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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Paolo Conte - Reveries

Primeiro Andamento da Saga

Onde uma profecia de arminho
desabou da estrela polar
empinou-se o cavalo de vinho
do hiperbóreo rei Harald

Apostou o rei com o mar
qual deles teria mais furor
e porque tinha um barrete
de pele da ursa maior

ganhou o rei que na alta crista
de uma onda fundou um país de tule
e num vasto sorriso marinho
mostrou um dente triunfal azul

Apostou o rei com o sol qual deles
era um disco mais luminoso
perdeu o rei e para uma noite eterna
 o rebocou um animal fabuloso

Sem leme voga louca a lenda
e um fantasma ma serve de ponto
para que uma amarra de versos a prenda

Andersen não contou este conto

Natália Correia, O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fiona Apple - The First Taste

Anjos

«Quando os anjos são gente são crianças.
Crianças pequeninas que não crescem
Porque, como aqui são
Visitas, só, das nossas esperanças,
Sorriem para o nosso coração
Só um ano ou dois; depois desaparecem.»

Fernando Pessoa

sábado, 16 de junho de 2012

Bruce Springsteen - The River Live @ Glastonbury

Consciência

«O homem só pela inconsciência e pela ignorância pode ser feliz. O tipo da felicidade é a criança. Uma criança só não é feliz quando é doente; e a essa doença anda ligada uma anormal consciência de si.
O homem principia por não ter consciência da sua pequenez perante o espaço, nem de nunca nitidamente compreender a sua insignificância perante o tempo.
A nossa força é a inconsciência da nossa fraqueza. A nossa valentia é a inconsciência do perigo. A nossa coragem ante a morte é a inconsciência do que de mistério e horror a morte representa.
O que é que nos pode dar prazer ou grandeza? Alguma coisa do sentir? Nenhuma; porque []
O saber? A única felicidade do saber é o ignorar, é a inconsciência do quanto se não sabe, nem nunca se saberá. O nosso prazer na acção vem apenas de não medirmos quão limitado e inútil todo o acto humano radicalmente é.
Somos animais essencialmente lógicos, na superfície da nossa consciência de nós mesmos. Mas a lógica é a grande suicida; todo o argumento, bem prolongado e encaminhado, morre, e mata a lógica em si, como os crentes dizem que quem quer crucificar Cristo em sua alma pode ser pecador. Bem [] todo o sistema metafísico leva ao cepticismo, mas a razão é incompetente para se provar incompetente, por isso necessita de provar a sua competência. O círculo vicioso é a única realidade lógica. O sofisma mesmo é que é real; a certeza é que não existe.
Se nos entregamos ao sentimento, a nossa natureza de lógicos pede-nos que nos expliquemos porquê: Se a um sentimento considerado geral e universal, a lógica da metafísica pede contas com razão; se a um sentimento individual, a lógica pergunta porque há-de o individual ser escolhido. E, persistindo, pergunta se o individual, sendo [] por individual, não será um erro, visto toda a individualidade ser realmente conjunta, mesmo psiquicamente.»

Fernando Pessoa, «O Eremita da Serra Negra»

terça-feira, 12 de junho de 2012

Marisa Monte e Paulinho da Viola - Dança da solidão

Civiltà antica

Certo il giorno non trema, a guardarlo. E le case
sono ferme, piantate ai selciati. Il martello
di quell'uomo seduto scalpiccia su un ciottolo
dentro il molle terriccio. Il ragazzo che scappa
al mattino, non sa che quell'uomo lavora,
e si ferma a guardarlo. Nessuno lavora per strada.

L'uomo siede nell'ombra, che cade dall'alto
di una casa, più fresca che un'ombra di nube,
e non guarda ma tocca i suoi ciottoli assorto.
Il rumore dei ciottoli echeggia lontano
sul selciato velato dal sole. Ragazzi
non ce n'è per le strade. Il ragazzo è ben solo
e s'accorge che tutti sono uomini o donne
che non vedono quel che lui vede e trascorrono svelti.

Ma quell'uomo lavora. Il ragazzo lo guarda,
esitando al pensiero che un uomo lavori
sulla strada, seduto come fanno i pezzenti.
E anche gli altri che passano, paiono assorti
e finire qualcosa e nessuno si guarda
alle spalle o dinanzi, lungo tutta la strada.
Se la strada è di tutti, bisogna goderla
senza fare nient'altro, guardandosi intorno,
ora all'ombra ora al sole, nel fresco leggero.

Ogni via si spalanca che pare una porta,
ma nessuno l'infila. Quell'uomo seduto
non s'accorge nemmeno, come fosse un pezzente,
della gente che viene e che va, nel mattino.

