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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Mais do mesmo

«O chico-espertismo não é, pois, um traço psicológico, um aspecto do carácter do português. Como vimos, constitui um espírito e uma prática que se situa no cruzamento das técnicas do «cuidar de si», enquanto processo de subjectivação, e as tecnologias do poder. O chico-esperto não é o mentiroso, o corrupto que se coloca claramente fora da lei. Pelo contrário, aproveita um espaço não-preenchido pela lei para cometer um acto quase legal, mesmo quando implica pequenas transgressões das normas jurídicas. Que faz o chico-esperto? Age por pequenas sequências, por pequenos troços de acção, para obter pequenos resultados - que se revelam, muitas vezes, nulos. Mas julga que, somando os pequenos resultados, obtém um ganho final apreciável. O chico-esperto infringe a lei como se estivesse a cumpri-la, como se fosse uma boa partida sem consequências de maior. Porquê? Porque, no fundo, a pequena transgressão que comete não faz dele um criminoso, apenas um «malandreco». À acusação que o pode tornar um alvo da autoridade porque cometeu um delito opõe-se a força da conivência dos costumes, do «direito consuetudinário» que se formou na cabeça dos nossos compatriotas e que aprova secretamente o chico-espertismo. «Direito» imaginário de tal maneira poderoso, que, «no fundo», quem não aprova aquele gestor que quis salvar o dinheiro das fraudes de que foi o autor, pondo-o na conta da mulher? O chico-espertismo, por ser tão generalizado e penetrar tantos domínios, desliza facilmente para a corrupção e para a acção criminosa.

José Gil, Em Busca da Identidade - o desnorte

Chico-esperto

«O chico-espertismo atravessa todo o tipo de subjectividade da nossa sociedade, sendo transversal a todas as classes, grupos, géneros, gerações. Na educação popular usa-se habitualmente um epíteto carinhoso para «provocar» ou «espicaçar» uma criança: «malandro» (ou «maroto»), «malandrete», etc. Epíteto formador, porque carinhoso e incentivador da acção que, ao mesmo tempo, se critica a brincar. Os ingrdientes do futuro chico-espertismo estão já aí. A um garoto (mesmo a um bebé) lança-se um «seu malandro!» quando se atribui malícia, dupla intenção de fingir não enganar e enganar para obter um fim sem relação visível com as suas palavras ou acções - e assim se inscreve na criança um padrão indelével de comportamento e de relação ao outro.»

José Gil, Em Busca da Identidade - o desnorte

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Te Deum

Rousseau






Já adulto, Emílio, o personagem de
Rousseau, ouve prelecção sobre a natureza:
religião natural. Ilustração: Acervo da
Fundação Biblioteca Nacional - Brasil

Devaneios

«O amontoado de tantas circunstâncias fortuitas, a ascensão de todos os meus cruéis inimigos, determinada por assim dizer pela fortuna, por todos os que governam o Estado, todos os que dirigem a opinião pública, todas as pessoas importantes, todos os homens com crédito, escolhidos com muito cuidado entre aqueles que sentem por mim alguma animosidade secreta, para participarem na conspiração comum, constituíam acordo universal demasiado extraordinário para ser meramente fortuito. Um só homem que se recusasse a ser cúmplice, um só acontecimento que lhe fosse contrário, uma só circunstância imprevista que constituísse um obstáculo, bastariam para que tal conspiração falhasse. Todas as vontades, porém, todas as fatalidades, o destino e todas as revoluções fortaleceram a obra dos homens, e um concurso de circunstâncias tão impressionante que tem algo de prodigioso não me permite duvidar que o seu êxito total esteja escrito nos decretos eternos. Inúmeras observações particulares, quer passadas, quer presentes, confirmam a tal ponto esta minha opinião que, a partir de agora, não posso deixar de encarar como um desses segredos do Céu, impenetráveis à razão humana, essa obra que até agora considerava apenas fruto da maldade dos homens.
Esta ideia, longe de ser cruel e pungente para mim, consola-me, tranquiliza-me, e ajuda-me a resignar-me. Não vou tão longe como foi Santo Agostinho, que se consolaria com a condenação, se esse fosse a vontade de Deus. A minha resignação provém, é certo, de uma fonte menos desinteressada, mas não menos pura e mais digna, na minha opinião, so Ser perfeito que adoro. Deus é justo; quer que eu sofra, e sabe que estou inocente. É esse o motivo da minha confiança; o meu coração e a minha razão dizem-me que ela não me enganará. Deixemos, pois, agir os homens e o destino; aprendamos a sofrer sem um murmúrio; no fim, tudo deve reentrar na ordem e a minha vez chegará, mais cedo ou mais tarde.»

Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Noite Passada

Liberdade

«Infelizmente para o bom senso das pessoas, o facto de serem falíveis está longe de ter o peso no seu juízo prático que lhe é sempre concedido teoricamente; pois ainda que cada um saiba muito bem que é falível, poucos acham necessário tomar quaisquer precauções contra a sua própria fiabilidade, ou aceitar a hipótese de que qualquer opinião de que tenham muita certeza possa constituir um dos exemplos de erro a que reconhecem estar sujeitos. Príncipes absolutos, ou outros que estão habituados a deferência ilimitada, sentem geralmente esta confiança plena nas suas próprias opiniões em relação a quase todos os assuntos. Pessoas mais afortunadamente colocadas, que por vezes ouvem as suas opiniões ser disputadas, e não estão completamente desabituadas de ser corrigidas quando não têm razão, colocam a mesma confiança ilimitada apenas nas opiniões que partilham com todos os que os rodeiam, ou com aqueles a quem estão habituados a submeter-se: pois a falta de confiança de uma pessoa no seu juízo solitário é proporcional à confiança implícita que coloca na infalibilidade do «mundo» em geral. E, para cada indivíduo, o mundo é aquela parte do mundo com a qualele entra em contacto; o seu partido, a sua seita, a sua igreja, a sua classe social: quase pode dizer-se que a pessoa para o qual o mundo é algo tão abrangente como o seu próprio país ou a sua própria época e, por comparação, liberal e tem vistas largas. E a sua confiança nesta autoridade colectiva não é de modo algum abalada por ter consciência de que outras eras, países, seitas, igrejas, grupos e partidos pensaram, e mesmo agora pensam, de modo exactamente oposto.»

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade

A Confiança em Si

«Em toda a parte, a sociedade conspira contra a virilidade de cada um dos seus membros. É uma empresa de capital social cujos membros se põem de acordo para retirar liberdade e cultura àquele que come, a fim de melhor garantirem o pão quotidiano de cada um dos seus accionistas. A virtude mais estimada é o conformismo. A sociedade só sente aversão pela autoconfiança. Não gosta de realidades nem de criadores, mas de nomes e costumes..
Quem desejar ser um homem terá de ser um inconformista. Quem desejar colher louros imortais não deve ser impedido em nome da bondade, mas deverá indagar se isso é verdadeiramente bondade. Nada, em definitivo, é sagrado, a não ser a integridade da nossa própria mente. Absolveis-vos a vós próprios e recebereis so sufrágios do mundo. Lembro-me de uma resposta que a minha juventude me incitou a dar a um estimável conselheiro que tinha o hábito de me importunar com as boas velhas doutrinas da Igreja. Quando lhe disse: «Que quer que faça da sacralidade das tradições, se vivo plenamente no interior de mim mesmo?», o meu amigo sugeriu-me: «E se esses impulsos vierem de um plano inferior e não superior?» Então respondi-lhe: «Não me parece, mas se eu for filho do Demónio, pois bem, viverei de acordo com ele.» Para mim, nenhuma lei pode ser sagrada, a não ser a lei da minha própria natureza.»

