Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo
Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa, in Poemas Inéditos
My Erotic Double
He says he doesn't feel like working today.
It's just as well. Here in the shade
Behind the house, protected froma street noises,
One can go over all kinds of the old feeling,
Throw some away, keep others.
The wordplay
Between us gets very intense when there are
Fewer feelings around to confuse things.
Another go-round? No, but the last things
You always find to say are charming, and rescue me
Before the night does. We are afloat
On our dreams as on a barge made of ice,
Shot through with questions and fissures of starlight
That keep us awake, thinking about the dreams
As they are happening, Some occurrence, You said it.
I said it but I can hide it. But I choose not to.
Thank you. You are a very pleasant person.
Thank you. You are too.
It's just as well. Here in the shade
Behind the house, protected froma street noises,
One can go over all kinds of the old feeling,
Throw some away, keep others.
The wordplay
Between us gets very intense when there are
Fewer feelings around to confuse things.
Another go-round? No, but the last things
You always find to say are charming, and rescue me
Before the night does. We are afloat
On our dreams as on a barge made of ice,
Shot through with questions and fissures of starlight
That keep us awake, thinking about the dreams
As they are happening, Some occurrence, You said it.
I said it but I can hide it. But I choose not to.
Thank you. You are a very pleasant person.
Thank you. You are too.
John Ashbery
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Renascimento
O bárbaro pintor borrou,
Com seu pincel sonolento,
A tela dum génio, sua marca
Gravou nela torpemente.
Mas a tinta intrusa, cos anos,
Em escamas velhas se esboroa;
E surge a obra à nossa vista
Na sua beleza de outrora.
Assim se apagam as ilusões
Da minh'alma martirizada,
E nela surgem as visões
Da manhã primeva e clara.
Com seu pincel sonolento,
A tela dum génio, sua marca
Gravou nela torpemente.
Mas a tinta intrusa, cos anos,
Em escamas velhas se esboroa;
E surge a obra à nossa vista
Na sua beleza de outrora.
Assim se apagam as ilusões
Da minh'alma martirizada,
E nela surgem as visões
Da manhã primeva e clara.
Aleksandr Púchkin
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Salmo
Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiado pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
- Pai Pai faça-te a tua vontade! -
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã...
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiado pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de alibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
Jorge Sousa Braga, O Novíssimo Testamento e outros poemas
terça-feira, 30 de julho de 2013
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Fim
«Bato à porta de um homem que sabe que vai morrer. Espero que o homem me diga como se sente um homem que sabe que vai morrer. Preparou a família para que o luto deles resultasse menos difícil. Despediu-se de quem queria despedir-se.
O enfermeiro faz-lhe a barba para que se mantenha digno apesar do pijama, das fraldas, da barba. O homem olha-me, a estranha, com os olhos esbugalhados durante uns segundos, e a seguir revira-os. Não cheguei a tempo. O homem já não pode falar. Está apenas concentrado em morrer, e parece ser uma tarefa que exige um tremendo esforço.
Manual de sobrevivência:
2 - Pensar na morte com detalhe. Não pensar no todo.»
O enfermeiro faz-lhe a barba para que se mantenha digno apesar do pijama, das fraldas, da barba. O homem olha-me, a estranha, com os olhos esbugalhados durante uns segundos, e a seguir revira-os. Não cheguei a tempo. O homem já não pode falar. Está apenas concentrado em morrer, e parece ser uma tarefa que exige um tremendo esforço.
Manual de sobrevivência:
2 - Pensar na morte com detalhe. Não pensar no todo.»
Susana Moreira Marques, Agora e na hora da nossa morte
quarta-feira, 17 de julho de 2013
La voce
Ogni giorno il silenzio della camera sola
si richiude sul lieve sciacquío d'ogni gesto
come l'aria. Ogni giorno la breve finestra
s'apre immobile all'aria che tace. La voce
rauca e dolce non torna nel fresco silenzio.
S'apre come il respiro di chi sia per parlare
l'aria immobile, e tace. Ogni giorno è la stessa.
E la voce è la stessa, che non rompe il silenzio,
rauca e uguale per sempre nell'immobilità
del ricordo. La chiara finestra accompagna
col suo palpito breve la calma d'allora.
Ogni gesto percuote la calma d'allora.
Se suonasse la voce, tornerebbe il dolore.
