaci ambizioni. Il Parlamento tuttavia tenga presente che il presidente d' una repubblica dev' essere soprattutto e preliminarmente un "pater patriae". Si può discutere se debba provenire dalla sinistra o dalla destra, dalla cultura cattolica o da quella laica e se debba essere uomo o donna. Ma su un punto non si deve - non si dovrebbe - discutere: il Presidente deve incarnare quella figura paterna che rassicuri la comunità e la indirizzi a superare gli egoismi del presente in nome dell' altruismo del futuro. Il laico Benedetto Croce invocò, all' inizio dei lavori della Costituente, il "Veni Creator Spiritus". Quella stessa invocazione sia tenuta a mente dai nostri parlamentari quando sceglieranno la persona che dovrà rappresentare e traghettare il paese nel suo ingresso nel nuovo secolo.
di EUGENIO SCALFARI (La Repubblica, 28/12/1998)
segunda-feira, 30 de julho de 2018
1
se ele não cai
humilde acaso
no seu lugar.
Não há melhor
nem som mais puro
que o natural
dos nossos olhos.
Não vale a pena
fazer brinquedos
se as nossas mãos
são de criança.
segunda-feira, 28 de março de 2016
20
há em carnide um sítio de verona;
é belo o lixo, à noite, junto ao tejo.
Abrimos as janelas e a cidade
avança pelo quarto, senta-se na cama,
oferece-nos pó, anjo ou demónio.
Serei eu, fantasia, outro pessoa, novo
amável montale desmontável? e tu
existirás de facto, na manhã mais fria?
Assim nos enganamos, nos engana
a verdade que em lume nos desata.»
segunda-feira, 14 de março de 2016
O Actor (em memória de um Actor: Nicolau Breyner - 1940-2016)
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
é o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobre entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Descarga
quinta-feira, 10 de março de 2016
59
Rapidamente para o telhado e para os sons
Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.
Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,
Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,
Não para mim, para ela, com o som cadenciado
Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.
Moderno é um termo que me intriga, que briga
Comigo, que não se torna compreensível,
Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma
Abstracção indecisa, um prazo que trai um
Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,
Pouco se distingue das extremidades da rua
Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,
Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.
E, quando assim concluo, Melissa é moderna,
Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir
De visu o que, desde então, se alterou.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Tragédia
terça-feira, 8 de março de 2016
I, 31
foi dedicado? Que suplica, derramando da pátera
um líquido novo? Nem as férteis colheitas
da fértil Sardenha,
nem o amável gado da ardente Calábria,
nem o ouro e o marfim da Índia, nem as terras
que o silente curso do Líris remordeja
com sua tranquila água.
Que a vinha seja com calena foice podada
pelos contemplados da fortuna, que em copos de ouro
o opulento mercador de um trago beba
os vinhos trocados por sírias mercadorias,
homem grato aos próprios deuses, pois todos os anos revê
impune três ou quatro vezes o mar atlântico;
quanto a mim, alimentam-me as azeitonas,
a chicória e as leves malvas.
Filho de Latona, faz com que saudável desfrute
daquilo que tenho, e que, rogo-te, de mente sã
leve uma velhice nem desagradável,
nem privada da cítara.