Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Bosques
«Ao entrarmos no bosque da ficção, espera-se que assinemos um pacto ficcional com o autor e estejamos dispostos a aceitar, por exemplo, que os lobos falem; mas quando a menina do Capuchinho Vermelho é devorada pelo lobo, pensamos logo que morreu (convicção esta vital para o extraordinário prazer que o leitor retirará da sua ressurreição). Imaginamos o lobo peludo e de orelhas pontiagudas e fitas, mais ou menos como os que encontramos nos bosques verdadeiros, e parece-nos natural que o Capuchinho Vermelho se comporte como uma menina e mãe dela como uma mulher adulta, preocupada e responsável. Porquê? Porque é isso que acontece no mundo da nossa experiência, um mundo a que por ora, e sem demasiados compromissos ontológicos, chamaremos mundo real.
O que digo pode parecer muito óbvio, mas deixa de o ser se nos agarrarmos ao nosso dogma da suspensão da incredulidade. Parece que quando lemos uma obra de ficção suspendemos a nossa incredulidade a respeito de umas coisas, mas não de outras. E como a fronteira entre aquilo em que devemos acreditar e aquilo em que não devemos acreditar é muito ambígua (como veremos), como podemos condenar o pobre Vítor Manuel III? Se ele apenas devesse admirar os elementos estéticos do quadro (as cores, a qualidade da perspectiva), nunca deveria ter perguntado quantos habitantes tinha a aldeia. Mas se entrou no quadro, como nós entramos num mundo ficcional, e se imaginou a deambular por aquelas colinas, por que não perguntar-se quem encontraria na aldeia e se por acaso não haveria lá uma estalagem tranquila? Se o quadro era, como imagino, realista, porquê pensar que a aldeia estivesse desabitada, ou assolada por pesadelos, à la Lovercreft? Aqui reside o fascínio de toda a ficção, verbal ou visual: encerra-nos dentro dos limites do seu mundo e induz-nos, de uma maneira ou de outra, a levá-lo a sério.»
O que digo pode parecer muito óbvio, mas deixa de o ser se nos agarrarmos ao nosso dogma da suspensão da incredulidade. Parece que quando lemos uma obra de ficção suspendemos a nossa incredulidade a respeito de umas coisas, mas não de outras. E como a fronteira entre aquilo em que devemos acreditar e aquilo em que não devemos acreditar é muito ambígua (como veremos), como podemos condenar o pobre Vítor Manuel III? Se ele apenas devesse admirar os elementos estéticos do quadro (as cores, a qualidade da perspectiva), nunca deveria ter perguntado quantos habitantes tinha a aldeia. Mas se entrou no quadro, como nós entramos num mundo ficcional, e se imaginou a deambular por aquelas colinas, por que não perguntar-se quem encontraria na aldeia e se por acaso não haveria lá uma estalagem tranquila? Se o quadro era, como imagino, realista, porquê pensar que a aldeia estivesse desabitada, ou assolada por pesadelos, à la Lovercreft? Aqui reside o fascínio de toda a ficção, verbal ou visual: encerra-nos dentro dos limites do seu mundo e induz-nos, de uma maneira ou de outra, a levá-lo a sério.»
Umberto Eco, «Os Bosques Possíveis», in Seis passeios nos bosques da ficção
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
O que importa
Dizem-me que devo estar atento e que o que importa é aquilo a que não dou atenção.
Que importa a tralha que nos tolda os dias? - pergunto. Que importa discutir o acessório?
Que importa a tralha que nos tolda os dias? - pergunto. Que importa discutir o acessório?
Suspensão
Até que ponto o facto de alguém se suspender de si pode constituir uma aproximação àquilo que, de algum modo, acontece quando Fernando Pessoa estabelece a existência de dramatis personae?
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Like as the waves make towards the pebbled shore,
Like as the waves make towards the pebbled shore,
So do our minutes hasten to their end,
Each changing place with that which goes before,
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity, once in the main of light,
Crawls to maturity; whrewith being crowned
Crooked eclipses 'gainst his glory fight,
And time, that gave, doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth,
And delves the parallels in beauty's brow;
Feeds on the rarities of nature's truth,
And nothing stands but for his scythe to mow.