Ralph Waldo Emerson, A Confiança em Si, a Natureza e Outros Ensaios

sábado, 27 de novembro de 2010

Reverso


Velazquez, Las Niñas

O Jogo do Reverso

«Quando Maria do Carmo Meneses de Sequeira morreu, estava eu a olhar para Las Meninas de Velasquez no museu do Prado. Era um meio dia de Julho e eu não sabia que ela estava a morrer. Fiquei a olhar para o quadro até às doze e um quarto, depois saí devagar procurando levar na memória a expressão da figura do fundo, lembro-me de ter pensado nas palavras de Maria do Carmo, a chave do quadro está na figura do fundo: é um jogo do reverso; atravessei o jardim e apanhei o autocarro até à Puerta del Sol, almocei no hotel, um gazpacho bem frio e fruta, e voltei à penumbra do meu quarto para fugir ao calor. Acordou-me o telefone por volta das cinco, ou talvez não, estava numa estranha sonolência, lá fora havia o rumor do trânsito da cidade e no quarto o do aparelho de ar condicionado que, porém, na minha consciência era o motor de um pequeno rebocador azul que atravessa a foz do Tejo à tardinha, enquanto eu e Maria do Carmo o seguíamos com o olhar. É uma chamada de Lisboa, disse-me a voz da telefonista, depois ouvi a pequena descarga eléctrica do comutador e uma voz de homem, neutra e baixa, perguntou o meu nome e depois disse sou Nuno Meneses Sequeira, Maria do Carmo morreu ao meio dia, o enterro é amanhã às cinco da tarde, telefono-lhe por sua vontade expressa. O telefone fez clic e eu disse está está, Senhor Doutor desligaram, disse a telefonista, a comunicação interrompeu-se.»

Antonio Tabucchi, O Jogo do Reverso

Identidade

`«É o desassossego que faz devir as subjectividades, que abre o futuro e a dinâmica do presente. A nossa superidentidade omnipresente que povoa cada uma das nossas acções e sonhos fecha os egos dentro de fronteiras tanto mais difíceis de transpor quanto elas são também mentais; mas, sobretudo, fecha-os em sim mesmos, oferecendo-lhes uma aparência de auto-suficiência e autonomia que torna todo o elemento exterior neutro e indiferente.»

José Gil, «A Subjectividade Perdida», in Em Busca da Identidade, o Desnorte

Máximas e Interlúdios

«Se se tiver carácter tem-se também uma vivência típica e própria que sempre se repete.»

Nietzsche, Para Além de Bem e Mal

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Diogenes



J.H.W. Tischbein (1780). Diogenes searches for an honest man

Destino e Carácter

«Não só é impossível, em qualquer caso, dizer o que, afinal, deve ser visto como função do carácter ou como função do destino na vida de uma pessoa (isto não teria aqui qualquer significado se ambos, por exemplo, se interpenetrassem apenas na experiência), como também o exterior que o homem activo encontra pode remeter, numa escala quase sem limite, para o seu interior, e este para o seu exterior, na mesma escala e por princípio, ou mesmo ser tomado essencialmente por esse exterior. Deste ponto de vista, o carácter e o destino, longe de se separarem teoricamente, acabam por coincidir. É o que Nietzsche tem em mente ao escrever: «Quando alguém tem carácter, há sempre alguma sua vivência que se torna recorrente». Ou seja: quando alguém tem carácter, o seu destino é, no essencial, constante. O que, por outro lado, pode também significar: não tem destino (esta foi a conclusão a que chegaram os estóicos).

(...)A sorte parece ser antes aquilo que liberta quem a tem da cadeia dos destinos e da rede do seu próprio destino. Não é por acaso que Holderlin diz que os deuses bem-aventurados «escapam ao destino». Também a sorte e a bem-aventurança, portanto, fogem à esfera do destino, tal como a inocência.

(...) O destino revela-se, portanto, na observação de uma vida como algo de condenado, no fundo como algo que começou por ser condenado para depois ser culpado. Goethe resumiu estas duas fases nas palavras: «Vós fazeis dos pobres culpados.» O Direito não condena à punição, mas à culpa.

(...) Existe então um conceito de presente - e é o autêntico, o único, que se aplica da mesma maneira ao destino na tragédia e às intenções da cartomante - totalmente independente do do carácter, e que busca o seu fundamento numa esfera completamente diferente.

(...) ... é preciso mostrar à moral que nunca são as qualidades que são moralmente importantes, mas sim as acções.

