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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Não criamos as palavras

Não criamos as palavras.
O Verbo é que, em nós,
Se fez palavra.

A palavra humana
deriva do Verbo divino
e toca o silêncio das coisas,
mudas porque disseram tudo.

E, porque disseram tudo,
são perfeitas
no seu recorte definido.

A voz
só existe nos seres indefinidos
ou que têm ainda que dizer.

Mas a palavra
entoa no silêncio das coisas
e torna-se mais profunda.

Teixeira de Pascoaes

sábado, 13 de junho de 2015

Best Coast - "California Nights" (Live from Public Radio Rocks at SXSW 2...

O Remorso

«O Remorso não é igual ao que era, quando a Crença era forte e a Religião viva e austera. No findar deste século passam-se dramas pavorosos, que em vão a Humanidade procura explicar - e que atiram para a loucura os desequilibrados...
Aí tem Marcas, o violento aquafortista, cuja obra, de uma originalidade quase feroz, arrepia. Vivia à parte e a Arte era tudo para ele, sem se sacrificar ao público, arredado e intratável.
Músico de génio também, as suas águas-fortes, que o eminente crítico Ch. Maurice cita quase como um prodígio, ressentem-se da sua paixão pelas músicas desordenadas e evocadoras de coisas sinistras em decoros simples e trágicos. Um dia deste mês passado chega à polícia, perdido, o olhar fixo, e diz:
- Ela quer que diga que fui eu que a assassinei. Podem-me prender...
Estava doido? Não: a sua confissão era verdadeira. A traços rápidos eis aqui a parte importante da sua história:
Nervoso, e de uma sensibilidade de doente, intratável, como disse, a Vida, que para ele era dura, afligia-o. Desconhecido o seu génio, insultado muitas vezes; quando recolhia, fazia sofrer a mulher, uma pobre alma tímida, que só a ele via na terra. Muitas vezes compreendo esta necessidade de torturar alguém quando sofro... Um dia de perversidade, talvez desesperado, por ver que ela o sofria sempre resignada, matou-a. O crime foi atirado para as costas de um assassino vulgar. A concierge disse ter visto uma cara suspeita subir as escadas do prédio, e ninguém pensou que Marcas fosse capaz de matar.
Mas a sua vida, então, passou a ser estranha. Cavado pelo remorso, alucinado, não podia estar só, viver só: morria de pavor. A música, que ele tocava no violino, enlouquecia, como feita de gemidos de assassinados, ora rouca, com estertores de epilepsia, já triste e simples como fora talvez o último olhar da sua mulher. Perdia-se nos becos, andava sempre, para se cansar, para dormir; mas chegado a casa, impossível!... Ei-la que lhe aparecia, não em atitude de se vir vingar, mas pior, bem pior, resignada e triste!... A princípio vomitava-lhe infâmias, numa fúria. Lembrou-se do álcool, para se esquecer, e nunca conseguiu que ela o deixasse: até que um dia - conta ele -, com um olhar de piedade, a alma de sua mulher materializada pegou-lhe na mão e levou-o à polícia...»

Raúl Brandão, in A Pedra ainda espera dar flor» 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Mogwai - Take me somewhere nice

Democracia

A democracia deixou de existir. De tal modo se vulgarizou a ideia igualitária, de acordo com a qual todos são iguais e todos sabem tudo, que agora se generalizou uma outra ideia, a de que qualquer pessoa pode emitir uma opinião sobre tudo, mesmo com um elevado grau de certeza. Até porque o eleitor deixou de ser um cidadão, mas sobretudo um consumidor. Nomeadamente eleitoral. O voto passou a ter um preço.
Uma coisa são os direitos consagrados por lei, os direitos constitucionais, por exemplo, outra coisa, bem diferente, é pensar-se que se pode dizer tudo o que apetece, com toda a certeza do mundo e do modo mais assertivo possível.
A este propósito apetece convocar a ideia de morte e a simbologia particular do Panteão Nacional. Nos últimos tempos a última morada dos homens e das mulheres ilustres do meu país estava consagrada apenas aos poucos que, de facto, se tinham entregado a uma missão superior ao serviço dos outros, nos domínios cultural e político. Com a entrada de um jogador de futebol nesse panteão, tudo se altera.
Com efeito, de um momento para o outro, e apenas movidos por um interesse imediato e eleitoralista, todos os partidos representados na Assembleia da República decidiram que o Panteão Nacional se deveria democratizar. Eu direi, vulgarizar.
Noutros países existem lugares específicos onde se imortalizam aqueles a quem o povo dedica afeição, mesmo depois de falecidos. Em Portugal isso não chega.
De certo modo, ao ver entrar algumas figuras públicas no Panteão Nacional, o povo sente que também ele ali está representado, e sente-se aconchegado...
O problema diz respeito aos patamares de exigência que colocamos em nós próprios e, por conseguinte, na vida e no mundo que nos rodeia.
O patamar de exigência português é muito raso.