And yet to times in hope my verse shall stand,
Praising thy worth, despite his cruel hand.
So do our minutes hasten to their end,
Each changing place with that which goes before,
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity, once in the main of light,
Crawls to maturity; whrewith being crowned
Crooked eclipses 'gainst his glory fight,
And time, that gave, doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth,
And delves the parallels in beauty's brow;
Feeds on the rarities of nature's truth,
And nothing stands but for his scythe to mow.
And yet to times in hope my verse shall stand,
Praising thy worth, despite his cruel hand.
William Shakespeare
sábado, 15 de outubro de 2011
XVII. Ho Letto...
Appunti di Taccuino
«Ho letto una descrizione tristissima, disperata, delle condizioni d'Italia. Una volta, letture di questa sorta mi davano mezze giornate, giornate o settimane di umor nero. Ora non più: esperienza, scienza e sdegno morale mi hanno, verso di esse, fortificato. Esperienza: perché odo ormai da alcuni decennî, di tratto in tratto, qualcuno o parecchi annunziare e dimostrare che l'Italia sta per disgregarsi politicamente o fallire economicamente o dissolversi nella corruttela o esser trascinata in una guerra, che sará la sua fine come Stato e come Nazione. E nessuno dei disastri profetati à mai accaduto, e molti malanni sono spariti (in cambio, è vero, ne è sorto qualcuno nuovo, ma ciò nell'ordine di natura); e, in complesso, non si sta peggio, e si può dire persino che si sia progredito. Scienza: perché ho appreso che quelle descrizioni pessimistiche debbono di necessità essere esagerate e perciò false, essendo metafisicamente impossibile che una società, anche per un istante, si regga sull'irrazionalità e sul male; e se alcuno non riesce a scorgere la legge razionale di una data configurazione sociale, e se scorge soltanto il male o considera come male la fenomenologia stessa del bene, dia la colpa a se medesimo, che ha mente astratta e non concreta, meccanica e non organica (epperò impotente a comprendere un organismo), analitica, ma di un'analisi senza sintesi. E, infine, sdegno morale; giacché considerare spregiudicatamente e affisare coraggiosamente i duri tratti della realtà per dominarla e operare, è da uomo; ma stare a descrivere il sognato male, così, per descriverlo e per ammazzare il tempo, o peggio ancora per compiacersi di fronte ad esso della propria non meno sognata superiorità, o peggio di peggio, per trarne giustificazione ad accomodarvisi (i pessimisti sono di solito accomodantisti), è da pettegolo, da vanesio e da ciacco. Quella maldicenza è propria della gente volgare, del borghesuccio ozioso; e non v'ha circolo di perditempo in cui non si passino a rassegna gli orrori della presente società e non si presagisca il finimondo. In verità, a petto di cotesti moralisti da caffé o da farmacia (e degli scrittori che ad essi corrispondono), non c'è canaglia o imbroglione o ladruncolo, che non s'irraggi di umana simpatia; perché la canaglia, l'imbroglione e il ladro operano, s'ingegnano, si distreggiano e rischiano la pelle o la libertà, e spesso dal male che essi fanno nasce un bene inaspettato; laddove quei moralisti oziano, e non possono ingenerare altro bene che lo sdegno e la nausea, che suscitano, in coloro in cui la suscitano. - Ma da quando in qua non è più lecito effondere la propria tristezza in presenza dei mali del mondo? - Sí, che è lecito, ma al poeta, il quale, come disse un poeta-filosofo, «con la forma distrugge la materia», ossia la rende ideale; non già al'uomo pratico, al quale condannare un fatto non è lecito senza insieme aiutare il sorgere di un altro fatto che sostituisca il primo (che è condannato giustamente soltanto quando è sostituibile); e chi condanna a questo modo, non si può dire che si compiaccia nel chiacchierare ozioso, perché egli, come può, opera, e dunque, se opera, non è pessimista, ma ottimista.»