(...) Já a visão do carácter é libertadora sob todas as formas: está ligada à liberdade (de uma forma que não pode aqui ser demonstrada) pela via da sua afinidade com a lógica.
O traço de carácter não é, portanto, o nó na rede. É o sol do indivíduo no céu descorado (anónimo) do ser humano, que projecta a sombra da acção cómica. É isto que reconduz ao seu verdadeiro contexto a profunda consideração de Cohen segundo a qual toda a acção trágica, por mais sublime que seja nos seus coturnos, projecta uma sombra cómica.»

Walter Benjamin, O Anjo da História

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Blade Runner

More Human Than Human

Imagine-se que a humanidade sente estar a perder a capacidade de se auto-regular, que fenómenos como o efeito de estufa ou a superpopulação das cidades terão atingido proporções dramáticas. Imagine-se depois que, por um acaso, a tecnologia mais avançada não terá sido capaz de evitar uma catástrofe nuclear.
Somos levados a pensar, perante um cenário tão aterrador, que a sociedade do bem-estar tem os dias contados. Será que o podemos afirmar? Será que podemos colocar o problema desta maneira?
Ao rever Blade Runner, o filme de Ridley Scot, fui de novo assaltado por uma necessidade vital de encontrar um sentido, um enquadramento actualizado das circunstâncias que ali são projectadas no futuro.
Desde logo me pareceu ser este o caminho a seguir já que, se não procedesse deste modo, correria o risco de apresentar simplesmente um plano de ocorrências susceptìvel de conduzir a minha análise para os dominios da mera previsão especulativa.

No prefácio a O Inumano (1), intitulado “Do Humano”, Jean-François Lyotard parece afirmar a dicotomia criança/adulto como exemplo de uma outra de carácter mais totalizador: a de humano/inumano. A este respeito afirma: “Desprovida da palavra, incapaz da paragem certa, hesitante quanto aos objectivos do seu interesse, inapta no cálculo dos seus benef’ícios, insensível à razão comum, a criança é eminentemente humana, pois a sua aflição anuncia e promete os possíveis”.
Rachel (a protagonista feminina), tal como os demais replicantes, “teria nascido“ adulta. Assim sendo, por não ter conhecido a infância, jamais poderá ser enquadrada na categoria de humano, pois dela não terá tido senão informações indirectas, produzidas através do contacto com o seu criador. Mas será isto assim tão linear? Parece-me que não. Vejamos: no filme, Rachel é apresentada como uma replicante especial a quem foi feito o implante da memória de uma sobrinha do seu criador. Partindo desse facto, a personagem percorre um trajecto sinuoso de justificação de si mesma, que se revela como elemento importante na sua auto-defesa.
Ao procurar no interior do corpo (aparelho) que lhe foi fornecido uma infância vivida num outro corpo, não estará ela a assumir o papel da criança que se interroga a si e aos adultos? E nessa medida, enquanto agente de um processo interior, efectuado em sentido inverso, não estará ela a ser “more human than human”, como afirma o Dr. Tyrrel? Irónicamente somos levados a concordar que (pelo menos) Rachel acaba por se revelar “mais humana do que o que é humano”, pelo menos no sentido que Lyotard parece querer atribuir à palavra “humano”.
Os replicantes, cada um à sua maneira, parecem querer encontar a resposta para o seu problema fundamental: a ausência de um sentido para além daquele para que terão sido criados. Em certo sentido criador e criatura parecem relacionar-se intimamente. Enquanto que à superfície desempenham papeis diferentes, para uns e outros existe um lugar em que os seus papéis se cruzam: o da necessidade de encontrar um prolongamento espacio-temporal das suas existências.
O filme apresenta-nos um mundo onde a tecnologia ocupa um lugar determinante, uma função primordial na preparação de outros mundos. A certa altura aquele mundo que nos é apresentado é um lugar sem tempo, onde o que se joga é a mera subrevivência. É aqui que os replicantes, através dos seus procedimentos, se apresentam como extensão dos seus criadores.
Ao serem criados, os replicantes desconhecem o seu tempo de duração. Contudo, são equipados com inteligência, com capacidade de pensar e sentir. Para serem perfeitos (numa dimensão genesíaca do termo) apenas lhes falta atingir a imortalidade. A sua luta, a sua revolta advém não apenas dessa circunstância mas também do facto de desconhecerem a sua durabilidade. Assim sendo, considero que o tempo se mostra em duas domensões distintas: a de um registo fotográfico, enquanto corte, momento de intersecção entre um antes e um depois (a este respeito considero pertinente o facto de quase todas as acções decorrerem de noite, circunstância que, de algum modo, condiciona a ideia de sucessão); e a de uma intemporalidade (no sentido em que, embora datados, os acontecimentos remetem para conceitos e para referências não exclusivas de um determinado período histórico).
No primeiro caso, coincidindo com a acção do filme, somos confrontados com o problema. No segundo, com a procura de um sentido para aquilo que, sugerido pelo registo fotográfico, constitui o temor do devir. É nesta angústia comum que se encontram criador e criatura.
Contudo, se para o criador o prolongamento no espaço se assume também enquanto prolongamento temporal, para a criatura o processo é inverso, de um espaço alargado parte em direcção a um outro, limitado, onde a vida se começa a desvanecer.
Para além disso, ao criador não se apresenta aqui o problema da origem mas sim o da continuidade da sua evolução, enquanto que à criatura é da determinação da origem que se trata. Mas não será tudo isto um jogo de espelhos?
De algum modo, servindo-nos dos termos de Jean-François Lyotard, somos tentados a dizer que, se a “inumanidade” do criador continuamente se “inumaniza”, a “inumanidade da criatura busca a “humanidade”. Nestas linhas divergentes caminham uns e outros na prossecução de um objectivo semelhante.