Lisa Gerrard & Denez Prigent - Gortoz A Ran

Crepúsculo

«Crepúsculo é a palavra mais rica de sentido: o verbo das fontes e a Bíblia, a revelação das trevas e da luz, a do primeiro vagido e a do último suspiro. É a passagem do aquém para o além, do nada para o tudo; e é esse indefinido misterioso em que aparece e desaparece a Criação. Não é o homem o crepúsculo vespertino do Orango e o matinal de Adão? Assim seja...»

Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Le Donne lo Sanno - Ligabue(Live San Siro 2006)

54.

«O que faz, afinal, toda a filosofia moderna? Desde Descartes - e isso mais a despeito dele do que baseado nele - todos os filósofos cometem um atentado contra o velho conceito de alma, sob a aparência de uma crítica do conceito de sujeito e de predicado - isto é: um atentado contra o postulado fundamental da doutrina cristã. A filosofia moderna, como cepticismo teórico do conhecimento, é, abertamente ou às ocultas, anticristã: ainda que, diga-se para os ouvidos mais subtis, de modo nenhum seja anti-religiosa. Outrora acreditava-se «na alma» como se acreditava na gramática e no sujeito gramatical: dizia-se «eu» é condição, «penso» é predicado e condicionado - pensar é uma actividade para a qual é necessário supor um sujeito como causa. Tentou-se então, com uma tenacidade e uma astúcia admiráveis, sair desta teia, - ver se o contrário não poderia, talvez, ser verdadeiro: «penso» condição, «eu» condicionado; «eu» seria, portanto, só uma síntese feita pelo próprio pensamento. No fundo, Kant queria demonstrar que o sujeito não podia ser demonstrado a partir do sujeito, - o mesmo em relação ao complemento: a possibilidade de uma existência aparente do sujeito individual, da «alma» portanto, não parece ter-lhe sido sempre estranha, pensamento este que, como filosofia do Vedanta, já existiu e teve enorme poder sobre a terra.»

Nietzsche, Para além de bem e de mal 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Roxy Music - Love Is The Drug

Poeta

«O que é para um poeta ser "representativo" de uma época? Em sentido comum e mais mediano seria aquele que consagrasse os cortes e as medidas segundo a moeda corrente e os valores a ela adaptados. O que parece mais extraordinário é que esse "representativo" de uma época nunca pode aderir completamente a ela, sob perigo de ser engolido pela mesma voragem, pelo mesmo sopro tumular; há um desvio, um silêncio audível, que não foi coberto pelo palavreado dominante na época. Ora, surpreendentemente, os três poetas escolhidos como os maiores representantes poéticos da Europa, Dante, Shakespeare e Giethe, não podiam ter deixado de nascer um no século XIV, outro no século XVII e outro no século XVIII, nem podiam ter deixado de ser um italiano, outro inglês e outro alemão. Mas, mais ainda, continua Eliot, reconhecemos neles as marcas da sua terra natal, as suas particularidades, as suas convicções, partilhadas por contemporâneos e conterrâneos:

Eles [Dante, Shakespeare e Goethe] são locais devido à sua concretude: ser humano é pertencer a uma região particular da terra [...]. O europeu que não pertencesse a nenhum país seria um homem abstracto - um rosto vazio, falando todas as línguas, sem qualquer pronúncia, fosse ela nativa ou estrangeira. E o poeta é o menos abstracto dos homens, porque é o que está mais afeiçoado à sua própria língua,aliás ele não tem meios para conhecer uma outra língua tão bem, porque para o poeta explorar os recursos da sua própria língua é a tarefa a que dedica toda uma vida»

Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado

sábado, 5 de julho de 2014

APPARAT(BAND) Live - Ash Black Veil

Eu

«Contudo abençoada pela imagem e pela imagem amaldiçoada é a vida humana; só em imagens ela consegue captar-se a si própria, impossíveis de desterrar são as imagens, estão em nós desde os primórdios dos rebanhos, são anteriores e mais fortes do que o nosso pensar, estão na intemporalidade, encerram em si passado e presente, são dupla recordação de sonhos e são mais poderosas que nós: ele próprio era imagem, ele que ali jazia, e dirigindo-se para a realidade mais real, levado por invisíveis ondas, mergulhando nelas, era a imagem do navio a sua própria imagem, vinda das trevas, metendo-se nas trevas, mergulhando nas trevas, ele próprio era o barco imenso, que é simultaneamente ele mesmo a imensidade, e ele próprio era a fuga, que se dirige para esta imensidade, ele próprio o barco em fuga, ele próprio a meta, imenso ele próprio, imenso, impossível de abranger, impossível de imaginar, uma infinita paisagem corpórea a paisagem do seu corpo, uma imagem do mundo subterrâneo da noite que poderosamente se estende, de tel modo que ele, despojado da unidade da vida humana, despojado da unidade da saudade humana, já há muito se considerava incapaz de dominar o seu próprio eu, conhecendo todas as separadas regiões e províncias em que o Eu uno, único, estendido por sobre o infinito, tivera de se dividir...»

Herman Broch, A Morte de Virgílio

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fleet Foxes - Montezuma / He Doesn't Know Why (Live)

L'étonnement

«L'étonnement, au début comme
aujourd'hui encore, a poussé l'homme
à philosopher [...] mais qui questionne
et s'étonne a le sentiment
de l'ignorance [...]. Afin donc d'échaper
à l'ignorance, les hommes commencèrent
à philosopher.»

Aristóteles 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Killing Joke - Love Like Blood

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

17.

Referes-te à humildade. Rostos apaziguados
em silencioso teu entendimento inclinados.
Assim andam jovens poetas ao entardecer
nas áleas dos jardins mais afastados.
Assim ficam os camponeses à volta do corpo em prece
quando na morte uma criança se perdeu,
e é ainda a mesma realidade que acontece:
algo desmedido sucedeu.

Quem de ti pela primeira vez se apercebe
pelo vizinho e pela hora é incomodado,
anda sobre o teu rasto inclinado
e como carregado dos anos que recebe.
Só mais tarde se aproxima da natureza
e pelos ventos e as distâncias é tocado
ouve-te, sussurrado pelo campo com beleza,
vê-te, pelas estradas cantado,
e não mais te pode esquecer,
e tudo é apenas o teu manto a se estender.

Para ele és novo e próximo e bom rapaz
e como uma viagem maravilhoso,
que ele em silenciosos barcos ditoso
num grande rio faz.
O país é amplo, envolto em ventos, aplanado,
a grandes céus abandonado
e a antigas florestas submetido.
As pequenas aldeias que se vão aproximando,
de novo como repicar de sinos desaparecendo
e como um ontem e um hoje vivido
e como tudo o que fomos vendo.
Mas junto ao curso deste rio enorme
sempre cidades es estão a levantar
e vêm como em bater de asas conforme
à viagem festiva se juntar.

E por vezes o barco a sítios vem,
que solitariamente, sem aldeia nem cidade,
algo esperam junto às ondas, com serenidade,
aquele que pátria não tem...
Para esses aí pequenos carros há
(cada um com três cavalos à frente já),
que sem fôlego correm para o entardecer
num caminho que acabou por se perder.

Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas

sábado, 26 de outubro de 2013

REMEMBERING JULIA - Ingrid Chavez & David Sylvian

Amor e 'l cor gentil sono una cosa,

Amor e 'l cor gentil sono una cosa,
sì come il saggio in suo dittare pone,
e così esser l'un sanza l'altro osa
com'alma razional sanza ragione.

Falli natura quand'è amorosa,
Amor per sire e 'l cor per sua magione,
dentro la qual dormendo si riposa
tal volta poca e tel lunga stagione.

Bieltate appare in saggia donna pui,
che piace a gli occhi sì, che dentro al core
nasce un disio de la cosa piacente;

e tanto dura talora in costui,
che fa svegliar lo spirito d'Amore.
E simil face in donna omo valente.

Dante Alighieri, Vita Nuova

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Diana Ross & the Supremes - TCB - STOP! in the name of love-Kee

É por Ti que Escrevo

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teus sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meus sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in O Teu Rosto

sábado, 19 de outubro de 2013

Cecilia Bartoli ~ "Lascia ch'io pianga"

Morrer

Quando morrer, quero que seja de repente, sem ninguém a assistir. Quero que o meu corpo se deixe levar pela terra húmida e que rapidamente se dê em alimento aos bichos de terra. Não quero que o meu corpo apodreça em vida nem que o meu cérebro me traia. Chegado o momento, quererei morrer, porque não sou bíblico nem o quero ser. Por isso terei uma duração normal.

BEACH HOUSE - "MYTH" (OFFICIAL TRACK)