Benedetto Croce, Cultura e Vita Morale
77
«É, porém, um facto curioso que a religião e a ciência têm a mesma base - a intuição determinista. A noção de lei é fundamental na ciência, e na mentalidade científica; sem que haja uma noção de lei, nem pode haver ciência, nem quem busque fazer ciência.
Mas esta mesma noção de determinismo é que é o fundamento da religião; porque a religião não passa, na essência, do reconhecimento de que a vida, a acção, tudo quanto somos e representamos, não tem origem ou explicação em nós mesmos, mas está nas mãos de um poder ou poderes desconhecidos.
Paralelamente, porém, ao reconhecimento da existência de uma força superior a ele, o homem nota, também, que a acção dessa força, no que se refere às ideias morais e outras (que ele tira da sua vida social), é absurda por vezes, outras vezes injusta, frequentemente inexplicável. O que acontece é por vezes imoral; morre o justo ante o pecador, e a astúcia vale mais que a honestidade muitas vezes. Mas isto acontece umas vezes, e outras o contrário; difícil é determinar qual a lei oculta a que tudo isso obedece. Por isso a religião espontânea da humanidade reconhece que, como há motivos desencontrados e absurdos provindos da complexidade, na vida, assim deve haver, governando-nos, não só uma presença, mas várias; e os mais lógicos entre os homens reconhecem que essas várias presenças, que nos regem, como não são limitadas na sua regência e contudo produzem por vezes efeitos imorais para nós, e por certo injustos frequentemente, ou têm uma moral diferente da nossa, ou moral nenhuma, ou são, como nós, susceptíveis de caprichos e de volubilidades. Tal a doutrina pagã, que, completada, reconhece, porém, mais alguma coisa. Assim como nós agimos e supomos que produzimos acção, mas, pensando bem, reparamos na nossa servitude, e que a acção que agimos não é nossa mas produzida, assim chegamos a crer que essa acção das presenças superiores não emane exclusivamente deles, mas de qualquer outra presença, que os governe. E assim a lógica do paganismo concebe, e bem, que o Destino se oculta por detrás, e interiormente, à acção dos homens e dos deuses.
A ideia cristã, de que há um Deus supremo moralmente caracterizável, e presenças intermédias de várias espécies, primordialmente os anjos, é menos lógica que a ideia pagã. Pondo acima de tudo (no lugar de Deus no cristismo) o Destino, o pagão reconhecia que o que temos que ter por superior a tudo é a Lei, mas a Lei nem moral nem imoral, nem caracterizável nem não,simples força a que se não pode resistir, compulsão contra a qual não há revolta e da qual não há apelo.»
Mas esta mesma noção de determinismo é que é o fundamento da religião; porque a religião não passa, na essência, do reconhecimento de que a vida, a acção, tudo quanto somos e representamos, não tem origem ou explicação em nós mesmos, mas está nas mãos de um poder ou poderes desconhecidos.
Paralelamente, porém, ao reconhecimento da existência de uma força superior a ele, o homem nota, também, que a acção dessa força, no que se refere às ideias morais e outras (que ele tira da sua vida social), é absurda por vezes, outras vezes injusta, frequentemente inexplicável. O que acontece é por vezes imoral; morre o justo ante o pecador, e a astúcia vale mais que a honestidade muitas vezes. Mas isto acontece umas vezes, e outras o contrário; difícil é determinar qual a lei oculta a que tudo isso obedece. Por isso a religião espontânea da humanidade reconhece que, como há motivos desencontrados e absurdos provindos da complexidade, na vida, assim deve haver, governando-nos, não só uma presença, mas várias; e os mais lógicos entre os homens reconhecem que essas várias presenças, que nos regem, como não são limitadas na sua regência e contudo produzem por vezes efeitos imorais para nós, e por certo injustos frequentemente, ou têm uma moral diferente da nossa, ou moral nenhuma, ou são, como nós, susceptíveis de caprichos e de volubilidades. Tal a doutrina pagã, que, completada, reconhece, porém, mais alguma coisa. Assim como nós agimos e supomos que produzimos acção, mas, pensando bem, reparamos na nossa servitude, e que a acção que agimos não é nossa mas produzida, assim chegamos a crer que essa acção das presenças superiores não emane exclusivamente deles, mas de qualquer outra presença, que os governe. E assim a lógica do paganismo concebe, e bem, que o Destino se oculta por detrás, e interiormente, à acção dos homens e dos deuses.