“E se a retenção divina deve ser completa, é porque inclui do mesmo modo as informações que ainda não estão presentes diante das mónades incompletas representadas pelos nossos espíritos e que estão por acontecer no que chamamos futuro”.

Sigur Ros

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As cidades e a memória

«O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.»

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Escrúpulo

«O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante, mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se.»

Barão de Teive, A Educação do Estóico

Italo Calvino

Italo Calvino, Se una notte d'inverno un viaggiatore

Chegou porventura o momento de admitir que o tarot número um é o único que representa seriamente aquilo que consegui ser: algum escamoteador ou ilusionista que num banco de feira dispõe mas quantas figuras e, deslocando-as, concatenando-as, permutando-as, obtém uns tantos efeitos.
Italo Calvino, O Castelo dos destinos cruzados

Estás prestes a começar a escrever a propósito de um romance de Italo Calvino: Se un notte d'inverno un viaggiatore . Já percorreste um número considerável de livros e sabes que muitos outros ficaram pelo caminho, pois a cada leitura que fazes encontras sempre mais uma, duas, três e mais referências a obras que poderias consultar. Pensas que haverá sempre uma oportunidade de o fazeres, embora saibas que provavelmente o não farás.
Decides limitar o teu campo de manobra e, por isso, optas por escolher um capítulo. É notória a razão por que decides desde já colocar-te numa posição defensiva: tu sentes-te desamparado por um autor que, entretanto, se escondeu na teia por ele próprio criada. Foste convidado para um banquete a que até mesmo o anfitrião faltou. Só te resta jogar.
Caminhas pelas margens de um texto que te assalta com propostas imprevistas. Já passaram várias vozes por ti neste teu percurso em que procuras construir uma unidade. Do primeiro encontro conservas a imagem de um narrador que apresenta uma obra: a mesma que tu próprio tens diante de ti. Primeiro sinal de afastamento do autor perante a obra produzida? É no mínimo curioso notar que o Calvino nomeado não corresponde ao Calvino-autor empírico. Trata-se da nomeação de um facto: a obra foi escrita por Calvino, Italo Calvino. Este, por sua vez, afastou-se preferindo o lado de fora da teia construída, ao denso emaranhado em que se constituíu. Aí emerge uma personagem: o Leitor. Será ele quem viajará ao longo da multiplicidade proporcionada pelo labirinto em que serenamente o texto se vai tornando. Por isso procura incessantemente uma origem, a palavra original de um texto que lhe foge desde a página 32: Da pagina 32 sei ritornato a pagina 17!
É sem dificuldade que se vê num bosque labiríntico onde os caminhos se parecem sistematicamente bifurcar. A certa altura, na sua busca de um caminho plano, toma uma decisão: «Lettore, hai deciso: andrai a trovare lo scritore».
Tu bem sabes como até então o trajecto deste Leitor foi feito de começos, de expectativas nunca concretizadas a compreendes a sua necessidade de preencher o vazio em que sente ter sido largado.
De repente, és tu que te instalas para a leitura. Do lugar em que te encontras podes observar um escritor que contempla "una giovane donna che legge". Como uma necessidade vital, ele procura nessa jovem mulher um sinal, um reflexo no seu rosto, capaz de lhe mostrar "quel movimento invisibile che è la lettura". Talvez esta mulher represente um papel de mediação: entre o escritor e o prazer da leitura. Num certo sentido ela surge investida de um poder insondável: o de proporcionar ao escritor um redimensionamento da leitura, o abandono da sua condição de "forzato dello scrivere". Por isso se opõem "sforzo innaturale" da escrita e "respiro". Este escritor hesita entre um lugar, dentro ou fora do texto, manifestando a sua angústia perante a situação em que, de facto, se encontra: no espaço da "distanza tra il mio scrivere e il suo leggere". Há, no entanto, um lugar onde estas duas circunstâncias se parecem encontrar: a mão do escritor. Incapaz de modificar a ordem dos acontecimentos, ele observa a sua mão que progride, caminha, ganha autonomia. É o seu corpo que então se instrumentaliza e transgride o limiar da sua existência. Contudo, o escritor afirma a sua incomodidade: "Come scriverei bene se non ci fossi!"
A jovem mulher surge, entretanto, duplamente observada. Para além do escritor já referido (a que a partir de agora chamaremos atormentado) também um outro escritor, produtivo, a observa. Qualquer um deles pensa ver na reacção da jovem mulher à leitura daquilo que gostaria de ver em quem lesse os seus livros. Mas, ao mesmo tempo, cada um deles considera que esse tipo de reacção à leitura só é possível perante os livros do outro. A jovem mulher é agora o lugar de desejo que ambos se esforçam por conquistar. Para o efeito, escritor atormentado e escritor produtivo decidem trocar de papéis. O resultado é surpreendente: "m'avete dato due copie dello stesso romanzo!" - afirma a jovem .
Chegado a este ponto tudo te parece caminhar para um vazio que se preenche sucessivamente com outro vazio e decides deter-te perante o desfecho intrigante da contenda. No capítulo VIII encontras, então, dois escritores de características diferentes. Até aqui tudo te parece fazer sentido. Mas por que motivo escreveram involuntariamente o mesmo romance? É esta a pergunta a que a partir de agora procurarás responder.

