Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Futuro
«O Deus de Moisés está sempre para lá, sempre além. A sua raiz verdadeira - o bem - não está no passado, mas no futuro. O passado e o presente têm valor para o futuro. A concepção judaica do tempo diverge profundamente não só da concepção "circular" dos Gregos, mas também da concepção "linear" do cristianismo histórico, pauliniano. O tempo judaico centra-se não no presente do Cristo, mas no futuro do Deus sempre outro e sempre além, do Deus "outro que o ser". Se o passado
e perigo e ameaça, o presente é deserto, não tem qualquer valor em si. A Terra a habitar é sempre o futuro. Toda a cadeia do tempo está suspensa do futuro. Por isso, o deserto não é um período de provação, mas um destino. É a condição permanente do povo judeu.»
e perigo e ameaça, o presente é deserto, não tem qualquer valor em si. A Terra a habitar é sempre o futuro. Toda a cadeia do tempo está suspensa do futuro. Por isso, o deserto não é um período de provação, mas um destino. É a condição permanente do povo judeu.»
Vitiello, Vincenzo, «Deserrto, ethos, abandono, Contribuição para uma topologia do religioso, in Derrida, Jacques e Vattimo, Gianni, A Religião
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Jacques Derrida,
Vincenzo Vitiello
sábado, 24 de setembro de 2011
Introversão e extroversão
«Em todas as pessoas desenrola-se, em maior ou menor grau, uma luta entre duas forças: o desejo de privacidade e a vontade de conhecer novos lugares: a introversão, ou seja, o interesse dirigido para o próprio e para a vida interior de pensamento e desejo vigorosos; e a extroversão, o interesse dirigido para fora, para o mundo exterior de pessoas e valores tangíveis. Vejamos um exemplo simples: o académico - e por académico refiro-me tanto a professores como a estudantes universitários - pode por vezes apresentar ambos os aspectos. Pode ser um rato de biblioteca e pode também ser sociável e o rato de biblioteca e o sociável podem lutar dentro de um mesmo homem. Um estudante que obtenha ou deseje obter prémios por conhecimento adquirido pode também desejar, ou pode ser esperado dele que deseje, prémios por aquilo a que chamamos capacidade de liderança. Temperamentos diferentes tomam decisões diferentes, claro, e há mentes em que o mundo interior triunfa de forma persistente sobre o exterior, e vice-versa. Mas temos de ter em conta o próprio facto de que existe ou pode existir uma luta entre as duas versões do homem num mesmo homem - introversão e extroversão. Conheci estudantes que na busca da vida interior, na ardente busca de conhecimento, de um assunto favorito, tiveram de tapar os ouvidos com as mãos para calar o barulho constante da vida de residência universitária; mas ao mesmo tempo estariam cheios de um desejo gregário de se juntarem à diversão, de ir à festa ou à reunião, de trocar o livro pelo bando.
Este estado de coisas não está muito longe dos problemas de escritores como Tolstói, em que o artista luta com o pregador; o grande introvertido com o vigoroso extrovertido. Tolstói tinha decerto a noção de que nele como em muitos outros escritores se travava a luta entre a solidão criativa e o desejo de associação com o resto da humanidade - a batalha entre o livro e o bando. Em termos tolstoianos, nos símbolos da filosofia tardia de Tolstói depois de terminada Anna Karénina, a solidão criativa tornou-se sinónimo de pecado: era egoísmo, era mimar-se a si próprio e, portanto, pecado. Reciprocamente, a ideia de toda a humanidade era em termos tolstoianos a ideia de Deus: Deus está no homem e Deus é amor universal. E Tolstói defendia a perda da personalidade de cada um neste amor universal. Sugeriu, por outras palavras, que na luta pessoal entre o artista sem deus e o homem devoto, este último devia ganhar se o homem-síntese deseja ser feliz.
Devemos ter uma visão lúcida destes factos espirituais de modo a apreciar a filosofia da história A Morte de Ivan Iliitch. Ivan é obviamente John em russo, e John em hebraico significa Deus é Bom, Deus é Gracioso. Sei que não é fácil para quem não fala Russo pronunciar o patronímico Iliitch, que obviamente significa filho de Ilya, a versão russa do nome Elias ou Elijah, que, significa, a propósito, Jeová é Deus, em hebraico. Ilya é um nome comum na Rússia, que se pronuncia de um modo muito aproximado ao il y a francês; e Iliitch pronuncia-se Ill-Itch - os males e comichões da vida mortal.»