A ideia cristã, de que há um Deus supremo moralmente caracterizável, e presenças intermédias de várias espécies, primordialmente os anjos, é menos lógica que a ideia pagã. Pondo acima de tudo (no lugar de Deus no cristismo) o Destino, o pagão reconhecia que o que temos que ter por superior a tudo é a Lei, mas a Lei nem moral nem imoral, nem caracterizável nem não,simples força a que se não pode resistir, compulsão contra a qual não há revolta e da qual não há apelo.»
Ricardo Reis, Prosa
Littérature
«La littérature, disait Sainte-Beuve, n'est pas pour moi distincte ou, du moins, séparable du reste de l'homme et de l'organization... On ne saurait s'y prendre de trop de façons et de trop de bouts pour connaître un homme, c'est-à-dire autre chose qu'un pur esprit. Tant qu'on ne s'est pas adressé sur un auteur un certain nombre de questions et qu'on n'y a pas répondu, ne fût-ce que pour soi seul et tout bas, on n'est pas sûr de le tenir tout entier, quand même ces questions sembleraient les plus étrangères à la nature de ses écrits: Que pensait-il de le religion? Comment était-il affecté du spectacle de la nature? Comment se comportait-il sur l'article des femmes, sur l'article de l'argent? Était-il riche, pauvre; quel était son régime, se manière de vivre journalière? Quel était son vice ou son faible? Aucune réponse à ces questions n'est indifférent pour juger l'auteur d'un livre et le livre lui-même, si ce livre n'est pas un traité de géométrie pure, si c'est surtout un ouvrage littéraire, c'est-à-dire où il entre de tout.»
Marcel Proust, Contre Sainte-Beuve
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Apolo Musageta
Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.
Eras o espírito a falar em cada linha,
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços,
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar,
Eras o conhecimento pelo amor.
Sonho e presença
Duma vida florindo
Possuída e suspensa.
Eras a medida suprema, o cânone eterno,
Erguido puro, perfeito, harmonioso,
No coração da vida e, para além da vida,
No coração dos ritmos secretos.
Banhando os horizontes de louvor.
Eras o espírito a falar em cada linha,
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços,
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar,
Eras o conhecimento pelo amor.
Sonho e presença
Duma vida florindo
Possuída e suspensa.
Eras a medida suprema, o cânone eterno,
Erguido puro, perfeito, harmonioso,
No coração da vida e, para além da vida,
No coração dos ritmos secretos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Écloga Perdida
À beira do meu verso não há flores,
Nem verdes ramos nem canaviais,
Nem vergônteas esguias como ais
Ondulam com os ventos voadores.
Ninguém passa também nos areais
Desertos. Aves, nuvens, leves cores:
- Nem sequer esse fáceis pormenores
De soluços monótonos e iguais.
Se a tarde empalidece de tristeza
E poisa magoada na aspereza
Dos montes, o regato ganha vida,
E estende para a noite enorme e langue
No grito solitário do meu sangue
O sonho de uma écloga perdida.
Nem verdes ramos nem canaviais,
Nem vergônteas esguias como ais
Ondulam com os ventos voadores.
Ninguém passa também nos areais
Desertos. Aves, nuvens, leves cores:
- Nem sequer esse fáceis pormenores
De soluços monótonos e iguais.
Se a tarde empalidece de tristeza
E poisa magoada na aspereza
Dos montes, o regato ganha vida,
E estende para a noite enorme e langue
No grito solitário do meu sangue
O sonho de uma écloga perdida.
