Acerca de mim

A minha foto
Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

No Porto

Por um barco de Tenos, jovem, há vinte e oito anos nascido,
Émès a este porto sírio foi trazido
com o intuito de aprender a ser de essências vendedor.
Porém adoeceu na viagem de mar. E logo ao pôr
os pés em terra, morreu. O enterro pobre até mais não poder ser
teve lugar aqui. Algo, poucas horas antes de morrer,
«casa», «pais muito velhos», num murmúrio dizia.
Mas quem eram estes ninguém sabia,
nem qual no grande mundo heleno a terra dele terá sido.
Melhor. Pois enquanto assim
jaz neste porto falecido, hão-de esperá-lo vivo seus pais até ao fim.

Konstandinos Kavafis, Os Poemas

A minha atenção dispersa-se nas palavras de um poeta grego. Um poeta. Descreve o poeta pequenas histórias de amores furtivos e como, apesar de furtivos, esses amores permanecem. O poeta mostra-nos ocorrências sem nos sugerir interpretações, senão aquelas que, por nossa conta e por risco das nossas experiências, possamos atribuir às palavras que, secas, cortam a paisagem e lhe conferem contornos imprevisíveis, tal como a vida se vai esboçando nos rascunhos do tempo.
O poeta mostra os espaços de uma memória prospectiva. Um cheiro, uma impressão táctil, uma visão. Eis a actualização da memória tornada presente. O poeta não se lamenta e a sua tristeza reside nas sombras profundas.
O dia trouxe consigo o espaço metonímico da memória que se estende em associações, sucessivas e irrecusáveis. Por muito que possam ser dolorosas, as suas marcas instalam-se em silêncio. Um silêncio duro, cru, que remete para esse espaço onde tudo perdura. O porto é um lugar, por excelência, da memória, um lugar de passagem e de gente que não permanece lá. Nada de facto permanece ou, pelo menos, assim parece ser. Maravilhoso e assustador, o espaço da lembrança supera o tempo, ultrapassa-o e permite a aspiração à imortalidade. Numa espécie de epitáfio, o poeta recorda a figura de alguém a quem a vida foi tirada antes de tempo. Aparentemente, o fascínio daquela figura introduzida no poema resulta do simples facto de se tratar de uma figura anónima, daquelas a quem a vida não dá a notoriedade da fama. O apelo à memória resulta então como uma marca que ultrapassa a condição dos homens e transporta-os para uma dimensão universal.
O vendedor de essências Émès jaz num porto sírio. Aparentemente, nada há a registar senão uma simples certidão de óbito, igual a tantas outras. No entanto, por algum motivo, o poeta regista o óbito de um rapaz comum. O poeta traça o percurso deste rapaz e, nos interstícios das suas palavras, existe uma história. Émès, um jovem de vinte e oito anos, partiu de Tenos com o propósito de aprender a ser vendedor de essências. Chegara moribundo, depois de ter adoecido no mar. Enquanto morria, pronunciava as palavras que trazia consigo: “casa”, “pais muito velhos”. A este rapaz desconhecido foi feito um enterro muito pobre.
Assim apresentada, esta história parece concluída. Contudo, as informações breves e conclusivas tropeçam num tempo verbal que se encontra no verso 11. Na palavra “jaz” reside o nó do poema, o lugar onde tudo aquilo que aparenta simplicidade se expande. O encontro entre o tempo passado em que decorre o poema e este presente, subitamente emerso, estabelece a necessidade de um reenquadramento da situação apresentada.
Émès é o nome da figura do poema, da sua personagem. Émès é uma memória. Émès não nos fala, mas o seu silêncio impõe-se-nos. O silêncio dos mortos, que permanece e que se manifesta no modo como o poeta vivo o assume, no presente. Deste modo, o cruzamento do passado com o presente assume-se como o lugar onde a memória dos que a não têm pode encontrar a sua expressão.