No início do capítulo VIII deparas com o escritor atormentado e, ao longo desse mesmo capítulo, vais dando conta de sucessivas posições desse escritor perante a circunstância da escrita. Escolhes uma delas, a que encontras na página 181: "Allo scrittore che vuole annullare se stesso per dar voce a ciò che è fuori di lui s'aprono due strade: o scrivere un libro che possa essere il libro unico, tale da esaurire il tutto nelle sue pagine; o scrivere tutti I libri, in modo da inseguire il tutto attraverso le sue immagini parziali. Il libro unico, che contiene il tutto, non potrbb'essere altro che il testo sacro, la parola totale rivelata. Ma io non credo che la totalità sia contenibile nel linguaggio; il mio problema è ciò che resta fuori, il non-scritto, il non-scrivibile. Non mi rimane altra via che quella di scrivere tutti I libri, scrivere I libri di tutti gli autori possibili".
Nesta passagem dás conta de algo que até agora não te ocorrera e interrogas-te: haverá alguma relação entre o escritor atormentado e o autor textual da obra? Se existe uma relação entre o escritor atormentado e o autor textual da obra, então que função desmpenha o escritor produtivo?
Quanto à primeira questão, parece-te que a resposta é afirmativa. Isto porque consideras que, entendida no seu todo, a obra pode ser vista como resultado de uma série de fragmentos, de começos. Neste caso, as afirmações do escritor atormentado podem ser aplicadas, por extensão, ao denso tecido em que a obra se constitui. É aí que o jogo se exerce em toda a sua plenitude: "M'è venuta l'idea di scrivere un romanzo fatto solo d'inizi di romanzo. Il protagonista potrebb'essere un Lettore che viene continuamente interrotto. Il Lettore acquista il nuovo romanzo A dell'autore Z. Ma è una copia difettosa, e non riesce ad andare oltre línizio… Torna in libreria per farsi cambiare il volume…"
Além disso, ao percurso reflexivo em torno das palavras, exercido pelo escritor atormentado, corresponde o itinerário do autor textual da obra, percorrido pelo Leitor e pela Leitora.
O escritor produtivo surge, então, como elemento funcional nesta intrincada teia de relações. A relação que se estabelece entre ele e o escritor atormentado permite-te observar, no interior do capítulo VIII, aquilo que, numa dimensão mais ampla, pode ser entendido como identificação entre escritor atormentado e autor textual da obra. Do mesmo modo, um e outro desconhecem o desenrolar das histórias que nos contam. Do mesmo modo, ambos põem em acção o jogo da escrita, levado às últimas consequências: "Il libro è sbriciolato, dissolto, non più ricomponibile, come una duna di sabbia soffiata via dal vento".
