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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

50.

 Das minhas asas volto para meu lar, 
asas da minha perda repentina.
Fui cântico, e Deus, a rima
ainda em meu ouvido a murmurar.

Torno-me de novo simples e silencioso,
e minha voz se abre à solidão;
curvou-se o meu rosto ditoso
para melhor oração.
Para os outros fui como um vento desavindo,
quando os chamei sacudindo.
Onde estão os Anjos, longe, estive eu
alto, onde a luz para o nada correu...
mas Deus profundamente obscureceu.

Os Anjos são o último ar
na orla do seu cimo;
dos seus ramos se separar,
é para eles como um sonho peregrino.
Aí mais na luz cada um acreditou
do que Deus força mais negra,
Lúcifer se refugiou
na sua proximidade como regra.

Ele é o príncipe no país da luz,
e a sua fonte está num lado
tão íngreme no nada que reluz,
que ele, de rosto chamuscado,
trevas implora.
É o claro deus do tempo que se demora,
para quem alto desperta,
e porque muitas vezes com dores grita
e muitas vezes com dores ri na realidade,
o tempo na sua felicidade acredita
e adere à sua autoridade.

O tempo é como seca margem
na folha de um livro usado.
É o manto brilhante de viagem
por Deus rejeitado,
quando Ele, que sempre foi profundidade,
do voo se cansou, da sua intensidade,
e se escondeu de cada ano começado
até que seu cabelo enraizou
e, crescendo, todas as coisas atravessou.

Rainer Maria Rilke, O Livro de horas


The Penguin Cafe Orchestra - Air à Danser [When in Rome]

Silence

 «The great poem. As I say it, it becomes clear to me that I have accepted it, until quite recently, as something which certainly exists, putting it highhandedly beyond any suspicion of coming into being. Even if the originator behind it were to appear, I should not be able to imagine the power which all at once had broken so great a silence. Just the builders of the cathedrals shot up, like grains of seed, immediately and without residue, into growth and blossom in their work, which stood there as if it had always been, no longer explicable as deriving from them: so the great poets of the past and the present remain entirely incomprehensible to me, the place of each being taken by the tower and bell of his heart. Only since a most proximate younger generation, striving upward and into the future, has embodied, not insignificantly, their own growth in the growth of their poems, does my eye seek to recognize, alongside of their achievement, the circumstances of the creative personality. But even now, when I must acknowledge that poems are formed, I am far from thinking them invented; it seems to me ratheras if there appeared in the soul of the poetically inspired a spiritual predisposition, which was already present between us (like an undiscovered constellation).»

Rainer Maria Rilke, Where the silence reigns

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Luz Casal Lo eres todo

ADIÓS

 Cualquier cosa valiera por mi vida
esta tarde. Cualquier cosa pequeña
si alguna hay. Martirio me es el ruido
sereno, sin escrúpulos, sin vuelta,
de tu zapato bajo. Qué victorias
busca el que ama? Por qué son tan derechas
estas calles? Ni miro atrás ni puedo 
perderte ya de vista. Ésta es la tierra
del escarmiento: hasta los amigos
dan mala información. Mi boca besa
lo que muere, y lo acepta. Y la piel misma
del labio es la del viento. Adiós. Es útil,
normal este suceso, dicen. Queda
tú con las cosas nuestras, tú, que puedes,
que yo me iré donde la noche quiera.

Claudio Rodriguez

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Carlos Maria Trindade / Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu (1991, Full Album)

Boredom

 «It is by no means essential to my argument to maintain that boredom came into existence only when it was first named. One can never prove taht a new feeling has entered the world. The emotion Shakespeare's Hippolita experiences may in fact have precidely corresponded to what we understand as boredom, but the language assigned to her emotion differs from the twentieth-century vocabulary of boredom, and I maintain the importance of the difference. If new feelings arguably never manifest themselves, new concepts uniquivocally do. Boredom was in the eighteenth century a new concept, if not necessarily a new event. The emergence of a new concept marks a significant cultural happening because it allows articulation of fresh ways to understand the world.