Naquela terra de ninguém, a que corresponde o porto, apenas há lugar para o epitáfio. É deste modo que Émès, através da voz emprestada do poeta, permanece. Por via dessa voz, Émès continuará jazente até ao reencontro com aqueles que num último murmúrio evocou. No despojamento absoluto em que Émès se revela, primeiro moribundo, depois morto, é o túmulo [túmulo no sentido que encontramos na música barroca, uma peça que é tocada para deixar memória de alguém que morreu; tradição que Ravel, já no século XX, retoma ao compor uma peça para piano a qual relembra o compositor barroco François Couperin, «Le tombeau de Couperin»] que o poeta lhe erige que redimensiona a sua presença. Os detalhes incrustados no poema são imperceptíveis, mas é por eles que a personagem anónima se emancipa e, pelo seu passado, entretanto revisitado, vem ocupar um lugar em actualização contínua, no espírito do poeta e junto do leitor[1].
Embora imbuído de um propósito, Émès é apresentado como alguém a quem uma força superior traça o destino. Com efeito, não é a ele que é atribuída a instância da viagem. Em vez disso, diz o poema que ele foi trazido até àquele porto, sendo, desse modo assumido como alguém a quem a circunstância de um acaso poderá ter condicionado. Apenas no seu propósito de ser vendedor de essências, Émès nos surge no poema como alguém que comanda os acontecimentos da sua vida. Em tudo o resto, ele é o rosto de um destino trágico que nele se revela. Por outras palavras, Émès é o homem normal, sujeito às vicissitudes da vida e do acaso. Nele encontra o poeta o exemplo a reter de uma humanidade sujeita à contingência. É este o homem que interessa ao poeta, o homem em despojamento absoluto.
Recuperando fragmentos do passado, através do exercício da memória, o poeta traz Émès para a superfície dos dias. Ele é o exemplo, a estátua a erigir, o túmulo onde pode haver sempre o registo, a lembrança feita aos sobreviventes de que a sua transitoriedade é em si mesma uma factualidade, só que, assim sendo, é como se existisse uma continuidade nas coisas perecíveis que, tornadas permanentes, se perpetuam.
O porto, aquele porto em particular, enquanto espaço de circulação, passa a ser ocupado por um pedestal erigido em nome dos homens e de Émès. Não constitui esse pedestal um elemento de culto, mas simplesmente uma marca para recordar, para preservar a memória de uma condição de finitude. No fundo, a figura de Émès è a do homem a quem deus abandona e é deixado ao sabor do vento. É o poeta quem resgata a personagem e a dignifica. A memória do morto, referida no tempo presente do verbo “jazer”, é algo que se prolongará para além do tempo limitado das vidas dos homens.
No poema, o passado é sistematicamente actualizado. Na terra de ninguém em que aquele porto se constitui verifica-se uma pausa, detectada pelo poeta. Uma pausa que corresponde ao falecimento de uma pessoa e que se verifica durante um pequeno período de tempo, pressupondo uma espera. O falecimento é um ponto incontornável da passagem para o lugar sombrio da memória histórica. A figura de Émès, abandonado pelo destino, abandonado por Deus, é recuperada e, desse modo, ao Deus caído que abandonou o homem, sucede a imagem do homem que poderá actualizar sistematicamente essa memória de abandono. Através do seu túmulo, do modo como a ideia de morte se constrói ao longo do poema, o poeta encontra, então, uma forma para resgatar o homem e o tornar seu, em contraponto à sua marca de estrangeiro. O jovem falecido que jaz naquele porto falecido, então resgatado, recupera a existência, através do único modo como ela pode ser recuperada: a memória.
É o poeta quem leva Émès aos seus velhos pais, mantendo-o em posição jazente até ao eventual encontro familiar. Sobrevivido até esse momento, Émès perdurará na memória dos vivos e a história contida no poema perdurará. O seu túmulo, em forma versificada, disso dará testemunho.
«La travail du poète n’est pás de résoudre des problèmes philosophiques ou sociaux: il est de nous offrir la purification poétique au moyen des passions et des pensées dont il a fait l’expérience dans son for intérieur et dans le monde qui l’entoure, comme il arrive à tout homme vivant auquel un destin est échu ici-bas. La purification poétique, cavafy nous la donne, à mon sens, alors qu’il est tombe dans les filets du dieu mort.»[2]

