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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Desejar

Desejar é a coisa mais simples e humana que existe. Por que é que, então, até os nossos desejos são para nós inconfessáveis, por que é que é tão difícil transformá-los em palavras? Tão difícil que acabamos por mantê-los escondidos, que construímos para eles, algures dentro de nós, uma cripta onde permanecem embalsamados, à espera.
Não podemos transpor para a linguagem os nossos desejos porque os imaginamos. Na realidade, a cripta contém, apenas, imagens, tal como um livro ilustrado para crianças que ainda não sabem ler; tal como as images d'Epinal de um povo analfabeto. O corpo dos desejos é uma imagem que fazemos dele.
Comunicar a alguém os nossos desejos sem as imagens é uma brutalidade. Comunicar-lhe as imagens sem os desejos é enfadonho (como contar os sonhos ou as viagens). Mas fácil, em ambos os casos. Comunicar os desejos imaginados e as imagens desejadas é tarefa mais árdua. Por isso o adiamos. Até ao momento em que começamos a perceber que permanecerá para sempre sem resposta. E que aquele desejo inconfessado somos nós próprios, para sempre prisioneiros na cripta.
O Messias vem pelos nossos desejos. Separa-os das imagens para os satisfazer. Ou, melhor, para os mostrar já satisfeitos. Aquilo que imaginámos já o tínhamos dito. Restam - impossíveis de satisfazer - as imagens do satisfeito. Com os desejos satisfeitos, ele constrói o inferno; com as imagens impossíveis de satisfazer, constrói o limbo. E com o desejo imaginado, com a pura palavra, constrói a bem-aventurança do paraíso.

Giorgio Agamben, Profanações

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Caveman - In the City

A Prayer in Spring

Oh, give us pleasure in the flowers to-day;
And give us not to think so far away
As the uncertain harvest; keep us here
All simply in the springing of the year.

Oh, give us pleasure in the orchard white,
Like nothing else by day, like ghosts by night;
And make us happy in the happy bees,
The swarm dilating round the perfect trees.

And make us happy in the darting bird
That suddenly above the bees is heard,
The meteor that thrusts in with needle bill,
And off a blossom in mid air stands still.

For this is love and nothing else is love,
The which it is reserved for God above
To sanctify to what far ends He will,
But which it only needs that we fulfil.

Robert Frost

sábado, 25 de maio de 2013

Noah And The Whale - There Will Come A Time

História

«Há uma definição que, de certa maneira, marcou o meu percurso como escritor, sobretudo como romancista, e que, tenho de confessar, recebo com uma certa impaciência. Trata-se do rótulo gasto de que sou um romancista histórico,o que se confirmaria tanto por alguns livros que escrevi como pela minha relação com o tempo e posição perante a história. Quero dizer, não obstante, que antes de começar a escrever sustentava como uma evidência palmária (por outro lado nada original) que somos herdeiros de um tempo, de uma cultura e que, para usar um símile que algumas vezes empreguei, vejo a humanidade como se fosse o mar. Imaginemos por um momento, que estamos numa praia: o mar está ali, e continuamente aproxima-se em ondas sucessivas que chegam à costa. Pois bem, essas ondas, que avançam e não poderiam mover-se sem o mar que está por detrás delas, trazem uma pequena franja de espuma que avança em direcção à praia onde vão acabar. Penso, continuando a usar esta metáfora marítima, que somos nós a espuma que é transportada nessa onda, essa onda é impelida pelo mar que é o tempo, todo o tempo que ficou atrás, todo o tempo vivido que nos leva e nos empurra. Convertidos numa apoteose de luz e de cor entre o espaço e o mar, somos, os seres humanos, essa espuma branca brilhante, cintilante, que tem uma breve vida, que despede um breve fulgor, gerações e gerações que se vão sucedendo umas às outras transportadas pelo mar que é o tempo. E a história, onde fica? Sem dúvida a história preocupa-me, embora seja mais certo dizer que o que realmente me preocupa é o Passado, e sobretudo o destino da onda que se quebra na praia, a humanidade empurrada pelo tempo e que ao tempo sempre regressa, levando consigo, no refluxo, uma partitura, um quadro, um livro ou uma revolução. Por isso prefiro falar mais de vida do que de literatura, sem esquecer que a literatura está na vida e que sempre teremos perante nós a ambição de fazer da literatura vida.»