Patricia Meyer Spacks, Boredom

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Bruce Springsteen - I'm on Fire

Ritmo

 «O ritmo não é apenas um aliado da memória, pois também é um catalisador dos nossos prazeres - a dança, a música e o sexo jogam com a repetição, o compasso e as cadências. A linguagem também possui infinitas possibilidades rítmicas. A épica grega flui em hexâmetros, que criam um peculiar ritmo acústico através de combinações de sílabas longas e breves. Pelo contrário, o verso hebraico prefere os ritmos sintáticos: «Há um breve momento para tudo e um tempo para cada coisa sob o céu: um tempo para nascer e um tempo para morrer, um tempo para plantar e um tempo para arrancar o que se plantou; um tempo para matar e um tempo para curar, um tempo para destruir e um tempo para edificar...» Dir-se-ia que estas frases do Eclesiastes cantam e, de facto, o músico Pete Seeger compôs uma canção, inspirada nelas - Turn! Turn! Turn! (To everything there is a season) que chegou ao topo das listas de êxitos em 1965. Na origem da poesia, o prazer do ritmo foi posto ao serviço da continuidade cultural.»

Irene Vallejo, O Infinito num junco

segunda-feira, 12 de abril de 2021

L'Orchestre du Roi Soleil. Jean-Baptiste Lully (1632 - 1687)

O Outro filho (irmão do pródigo)

«O vitelo mais gordo»
disse o pai. Mas era para o outro
que falava

E ele interrogou-se confundido,
o coração pesado de negócios,
esquecido de viagens e sonhos
por fazer

Deve ser coisa estranha
a lealdade,
como penoso o ofício 
de amar

Perdida a juventude
entre contas e servos,
entre terras vedadas e cega obediência
que lhe restava

senão juntar-se à festa
e comer o vitelo
e fingir alegria
em pródigos sorrisos?

Ana Luísa Amaral

Marc Antoine Charpentier Te Deum Les Arts Florissants William Christie

Erguem-se os ventos e contra mim se assanham

 Erguem-se os ventos e contra mim se assanham,
se rebelam, gritam-me fúrias antigas, incontidas,
e assomam às portas assobiando velhas canções tristes.

Dizem que por eles morreram já algumas aves.
E que os trigos cederam à tentação de os seguir
e se perderam para sempre na planície, como as crianças.

Nunca lhes digas o meu nome, não lhes contes que existo.
Guarda-me agora em ti como um outro segredo -
o teu sono era quente, lembro-me da janela do teu quarto
a dar para o céu, os ventos passavam nela devagar,
mas nunca se detinham

e depois, de manhã, acordávamos sempre junto ao sol.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Nite Jewel - Boo Hoo (Official Video)