Este estado de coisas não está muito longe dos problemas de escritores como Tolstói, em que o artista luta com o pregador; o grande introvertido com o vigoroso extrovertido. Tolstói tinha decerto a noção de que nele como em muitos outros escritores se travava a luta entre a solidão criativa e o desejo de associação com o resto da humanidade - a batalha entre o livro e o bando. Em termos tolstoianos, nos símbolos da filosofia tardia de Tolstói depois de terminada Anna Karénina, a solidão criativa tornou-se sinónimo de pecado: era egoísmo, era mimar-se a si próprio e, portanto, pecado. Reciprocamente, a ideia de toda a humanidade era em termos tolstoianos a ideia de Deus: Deus está no homem e Deus é amor universal. E Tolstói defendia a perda da personalidade de cada um neste amor universal. Sugeriu, por outras palavras, que na luta pessoal entre o artista sem deus e o homem devoto, este último devia ganhar se o homem-síntese deseja ser feliz.
Devemos ter uma visão lúcida destes factos espirituais de modo a apreciar a filosofia da história A Morte de Ivan Iliitch. Ivan é obviamente John em russo, e John em hebraico significa Deus é Bom, Deus é Gracioso. Sei que não é fácil para quem não fala Russo pronunciar o patronímico Iliitch, que obviamente significa filho de Ilya, a versão russa do nome Elias ou Elijah, que, significa, a propósito, Jeová é Deus, em hebraico. Ilya é um nome comum na Rússia, que se pronuncia de um modo muito aproximado ao il y a francês; e Iliitch pronuncia-se Ill-Itch - os males e comichões da vida mortal.»
Vladimir Nabokov, «Posfácio» a A Morte de Ivan Iliitch, de Lev Tolstói
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Sonho
«Que a vida do homem é apenas um sonho, é coisa que já ocorreu a muitos, e eu também arrasto comigo esta sensação. Quando vejo os limites que aprisionam as forças da acção e da pesquisa no homem; quando vejo como toda a actividade está orientada para conseguir a satisfação de necessidades que, por sua vez, não têm outro fim senão prolongar a nossa pobre existência; quando verifico como ficamos tranquilos sobre certas questões a investigar, e que isso não é mais do que uma resignação ilusória, pois andamos a pintar com desenhos coloridos e panoramas resplandecentes as paredes que nos mantêm presos - tudo isto, Wilhelm, tira-me a fala. Volto-me então para mim próprio e encontro todo um mundo! De novo mais por intuição e avidez obscura do que em representação ou força viva. Sinto então uma enorme insegurança e continuo, sorrindo, a andar pelo mundo como em sonhos.»
Johann Wolfgang Goethe, A Paixão do Jovem Werther
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Formas de Governo
«As leis que regem as formas de governo não são idênticas às de outros artifícios, em que podemos substituir um utensílio velho se descobrirmos outro mais cómodo e adequado ou temos a possibilidade de fazer ensaios sem quaisquer riscos, por mais duvidoso que seja o seu êxito. Um governo estável oferece uma vantagem infinda pela simples cisrcunstância de ser estável. A maioria dos homens só se deixa governar pela autoridade, não pela razão e só reconhece autoridade ao que leva a marca do que é antigo. Por este motivo, um político ilustrado não pode intervir nestes assuntos apenas com base em argumentos ou na filosofia, nunca devendo deixar de reverenciar as coisas que têm a marca do tempo. Mesmo que procure introduzir certas melhorias no sentido do bem comum, deve procurar ajustar as suas inovações, tanto quanto possível, à trama antiga, preservando a integridade dos principais pilares e fundamentos da constituição.