José Saramago, A Estátua e a pedra

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Hector Zazou & Björk - Vísur Vatnsenda Rósu

40.

Como dizia o outro, mesmo
quando não tiver olhos ainda
te verei: e como nunca até.

Se os vermes os comerem, ou em tição
mudarem antes da leve poeirada,
fina, indetectável,
se os olhos
não estiverem, não abrirem, não
soltarem água,
se os olhos não forem mais do que a memória,
eu te verei então
eu te verei ainda:
e mais que nunca até.

Pedro Tamen, Rua de nenhures

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Fiona Apple - Paper Bag

Silêncio

«O silêncio levantou voo e fez mira
sobre as coisas e as suas secretas imagens.
A máquina disparou sobre o mundo, iluminado
pela luz do inverno; os projécteis atingiram-no
por séries de imagens fragmentárias -
fotografias.

Trabalho da cegueira que escolhe
segundo a lenta preferência;
com toda a lentidão
do mundo; a mão dispara ao retardador
sobre as coisas fotografadas, apaga o seu enquadramento
elege e reenquadra um pormenor -
o fragmento de um fragmento.»

Manuel Gusmão, Pequeno tratado das figuras

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Wagner - Tristan und Isolde - Liebestod

Vontade

«Digam-me agora: como podia um tal ser, de um invólucro tão pesado, lançar os seus olhares sobre o mundo? Seguramente, as emoções profundas da sua Vontade não eram capazes de determinar, pelo menos de uma maneira distinta, a sua percepção do mundo; elas eram bastante violentas e ao mesmo tempo bastante delicadas para se ligarem a alguma das aparências que o seu olhar tocasse com tímida rapidez - e finalmente com essa desconfiança do eterno insatisfeito. Nada o podia atrair, nada lhe podia oferecer essa ilusão fugidia que atraíra ainda um Mozart para fora do seu mundo interior e o lançara na procura de prazeres exteriores. O prazer infantil dos que procuram as distracções de uma grande cidade de prazer quasi não tocava superficialmente Beethoven: o impulso da Vontade era nele demasiado vigoroso para que pudesse encontrar a menor satisfação numa tal existência, cujo brilho é completamente aparente. Foi assim que ele nutriu pela solidão uma tendência cada vez mais viva, que concordava com a sua necessidade de independência. Um instinto de uma maravilhosa segurança inspirava-o e tornava-se a mola essencial das manifestações do seu carácter. Nenhum raciocínio o teria guiado mais eficazmente que a determinação imperiosa deste instinto.»

Richar Wagner, Beethoven  

Pietro Torri - Missa pro defunctis in F-major (1726)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Símbolo e constelação de vida

«A concepção do símbolo em Broch tem de ser integrada na concepção mais vasta dos valores, no coração da relação entre a consciência empírica e a consciência pura. O símbolo aparece-lhe mesmo como a protagonização exemplar dessa relação, "a única realização da ideia platónica no mundo empírico"(...). O que significa isto? A resposta é dada na Autobiografia psíquica. Em primeiro lugar, a descoberta da estranheza no âmago familiar, que acaba, como desdobramento da própria experiência, por se converter num sonho. Para Broch, só reencontra o real aquele que experimenta a estranheza no familiar, quer dizer, é pelo sentimento de estranheza que se caminha em direcção a um limiar inexpugnável do si próprio ou da alma (Broch não os distingue)."

Maria Filomena Molder, Símbolo, analogia e afinidade

Paolo Conte - Intimità

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 12 de maio de 2013

SADE - YOUR LOVE IS KING

Fausto

Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra coisa que a noite e o vento -
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão

Fernando Pessoa, Fausto

Sonic Youth - The Empty Page

domingo, 17 de março de 2013

Mapa

I

O poeta
[o cartógrafo?]
observa
as suas
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
arquipélago
a que falta
vento,
fauna, flora,
e o hálito húmido
da espuma,


II

pensando
que
talvez alguma
ave errante
traga
à solidão
do mapa,
aos recifes desertos,
um frémito,
um voo,
se for possível
voar
sobre tanta
aridez.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 13 de março de 2013