 No texto «Sobre a linguagem em geral e a linguagem humana» (...), a essência linguística do ser humano é a nomeação, a qual acaba por coincidir com a sua essência espiritual. Isto é, o homem manifesta a sua compreensão através do poder que tem de dar nomes, pelos quais reconhece a irradiação expressiva dos seres, a sua magia, como Benjamin lhe chama.
O nome dá conta dos seres com todas as suas manifestações imediatas. Como é que uma árvore se manifesta imediatamente? Pela sua morfologia, pela sua resistência ao vento, pelo crescimento das folhas, pelo crescimento dos frutos, pela sombra que dá. Como é que nós utilizamos uma árvore? Descansando à sua sombra, comendo os seus frutos, arrancando os seus ramos para nos aquecermos, deitando-a abaixo para a transformar em madeira com vista à construção de casas, de pontes (nalgumas destas acções podemos observar uma superação do utilitarismo). Mas aí a linguagem da árvore tornou-se em grande parte indirecta (embora comer os frutos e descansar à sombra ainda mantenham a irradiação expressiva da árvore). Ela só se manifesta de maneira imediata quando está íntegra, quando se mantém enquanto tal. A partir do momento em que é transformada, a sua linguagem foi traduzida sob forma utilitária. Mas também pode ser transformada sob forma artística. E no caso artístico, nos melhores casos artísticos, parece que subitamente percebemos o que é uma árvore ou, indirectamente, percebemos o que é a madeira ou o que é uma pedra.
É preciso ainda assinalar um aspecto muito importante em «Sobre a linguagem em geral e a linguagem humana», e para o qual Benjamin adverte o leitor: não se trata de exegese do texto bíblico. Apesar de não ser crente, a tradição que ele tem à mão é a tradição em que foi educado - o texto do Antigo Testamento fornece-lhe o quadro segundo o qual, de acordo com as suas palavras, pode compreender a linguagem nas suas aporias. E como é que a linguagem nas suas aporias é compreendida a partir do Génesis? No contexto da criação, Deus disse: faça-se isto. E achou que era bom. A linguagem divina é criadora: dita a palavra luz, a luz aparece. Em relação ao homem, porém, Deus não disse: faça-se o homem, mas molda-o a partir do barro, a partir da terra. Esta versão é a mais antiga. Não será de mais sublinhar que Benjamin pensa o ser humano como um ser que pertence à Terra. A Terra é a Terra dos homens e nenhuma argumentação permitirá superar tal evidência. Digamos, o homem é feito de terra e a Terra está ao cuidado do homem. E como é que se vê isto no Antigo Testamento? Pelo movimento divino de prescindir da palavra em relação ao homem: Deus não diz: faça-se o homem, molda o homem com a terra dando-lhe essa vocação de pertença à Terra e, ao mesmo tempo, libertando a palavra no homem. É o homem agora que terá de falar. Passando a palavra de Deus para o homem, passa de criadora a nomeadora. Em resumo: a essência espiritual do homem é aquilo que constitui e exprime o ser humano em relação a tudo o que há, incluindo aquele que é a fonte do dom da vida, aquele a quem se dirige a palavra, aquele que não será nomeado, Deus. A linguagem humana dirige-se para a sua fonte, não é criadora - isto é muito importante, porque evita qualquer tentação de idolatria.

O Químico e o alquimista, Benjamin, Leitor de Baudelaire, Maria Filomena Molder


quarta-feira, 31 de março de 2021

BADBADNOTGOOD | Speaking Gently

 Pontos fundamentais a sublinhar: a afinidade (aqui sob a forma do parentesco entre obra de arte e problema filosófico) é o conceito-chave da categoria da relação em Benjamin. O problema filosófico surpreende-se como possibilidade de formulação do teor de verdade da obra, que terá de ser desenterrado. Com frequência, a crítica - aqui claramente equiparada à filosofia - é comparada a um acto de desenterrar, de escavar na terra. O crítico é assim como um mineiro ou um descobridor de tesouros. Diante da obra, a pessoa que tem um segredo que não confessará pela violência,, exige-se paciência, perseverança e reverência. Daí a verdade ser reconhecível e não questionável, pois pertence à ordem do mistério. Esta é uma ideia que Benjamin nunca põe de lado: a verdade não é um objecto de questionação, é uma exigência. Guardemos o reenvio do belo ao verdadeiro para mais tarde. Sublinhe-se desde já a confiança de Benjamin em relação à legitimidade de continuar a falar do vínculo entre beleza e verdade, sempre que se trata de pensar o que é a filosofia.

O Químico e o alquimista - Benjamin, Leitor de Baudelaire

AIR - Playground Love (Official Video)

 O professor, pelo menos desde o Ménon platónico, não é, em primeiro lugar, alguém que sabe ensinar quem não sabe. É antes alguém que tenta recriar o objeto de estudo na mente do estudante, utilizando uma estratégia que permita, antes de qualquer outra coisa, que o estudante reconheça o que potencialmente já sabe, o que implica desmontar as forças que reprimem a sua mente e o impedem de saber aquilo que sabe. É por isso que cabe ao professor, e não ao aluno, fazer a maior parte das perguntas.

