Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Tapestry
It is difficult to separate the tapestry
From the room or loom which takes precedence over it.
For it must always be frontal and yet to one inside.
It insists on this picture of "history"
In the making, because there is no way out of the punishment
It proposes: sight blinded by sunlight.
The seeing taken in with what is seen
In an explosion of sudden awareness of its formal splendor.
The eyesight, seen as inner,
Registers over the impact of itself
Receiving phenomena, and in so doing
Draws an outline, or a blueprint,
Of what was just there: dead on the line.
If it has the form of a blanket, that is because
We are eager, all the same, to be wound in it:
This must be the good of not experiencing it.
But in some other life, which the blanket depicts anyway,
The citizens hold sweet commerce with one another
And pinch the fruit unpestered, as they will,
As words go crying after themselves, leaving the dream
Upended in a puddle somewhere
As though "dead" were just another adjective.
From the room or loom which takes precedence over it.
For it must always be frontal and yet to one inside.
It insists on this picture of "history"
In the making, because there is no way out of the punishment
It proposes: sight blinded by sunlight.
The seeing taken in with what is seen
In an explosion of sudden awareness of its formal splendor.
The eyesight, seen as inner,
Registers over the impact of itself
Receiving phenomena, and in so doing
Draws an outline, or a blueprint,
Of what was just there: dead on the line.
If it has the form of a blanket, that is because
We are eager, all the same, to be wound in it:
This must be the good of not experiencing it.
But in some other life, which the blanket depicts anyway,
The citizens hold sweet commerce with one another
And pinch the fruit unpestered, as they will,
As words go crying after themselves, leaving the dream
Upended in a puddle somewhere
As though "dead" were just another adjective.
John Ashbery
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Amour
«Quant à son fameux érotisme, il agit comme un condamné qui vieillit en prison et se tatoue sur le corps, frénétiquement, des images voluptueuses; ou bien il se perd au milieu des morts, il se dissout parmi les épitaphes: tombeau d'Eurion, tombeau de Lanis, tombeau d'Iasis, tombeau d'Ignatios, tombeau du grammairien Lysias; Leucios, Ammon, Myris, Marylos et tant d'autres. Tant de morts, et d'une telle présence que nous ne pouvons les distinguer de l'homme que nous avons vu, au passage, se tenir à l'entrée du café, s'asseoir à la table d'un casino ou travailler dans l'atelier du forgeron. L'amour qui n'est que vanité, l'amour stérile, ne peut laisser derrière lui qu'une statuette funéraire, spécifiquement belle, et un complet cannelle très fané, tragiquement vivant, que l'on croirait tombé de la valise du temps.
Voilà l'univers de Cavafy.»
Voilà l'univers de Cavafy.»
Georges Séféris, Cavafy et Eliot, un parallèle essai de Georges Séféris, aux éditions fata morgana
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Georges Séféris,
Konstandinos Kavafis
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
VI
Fujo da palavra sem timbre
Da expressão sem tom,
Da língua turva, do enunciado impuro,
Onde as arcadas do violoncelo choram.
Exaustos os rapsódicos rios de leones,
Fundo o murmúrio fluvial da estrofe,
Ouvindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas.
Da expressão sem tom,
Da língua turva, do enunciado impuro,
Onde as arcadas do violoncelo choram.
Exaustos os rapsódicos rios de leones,
Fundo o murmúrio fluvial da estrofe,
Ouvindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas.
M. S. Lourenço, Nada Brahma
domingo, 28 de agosto de 2011
Lendo «Hamlet»
I
No cemitério, à direita, encheu-se de poeira a campa,
e atrás dela brotou um rio azul.
E disseste-me: «Então,
vai para um convento
ou casa-te com um idiota...»
Só os príncipes falam sempre assim,
mas eu recordo essas palavras, -
deixa que elas corram cem séculos seguidos
como um manto de arminho dos meus ombros.
II
E como por engano
eu disse: «Tu...»
Iluminou-se a sombra com os suaves
traços de um sorriso.
De semelhantes deslizes da língua
toda a gente fica a olhar...
E amo-te, como quarenta
meigas irmãs.
No cemitério, à direita, encheu-se de poeira a campa,
e atrás dela brotou um rio azul.
E disseste-me: «Então,
vai para um convento
ou casa-te com um idiota...»
Só os príncipes falam sempre assim,
mas eu recordo essas palavras, -
deixa que elas corram cem séculos seguidos
como um manto de arminho dos meus ombros.
II
E como por engano
eu disse: «Tu...»
Iluminou-se a sombra com os suaves
traços de um sorriso.
De semelhantes deslizes da língua
toda a gente fica a olhar...
E amo-te, como quarenta
meigas irmãs.