Tornerebbero i gesti nell'aria stupita
e parole parole alla voce sommessa.
Se suonasse la voce anche il palpito breve
del silenzio che dura, si farebbe dolore.
Tornerebbero i gesti del vano dolore,
percuotendo le cose nel rombo del tempo.
Ma la voce non torna, e il susurro remoto
non increspa il ricordo. L'immobile luce
dà il suo palpito fresco. Per sempre il silenzio
tace rauco e sommesso nel ricordo d'allora.
si richiude sul lieve sciacquío d'ogni gesto
come l'aria. Ogni giorno la breve finestra
s'apre immobile all'aria che tace. La voce
rauca e dolce non torna nel fresco silenzio.
S'apre come il respiro di chi sia per parlare
l'aria immobile, e tace. Ogni giorno è la stessa.
E la voce è la stessa, che non rompe il silenzio,
rauca e uguale per sempre nell'immobilità
del ricordo. La chiara finestra accompagna
col suo palpito breve la calma d'allora.
Ogni gesto percuote la calma d'allora.
Se suonasse la voce, tornerebbe il dolore.
Tornerebbero i gesti nell'aria stupita
e parole parole alla voce sommessa.
Se suonasse la voce anche il palpito breve
del silenzio che dura, si farebbe dolore.
Tornerebbero i gesti del vano dolore,
percuotendo le cose nel rombo del tempo.
Ma la voce non torna, e il susurro remoto
non increspa il ricordo. L'immobile luce
dà il suo palpito fresco. Per sempre il silenzio
tace rauco e sommesso nel ricordo d'allora.
Cesare Pavese, Lavorare stanca
domingo, 14 de julho de 2013
Reverso
Eu sei que me vais encontrar, morte,
em cada senda de atormentadas almas,
em cada falésia onde contive o suicídio e as
lágrimas,
eu sei que em cada recanto, em cada ferida
aberta e luminosa,
há um labirinto sem fim,
um jogo de nocturnas deambulações, uma
embriaguez ao acaso de tudo o que nasce e
nascendo
começa a perder-se, devastando as páginas
com os seus insectos negros,
as suas letras que se unem sempre aquém do
pensamento,
tal como outrora se uniam os amantes em seu
jardim.
em cada senda de atormentadas almas,
em cada falésia onde contive o suicídio e as
lágrimas,
eu sei que em cada recanto, em cada ferida
aberta e luminosa,
há um labirinto sem fim,
um jogo de nocturnas deambulações, uma
embriaguez ao acaso de tudo o que nasce e
nascendo
começa a perder-se, devastando as páginas
com os seus insectos negros,
as suas letras que se unem sempre aquém do
pensamento,
tal como outrora se uniam os amantes em seu
jardim.
José Agostinho Baptista, Agora e na hora da nossa morte
sábado, 13 de julho de 2013
Verdade
O intelecto finito não pode, pois, atingir com precisão a verdade das coisas através da semelhança. Com efeito, a verdade não é susceptível de mais nem de menos e consiste em algo de indivisível, não a podendo medir com precisão nada que não seja o próprio verdadeiro, tal como o que não é círculo não pode medir o círculo, cujo ser consiste em algo de indivisível. Assim, o intelecto que não é a verdade jamais compreende a verdade de modo tão preciso que ela não possa ser compreendida de modo infinitamente mais preciso, pois ele está para a verdade como o polígono para o círculo: por mais ângulos que tenha inscritos, tanto mais semelhante [será] ao círculo, mas nunca será igual, ainda que se multipliquem os seus ângulos até ao infinito, a não ser que se resolva na identidade com o círculo.
É, pois, evidente que nada mais sabemos do verdadeiro a não ser que, tal como é, é incompreensível com precisão, comportando-se a verdade em relação a si como necessidade absoluta, que não pode ser nem mais nem menos do que aquilo que é, ao passo que o nosso intelecto se comporta como possibilidade. Portanto, a quididade das coisas, que é a verdade dos entes, é inatingível na sua pureza, e, procurada por todos os filósofos, não foi, no entanto, tal como é, encontrada por nenhum. E quanto mais profundamente doutos formos nesta ignorância, tanto mais nos aproximaremos da própria verdade.