O Código dos códigos, Northrop Frye

sábado, 16 de janeiro de 2021

Grutera - A Partir Daqui - CLAV Live Sessions

Silêncio

 Quando Luísa lhe disse que lhe ligava quando tivesse alguma coisa para lhe dizer, João compreendeu que o mundo tinha mudado, pelo menos o seu mundo. Antes, não era preciso dizer nada, bastava o brilho que em ambos se cruzava proveniente das esperanças que acalentavam e na satisfação que sentiam pelo simples facto que estarem juntos. Isso aconteceu antes, quando ainda não se tinha a noção da dimensão do buraco para onde a pandemia os estava a levar. Desde março que tudo mudou, a princípio ainda havia a expetativa de que a vida voltaria ao normal num horizonte aceitável, se se pode assim dizer. Contudo, o tempo foi passando e, com ele, não foi apenas a manutenção do estado das coisas, mas também a acentuação de um afastamento. Com o tempo, as pessoas passaram a viver para dentro, a fechar-se em casulos repletos de receios, hesitações, medos. O fechamento de cada um para dentro de si próprio, começou por se revelar nas relações com os mais próximos, para, aos poucos, começar a fazer estrada e a conduzir muitas pessoas por caminhos até então desconhecidos. Fechadas nos seus casulos, as pessoas, porque alheias ao mundo exterior, porque o passaram, entretanto, a ver como uma ameaça, adquiriram um espírito de medo em relação ao outro, ao seu semelhante, como se não estivéssemos todos na mesma situação. O outro, aos poucos, passou a ser, ele próprio, a raiz da ameaça e, então, deu-se um fenómeno inquietante. Considerando-se perseguidas por uma ameaça invisível, muitas pessoas começaram a reagir de maneira epidérmica, levadas por uma irritação incontrolável, que procuravam tratar como quem tem uma borbulha e a coça constantemente. O resultado foi o esperado, a borbulha infetou. O pus resultante da infeção, rapidamente começou a alastrar e, gradualmente, contagiadas, as pessoas começaram a reagir como se o mal que sobre todos caiu tivesse sido causado pela primeira pessoa que lhes aparecia à frente. Um mundo com tais contornos é um mundo doente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Brahms Ein deutsches Requiem - Op 45 Abbado

Ruído

 À superfície existe um ruído, nascido de um murmúrio, insistente. Com a sua continuidade, o murmúrio deu lugar a este ruído bruto, insone. Um ruído provocado pela insatisfação e pelo ressentimento. Durante a minha vida, procurei sempre combater o ressentimento e as suas origens, em virtude de tudo aquilo que por detrás dele se esconde.O ressentimento é a ferramenta de que a frustração se serve para se manifestar. Nem sempre estive desperto para a dimensão da poesia de Ricardo Reis, mas, com o tempo, fui-me apercebendo de que a paz que nele se observa, advinda da sua capacidade para se colocar à margem do ruído desnecessário, bem como da inexistência de expetativas, é um meio para se alcançar uma salvação de características particulares. Com efeito, a ausência de expetativas não é necessariamente a manifestação de um procedimento em perda permanente, mas, em grande medida, o espelho de uma compreensão particular do mundo que remete para a ideia de que a humanidade é o que é e que em relação a ela não devemos criar a ilusão de que se venha a manifestar num modo virtuoso. Eu sou um cristão desnaturado, daqueles que trazem consigo a marca mais elevada da experiência manifestada, através do exemplo de Cristo. O perdão é a chave para uma vida virtuosa, pois é o perdão que é capaz de fazer nascer em cada dia, através de um coração limpo do pó da estrada, a esperança redentora da fraternidade.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Nick Cave & The Bad Seeds - O Children (Live at The Fonda Theatre)