Propões a ti próprio uma resposta para estas questões e apontas um caminho. Do ponto a que chegaste, consideras a existência de um autor empírico que apenas se deixa nomear, que lança os dados, dando início ao jogo. Consideras ainda a existência de um autor textual, de uma voz que percorre o texto através daquilo que é vivido e observado por uma personagem: o Leitor. Essa voz é o lugar onde emergem outras vozes, outros textos que vêm contribuir para a formação de um corpo, de um tecido complexo. Uma dessas vozes é a do narrador do capítulo VIII à qual tu atribuis a exemplaridade de uma deriva. Deriva exemplar? Em relação a quê? Crês que a exemplaridade da deriva dessa voz é a da personagem a que é atribuída. Isto é, nas considerações enunciadas por essa personagem podemos encontrar reunidas as características gerais da obra, contidas na prática discursiva da voz do seu autor textual. Apercebo-me agora da fadiga estampada no teu rosto, caro interlocutor desta reflexão. Já fizeste a tua parte. Vai descansar! Eu hei-de encontrar uma chave que me permita, mais tarde, abrir a porta do lugar onde vais repousar.

"Lettore, è tempo che la tua sballottata navigazione trovi un approdo".
Não é apenas o Leitor que deve "encontrar um cais", é também a voz do narrador que pressente agora uma revelação. O caminho que resta percorrer é breve, parece-nos dizer essa voz: "Quale porto può accoglierti più sicuro d'una grande biblioteca?"
É, de facto, numa biblioteca que o Leitor se encontra. É aí que ele, por fim, se dirige, na esperança de encontrar "i dieci romanzi che si sono volatilizzati" assim que iniciou a sua leitura. O que encontra, contudo, é a sua incapacidade para pôr fim ao jogo, pois não sabe como o fazer: "Anticamente un racconto aveva solo due modi per finire: passate tutte le prove, l'eroe e l'eroina si sposavano oppure morivano" - afirma o sétimo leitor com quem o Leitor se cruza.
O Leitor reconhece que o seu tempo é outro, assume essa contingência. Ele, enquanto joguete de um narrador que "viaja" em direcção às metas imprevisíveis do romance, sabe que o importante é a própria viagem, é a deriva, e que só essa o faz viver. Também o narrador sabe que apenas sobrevive enquanto a sua voz se fizer ouvir. No fundo, as palavras proferidas pelo sétimo leitor encerram esta marca: "Il senso ultimo a cui rimandano tutti i racconti ha due facce: la continuità della vita, l'inevitabilità della morte". Depois é "a inevitabilidade da morte" que se abre diante dos nossos olhos. O Leitor, casando com a Leitora, vê interromperem-se as suas aventuras, as suas viagens, num certo sentido morre. O mesmo não acontece ao autor empírico. No último parágrafo da obra encerram-se duas circunstâncias antagónicas: o fim da viagem, do jogo, e a consequente morte que daí resulta; e a sobrevivência do autor textual, agora recuperado. Ele é chamado para instaurar um novo desequilíbrio: é que, se por um lado assistimos à conclusão de uma viagem, por outro ficamos a saber que há um lugar onde poderemos vir a retomar o jogo, um lugar onde a vida continua: "Finchè so che al mondo c'è qualcuno che fa dei giochi di prestigio solo per amore del gioco, finchè so che c'è una donna che ama la lettura per la lettura, posso convincermi che il mondo continua…"