Anna Akhmátova
sábado, 27 de agosto de 2011
Não compares: o vivente é incomparável
Não compares: o vivente é incomparável.
Com que terno pavor se aceita
das planícies a uniformidade
e o arco do céu como doença.
Dele esperando notícia ou serviço,
ao ar submisso apelei, o percurso
compus, e naveguei pelo arco
das viagens que não têm começo.
Onde tenho mais céu é que vagueio,
mas ir de Vorónej, a dos cerros novos,
para os montes toscanos de todos os homens,
impede-mo esta angústia clara.
18 de Janeiro de 1937
Com que terno pavor se aceita
das planícies a uniformidade
e o arco do céu como doença.
Dele esperando notícia ou serviço,
ao ar submisso apelei, o percurso
compus, e naveguei pelo arco
das viagens que não têm começo.
Onde tenho mais céu é que vagueio,
mas ir de Vorónej, a dos cerros novos,
para os montes toscanos de todos os homens,
impede-mo esta angústia clara.
18 de Janeiro de 1937
Óssip Mandelstam, Fogo Errante, antologia poética
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Carta da Corcunda ao Serralheiro
Senhor António:
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das
Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
(…)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado
para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou a chorar.
Maria José
-
Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa, Lisboa, Estampa, 1990
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Il n'y a jamais eu rien de cela ni des ans qui suivirent
Il n'y a jamais eu rien de cela ni des ans qui suivirent
Je vou dis que nous sommes morts dans nos vêtements de soldats
Le monde comme une voiture a versé coulé comme un navire
Versailles Entre vous partagez vos apparences d'empires
Compagnons infernaux nous savons à la fois souffrir et rire
Il n'y a jamais eu ni la paix ni le Mouvement Dada
Je vou dis que nous sommes morts dans nos vêtements de soldats
Le monde comme une voiture a versé coulé comme un navire
Versailles Entre vous partagez vos apparences d'empires
Compagnons infernaux nous savons à la fois souffrir et rire
Il n'y a jamais eu ni la paix ni le Mouvement Dada
Louis Aragon, Le Roman inachevé
Je tombe je tombe je tombe
Je tombe je tombe je tombe
Avant d'arriver à ma tombe
Je repasse toute ma vie
Il suffit d'une ou deux secondes
Que dans ma tête tout un monde
Défile tel que je le vis
Ses images sous mes paupières
Font comme au fond d'un puits les pierres
Dilatant l'iris noir de l'eau
C'est tout le passé que s'émiette
Un souvenir sur l'autre empiète
Et les soleils sur les sanglots
O pluie O poussière impalpable
Existence couleur de sable
Brouillard des respirations
Quel choix préside à mon vertige
Je tombe et fuis dans ce prodige
Ma propre accélération
Avant d'arriver à ma tombe
Je repasse toute ma vie
Il suffit d'une ou deux secondes
Que dans ma tête tout un monde
Défile tel que je le vis
Ses images sous mes paupières
Font comme au fond d'un puits les pierres
Dilatant l'iris noir de l'eau
C'est tout le passé que s'émiette
Un souvenir sur l'autre empiète
Et les soleils sur les sanglots
O pluie O poussière impalpable
Existence couleur de sable
Brouillard des respirations
Quel choix préside à mon vertige
Je tombe et fuis dans ce prodige
Ma propre accélération
Louis Aragon, Le Roman inachevé
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Alma e espírito
«Na natureza, é a Ideia que, como vimos já ao falar do belo natural, encontra a sua primeira realização imediata na vida animal e no organismo animal perfeito. Deste modo a organização do corpo animal é um produto do conceito total em ai que é nesta «existência» corporal enquanto alma, modificando no sentido da maior particularização o que, no corpo animal, não é senão vitalidade pura e simples, quer dizer criando tipos dos quais cada um permanece aliás regido pelo conceito. Todavia é à filosofia da natureza que compete procurar e precisar a correspondência existente entre o corpo e a alma. Ela é que deveria mostrar que os diferentes sistemas do corpo animal, pela sua estrutura, pela sua forma, e pelos laços que os unem aos outros, assim como os órgãos mais particulares de que se compõe o organismo, correspondem igualmente a momentos de conceito: ao fazer isto, mostraria ao mesmo tempo se e em que medida são os aspectos necessários e particulares da alma que aqui se realizam.