Bernardim Ribeiro
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Crítico
«Para um crítico, o primeiro requisito é o temperamento, um temperamento finamente susceptível à beleza e às várias impressões que a beleza nos transmite. Sob que condições, e por que meios, este temperamento é engendrado na raça ou no indivíduo, não discutiremos de momento. Basta apenas notar que existe, e que há em nós, um sentido de beleza, distinto dos outros sentidos e acima deles, distinto da razão, mas de uma qualidade mais nobre, distinto da alma, mas de igual valor, um sentido que leva alguns a criar, e outro, espíritos mais finos, segundo me parece, unicamente a contemplar. Mas para se purificar e tornar perfeito, este sentido exige um determinado tipo de ambiente refinado. Sem isso, morre à míngua ou embota-se. Lembras-te decerto daquele passo em que Platão descreve como um jovem grego deve ser educado, e com que insistência ele refere a importância do que o circunda, dizendo-nos como o rapaz deve ser educado no meio de vistas e sons amoráveis, de modo a que a beleza das coisas materiais possa reparar a sua alma para a recepção da beleza que é espiritual. Insensivelmente, e sem saber o que o impele, desenvolverá aquele verdadeiro amor da beleza que é, como Platão nunca se cansa de nos lembrar, o verdadeiro fim da educação. De modo lento e gradual, criar-se-á nele um temperamento que o levará, simples e naturalmente, a escolher o bem em detrimento do mal, e, rejeitando o que é vulgar e discordante, a seguir por meio de um gosto fino e instintivo tudo aquilo que é dotado de graça, encanto e beleza. Por fim, em devida altura, este gosto tornar-se-á crítico e consciente de si, embora, a princípio, exista unicamente como um instinto cultivado, e «aquele que tiver recebido esta cultura verdadeira do homem interior verá, com visão clara e segura, as faltas e omissões na arte e na natureza, e, com um gosto incapaz de errar, enquanto elogia e acha prazer no que é bom e o recebe na sua alma, e assim se torna bom e nobre, também censurará e odiará o mal, mesmo nos seus dias de juventude, e ainda antes de saber por que o faz»; assim, quando, mais tarde, o espírito crítico e consciente de si se desenvolver nele, «reconhecê-lo-á e saudá-lo-á como um amigo a quem a sua educação tornou familiar». Será escusado dizer Ernest, como ficámos aquém, em Inglaterra, deste ideal, e posso bem imaginar o sorriso que iluminaria a cara luzidia do filisteu se alguém se lembrasse de lhe sugerir que o verdadeiro fim da educação era o amor da beleza, e que os métodos por meio dos quais a educação se faz são o desenvolvimento do temperamento, a correcção do gosto e a criação do espírito crítico.»
Oscar Wilde, «O Crítico como Artista», in Intenções, quatro ensaios sobre estética
terça-feira, 11 de outubro de 2011
L'errore radicale
«La legge della connessione esprime in generale la supremazia del necessario nella struttura del logos. Questa supremazia, che viene consolidata e ribadita tirannicamente dal vincolo deduttivo, raccoglie agglutinandoli assieme glioggetti astratti già costituiti, cosicché l'essere e la verità che da questi conseguivano vanno perdendo, nel movimento discendente, il primitivo carattere di istantaneità, e il loro richiamo all'immediatezza risulta sempre più sbiadito e sfocato. L'essere e la verità diventano "scientifici", strumenti di una costruzione - sopraffatti come sono dal necessario - e semplici designazioni di un oggetto astratto.
In questa tendenza c'è un elemento degenerativo. La spinta del necessario porta a falsificare la natura dell'espressione. Già si è accennato all'illusorietà connessa al trasferimento della necessità discendente entro la sfera delle espressioni prime. Tutto à apparenza, ma l'illusione è apparenza nell'apparenza. Il controriflusso è invero un tentativo di duplicazione dello slancio primario dell'espressione: attraverso la doppia inversione del riflusso edella deduzione, quest'ultima si trova a ripercorrere la stessa direzione delle espressioni prime. Ma tale parvenza di vita sorgiva opera illusoriamente, poiché la comistione di giuoco e violenza à sostituita dal gioco incontrastato della necessità.