É, pois, evidente que nada mais sabemos do verdadeiro a não ser que, tal como é, é incompreensível com precisão, comportando-se a verdade em relação a si como necessidade absoluta, que não pode ser nem mais nem menos do que aquilo que é, ao passo que o nosso intelecto se comporta como possibilidade. Portanto, a quididade das coisas, que é a verdade dos entes, é inatingível na sua pureza, e, procurada por todos os filósofos, não foi, no entanto, tal como é, encontrada por nenhum. E quanto mais profundamente doutos formos nesta ignorância, tanto mais nos aproximaremos da própria verdade.
Nicolau de Cusa, A Douta Ignorância
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Art gives us form and clarity and grace,
Art gives us form and clarity and grace,
Nature a singing-freshness, pulse and pace.
Dear András, in your natural art,one thing
Rings through the varied air - the urge to sing.
A constant tonic was what Bach once drew.
So, as you pour it, is this draught from you.
So, as I drink it, does my mind grow clear,
Clear too my dormant heart, my deadened ear.
How could I,like poor Goldberg, hope to sleep?
I laugh, surprised ny pleasure, and I weep.
For all of this my thanks: for storm, for calm,
For all that music is, both barb and balm.
Nature a singing-freshness, pulse and pace.
Dear András, in your natural art,one thing
Rings through the varied air - the urge to sing.
A constant tonic was what Bach once drew.
So, as you pour it, is this draught from you.
So, as I drink it, does my mind grow clear,
Clear too my dormant heart, my deadened ear.
How could I,like poor Goldberg, hope to sleep?
I laugh, surprised ny pleasure, and I weep.
For all of this my thanks: for storm, for calm,
For all that music is, both barb and balm.
Vikram Seth
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Navio Naufragado
Vinha dum mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.
Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.
Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 7 de julho de 2013
234.
O cameretta, che già fosti un porto
a le gravi tempeste mie diurne,
fonte se' or di lagrime notturne,
che 'l dì celate per vergogna porto!
O letticciuol, che requie eri e conforto
in tanti affanni, di che dogliose urne
ti bagna Amor, con quelle mani eburne,
solo vèr' me crudeli a sì gran torto!
Né pur il mio secreto, e 'l mio riposo,
fuggo, ma più me stesso, e 'l mio pensero
che, seguendol talor, levommi a volo;
e 'l vulgo, a me nemico, et odioso
(chi 'l pensò mai?), per mio refugio chero:
tal paura ho di ritrovarmi solo.
a le gravi tempeste mie diurne,
fonte se' or di lagrime notturne,
che 'l dì celate per vergogna porto!
O letticciuol, che requie eri e conforto
in tanti affanni, di che dogliose urne
ti bagna Amor, con quelle mani eburne,
solo vèr' me crudeli a sì gran torto!
Né pur il mio secreto, e 'l mio riposo,
fuggo, ma più me stesso, e 'l mio pensero
che, seguendol talor, levommi a volo;
e 'l vulgo, a me nemico, et odioso
(chi 'l pensò mai?), per mio refugio chero:
tal paura ho di ritrovarmi solo.
Francesco Petrarca, Rime
sábado, 6 de julho de 2013
Em tormentos cruéis, tal sofrimento
Em tormentos cruéis, tal sofrimento,
Em tão contínua dor, que nunca aliva,
Chamar a morte sempre, e que ela, altiva,
Se ria dos meus rogos, no tormento;
E ver no mal que todo entendimento
Naturalmente foge, e quanto aviva
A dor mais o vagar da alma cativa,
A quem não fará crer que é tudo um vento?
Bem sei uns olhos que tem toda a culpa,
e são os meus, que a toda a parte vem
Após o que vem sempre e os desculpa.
Ó minhas visões altas, meu só bem,
Quem vos a vós não vê, esse me culpa,
E eu sou o só que as vejo, outrem ninguém.
Em tão contínua dor, que nunca aliva,
Chamar a morte sempre, e que ela, altiva,
Se ria dos meus rogos, no tormento;
E ver no mal que todo entendimento
Naturalmente foge, e quanto aviva
A dor mais o vagar da alma cativa,
A quem não fará crer que é tudo um vento?
Bem sei uns olhos que tem toda a culpa,
e são os meus, que a toda a parte vem
Após o que vem sempre e os desculpa.
Ó minhas visões altas, meu só bem,
Quem vos a vós não vê, esse me culpa,
E eu sou o só que as vejo, outrem ninguém.
Francisco de Sá de Miranda
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