Cesare Pavese, Lavorare stanca

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Miles Davis and Friends in Paris 1991, Title: Jean-Pierre

Carvalho

«Conhece agora a sabedoria de Édipo: - Se alguém extirpar com um machado afiado um carvalho, desfigurar-lhe-á o aspecto admirável, mas este ainda que tenha perdido a capacidade de frutificar, deporá testemunho em sua defesa, caso acabe por dar fogo no Inverno, ou permaneça apoiado às colunas direitas de uma casa senhorial. Suportará um sofrimento atroz nos muros de uma cidade estrangeira, depois de ter deixado deserta a sua própria terra.»

Píndaro, Odes Píticas

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cocteau Twins - Lorelei

Ajudantes

«Talvez porque a criança é um ser incompleto, a literatura para a infância está cheia de ajudantes, seres paralelos e aproximativos, demasiado pequenos ou demasiado grandes, gnomos, larvas, gigantes bons, génios e fadazinhas caprichosas, grilos e pirilampos falantes, burrinhos caga-dinheiro e outras criaturinhas encantadas que, no momento do perigo, surgem miraculosamente para salvar do impasse a princezinha boa ou os jovens destemidos. São os personagens que o narrador esquece no fim da história, quando os protagonistas vivem felizes e contentes até ao fim dos seus dias; mas destes, desta "gentinha" inclassificável, a quem, no fundo, tudo devem, não se sabe mais nada. Contudo tentem perguntar a Próspero, quando este se despe de todas as magias e regressa ao seu ducado, para junto dos outros humanos, que coisa é a vida sem Ariel.»

Giorgio Agamben, Profanações

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Arvo Pärt- Spiegel im Spiegel

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto   tão perto   tão real
que o meu corpo me transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny de Vasconcelos

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sigur Rós - Rembihnútur (Valtari, 2012)

The Hand That Signed The Paper

The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor stroke the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

Dylan Thomas

domingo, 27 de maio de 2012

Cat Power - Lived In Bars

Herzog

Sofrer é outro mau hábito.
(palavras de Ramona em Herzog, de Saul Bellow)

A minha desforra são palavras.
Levanto-me de manhã amarrotado
pelo peso inclemente das mentiras
e vazo no real outro real
das letras que ninguém vislumbrará.
O pássaro que canta é uma palavra,
é uma carta escrita a este, àquele,
que me saiu do lápis da amargura;
tudo se refaria se jamais feita fosse
alguma coisa que a minha mão não desse.
Desforro-me sem gosto. Desforro-me sem gasto,
acorrentado ao que me vem de trás
e ao que virá e que não sei se quero.

Pedro Tamen, Analogia e Dedos

Kingdom of Naples street music Ensemble Accordone

sábado, 26 de maio de 2012

«À primeira vista, a Consciência-de-si é Ser-para-si-simples-ou-indiviso; ela é idêntica-a-si-própria pelo acto-de-excluir de si tudo o que é diferente [dela]. A sua realidade-essencial e o seu objecto-coisista são para ela: Eu [Eu isolado de tudo e oposto a tudo o que não é Eu]. E, nesta imediatidade, isto é, neste ser-dado [isto é, não produzido por um processo activo criador] do seu Ser-para-si, a Consciência-de-si é uma entidade-particular-e-isolada. Aquilo que, para ela, é diferente dela existe para ela como um objecto-coisista privado-de-realidade-essencial, marcado pelo carácter da entidade-negativa.»

Alexandre Kojève, Breve Introdução à Leitura de Hegel, Dialéctica do Senhor e do Escravo

quinta-feira, 24 de maio de 2012

BOB DYLAN - Simple twist of fate / Oh sister.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A história e o bem

«A questão do bem depara-se-nos já sempre numa situação irreversível: vivemos.Significa isto, de qualquer modo, que já não podemos levantar a questão do bem e responder a ela como se fôssemos nós a ter ainda de criar a vida nova e boa. Interrogamo-nos  sobre o bem como criaturas, não como criadores. O que nos interessa não é saber o que seria o bem se não vivêssemos, isto é, numa qualquer condição imaginária - mas, como seres vivos, não podemos sequer levantar seriamente uma questão assim, precisamente porque podemos conceber uma vida abstracta só como seres vivos a ela ligados e não, portanto, de modo inteiramente livre. A nossa questão não é o que é bom em si, mas o que é bom nas condições da vida presente e para nós como seres vivos. Portanto, não abstraindo da vida, antes mergulhando na vida, interrogamo-nos sobre o que é o bem. A questão do bem faz parte da nossa vida, tal como a nossa vida está inserida na questão do bem. A questão do bem é levantada e decidida no meio da situação repetidamente determinada e ainda não concluída, única, irrepetível e todavia fluida da nossa vida, no meio de vínculos vivos com seres humanos, coisas, instituições, poderes, ou seja,  no seio da nossa existência histórica. A questão do bem já se não pode separar da questão da vida e da história.»

