Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
sábado, 26 de outubro de 2013
Amor e 'l cor gentil sono una cosa,
Amor e 'l cor gentil sono una cosa,
sì come il saggio in suo dittare pone,
e così esser l'un sanza l'altro osa
com'alma razional sanza ragione.
Falli natura quand'è amorosa,
Amor per sire e 'l cor per sua magione,
dentro la qual dormendo si riposa
tal volta poca e tel lunga stagione.
Bieltate appare in saggia donna pui,
che piace a gli occhi sì, che dentro al core
nasce un disio de la cosa piacente;
e tanto dura talora in costui,
che fa svegliar lo spirito d'Amore.
E simil face in donna omo valente.
sì come il saggio in suo dittare pone,
e così esser l'un sanza l'altro osa
com'alma razional sanza ragione.
Falli natura quand'è amorosa,
Amor per sire e 'l cor per sua magione,
dentro la qual dormendo si riposa
tal volta poca e tel lunga stagione.
Bieltate appare in saggia donna pui,
che piace a gli occhi sì, che dentro al core
nasce un disio de la cosa piacente;
e tanto dura talora in costui,
che fa svegliar lo spirito d'Amore.
E simil face in donna omo valente.
Dante Alighieri, Vita Nuova
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
É por Ti que Escrevo
É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teus sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meus sangue inquieto
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teus sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meus sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso
António Ramos Rosa, in O Teu Rosto
sábado, 19 de outubro de 2013
Morrer
Quando
morrer, quero que seja de repente, sem ninguém a assistir. Quero que o meu
corpo se deixe levar pela terra húmida e que rapidamente se dê em alimento aos
bichos de terra. Não quero que o meu corpo apodreça em vida nem que o meu
cérebro me traia. Chegado o momento, quererei morrer, porque não sou bíblico
nem o quero ser. Por isso terei uma duração normal.
Distância
«Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo quotidiano, de tudo quanto costuma considerar os seus interesses, cuidados e projectos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava no fiacre que o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se punha de permeio entre ele e a estação de origem, desenrolou forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; de hora em hora o espaço determina transformações íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas que, de certo modo, as ultrapassam.
Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; fá-lo porém, desligando a pessoa humana das suas contingências e pondo-a num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, posto que menos radical, não deixa de ser mais rápido.»
Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; fá-lo porém, desligando a pessoa humana das suas contingências e pondo-a num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e o seu efeito, posto que menos radical, não deixa de ser mais rápido.»
Thomas Mann, A Montanha Mágica
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Ver
«E ver é ter a sensação dum objecto, pois, entre ele e a nossa sensibilidade, estabeleceu-se um determinado parentesco. O vibrar dos nossos nervos corresponde à causa que os põe em vibração. O peso de uma pedra e o nosso esforço para a mover fundem-se, por assim dizer, num só fenómeno. Se a sensação luminosa é a própria luz, a imagem de uam rosa que se nos pinta, na memória, é como se fosse ela mesma, desabrochada, na haste, à luz do sol. E se, porventura, dofre qualquer mudança, é para, mostrando-nos a rosa que é, nos mostrar ainda a Flor, a Deusa escondida neste nome: Primavera. E entre a imagem da rosa e a sua ideia, há intimidade que existe entre a rosa carnal e o seu retrato na memória. A ideia duma cousa é uma espécie de fotografia da mesma, desmaterializada ou reduzida à sua última abstracção. Pensar é ver em abstracto; mas esta visão nunca se liberta duma certa substância plástica. No conceito de grandeza, por exemplo, avulta o Himalaia; no de pequenez, gravita um átomo de pó; e no de distância brilham as últimas estrelas.»
Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Este foi o nosso último abraço. E quando,
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu corpo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E entã, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu corpo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E entã, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira
Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo
Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa, in Poemas Inéditos
My Erotic Double
He says he doesn't feel like working today.
It's just as well. Here in the shade
Behind the house, protected froma street noises,
One can go over all kinds of the old feeling,
Throw some away, keep others.
The wordplay
Between us gets very intense when there are
Fewer feelings around to confuse things.
Another go-round? No, but the last things
You always find to say are charming, and rescue me
Before the night does. We are afloat
On our dreams as on a barge made of ice,
Shot through with questions and fissures of starlight
That keep us awake, thinking about the dreams
As they are happening, Some occurrence, You said it.
I said it but I can hide it. But I choose not to.
Thank you. You are a very pleasant person.
Thank you. You are too.
It's just as well. Here in the shade
Behind the house, protected froma street noises,
One can go over all kinds of the old feeling,
Throw some away, keep others.
The wordplay
Between us gets very intense when there are
Fewer feelings around to confuse things.
Another go-round? No, but the last things
You always find to say are charming, and rescue me
Before the night does. We are afloat
On our dreams as on a barge made of ice,
Shot through with questions and fissures of starlight
That keep us awake, thinking about the dreams
As they are happening, Some occurrence, You said it.