Desde há muito que os matemáticos da Europa se dividiam sobre que forma deveria ter o navio melhor adaptado à navegação. Huygens - que, no final, encerrou a controvérsia - é justamente considerado como tendo satisfeito quer os letrados, quer os comerciantes, ainda que Colombo haja navegado até à América e Sir Francis Drake dado a volta ao mundo sem o apoio da sua descoberta. Do mesmo modo, uma forma de governo pode ser mais perfeita do que outra, independentemente dos costumes e do carácter dos homens. Porque não poderemos, assim, inquirir qual a melhor de todas, ainda que os governos actuais, apesar de descuidados, pareçam satisfazer os objectivos da sociedade e ainda que não seja tão fácil estabelecer de raiz um sistema de governo quanto construir um navio de acordo com um novo projecto? De todos quantos a inteligência humana pode conceber, este tema é, sem dúvida, o que merece mais atenção. E quem sabe se esta controvérsia, depois de resolvida pelo consenso universal dos homens sábios e ilustrados, não poderá futuramente passar da teoria à prática, quer através da dissolução da antiga forma de governo, quer pela instauração de uma nova nalguma parte remota do mundo? Em qualquer caso, é sempre útil saber qual o governo mais perfeito dentro do seu género, de modo a podermos forjar uma constituição ou uma forma de governo real tão próxima do modelo quanto possível, introduzindo apenas correcções e melhoramentos de tal forma subtis que não provoquem demasiada perturbação na ordem social.»
Desde há muito que os matemáticos da Europa se dividiam sobre que forma deveria ter o navio melhor adaptado à navegação. Huygens - que, no final, encerrou a controvérsia - é justamente considerado como tendo satisfeito quer os letrados, quer os comerciantes, ainda que Colombo haja navegado até à América e Sir Francis Drake dado a volta ao mundo sem o apoio da sua descoberta. Do mesmo modo, uma forma de governo pode ser mais perfeita do que outra, independentemente dos costumes e do carácter dos homens. Porque não poderemos, assim, inquirir qual a melhor de todas, ainda que os governos actuais, apesar de descuidados, pareçam satisfazer os objectivos da sociedade e ainda que não seja tão fácil estabelecer de raiz um sistema de governo quanto construir um navio de acordo com um novo projecto? De todos quantos a inteligência humana pode conceber, este tema é, sem dúvida, o que merece mais atenção. E quem sabe se esta controvérsia, depois de resolvida pelo consenso universal dos homens sábios e ilustrados, não poderá futuramente passar da teoria à prática, quer através da dissolução da antiga forma de governo, quer pela instauração de uma nova nalguma parte remota do mundo? Em qualquer caso, é sempre útil saber qual o governo mais perfeito dentro do seu género, de modo a podermos forjar uma constituição ou uma forma de governo real tão próxima do modelo quanto possível, introduzindo apenas correcções e melhoramentos de tal forma subtis que não provoquem demasiada perturbação na ordem social.»
David Hume, Ideia de uma República Perfeita
Friends and enemies
«The friend and enemy concepts are to be understood in their concrete and existential sense, not as metaphors or symbols, not mixed and weakened by economic, moral, and other conceptions, least of all in a private-individualistic sense as a psychological expression of private emotions and tendencies. They are neither normative nor pure spiritual antitheses. Liberalism in one of its typical dilemmas (...) of intellect and economics has attempted to transform the enemy from the viewpoint of economics into a competitor and from the intelectual point into a debating adversary. In the domain of economics there are no enemies, only competitors, and in a thoroughly moral and ethical world perhaps only debating adversaries. It is irrelevant here whether one rejects, accepts, or perhaps finds it an atavistic remnant of barbaric times that nations continue to group themselves according to friend and enemy, or hopes that the antithesis will one day vanish from the world, or whether it is perhaps sound pedagogic reasoning to imagine that enemies no longer exist at all. The concern here is neither with abstractions nor with normative ideals, but with inherent reality and the real possibility of such a distinction. One may or may not share these hopes and pedagogic ideals. But, rationally speaking, it cannot be denied that nations continue to group themselves according to the friend and enemy antithesis, that the distinction still remains actual today, and that this is an ever present possibility for every people existing in the political sphere.»
Carl Schmitt, The Concept of the Political
Liberdade de expressão
«Reconhecemos que a liberdade de opinião e a liberdade de expressar opiniões são necessárias para o bem-estar mental da humanidade (do qual todo o seu restante bem-estar depende), com base em quatro fundamentos distintos, que agora brevemente recapitularemos.
Em primeiro lugar, ainda que uma opinião seja votada ao silêncio, essa opinião pode, tanto quanto sabemos, ser verdadeira. Negar isto é pressupor a nossa própria infalibilidade.
Em segundo lugar, embora a opinião silenciada esteja errada, pode conter uma porção de verdade, o que frequentemente acontece; e dado que a opinião geral ou prevalecente sobre qualquer assunto raramente ou nunca constitui a verdade por inteiro, é apenas através do conflito de opiniões opostas que o resto da verdade tem alguma hipótese de vir ao de cima.
