Elias Canetti, Massa e Poder
Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
sexta-feira, 11 de março de 2016
Descarga
«A destruição de imagens que representam algo é a destruição de uma hierarquia que já não se reconhece. Atenta-se contra as distâncias universalmente estabelecidas, que são visíveis para todos e válidas em toda a parte. A sua dureza era a expressão da sua permanência: existiam desde há muito tempo, pensa-se que desde sempre, verticais e inamovíveis, e era impossível alguém acercar-se delas com intuitos hostis. Agora, estão derrubadas e destroçadas. A descarga consumou-se nesse acto.»
quinta-feira, 10 de março de 2016
59
«Os olhos que se lhe abrem de manhã saem
Rapidamente para o telhado e para os sons
Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.
Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,
Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,
Não para mim, para ela, com o som cadenciado
Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.
Moderno é um termo que me intriga, que briga
Comigo, que não se torna compreensível,
Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma
Abstracção indecisa, um prazo que trai um
Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,
Pouco se distingue das extremidades da rua
Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,
Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.
E, quando assim concluo, Melissa é moderna,
Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir
De visu o que, desde então, se alterou.
Rapidamente para o telhado e para os sons
Que, imagino, escuta pela abertura das pupilas.
Os extremos da rua, onde nunca foi, dizem-lhe,
Todavia, que alguém passa para ela, Melissa,
Não para mim, para ela, com o som cadenciado
Dos sinos actuais, já modernos. E tropeço.
Moderno é um termo que me intriga, que briga
Comigo, que não se torna compreensível,
Nem no limiar dos sinos. Tomo-o por uma
Abstracção indecisa, um prazo que trai um
Evento futuro sem, contudo, o espelhar. Em suma,
Pouco se distingue das extremidades da rua
Onde nunca foi. É uma palavra irresponsável,
Sem resposta para o antes, o decurso e o depois.
E, quando assim concluo, Melissa é moderna,
Actualiza, obriga-me a descer à rua inquirir
De visu o que, desde então, se alterou.
Maria Gabriela Llansol, O Começo de Um Livro É Precioso
quarta-feira, 9 de março de 2016
Tragédia
«... independentemente da beleza poética que a língua grega confere a tantas frases atribuídas a Jesus, pode dizer-se igualmente (e Wilde também viu isso) que a própria vida de Jesus é em si mesma "o mais maravilhoso dos poemas", superior a tudo o que nos legou a tragédia grega (continuo a citar Oscar Wilde). O poema trágico da vida de Jesus (expressão por meio da qual o autor de De Profundis pretendeu designar os quatro evangelhos) torna obsoleta a noção aristotélica de que o sofrimento de um inocente constitui uma situação à partida isenta de tragicidade. É que, para os Gregos, tragédia implicava uma quota-parte de responsabilidade própria, da parte de quem sofre, no sentimento sofrido. O poema da vida de Jesus sugere, ao contrário da tragédia grega, que nada há de mais trágico do que o sofrimento de um inocente. Ideia com que, ainda hoje, todos nós enquanto leitores de notícias internacionais somos forçados a concordar.»
Frederico Lourenço, O Livro Aberto: Leituras da Bíblia
terça-feira, 8 de março de 2016
I, 31
«Que pede um poeta a Apolo, a quem um templo
foi dedicado? Que suplica, derramando da pátera
um líquido novo? Nem as férteis colheitas
da fértil Sardenha,
nem o amável gado da ardente Calábria,
nem o ouro e o marfim da Índia, nem as terras
que o silente curso do Líris remordeja
com sua tranquila água.
Que a vinha seja com calena foice podada
pelos contemplados da fortuna, que em copos de ouro
o opulento mercador de um trago beba
os vinhos trocados por sírias mercadorias,
homem grato aos próprios deuses, pois todos os anos revê
impune três ou quatro vezes o mar atlântico;
quanto a mim, alimentam-me as azeitonas,
a chicória e as leves malvas.