Filippa Giordano - Fratello Sole, Sorella Luna (Title Theme)

Cantico delle creature


« Altissimu, onnipotente, bon Signore,
tue so’ le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfàno et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate sole, lo qual’è iorno, et allumini noi per lui. Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore, de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle, in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dai sustentamento.
Laudato si’, mi’ Signore, per sor’aqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi Signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, et ello è bello et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato si’, mi’ Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore, et sostengo infirmitate et tribulatione.
Beati quelli ke 'l sosterrano in pace, ka da te, Altissimo, sirano incoronati.
Laudato si’ mi’ Signore per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente pò skappare: guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali; beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda no 'l farrà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore' et ringratiate et serviateli cum grande humilitate »

São Francisco

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Juventude

«É preciso todavia uma grande ingenuidade para crer que gritar e bradar no mundo há-de auxiliar, como se dessa maneira o destino de um indivíduo se modificasse. Aceita-se tal como nos é oferecido, e contorna-se todas as complicações. Na minha juventude, quando ia a um restaurante, dizia então para o criado: um naco bom, um naco muito bom, do lombo, sem ser demasiado gordo. Talvez o criado nem sequer ouvisse o meu clamor, e menos ainda houvesse de nele ter atentado, e menos ainda houvesse a minha voz de conseguir chegar à cozinha e influenciar o cortador, e mesmo que tudo isso acontecesse, talvez não houvesse um bom naco em todo o assado. Agora já não grito mais.»

Soren Kierkegaard, Ou - Ou, Um Fragmento de Vida

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rhye - "The Fall" (Official Music Video)

Menzogna

«"... svariate missive di lettori e lettrici, a proposito do Si sta facendo sempre più tardi, secondo i quali avrei raccontato la loro storia, perché si erano riconosciuti in questa o in quella lettera. E fin qui, passi. Hai voglia di appellarti alla cosiddetta 'autonomia del testo' o a certe geniali battute del Gadda: la letteratura sarà sempre uno specchio dove riconoscerti, se ti cerchi, o soprattutto se non hai altre uscite. Ma figurati che un signore, credo uno scienziato del ramo medico che vive negli Stati Uniti e che assicura di avermi conosciuto a Genova vent'anni fa, ha scritto una lettera al regista Fernando Lopes dove pretende che la sua figura (di lui, il medico) mi sarebbe servita per il personaggio di Spino, abbassando però il livello sociale e profissionale. Spino in realtà sarei io, perché dentro la sua pelle ci avrei infilato il me stesso di allora, un uomo di un pessimismo funereo, dice, praticamente nichilista, privo di teoretica e soprattutto senza ideali né speranza. So già cosa mi risponderesti: e il padrone della Tabaccheria ha sorriso. D'accordo, però a quel signore direi volentieri che se Spino sono io, ma in fondo ci si riconosce lui, ebbene, non è vero soltanto che quando si scrive l'Io è un altro, come ci insegnano. È un altro anche lui, finalmente, e che non se la prenda troppo; qualcuno gli ha fatto cambiare pelle, una volta nella vita. Vita che sarà anche brillante, soddisfacente e di prima classe, mas questo non elimina la monotonia. Io l'ho fatto viaggiare in terza classe, anche se per poche pagine, ma grazie a me ha fatto un'esperienza che forse in vita sua non avrebbe mai fatto. Insomma, un'autobiografia altrui, se così posso dire, fatta da un mio lettore, che a suo modo è una poetica a posteriori anch'essa, e che certo non mi lascio scappare, perché merita un suo posto fra queste mie poetiche a posteriori tendenzialmente illogiche, carenti di deontologia, cariche di false memorie e false volontà, messaggere di un senso che ci sforziamo pateticamente di dare poi a qualcosa che avvenne prima. Vedrai: ipotesi vagabonde, nomadi e soprattutto arbitrarie, alle quali non si addice nessuna filologia. E che sono soprattutto un pretesto per parlare di libri altrui. Credo sia questo il senso delle pagine che ti mando, pagine che valgono per quello che valgono, a parte il valore che ha la menzogna, volontaria o involontaria che sia. Perché la menzogna ha comunque una certa utilità: serve a definire i confini della verità".»

Antonio Tabucchi, Lettera a un amico