Em terceiro lugar, mesmo que a opinião dominante não seja apenas verdadeira, mas constitua também a verdade por inteiro; a não ser que se deixe que seja vigorosa e honestamente contestada, e a não ser que isso de facto aconteça, será mantida como um preconceito pela maior parte dos que a aceitam, havendo pouca compreensão ou sentimento em relação aos seus fundamentos racionais. E não apenas isto, mas, em quarto lugar, o próprio significado da doutrina estará em perigo de ser perdido, ou enfraquecido, e privado do seu efeito vital sobre o carácter e a conduta; tornando-se o dogma uma mera crença formal, ineficaz para o bem, mas que estorva os fundamentos, e impede o aparecimento de qualquer convicção real e sentida, a partir da razão ou da experiência pessoal.»
Em primeiro lugar, ainda que uma opinião seja votada ao silêncio, essa opinião pode, tanto quanto sabemos, ser verdadeira. Negar isto é pressupor a nossa própria infalibilidade.
Em segundo lugar, embora a opinião silenciada esteja errada, pode conter uma porção de verdade, o que frequentemente acontece; e dado que a opinião geral ou prevalecente sobre qualquer assunto raramente ou nunca constitui a verdade por inteiro, é apenas através do conflito de opiniões opostas que o resto da verdade tem alguma hipótese de vir ao de cima.
Em terceiro lugar, mesmo que a opinião dominante não seja apenas verdadeira, mas constitua também a verdade por inteiro; a não ser que se deixe que seja vigorosa e honestamente contestada, e a não ser que isso de facto aconteça, será mantida como um preconceito pela maior parte dos que a aceitam, havendo pouca compreensão ou sentimento em relação aos seus fundamentos racionais. E não apenas isto, mas, em quarto lugar, o próprio significado da doutrina estará em perigo de ser perdido, ou enfraquecido, e privado do seu efeito vital sobre o carácter e a conduta; tornando-se o dogma uma mera crença formal, ineficaz para o bem, mas que estorva os fundamentos, e impede o aparecimento de qualquer convicção real e sentida, a partir da razão ou da experiência pessoal.»
John Stuart Mill, Sobre a Liberdade
domingo, 18 de setembro de 2011
La Interioridad
«Este hombre nuevo es el hombre interior: «Vuelve en ti mismo; en el interior del hombre habita la verdad.» El hombre europeo ha nacido con esas palabras. La verdad está en su interior; se da cuenta por primera vez de su interioridad y por eso puede reposar en ella; por eso es independiente, y algo mas que independiente, libre.
Recobra su interioridad. Si observamos a los estoicos, con qué cautela hablan del «ánimo», como de un enfermo crónico al que hay que acallar y dormir! En el estoicismo, que tanta vigilia exige, por otra parte, hay un cuidado de mantener quieto y aun dormido algo terrible. Porque esta interioridad no tiene medida; si en ella se encuentra la verdad, también ese punto que la refleja en algún modo tiene que participar de su infinitud. Y así és: ser persona cristiana es ser infinito y sin medida; ser individuo estoico es tener una medida, es estar sujeto a un limite. El estoico toma de la vida la «carga proporcionada a sus fuerzas»; como dice Séneca: «hay que buscar que lo que soporta sea más fuerte que lo soportado»; el hombre es una criatura que está aún bajo la noción de cantidad, porque no había idea de creación.»
Recobra su interioridad. Si observamos a los estoicos, con qué cautela hablan del «ánimo», como de un enfermo crónico al que hay que acallar y dormir! En el estoicismo, que tanta vigilia exige, por otra parte, hay un cuidado de mantener quieto y aun dormido algo terrible. Porque esta interioridad no tiene medida; si en ella se encuentra la verdad, también ese punto que la refleja en algún modo tiene que participar de su infinitud. Y así és: ser persona cristiana es ser infinito y sin medida; ser individuo estoico es tener una medida, es estar sujeto a un limite. El estoico toma de la vida la «carga proporcionada a sus fuerzas»; como dice Séneca: «hay que buscar que lo que soporta sea más fuerte que lo soportado»; el hombre es una criatura que está aún bajo la noción de cantidad, porque no había idea de creación.»