domingo, 21 de novembro de 2010

Dos Delitos e das Penas




«... se demonstrar que a pena de morte não é útil nem necessária, terei vencido a causa da Humanidade.»

Cesare Beccaria

Cesare Beccaria

«Muitas vezes os homens deixam os mais importantes regulamentos entregues à prudência do dia-a-dia ou à discrição daqueles cujo interesse é oporem-se às leis mais previdentes, as quais, de sua natureza, tornam universais as vantagens e resistem àquela força com que tendem a concentrar-se nas mãos de uns poucos, colocando de um lado o auge do poder e da felicidade, e de outro toda a fraqueza e miséria. Pelo que só depois de ter passado através de mil erros nas coisas mais essenciais à vida e à liberdade, só depois de chegados ao extremo de um cansaço de suportar os males, se decidem a remediar as desordens que os oprimem e a reconhecer as verdades mais palpáveis que, precisamente pela sua simplicidade, escapam aos espíritos vulgares, não habituados a analisar as coisas, mas a receber delas uma impressão global, mais por tradição do que por pbservação.
Abra-se a História e veremos que as leis, embora sejam ou devam ser pactos de homens livres, a maior parte das vezes foram apenas instrumento das paixões de uma minoria, ou nasceram tão-só de uma fortuita e passageira necessidade; veremos que elas não são já ditadas por um frio observador da natureza humana que em um só ponto concentrasse os actos de uma multidão e os analisasse segundo este princípio: a máxima felicidade repartida pelo maior número. Felizes aquelas poucas nações que não esperaram que o lento movimento das coincidências e das vicissitudes humanas fizesse suceder ao ponto extremo do mal um encaminhamento para o bem, mas abreviaram os momentos de transição com boas leis; e é digno da gratidão dos homens aquele filósofo que teve a coragem de, do seu obscuro e desprezado gabinete, lançar entre a multidão as primeiras sementes, por muito tempo infrutíferas, das verdades úteis.»

Cesare Beccaria, Dos Delitos e das Penas

sábado, 20 de novembro de 2010

Teixeira de Pascoaes

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Entrevista a Teixeira de Pascoaes (1950)

- Gostava de saber o que pensa de Fernando Pessoa. As suas alusões irónicas ao «Supra Camões» e ao «Sumo Poeta da actualidade» parece não deixarem lugar a dúvidas de que Fernando Pessoa não lhe merece muita consideração como poeta...

- Evidentemente.

- Mas então seria muito interessante ouvir a sua opinião, fundamentada, sobre Fernando Pessoa, tanto mais que a teoria do «Supra Camões» foi sob a sua direcção n'A Águia, que ele a expôs, e além disso creio que devem ter convivido um com o outro...

- Conheci-o pessoalmente, mas convivi pouco, ou antes, não convivi com ele. Tinha um aspecto misterioso... Olhe: era quase só nos eléctricos que o encontrava (excepto uma vez em que conversei com ele no Martinho da Arcada). E, a propósito, ocorre-me que, numa ocasião, entrando eu num eléctrico (recordo-me bem, era da carreira da Estrela), deparo com Fernando Pessoa que me pergunta de chofre: «Já notou uma coisa, ó Pascoaes? Há escritores de quem toda a gente fala e ninguém lê, e outros de quem ninguém fala e toda a gente lê. E destas duas espécies, qual, em seu entender, tem mais valor?» Respondi que aqueles de quem toda a gente fala e ninguém lê, e Fernando Pessoa rematou: «é também a minha opinião».

Ensaios de Exegése Literária e Vária Escrita