Filho de Latona, faz com que saudável desfrute
daquilo que tenho, e que, rogo-te, de mente sã
leve uma velhice nem desagradável,
nem privada da cítara.
foi dedicado? Que suplica, derramando da pátera
um líquido novo? Nem as férteis colheitas
da fértil Sardenha,
nem o amável gado da ardente Calábria,
nem o ouro e o marfim da Índia, nem as terras
que o silente curso do Líris remordeja
com sua tranquila água.
Que a vinha seja com calena foice podada
pelos contemplados da fortuna, que em copos de ouro
o opulento mercador de um trago beba
os vinhos trocados por sírias mercadorias,
homem grato aos próprios deuses, pois todos os anos revê
impune três ou quatro vezes o mar atlântico;
quanto a mim, alimentam-me as azeitonas,
a chicória e as leves malvas.
Filho de Latona, faz com que saudável desfrute
daquilo que tenho, e que, rogo-te, de mente sã
leve uma velhice nem desagradável,
nem privada da cítara.
Horácio, Odes, I, 31
Caos
«A vida ali era tão rigorosamente regulada e determinada que poderia ser compreendida geométrica e biologicamente. Era difícil acreditar que aquilo pudesse estar relacionado com as condições de vida intensas, selvagens e caóticas de outras espécies, por exemplo, com as concentrações excessivas de girinos ou de alevins ou de larvas de insectos, onde a vida parecia surgir de um poço inesgotável. Mas assim era. O caos e a imprevisibilidade são características essenciais da vida e do seu fim, não sendo possível a primeira sem o segundo, e embora empreendamos quase todos os nossos esforços para tentar evitar o fim, não é necessário mais do que um breve momento de desespero para que vivamos à sua luz, e não à sua sombra, como agora.. O caos é uma espécie de força de gravidade, e o ritmo que conseguimos perceber na História, da ascensão e queda de civilizações, talvez seja devido a isso. É admirável que os extremos se pareçam, pelo menos num certo sentido, pois, tanto no caos absoluto como num mundo rigorosamente regulado e determinado, o indivíduo não é nada, a vida é tudo. Do mesmo modo que ao coração não interessa por que vida palpita, a cidade não se importa com quem cumpre as suas várias funções. Daqui a cento e cinquenta anos, quando toda a gente que hoje se movimenta pela cidade tiver morrido, o tumulto da actividade humana ainda se fará sentir obedecendo aos mesmos velhos padrões. A única coisa nova serão as caras das pessoas, embora não assim tão nova, porque se parecerão connosco.
Atirei a beata do cigarro para o chão e bebi o último gole de café, já frio.
O que eu via era a vida, aquilo em que pensava era na morte.»
Atirei a beata do cigarro para o chão e bebi o último gole de café, já frio.
O que eu via era a vida, aquilo em que pensava era na morte.»
Karl Ove Knausgard, A Minha Luta:1, A Morte do Pai
segunda-feira, 7 de março de 2016
Curiosidade (pubertária)
«Por um lado tínhamos medo de um verdadeiro ataque aéreo ou à bomba ou de terror à nossa cidade, que até a esse meio-dia de Outubro fora inteiramente poupada, mas, por outro, nós todos (educandos) desejávamos efectivamente, em segredo, ser confrontados com um desses ataques aéreos ou à bomba ou de terror como uma verdadeira vivência, não tivéramos ainda a nossa vivência de um terrível acontecimento dessa natureza, e a verdade é que nós, por curiosidade (pubertária), sentíamos um enorme desejo de que, depois das centenas de cidades alemãs e austríacas que já tinham sido bombardeadas e em grande parte ou mesmo completamente destruídas, como nós sabíamos e o que não só não nos ocultavam, como também todos os dias nos era forçosamente dado a conhecer através de toda a espécie de relatos pessoais ou do que os jornais publicavam com todo o seu horror de autenticidade, também a nossa cidade fosse bombardeada, o que realmente veio a acontecer, creio que no dia dezassete de Outubro.»