Il Padre che manca alla nostra società

QUALCUNO s' incomincia ad accorgere che è venuta meno la figura del padre e che questa lacuna di paternità è una delle cause non marginali della perdita d' identità e della nevrosi diffusa che affligge gli ultimi anni del secolo morente. Certo è proprio così, manca la figura del padre e insieme a lui mancano le figure dei nonni e degli zii che furono per molti aspetti determinanti nel-l' educazione delle passate generazioni. Ed è anche largamente affievolita la figura della madre anche se qui in Italia il mammismo rimane una delle caratteristiche peculiari della nostra società. Ma il mammismo è una cosa, la figura maternale un' altra; bisogna stare attenti a non confondere queste due tipologie profondamente diverse tra loro. Ma il vuoto strutturale della moderna società occidentale proviene dall' assenza del padre. In un certo senso l' affievolimento o addirittura la scomparsa di tutti gli altri ruoli parentali derivano da quella lacuna che sta al vertice della famiglia: se il padre non c' è più l' intera architettura familiare è destinata a crollare; se il padre ha dimissionato non ci saranno più neppure i figli, i fratelli, i cugini; mancano i punti di riferimento, la stessa salutare dialettica tra le generazioni viene meno e si trasforma in una mera lotta per il potere tra vecchi e giovani. La gerarchia familiare aveva il compito di trasmettere l' identità, la memoria storica e il sapere orale. Ebbene, questo mondo è affondato; ma poiché la natura non sopporta il vuoto, al posto del padre, della madre, dei fratelli, si è insediata la cultura del branco. Si credeva che l' indebolimento dei vincoli parentali fosse una conquista della modernità, affrancata una volta per tutte dai legami del sangue e della tribalità; si pensava che l' individuo, liberato dai ruoli e dalle usanze ripetitive della gerarchizzazione, recuperasse la sua responsabilità, la sua libertà e la pienezza della propria realizzazione. Ma queste acquisizioni si sono verificate soltanto in piccola parte. Nella maggioranza dei casi l' individuo, abbandonato alla sua solitudine, non ha trovato altro rimedio che quello di confondersi nel branco, cioè in un soggetto anonimo e indifferenziato, sorretto soltanto da motivazioni emozionali quali l' individuazione d' un branco nemico, la pratica anche esteriore di segnali distintivi, la volontà di potenza del gruppo, la scelta d' un capo cui delegare tutti i poteri di decisione. Il branco è un prodotto della modernità e al tempo stesso è lo sbocco più arcaico che mai si potesse immaginare. Esso contiene una socialità negativa e distruttiva, si basa sull' ideologia del più forte e su valori elementari di violenza, gregarismo, feticismo. Gli "ultrà" delle curve sud ne sono l' esemplificazione più frequente e più primitiva.
L' AFFIEVOLIMENTO e poi la scomparsa della figura paterna hanno molte cause; le più evidenti sono di natura economica ma non sono le sole e neppure le più essenziali. Alla base di questa vera e propria rivoluzione istituzionale c' è da un lato l' emancipazione della donna, dall' altro la perdita della trascendenza, due elementi fondanti della modernità e della laicizzazione. Da questo punto di vista la scomparsa del padre sarebbe un fatto positivo e non reversibile, almeno nelle sue forme arcaiche basate sul comando e sull' autorità esercitata per diritto divino. Eppure una società non può vivere senza modelli che le consentano di rispecchiarsi e di conservare memoria di sé. Il disagio che ha pervaso la società occidentale e in particolare quella della seconda metà di questo nostro secolo deriva appunto dall' assenza di rispecchiamento e di memoria. La stessa decadenza delle classi dirigenti ha la sua causa nel deperimento dei modelli paterni. Non a caso venivano chiamati "padri fondatori" coloro che stabilivano le regole della convivenza sociale e politica. Venuti meno quei modelli, la società ha perso la capacità di darsi regole condivise; si parla di continuo della loro necessità, ma nessuno è più in grado di produrle poiché a nessuno viene riconosciuta un' autorità fondativa che superi gli interessi