[1] SÉFÉRIS, Georges, Cavafy et Eliot, un parallèle, essai de Georges Séféris aux éditions fata morgana, Éditions Fata Morgana, Montpellier, 1982, pág. 21: «La seule chose que je voudrais que nous retenions, c’est le procédé par lequel, en se servant de détails imperceptibles: (…) Cavafy identifie le passe avec le présent, les rend contemporains. (…) Les personages sont parmis nous, à l’instant présent.»
[2] idem, pp. 53-54.

sábado, 14 de junho de 2008

quarta-feira, 4 de junho de 2008


NUYEN, Wijnandus Johannes JosephusRiver Landscape with Ruins1838Oil on canvas, 99 x 141,5 cmRijksmuseum, Amsterdam

terça-feira, 3 de junho de 2008

A casa de Croce

(…) Eis, portanto, o único lugar onde pode ser colocado o orgulho do filósofo: na consciência da maior intensidade das suas interrogações e das suas respostas; orgulho que não surge sem a companhia da modéstia, ou seja, da consciência de que, ainda que o seu âmbito seja mais amplo ou o mais amplo possível num determinado momento, tem contudo os seus limites, traçados pela história daquele momento e não pode aspirar a um valor de totalidade, ou, como se costuma dizer, de solução definitiva. A vida ulterior do espírito, renovando e multiplicando os problemas, torna, já não falsas, mas inadequadas as soluções precedentes, parte das quais cai no número daquelas verdades que se subentendem, e outra parte deve ser retomada e integrada. Um sistema é uma casa que, imediatamente depois de construída e enfeitada, precisa (sujeita como está à acção corrosiva dos elementos) de um trabalho, mais ou menos enérgico, mas assíduo, de manutenção. Contudo, a certa altura, para levar por diante este trabalho de manutenção deixa de ser suficiente restaurar e escorar, tornando-se necessário deitar abaixo e reconstruir desde os alicerces. Mas com esta diferença capital: a de que, na obra do pensamento, a casa perpetuamente nova assenta perpetuamente na antiga, a qual, quase por magia, perdura nela.(…)
Benedetto Croce, in Breviario di estetica

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Contemplo os meus filhos com o carinho extremado de um pai que simultaneamente se deleita na contemplação de dois seres em crescimento, mas também na imensa maravilha que constitui o futuro que dia a dia eles vão desbravando. Ajudo-os o mais que posso porque sei que as aparentes facilidades com que vão crescendo nada mais são do que o fruto de um esforço em lhes proporcionar os alicerces das suas casas futuras. Frequentemente me confrontam com perguntas que exigem uma resposta directa, objectiva, com perguntas através das quais me exigem as verdades com que pretendem encontrar um enquadramento para os seus mundos. Do mesmo modo, também é frequente deparar-me com a situação de lhes ter de explicar que o mundo não é constituído apenas pelo branco e pelo preto, que a paleta que temos ao nosso dispor contém matizes muito diversificados. Além disso, no tempo em que vivemos, é por vezes muito difícil expor um raciocínio sem que nele tenhamos de abarcar explicações complementares que enquadrem a argumentação apresentada. Acontece, porém, que poucas pessoas estão nos nossos dias dispostas a “perder” tempo com explicações complementares a respeito de um determinado assunto. A falta de paciência é hoje um reflexo e uma consequência de uma incapacidade em se lidar com uma explicação detalhada. O mundo apenas está receptivo aos dados imediatos, ao usufruto instantâneo de um qualquer produto. Tudo o que seja explicativo passa a ser considerado supérfluo e, por esse motivo, causador de aborrecimento.
Ao afirmar que “conhecer é caminhar para trás”, Nietzsche antevia, já no seu tempo, este estado de coisas. Ele sabia bem que no seu tempo, como no nosso (e talvez como em todos os tempos), a natureza dos homens não é capaz de lhes providenciar paciência, dedicação e esforço suficientes para que sejam capazes de se deter nessa infinita investigação à retaguarda a que ele próprio chama conhecimento.
Um dia, um autor italiano resolveu fazer até onde lhe foi possível esse percurso “para trás”. Descobriu, então, que esse seria o primeiro passo para a tarefa maior da sua vida. Nunca mais deixou de conhecer, nunca mais deixou de ser paciente, determinado, teimoso. A sua vontade de conhecer manifestou-se, não apenas em textos da historiografia, de política, de filosofia, mas também na literatura, que julgava apenas conhecer por via da crítica.
A falta de paciência é, portanto, uma das mais graves falhas do nosso tempo, revelando-se em todos os domínios da vida pública, do mesmo modo que em todos os domínios da vida privada.
Embora do ponto de vista histórico o exemplo não seja original, o facto é que a política actual e o modo como ela se desenvolve, apresenta preocupantes indícios de que a falta de paciência, chegada a determinados limites, pode conduzir a um exercício cada vez mais superficial do poder, a uma ausência cada vez maior na resolução dos problemas mais delicados e importantes da coisa pública. O povo, ao exercer democraticamente o seu direito de voto, não se preocupa em pensar nas diferentes propostas que lhe são apresentadas. Com o tempo, as pessoas deixaram de se interessar pela vida pública. Contudo, aparentemente, isto não é assim. Na verdade, qualquer cidadão que assista aos noticiários televisivos, tende a extrair uma opinião que, na maior parte das vezes não é mais do que o ponto de vista que lhe quiseram apresentar.