Thomas Bernhard, Autobiografia
sexta-feira, 4 de março de 2016
Há coisas de que se evita falar
Não
é cómodo falar daquilo que verdadeiramente importa quando se fala de
democracia, de liberdade, de justiça, de escola. Por esse motivo, carregamos de
verniz as conversas que vamos mantendo, evitando melindrar os outros, pois é
comum, por mais liberais que as pessoas se apresentem, ao verem-se confrontadas
com uma ideia que está do lado de fora das suas crenças, recuarem e fecharem-se
no seu cantinho de segurança. A ideia de segurança contém em gérmen a de
hipocrisia, o facto de se fazer tudo para manter uma aparência de ordem onde
não existe a possibilidade de essa ordem existir. O que existe é uma hipocrisia
instalada.
Os
ricos, por exemplo, têm razões para serem hipócritas e pretenderem defender uma
ordem particular. Eles são ricos, não pretendem que se verifiquem alterações no
seu modo de estar no mundo e na vida. O problema são os pobres. A pobreza não
tem que implicar uma hipoteca da dignidade. No entanto, muitos pobres receiam a
mudança, parecendo crer que têm mais para viver do que a própria miserável vida
que levam.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Trovoada
«Lembro-me dessa nuvem, e de rezar ao pé da minha avó, à luz da cera benta, luz parada, que parecia morta, diante dum crucifixo de marfim. Avisto ainda as fosforescências,rubras e azuladas,nos vidros das janelas, seguidas dum estrondo medonho de aéreos desabamentos. A voz do céu faz tremer o mundo. Até a nossa tristeza o impressiona e transfigura. O sonho domina a realidade. Que é a nebulosa, senão um sonho de Deus? A própria História tem uma origem sonâmbula. Os seus primeiros factos são fabulosos, porque foram gerados durante os sonhos dos heróis. A Mitologia é a mesma História, no seu princípio, desenvolvida ainda em pleno sono ou esquecimento. Quem se recorda de haver nascido? Que homem ou povo se recorda? Este esquecimento indefine o começo da nossa existência, quimérico e ilusório, como o seu fim. O berço e o túmulo não são para os olhos de quem neles está deitado.»
Teixeira de Pascoaes, São Jerónimo e a Trovoada
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Para a Dedicação de um Homem
Terrível é o homem em que o senhor
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia
Ruy Belo, «Aquele grande rio Eufrates»
segunda-feira, 29 de junho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
Não criamos as palavras
Não criamos as palavras.
O Verbo é que, em nós,
Se fez palavra.
A palavra humana
deriva do Verbo divino
e toca o silêncio das coisas,
mudas porque disseram tudo.
E, porque disseram tudo,
são perfeitas
no seu recorte definido.
A voz
só existe nos seres indefinidos
ou que têm ainda que dizer.
Mas a palavra
entoa no silêncio das coisas
e torna-se mais profunda.
O Verbo é que, em nós,
Se fez palavra.
A palavra humana
deriva do Verbo divino
e toca o silêncio das coisas,
mudas porque disseram tudo.
E, porque disseram tudo,
são perfeitas
no seu recorte definido.
A voz
só existe nos seres indefinidos
ou que têm ainda que dizer.
Mas a palavra
entoa no silêncio das coisas
e torna-se mais profunda.
Teixeira de Pascoaes
sábado, 13 de junho de 2015
O Remorso
«O Remorso não é igual ao que era, quando a Crença era forte e a Religião viva e austera. No findar deste século passam-se dramas pavorosos, que em vão a Humanidade procura explicar - e que atiram para a loucura os desequilibrados...
Aí tem Marcas, o violento aquafortista, cuja obra, de uma originalidade quase feroz, arrepia. Vivia à parte e a Arte era tudo para ele, sem se sacrificar ao público, arredado e intratável.