Mas a figura humana não é somente, como a figura animal, a corporeidade da alma; é também a do espírito. Ora entre a alma e o espírito existe uma diferença essencial. Com efeito, a alma não é senão o ser por si, simples e ideal, do corporal enquanto corporal, ao passo que o espírito é o ser por si da vida consciente de si própria em particular, com todos os sentimentos, representações e afins que comporta e implica esta exigência consciente. Dada esta enorme diferença entre a vitalidade puramente animal e a consciência espiritual, pode parecer estranho que a corporeidade humana, o corpo humano, tenha uma tal analogia com o corpo animal. Àqueles a quem esta parecença surpreenda, responderei lembrando a determinação em virtude da qual o espírito, para permanecer conforme ao seu próprio conceito, se deixa decidir e afirmar de uma maneira viva sob o aspecto ao mesmo tempo de uma obra e de uma existência natural. Em virtude do conceito inerente à alma animal, à espiritualidade, enquanto alma vivente, damos um corpo que, pelas suas propriedades gerais, se pareça ao organismo animal vivente. O espírito, por mais que esteja acima do que é simplesmente vivente, não se imagina menos um corpo que parece derivar do mesmo conceito que o corpo animal e ser organizado como ele. Mas, visto que o espírito não é somente a ideia na sua existência, a ideia enquanto naturalidade e vida animal, mas a ideia que está de tal modo no próprio elemento, o da livre interioridade, a espiritualidade elabora a sua própria objectividade que se encontra para além da vida puramente sensível: é a ciência que não conhece outra realidade que a do pensamento. Fora do pensamento e da sua actividade filosófica e sistemática, o espírito vive ainda de uma vida completa que é a dos sentimentos, das inclinações, das representações, da imaginação, etc., e que, se ligam mais ou menos à sua existência enquanto alma e corpo, e possui a sua realidade no corpo humano. É nesta realidade que lhe pertence que o espírito se manifesta de uma forma vivente, penetrando-a e impondo-se aos outros. Consequentemente o corpo humano não é um simples objecto natural, mas tem por função representar por assim dizer, através das suas formas e da sua estrutura, a vida sensível e natural do espírito, mesmo distinguindo-se, enquanto expressão, de uma interioridade de uma qualidade mais elevada, da corporeidade animal, não obstante a parecença desta com o corpo humano.»
Mas a figura humana não é somente, como a figura animal, a corporeidade da alma; é também a do espírito. Ora entre a alma e o espírito existe uma diferença essencial. Com efeito, a alma não é senão o ser por si, simples e ideal, do corporal enquanto corporal, ao passo que o espírito é o ser por si da vida consciente de si própria em particular, com todos os sentimentos, representações e afins que comporta e implica esta exigência consciente. Dada esta enorme diferença entre a vitalidade puramente animal e a consciência espiritual, pode parecer estranho que a corporeidade humana, o corpo humano, tenha uma tal analogia com o corpo animal. Àqueles a quem esta parecença surpreenda, responderei lembrando a determinação em virtude da qual o espírito, para permanecer conforme ao seu próprio conceito, se deixa decidir e afirmar de uma maneira viva sob o aspecto ao mesmo tempo de uma obra e de uma existência natural. Em virtude do conceito inerente à alma animal, à espiritualidade, enquanto alma vivente, damos um corpo que, pelas suas propriedades gerais, se pareça ao organismo animal vivente. O espírito, por mais que esteja acima do que é simplesmente vivente, não se imagina menos um corpo que parece derivar do mesmo conceito que o corpo animal e ser organizado como ele. Mas, visto que o espírito não é somente a ideia na sua existência, a ideia enquanto naturalidade e vida animal, mas a ideia que está de tal modo no próprio elemento, o da livre interioridade, a espiritualidade elabora a sua própria objectividade que se encontra para além da vida puramente sensível: é a ciência que não conhece outra realidade que a do pensamento. Fora do pensamento e da sua actividade filosófica e sistemática, o espírito vive ainda de uma vida completa que é a dos sentimentos, das inclinações, das representações, da imaginação, etc., e que, se ligam mais ou menos à sua existência enquanto alma e corpo, e possui a sua realidade no corpo humano. É nesta realidade que lhe pertence que o espírito se manifesta de uma forma vivente, penetrando-a e impondo-se aos outros. Consequentemente o corpo humano não é um simples objecto natural, mas tem por função representar por assim dizer, através das suas formas e da sua estrutura, a vida sensível e natural do espírito, mesmo distinguindo-se, enquanto expressão, de uma interioridade de uma qualidade mais elevada, da corporeidade animal, não obstante a parecença desta com o corpo humano.»