Non un errore dell'individuo, che appartiene al logos spurio, bensì un errore radicale è alla base di questa illusione. L'oggetto aggregato, che era stato prodotto da quella commistione, in cui andava prevalendo la necessità, viene poi, viene poi riconosciuto in modo sbrigativo, nella costruzione deduttiva, come formato esclusivamente dalla necessità. E dove l'errore risulta più deformante, e più indecifrabile, è nel tessuto delle espressione prime e dei loro ricordi diretti; qui l'inversione graduale del nesso della causalità trasferisce all'indietro - interpolando una preesistenza sostitutiva - gli oggetti integrati, o addirittura gli universali e gli oggetti composti: Così il ricordo dell'attimo è interpretato, ricostruito come un oggetto necessario: tale è l'opera dell'erore radicale. Il mondo del divenire, della storia, dell'azione si fonda su questo errore, e perciò lo chiamo illusorio. Difatti l'attimo esce da un nesso espressivo in cui giuoco e violenza sono inscindiblimente intrecciati, e il ricordo dell'attimo da uno in cui contingente e necessario sono inviluppati in un'identica commistione: sostituirli con oggetti prodotti dal vincolo della necessità è dunque una falsificazione radicale. Eppure questa è nella natura del logos: ogni espressione viene spogliata del suo elemento di giuoco, ovunque si realizza una fagocitazione del contingente per opera del necessario. Prima che si giunga alle rappresentazioni astratte, nel paesaggio tra ciò che viene espresso e la sua espressione è inafferrabile le sfumatura manifestante di giuoco e di violenza, e certo non c'è ancora nessuna decisione a favore dell'uno o dell'altra: questa incertezza segreta è il fremito della vita.»
In questa tendenza c'è un elemento degenerativo. La spinta del necessario porta a falsificare la natura dell'espressione. Già si è accennato all'illusorietà connessa al trasferimento della necessità discendente entro la sfera delle espressioni prime. Tutto à apparenza, ma l'illusione è apparenza nell'apparenza. Il controriflusso è invero un tentativo di duplicazione dello slancio primario dell'espressione: attraverso la doppia inversione del riflusso edella deduzione, quest'ultima si trova a ripercorrere la stessa direzione delle espressioni prime. Ma tale parvenza di vita sorgiva opera illusoriamente, poiché la comistione di giuoco e violenza à sostituita dal gioco incontrastato della necessità.
Non un errore dell'individuo, che appartiene al logos spurio, bensì un errore radicale è alla base di questa illusione. L'oggetto aggregato, che era stato prodotto da quella commistione, in cui andava prevalendo la necessità, viene poi, viene poi riconosciuto in modo sbrigativo, nella costruzione deduttiva, come formato esclusivamente dalla necessità. E dove l'errore risulta più deformante, e più indecifrabile, è nel tessuto delle espressione prime e dei loro ricordi diretti; qui l'inversione graduale del nesso della causalità trasferisce all'indietro - interpolando una preesistenza sostitutiva - gli oggetti integrati, o addirittura gli universali e gli oggetti composti: Così il ricordo dell'attimo è interpretato, ricostruito come un oggetto necessario: tale è l'opera dell'erore radicale. Il mondo del divenire, della storia, dell'azione si fonda su questo errore, e perciò lo chiamo illusorio. Difatti l'attimo esce da un nesso espressivo in cui giuoco e violenza sono inscindiblimente intrecciati, e il ricordo dell'attimo da uno in cui contingente e necessario sono inviluppati in un'identica commistione: sostituirli con oggetti prodotti dal vincolo della necessità è dunque una falsificazione radicale. Eppure questa è nella natura del logos: ogni espressione viene spogliata del suo elemento di giuoco, ovunque si realizza una fagocitazione del contingente per opera del necessario. Prima che si giunga alle rappresentazioni astratte, nel paesaggio tra ciò che viene espresso e la sua espressione è inafferrabile le sfumatura manifestante di giuoco e di violenza, e certo non c'è ancora nessuna decisione a favore dell'uno o dell'altra: questa incertezza segreta è il fremito della vita.»