Músico de génio também, as suas águas-fortes, que o eminente crítico Ch. Maurice cita quase como um prodígio, ressentem-se da sua paixão pelas músicas desordenadas e evocadoras de coisas sinistras em decoros simples e trágicos. Um dia deste mês passado chega à polícia, perdido, o olhar fixo, e diz:
- Ela quer que diga que fui eu que a assassinei. Podem-me prender...
Estava doido? Não: a sua confissão era verdadeira. A traços rápidos eis aqui a parte importante da sua história:
Nervoso, e de uma sensibilidade de doente, intratável, como disse, a Vida, que para ele era dura, afligia-o. Desconhecido o seu génio, insultado muitas vezes; quando recolhia, fazia sofrer a mulher, uma pobre alma tímida, que só a ele via na terra. Muitas vezes compreendo esta necessidade de torturar alguém quando sofro... Um dia de perversidade, talvez desesperado, por ver que ela o sofria sempre resignada, matou-a. O crime foi atirado para as costas de um assassino vulgar. A concierge disse ter visto uma cara suspeita subir as escadas do prédio, e ninguém pensou que Marcas fosse capaz de matar.
Mas a sua vida, então, passou a ser estranha. Cavado pelo remorso, alucinado, não podia estar só, viver só: morria de pavor. A música, que ele tocava no violino, enlouquecia, como feita de gemidos de assassinados, ora rouca, com estertores de epilepsia, já triste e simples como fora talvez o último olhar da sua mulher. Perdia-se nos becos, andava sempre, para se cansar, para dormir; mas chegado a casa, impossível!... Ei-la que lhe aparecia, não em atitude de se vir vingar, mas pior, bem pior, resignada e triste!... A princípio vomitava-lhe infâmias, numa fúria. Lembrou-se do álcool, para se esquecer, e nunca conseguiu que ela o deixasse: até que um dia - conta ele -, com um olhar de piedade, a alma de sua mulher materializada pegou-lhe na mão e levou-o à polícia...»
Aí tem Marcas, o violento aquafortista, cuja obra, de uma originalidade quase feroz, arrepia. Vivia à parte e a Arte era tudo para ele, sem se sacrificar ao público, arredado e intratável.
Músico de génio também, as suas águas-fortes, que o eminente crítico Ch. Maurice cita quase como um prodígio, ressentem-se da sua paixão pelas músicas desordenadas e evocadoras de coisas sinistras em decoros simples e trágicos. Um dia deste mês passado chega à polícia, perdido, o olhar fixo, e diz:
- Ela quer que diga que fui eu que a assassinei. Podem-me prender...
Estava doido? Não: a sua confissão era verdadeira. A traços rápidos eis aqui a parte importante da sua história:
Nervoso, e de uma sensibilidade de doente, intratável, como disse, a Vida, que para ele era dura, afligia-o. Desconhecido o seu génio, insultado muitas vezes; quando recolhia, fazia sofrer a mulher, uma pobre alma tímida, que só a ele via na terra. Muitas vezes compreendo esta necessidade de torturar alguém quando sofro... Um dia de perversidade, talvez desesperado, por ver que ela o sofria sempre resignada, matou-a. O crime foi atirado para as costas de um assassino vulgar. A concierge disse ter visto uma cara suspeita subir as escadas do prédio, e ninguém pensou que Marcas fosse capaz de matar.
Mas a sua vida, então, passou a ser estranha. Cavado pelo remorso, alucinado, não podia estar só, viver só: morria de pavor. A música, que ele tocava no violino, enlouquecia, como feita de gemidos de assassinados, ora rouca, com estertores de epilepsia, já triste e simples como fora talvez o último olhar da sua mulher. Perdia-se nos becos, andava sempre, para se cansar, para dormir; mas chegado a casa, impossível!... Ei-la que lhe aparecia, não em atitude de se vir vingar, mas pior, bem pior, resignada e triste!... A princípio vomitava-lhe infâmias, numa fúria. Lembrou-se do álcool, para se esquecer, e nunca conseguiu que ela o deixasse: até que um dia - conta ele -, com um olhar de piedade, a alma de sua mulher materializada pegou-lhe na mão e levou-o à polícia...»