G. W. F. Hegel, Estética
Induvidui e masse
«Dopo aver fermato la mente sopra un concetto di Vico e di Hegel, è mai possibile acconciarsi ad esaminare gli altri che danno materia alle controversie degli storici e metodologisti della storia dei nostri tempi, e che sono la forma volgare, in termini naturalistici e perciò insolubile, dei problemi circa la relazione tra l'individuo e l'idea, tra la storia prammatica e la storia idealistica? Forse questa pazienza dello scendere in basso loco è meritoria e doverosa, e forse qualcosa di utile c'è da trarre anche dall'esame di quelle comuni controversie; ma io mi scuso dal prendere l'impegno, e mi restringo al solo accenno: che la questione, che da un pezzo si agita, se la storia sia storia delle «masse» o degli «individui», sarebbe risibile nella sua stessa enunciazione, se per «massa» s'intendesse, come suona la parola, un complesso d'individui. E poiché non è buon metodo attribuire agli avversari idee risibili, sarà da credere che per «massa» s'intenda, questa volta, qualcos'altro: per esempio, lo «spirito», che muove la massa degli individui; nel qual caso non è chi non veda che il problema è il medesimo di quello finora esaminato. Il contrasto tra una storiografia «collettivistica» e una storiografia «individualistica» non si comporrà mai, fintanto che gli uni assegneranno alla collettività il potere creatore delle idee e delle istituzioni, e gli altri all'individuo geniale, essendo entrambe le affermazioni vere in ciò che includono e false in ciò che escluono, e cioè non solo nell'esclusione espressa dell'opposto enuciato, ma anche in quella tacita, che entrambe esse fanno, della totalità come idea.»
Benedetto Croce, Teoria e storia della storiografia
IV
There are those who would build the Temple,
And those who prefer that the Temple should not be built.
In the days of Nehemiah the Prophet
There was no exception to the general rule.
In Shushan the palace,in the month Nisan,
He served the wine to the king Artaxerxes,
And he grieved for the broken city, Jerusalem;
And the King gave him leave to depart
That he might rebuild the city.
So he went, with a few, to Jerusalem,
And there, by the dragon's well, by the dung gate,
By the fountain gate, by the king's pool,
Jerusalem lay waste, consumed with fire;
No place for a beast to pass.
There were enemies without to destroy him,
And spies and self-seekers within,
When he and his men laid their hands to rebuilding the wall
So they built as men must build
With the sword in one hand and the trowel in the other.
And those who prefer that the Temple should not be built.
In the days of Nehemiah the Prophet
There was no exception to the general rule.
In Shushan the palace,in the month Nisan,
He served the wine to the king Artaxerxes,
And he grieved for the broken city, Jerusalem;
And the King gave him leave to depart
That he might rebuild the city.
So he went, with a few, to Jerusalem,
And there, by the dragon's well, by the dung gate,
By the fountain gate, by the king's pool,
Jerusalem lay waste, consumed with fire;
No place for a beast to pass.
There were enemies without to destroy him,
And spies and self-seekers within,
When he and his men laid their hands to rebuilding the wall
So they built as men must build
With the sword in one hand and the trowel in the other.
T. S. Eliot, Choruses from 'The Rock' - 1934
domingo, 21 de agosto de 2011
XXII
Quem na sua vida é íntegro e inocente,
de mouros dardos e arco não precisa,
Fusco, nem de uma aljava cheia
de setas envenenadas,
quer se prepare para viajar pelas ardentes Sirtes,
quer pelo inospitaleiro Cáucaso,
quer pelos locais banhados
pelo lendário Hidaspes.
Pois enquanto eu num bosque sabino
a minha Lálage cantava, vagueando
em sossego já longe de minha casa,
de mim, desarmado, fugiu um lobo:
um monstro tal como nunca a belígera Dáunia
nos seus vastos carvalhais alimentou,
como nunca a terra de Juba engendrou,
árida nutriz de leões.
Põe-me numa sáfara planície,
onde a brisa estival nenhuma árvore revigora,
numa região do mundo oprimida
pelas nuvens e por um funesto Júpiter,
põe-me sob o carro do sol, onde ele rasante voa,
ou numa terra que se recusa a ser habitada,
ainda assim Lálage amarei, a que docemente ri,
a que docemente fala.
de mouros dardos e arco não precisa,
Fusco, nem de uma aljava cheia
de setas envenenadas,
quer se prepare para viajar pelas ardentes Sirtes,
quer pelo inospitaleiro Cáucaso,
quer pelos locais banhados
pelo lendário Hidaspes.
Pois enquanto eu num bosque sabino
a minha Lálage cantava, vagueando
em sossego já longe de minha casa,
de mim, desarmado, fugiu um lobo:
um monstro tal como nunca a belígera Dáunia
nos seus vastos carvalhais alimentou,
como nunca a terra de Juba engendrou,
árida nutriz de leões.
Põe-me numa sáfara planície,
onde a brisa estival nenhuma árvore revigora,
numa região do mundo oprimida
pelas nuvens e por um funesto Júpiter,
põe-me sob o carro do sol, onde ele rasante voa,
ou numa terra que se recusa a ser habitada,
ainda assim Lálage amarei, a que docemente ri,
a que docemente fala.
Horácio, Odes, I, 22
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