I said it but I can hide it. But I choose not to.
Thank you. You are a very pleasant person.
Thank you. You are too.
John Ashbery
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Renascimento
O bárbaro pintor borrou,
Com seu pincel sonolento,
A tela dum génio, sua marca
Gravou nela torpemente.
Mas a tinta intrusa, cos anos,
Em escamas velhas se esboroa;
E surge a obra à nossa vista
Na sua beleza de outrora.
Assim se apagam as ilusões
Da minh'alma martirizada,
E nela surgem as visões
Da manhã primeva e clara.
Com seu pincel sonolento,
A tela dum génio, sua marca
Gravou nela torpemente.
Mas a tinta intrusa, cos anos,
Em escamas velhas se esboroa;
E surge a obra à nossa vista
Na sua beleza de outrora.
Assim se apagam as ilusões
Da minh'alma martirizada,
E nela surgem as visões
Da manhã primeva e clara.
Aleksandr Púchkin
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Salmo
Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiado pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiado pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
Jorge Sousa Braga, O Novíssimo Testamento e outros poemas
terça-feira, 30 de julho de 2013
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Fim
«Bato à porta de um homem que sabe que vai morrer. Espero que o homem me diga como se sente um homem que sabe que vai morrer. Preparou a família para que o luto deles resultasse menos difícil. Despediu-se de quem queria despedir-se.
O enfermeiro faz-lhe a barba para que se mantenha digno apesar do pijama, das fraldas, da barba. O homem olha-me, a estranha, com os olhos esbugalhados durante uns segundos, e a seguir revira-os. Não cheguei a tempo. O homem já não pode falar. Está apenas concentrado em morrer, e parece ser uma tarefa que exige um tremendo esforço.
Manual de sobrevivência:
2 - Pensar na morte com detalhe. Não pensar no todo.»
O enfermeiro faz-lhe a barba para que se mantenha digno apesar do pijama, das fraldas, da barba. O homem olha-me, a estranha, com os olhos esbugalhados durante uns segundos, e a seguir revira-os. Não cheguei a tempo. O homem já não pode falar. Está apenas concentrado em morrer, e parece ser uma tarefa que exige um tremendo esforço.
Manual de sobrevivência:
2 - Pensar na morte com detalhe. Não pensar no todo.»
Susana Moreira Marques, Agora e na hora da nossa morte
quarta-feira, 17 de julho de 2013
La voce
Ogni giorno il silenzio della camera sola
si richiude sul lieve sciacquío d'ogni gesto
come l'aria. Ogni giorno la breve finestra
s'apre immobile all'aria che tace. La voce
rauca e dolce non torna nel fresco silenzio.
S'apre come il respiro di chi sia per parlare
l'aria immobile, e tace. Ogni giorno è la stessa.
E la voce è la stessa, che non rompe il silenzio,
rauca e uguale per sempre nell'immobilità
del ricordo. La chiara finestra accompagna
col suo palpito breve la calma d'allora.
Ogni gesto percuote la calma d'allora.
Se suonasse la voce, tornerebbe il dolore.
Tornerebbero i gesti nell'aria stupita
e parole parole alla voce sommessa.
Se suonasse la voce anche il palpito breve
del silenzio che dura, si farebbe dolore.
Tornerebbero i gesti del vano dolore,
percuotendo le cose nel rombo del tempo.
Ma la voce non torna, e il susurro remoto
non increspa il ricordo. L'immobile luce
dà il suo palpito fresco. Per sempre il silenzio
tace rauco e sommesso nel ricordo d'allora.
si richiude sul lieve sciacquío d'ogni gesto
come l'aria. Ogni giorno la breve finestra
s'apre immobile all'aria che tace. La voce
rauca e dolce non torna nel fresco silenzio.
S'apre come il respiro di chi sia per parlare
l'aria immobile, e tace. Ogni giorno è la stessa.
E la voce è la stessa, che non rompe il silenzio,
rauca e uguale per sempre nell'immobilità
del ricordo. La chiara finestra accompagna
col suo palpito breve la calma d'allora.
Ogni gesto percuote la calma d'allora.
Se suonasse la voce, tornerebbe il dolore.
Tornerebbero i gesti nell'aria stupita
e parole parole alla voce sommessa.
Se suonasse la voce anche il palpito breve
del silenzio che dura, si farebbe dolore.
Tornerebbero i gesti del vano dolore,
percuotendo le cose nel rombo del tempo.
Ma la voce non torna, e il susurro remoto
non increspa il ricordo. L'immobile luce
dà il suo palpito fresco. Per sempre il silenzio
tace rauco e sommesso nel ricordo d'allora.
Cesare Pavese, Lavorare stanca
domingo, 14 de julho de 2013
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