settoriali e s' imponga in nome dell' interesse generale. Una società senza padri è dunque destinata a una continua e progressiva parcellizzazione che ne paralizza il funzionamento e rende impossibile la produzione di regole democraticamente accettate. Gli individui non sono in grado di uscire da questa disagiata condizione che, esaltando gli interessi settoriali e gli egoismi di gruppo, si allontana sempre di più dalla "auctoritas" produttrice di norme generali; ma il malessere cresce ed è comunemente avvertito. Sicché, proprio nella fase in cui la figura paterna ha ceduto il campo, risorge il bisogno di recuperare almeno alcune delle funzioni a essa affidate; anzitutto quella di indicare le regole basilari del comportamento, di amministrare la giustizia sulla base di quelle regole, di praticare la "caritas" e la "pietas", due attributi tipici della figura paterna e dell' autorità fondativa. Ma soprattutto la nostalgia del padre è motivata dal bisogno di sicurezza psicologica che egli diffonde. Senza di lui il mondo diventa insicuro per i figli orfani e non preparati a surrogarlo. E questa è diventata infatti la società di fine millennio malgrado le sue mirabili acquisizioni tecnologiche: un luogo insicuro, labile, inutilmente motorio, privo di credenze ma ingombro di superstizioni. * * * Ovviamente non si nasce padri; lo si diventa col vivere e attraverso il vivere. Lo si diventa quando si riesce a comprendere l' Altro superando le ristrettezze nelle quali l' Io inevitabilmente ci racchiude. I figli sono fisiologicamente i portatori dell' Io; i padri, quelli veri, superano quella costruzione difensiva e vivono per i figli, costruendo le condizioni del loro futuro. è superfluo avvertire che, in un tempo come il nostro che ha vissuto nell' emancipazione della donna la sua più grande rivoluzione, la funzione paternale non è legata al sesso. Ci sono state e sempre più ci saranno donne in grado come e più degli uomini di darsi carico dell' altrui. In realtà la donna si è sempre data carico dell' altrui molto più dell' uomo, ma questo avveniva nella sfera del privato. Proprio per il fatto di esser stata confinata in quella sfera da una società governata dagli uomini, il darsi carico da parte della donna difficilmente poteva uscire dall' ambito familiare con la conseguenza di una ipertrofia dei figli che canalizzava quasi interamente le risorse affettive delle madri. Questo limite tende ora non già a scomparire ma ad allargarsi. Le capacità affettive della donna costituiscono non a caso una delle risorse essenziali della carità volontaria che sta diventando uno dei fenomeni più rilevanti e più positivi della società moderna e del moderno umanesimo. Ecco perché la "auctoritas" paterna, con il suo corredo di giustizia, comprensione, regole condivise, carità e "pietas" non sarà appannaggio soltanto maschile in un mondo dove i limiti del sesso sono stati infine dissolti in una più ampia concezione della "humanitas". * * * Il nostro Parlamento dovrà eleggere tra sei mesi un nuovo presidente della Repubblica, la persona cioè che ha il compito di rappresentare la nazione. Nessuno ignora quanto questa carica sia ambita per i poteri che contiene e per l' immagine che conferisce. E nessuno ignora che attorno a essa si accenderanno contrasti e vivaci ambizioni. Il Parlamento tuttavia tenga presente che il presidente d' una repubblica dev' essere soprattutto e preliminarmente un "pater patriae". Si può discutere se debba provenire dalla sinistra o dalla destra, dalla cultura cattolica o da quella laica e se debba essere uomo o donna. Ma su un punto non si deve - non si dovrebbe - discutere: il Presidente deve incarnare quella figura paterna che rassicuri la comunità e la indirizzi a superare gli egoismi del presente in nome dell' altruismo del futuro. Il laico Benedetto Croce invocò, all' inizio dei lavori della Costituente, il "Veni Creator Spiritus". Quella stessa invocazione sia tenuta a mente dai nostri parlamentari quando sceglieranno la persona che dovrà rappresentare e traghettare il paese nel suo ingresso nel nuovo secolo.
di EUGENIO SCALFARI (La Repubblica, 28/12/1998)