Giorgio Colli, Filosofia dell'espressione
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Cabra-cega
«Agora a pergunta era tão clara que eu não achei uma sombra para me esconder. De outras vezes, outra gente me perguntara o mesmo. E nunca soube responder. Falavam-me de fora, de outro mundo, com uma linguagem diferente. E assim, as nossas ideias jogavam à cabra-cega. Eu próprio, quando queria entender-me, espreitando-me donde me não suspeitasse, não tinha razões talhadas à medida do meu sonho. Os princípios do senso, da justiça, talvez tivessem envelhecido e não pudessem acompanhar o meu anseio. Só metido dentro de mim eu me compreendo todo e sem razões. Hei-de um dia tombar e arrefecer. Talvez então seja possível a outros ler em rigor o que se imobilizou da minha agitação. Até lá, é difícil. Qualquer coisa me está sempre forçando os limites, mesmo da regra que julgo dar-me. Um vento largo ergueu-se não sei donde e arrebatou-me. Lembra-me bem como tudo aconteceu. Mas quando penso no que eu fui, não me parece que tenha acontecido nada de extraordinário. É como se eu tivesse já nascido para isso. Meu pai às vezes dizia: «Hoje vou ter sorte»; ou: «Hoje vai-me acontecer uma desgraça.» O mais difícil era convencer-se de que seria assim. Porque depois, durante o dia, só tinha de andar atento para achar a desgraça com a sorte que profetizara. Mas nunca fui capaz de entender que arcanjos da vida o faziam acreditar assim nos anúncios do seu destino. Havia sol ou chuva no céu, nem sempre o comer estava pronto a horas, às vezes o filho mais novo chorava sem razões adultas, ou qualquer coisa parecida. Mas é difícil pensar que factos desses decidissem das certezas de meu pai.»
Vergílio Ferreira, «Adeus», in Contos
domingo, 9 de outubro de 2011
Murmure
«Est-ce moi? Ce grand homme nu, qui s'étonne de vivre, et ses mains le parcourent, le poitrail, les muscles, l'arcature: quel âge as-tu, garçon? La trentaine, un peu plus. L'âge de rencontrer Murmure. Dans ce temps-lá, je me dispersais comme un feu, d'une canne ou du pied, pour voir les dernières étincelles ranimer les cendres, éparpiller l'éclat. Comme je me ressemble encore! Est-ce que j'ai rêvé tout le reste, après, trois semaines, trois heures, trente ans... Tout n'aurait donc été, nous et le monde, qu'un long rêve? Je suis celui des premiers jours, je ne t'appelle pas encore Murmure, et tu dors sans savoir quil est advenu toute cette histoire des années... je suis celui des premiers jours, et tout ce que j'ai rêvé, c'est comme dans l'homme qui tombe à mourir, cette chute de la vie à rebours, le vivre revécu, rien n'a eu lieu, c'est toujours la première nuit de nous, la première fois que je me réveille et tu dors. Je me réveille, ce grand homme maigre et violent, sa jeunesse, ayant perdu dans tes bras sa folie, tout à coup l'avenir à sa taille, et frémissant de ta présence, regardant la nuit pour la première fois, et le monde obscur ainsi pour la première fois. Ah tu es là, tu respires. Écoute-moi, je suis peut-être un autre. Dans quel instant d'aimer sommes-nous soudain surpris? Qu'une chose, une seule, ait varié dans l'ombre, et rien du reste n'est plus notre décor éveillé, il faut tout remettre à l'échelle, il suffit sur la chaise d'une étoffe inconnue, une longue robe mauve aux grandes manches fendues, comme on voit je ne sais dans quel Watteau, où les gens s'en vont dans un parc en faisant de grands gestes pâles... il faut remettre à l'échelle d'un taffetas tout ce qu'on pense, et ce qu'on est, et ce qui se passe là-bas sur un lac vaguement encore éclairé...
Je me réveille, et c'est au monde qu'il me faut demander quel âge as-tu?»
Je me réveille, et c'est au monde qu'il me faut demander quel âge as-tu?»
Louis Aragon, «Premier conte de la chemise rouge. Murmure», in La Mise à Mort
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