quarta-feira, 28 de maio de 2008


Primavera 08

Ando mesquinho, irritadiço e triste. Continuo a querer ter asas e acordo todos os dias com o peso dos meus pés a puxar-me para as entranhas da terra. São dolorosas as manhãs desta Primavera doentia e nebulosa. Sem dar por isso, acontece-me pensar no tempo em que já fui feliz. Hoje foi o Francisco quem me puxou para esse mundo campestre e recôndito onde eu me julgava perdido. Andava enganado naquele tempo em que era feliz. Tudo porque na nossa rua havia um rebanho de ovelhas e uma pastora velha.

Destino

O homem caminha sem direcção. Há muito que se tinha perdido o homem que assim caminhava sem destino. Para trás ficara um vazio. Já deixara de se preocupar em preencher o vazio que o invadia. A sua busca de nada centrava-se apenas nos seus passos, que dava sem cautelas. Sempre se imaginara perdido, o homem que caminhava e apenas vislumbrava a distância dos seus próprios passos. Em tempos, ao chegar a casa, pensou em partir. No momento em que, pela primeira vez conjecturara a sua perda, o homem que caminhava sem destino, imaginara-se a percorrer um itinerário solitário. Imaginara densas florestas percorridas à chuva e ao sol, ao calor e ao frio, e pressentia a liberdade. Não aquela liberdade que a vida e o contacto com os outros lhe tinha sido sugerida, mas uma outra dimensão de si enquanto ser livre, capaz de escolher o lugar da sua sepultura. Na sua perspectiva deambulatória e vaga, o homem perdido conjecturava o seu próprio final e sabia que a liberdade só podia ser alcançada se fosse capaz de percorrer os seus mais íntimos e esconsos espaços interiores e que, de seguida, pudesse pensar na infinita solidão jubilatória do momento em que, por fim, se encontrasse em definitivo com a terra, e, finalmente, consigo próprio.

Sorriso

Um céu encoberto faz-me voltar para dentro e remirar o espelho que em mim sossega. O tempo parece propício à reflexão, à trégua. Os mares agitados da multidão de sábado carecem de um repouso sereno. Sempre soubera que a uma tempestade sucede uma bonança promissora, capaz de retemperar os ânimos mais intranquilos. Ao longo dos anos aprendeu a viver com o insulto e com a ignorância daqueles que estão do lado de fora e que teimam, na sua assertividade, em papaguear palavras ardilosamente seguras. O tempo assim os faz, o tempo assim os prepara para a sua inevitável visão de um mundo onde não existe ponderação nem futuro, apenas a reacção acalorada e traumatizada e argumentos soltos que ouvem daqui e dali. Ele não é nem nunca tinha sido um daqueles professores a quem alegadamente concederam regalias supérfluas. Ele nunca gozou de privilégios como aqueles de que outros que agora criticam sempre se serviram. Ele apenas trabalhou, apenas procurou cumprir o seu papel social junto daqueles em quem sempre acreditou e acredita. O tempo, o mesmo tempo em que apenas o presente é ouvido e em que apenas aos juízos mais básicos se dá guarida, mostrará um dia a sua razão em acreditar num mundo diferente, sem injustiças. Chamam-lhe utópico, dizem dele que é louco, mas apenas porque o seu discurso não é actual, não pertence ao seu tempo. Dizem-nos que é a economia que nos impõe os cortes orçamentais, mas esquecem-se de dizer que essa mesma economia não pode ser responsabilizada pela estupidez daqueles que, em vez de a servirem, apenas dela se sabem servir.
O cansaço invade-lhe o olhar que outrora fora luminoso e que, com o passar dos anos se lhe turvou. Embora não seja ainda aquilo a que normalmente chamam velho, ele sabe que o seu tempo está a escoar-se. Enquanto isso acontece, as suas pernas, qual reflexo de uma indomável alma, agitam-se. Podem dizer-lhe que faça, podem ameaçá-lo com uma lei inquisitorial, mas ele resiste, porque sabe que os homens são efémeros e que a um governo sucederá sempre outro. Os homens parecem esquecer-se do seu carácter transitório. Na neblina que invade o seu espírito que se reconhece perecível, ele nunca deixou de reconhecer a importância de um sorriso que se estende e que é realmente capaz de mudar o mundo.

terça-feira, 27 de maio de 2008