Raúl Brandão, in A Pedra ainda espera dar flor»
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Democracia
A democracia deixou de existir. De tal modo se vulgarizou a ideia igualitária, de acordo com a qual todos são iguais e todos sabem tudo, que agora se generalizou uma outra ideia, a de que qualquer pessoa pode emitir uma opinião sobre tudo, mesmo com um elevado grau de certeza. Até porque o eleitor deixou de ser um cidadão, mas sobretudo um consumidor. Nomeadamente eleitoral. O voto passou a ter um preço.
Uma coisa são os direitos consagrados por lei, os direitos constitucionais, por exemplo, outra coisa, bem diferente, é pensar-se que se pode dizer tudo o que apetece, com toda a certeza do mundo e do modo mais assertivo possível.
A este propósito apetece convocar a ideia de morte e a simbologia particular do Panteão Nacional. Nos últimos tempos a última morada dos homens e das mulheres ilustres do meu país estava consagrada apenas aos poucos que, de facto, se tinham entregado a uma missão superior ao serviço dos outros, nos domínios cultural e político. Com a entrada de um jogador de futebol nesse panteão, tudo se altera.
Com efeito, de um momento para o outro, e apenas movidos por um interesse imediato e eleitoralista, todos os partidos representados na Assembleia da República decidiram que o Panteão Nacional se deveria democratizar. Eu direi, vulgarizar.
Noutros países existem lugares específicos onde se imortalizam aqueles a quem o povo dedica afeição, mesmo depois de falecidos. Em Portugal isso não chega.
De certo modo, ao ver entrar algumas figuras públicas no Panteão Nacional, o povo sente que também ele ali está representado, e sente-se aconchegado...
O problema diz respeito aos patamares de exigência que colocamos em nós próprios e, por conseguinte, na vida e no mundo que nos rodeia.
O patamar de exigência português é muito raso.
Uma coisa são os direitos consagrados por lei, os direitos constitucionais, por exemplo, outra coisa, bem diferente, é pensar-se que se pode dizer tudo o que apetece, com toda a certeza do mundo e do modo mais assertivo possível.
A este propósito apetece convocar a ideia de morte e a simbologia particular do Panteão Nacional. Nos últimos tempos a última morada dos homens e das mulheres ilustres do meu país estava consagrada apenas aos poucos que, de facto, se tinham entregado a uma missão superior ao serviço dos outros, nos domínios cultural e político. Com a entrada de um jogador de futebol nesse panteão, tudo se altera.
Com efeito, de um momento para o outro, e apenas movidos por um interesse imediato e eleitoralista, todos os partidos representados na Assembleia da República decidiram que o Panteão Nacional se deveria democratizar. Eu direi, vulgarizar.
Noutros países existem lugares específicos onde se imortalizam aqueles a quem o povo dedica afeição, mesmo depois de falecidos. Em Portugal isso não chega.
De certo modo, ao ver entrar algumas figuras públicas no Panteão Nacional, o povo sente que também ele ali está representado, e sente-se aconchegado...
O problema diz respeito aos patamares de exigência que colocamos em nós próprios e, por conseguinte, na vida e no mundo que nos rodeia.
O patamar de exigência português é muito raso.
Crepúsculo
«Crepúsculo é a palavra mais rica de sentido: o verbo das fontes e a Bíblia, a revelação das trevas e da luz, a do primeiro vagido e a do último suspiro. É a passagem do aquém para o além, do nada para o tudo; e é esse indefinido misterioso em que aparece e desaparece a Criação. Não é o homem o crepúsculo vespertino do Orango e o matinal de Adão? Assim seja...»
Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho
Subscrever:
Mensagens (Atom)