María Zambrano, La Agonía de Europa
451
«Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, com, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
»Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.»
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
»Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.»
Fernando Pessoa / Bernardo Soares, Livro do Desassossego
V. Entrada do Dr. Quaresma
«O que caracteriza o assassino, disse o dr. Quaresma, é um excesso de vida interior que não permanece interior. É terrível virarmo-nos do avesso... Todos nós somos assassinos latentes, mas, felizmente, não passamos de latentes... O homem que mata está em todos nós, mas, felizmente, amortecido. Somos todos assassinos que dormem...»
Fernando Pessoa, Quaresma o Decifrador
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
La Rima Facile, La Vita Difficile
La mia vita si appanna, e poi che piove
scelgo il passaggio sotto il tunnel dove
tutto è molliccio, ma però non piove.
Qui tra la gente solita, che muove
il passo verso le solite cose
anch'io mi muovo tra cose non nuove.
Più comune degli altri, non so dove
muove il mio passo stanco, che non vuole
tale apparire a se stesso ed altrove.
Quando a un tratto uno sguardo che sa dove
del mio corpo dirigersi e non vuole
mi sveglia in un baleno - ed è già altrove.
Invano io lo ricerco entro un antico
universo che mi era un giorno amico.
Quando più non pensavo a questa cosa
rintronò sotto il tunnel una gioiosa
voce che sovrastava ogni altra cosa.
Era un saluto postumo e lontano
postumo nel mio cuore, non lontano
nel tunnel più di un breve tratto umano.
scelgo il passaggio sotto il tunnel dove
tutto è molliccio, ma però non piove.
Qui tra la gente solita, che muove
il passo verso le solite cose
anch'io mi muovo tra cose non nuove.
Più comune degli altri, non so dove
muove il mio passo stanco, che non vuole
tale apparire a se stesso ed altrove.
Quando a un tratto uno sguardo che sa dove
del mio corpo dirigersi e non vuole
mi sveglia in un baleno - ed è già altrove.
Invano io lo ricerco entro un antico
universo che mi era un giorno amico.
Quando più non pensavo a questa cosa
rintronò sotto il tunnel una gioiosa
voce che sovrastava ogni altra cosa.
Era un saluto postumo e lontano
postumo nel mio cuore, non lontano
nel tunnel più di un breve tratto umano.
Sandro Penna, Poesie Inedite (1927-1955)
De Babel sobre os rios nos sentamos,
De Babel sobre os rios nos sentamos,
De nossa doce Pátria desterrados,
As mãos na face, os olhos derrubados,
Com saudades de ti, Sião, choramos.
Os órgãos nos salgueiros penduramos,
Em outro tempo bem de nós tocados;
Outro era ele, por certo, outros cuidados;
Mas por deixar saudades os deixamos.
Aqueles que cativos nos traziam
Por cantigas alegres perguntavam:
- Cantai - nos dizem - hinos de Sião.
Sobre tal pena, pena tal nos dão,
Pois tiranicamente pretendiam
Que cantassem aquele que choravam.
Luís de Camões
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Da Índia
«Calisto de Sequeira se veio cá mais humanamente, porque assi o prometeu em ua tormenta grande em que se viu. Mas um Manuel Serrão, que, sicut et nos, manqueja de um olho, se tem cá provado arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras de que ele fez desdezer a um soldado, o qual, pela postura de sua pessoa era cá tido em boa conta.
Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a ua carta como marinheiros à festa de S. Frei Pêro Gonçalves, sabei que as Portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscão; respondem-vos ua linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de ua dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora antre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.»
Se das damas da terra quereis novas, as quais são obrigatórias a ua carta como marinheiros à festa de S. Frei Pêro Gonçalves, sabei que as Portuguesas todas caem de maduras, que não há cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quiserem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? Além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe faleis alguns amores de Petrarca ou de Boscão; respondem-vos ua linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgai, Senhor, o que sentirá um estômago costumado a resistir às falsidades de um rostinho de tauxia de ua dama lisbonense, que chia como pucarinho novo com a água, vendo-se agora antre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mim, que às mulheres dessa terra digais de minha parte que, se querem absolutamente ter alçada com baraço e pregão, que não receiem seis meses de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e pálio, revestido em pontifical, aonde estoutras senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediência, a que por sua muita idade são já obrigadas.»
Luís de Camões, Cartas
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
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