Dietrich Bonhoeffer, Ética

Pandit Ravi Shankar - Ind Day Celebrations

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Walden

«When I wrote the following pages, or rather the bulk of them, I lived alone, in the woods, a mile from any neighbor, in a house which I had built myself, on the shore of Walden Pond, in Concord, Massachusetts, and earned my living by the labour of my hands only. I lived there two years and two months. At present I am a sojourner in civilized life again.
I should not obtrude my affairs so much on the notice of my readers if very particular inquiries had not been made by my townsmen concerning my mode of life, which some would call impertinent, though they do not appear to me at all impertinent, but, considering the circumstances, very natural and pertinent. Some have asked what I got to eat; if I did not feel lonesome; if Iwas not afraid; and the like. Others have been curious to learn what portion of my income I devoted to charitable purposes; and some, who have large families, how many poor children I maintained. I will therefore ask those of my readers who feel no particular interest in me to pardon me if I undertake to answer some of these questions in this book. In most books, the I, on first person, is omitted; in this it will be retained; that, in respect to egotism, is the main difference. We commonly do not remember that it is, after all, always the first person that is speaking. I should not take so much about myself if there were any body else whom I knew as well. Unfortunately, I am confined to this theme by the narrowness of my experience. Moreover, I, on my side, require of every writer, first or last, a simple and sincere account of his own life, and not merely what he has heard of other men's lives; some such account as he would send to his kindred from  a distant land; for if he has lived sincerely, it must have been in a distant land to me.»

Henry David Thoreau, Walden; or Life in the Woods

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bernardo Sassetti

O auditório da Culturgeste estava cheio, a pedir mais lugares para os que não tinham conseguido entrar. Quando as luzes se apagaram, o ecrã do fundo do palco começou a ser habitado por um puzzle de sombras, puras abstracções de fotografias, projectadas como pontos de fuga para o nosso olhar. Eram cintilações despojadas, difusas numa névoa a preto e branco, dando a ver através da vidraça de uma janela os ramos de uma árvore, ou uma ruela gelada, por onde vultos (Bernardo e uns seus companheiros de estrada?) caminham ao longe, de costas, para o longe de umas tantas casas, ou ainda… Pareceu-me então que todos nós, no conforto das nossas cadeiras, nos pusemos à escuta do sopro frio de um vento que devia estar a varrer aquela rua, aqueles ramos, aqueles casacos e os corpos que cobriam, no instante em que a câmara os fixou. Pareceu-me isso mas o que sei é que se fez silêncio e que só quando os músicos ocuparam os seus lugares em cena é que as nossas palmas nos reaqueceram. A seguir a esse silêncio e a essas primeiras palmas fez-se música e a plateia «estremeceuzinho», como prodigiosamente Guimarães Rosa nos ensinou a dizer. A música que se ouviu foi também feita de silêncios. Longos, alguns. Convocados por uma poderosa batuta invisível, largámos os tiques habituais das salas de concerto – ninguém tossio, ninguém desembrulhou o rebuçado calmante, ninguém se mexeu nos assentos. O que aconteceu foi que nos integrámos, de respiração suspensa, na voz do concerto, mudos quando as teclas e as cordas e as percussões se calavam, vibrando com os acordes dos instrumentos quando eles falavam alto e forte. Foi na apresentação de Ascent, último e belo disco do (duplo) Trio Bernardo Sassetti, ou melhor do Bernardo Sassetti Trio2. Inesquecível. Quando uma entrevista começa por perguntar quem se é, denuncia logo a curiosidade pelo trilho dos passos de quem está diante de nós. Quantos mais anos tiver a pessoa entrevistada, mais longa será, em princípio, essa viagem à memória de quem somos, donde viemos, o que fizemos para chegar até aqui. Se for jovem, como o Bernardo, corre-se o risco de ouvirmos o relato de um percurso naturalmente mais curto, ainda em dificuldades de balanço. Mas a intensidade e a precisão com que ele se contou, para além de surpreendente, foi reveladora de uma pessoa que cedo descobriu que tinha de estar na vida a tempo inteiro, sem distracções sobre o sentido que era imperativo dar-lhe. Descobriu, no cedo do seu tempo pessoal, que a música, e mais especificamente esse território de liberdade extrema que é o jazz, seria a pauta que moldaria esse sentido. Pauta exigente, que não admite desrespeitos. Entregou-se-lhe sem reservas e, em troca, recebeu dela um dom valioso – a tal batuta poderosa e invisível que, numa sala de concerto ou em casa a ouvirmos um CD, nos guia até quase à fusão com a sua música. Com a música.


Maria João Seixas, Entre/ Vistas (2006)