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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 12 de maio de 2013

SADE - YOUR LOVE IS KING

Fausto

Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra coisa que a noite e o vento -
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão

Fernando Pessoa, Fausto

Sonic Youth - The Empty Page

domingo, 17 de março de 2013

Mapa

I

O poeta
[o cartógrafo?]
observa
as suas
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
arquipélago
a que falta
vento,
fauna, flora,
e o hálito húmido
da espuma,


II

pensando
que
talvez alguma
ave errante
traga
à solidão
do mapa,
aos recifes desertos,
um frémito,
um voo,
se for possível
voar
sobre tanta
aridez.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 13 de março de 2013

Filippa Giordano - Fratello Sole, Sorella Luna (Title Theme)

Cantico delle creature


« Altissimu, onnipotente, bon Signore,
tue so’ le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfàno et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate sole, lo qual’è iorno, et allumini noi per lui. Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore, de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle, in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dai sustentamento.
Laudato si’, mi’ Signore, per sor’aqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi Signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, et ello è bello et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato si’, mi’ Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore, et sostengo infirmitate et tribulatione.
Beati quelli ke 'l sosterrano in pace, ka da te, Altissimo, sirano incoronati.
Laudato si’ mi’ Signore per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente pò skappare: guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali; beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda no 'l farrà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore' et ringratiate et serviateli cum grande humilitate »

São Francisco

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Juventude

«É preciso todavia uma grande ingenuidade para crer que gritar e bradar no mundo há-de auxiliar, como se dessa maneira o destino de um indivíduo se modificasse. Aceita-se tal como nos é oferecido, e contorna-se todas as complicações. Na minha juventude, quando ia a um restaurante, dizia então para o criado: um naco bom, um naco muito bom, do lombo, sem ser demasiado gordo. Talvez o criado nem sequer ouvisse o meu clamor, e menos ainda houvesse de nele ter atentado, e menos ainda houvesse a minha voz de conseguir chegar à cozinha e influenciar o cortador, e mesmo que tudo isso acontecesse, talvez não houvesse um bom naco em todo o assado. Agora já não grito mais.»

Soren Kierkegaard, Ou - Ou, Um Fragmento de Vida

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rhye - "The Fall" (Official Music Video)

Menzogna

«"... svariate missive di lettori e lettrici, a proposito do Si sta facendo sempre più tardi, secondo i quali avrei raccontato la loro storia, perché si erano riconosciuti in questa o in quella lettera. E fin qui, passi. Hai voglia di appellarti alla cosiddetta 'autonomia del testo' o a certe geniali battute del Gadda: la letteratura sarà sempre uno specchio dove riconoscerti, se ti cerchi, o soprattutto se non hai altre uscite. Ma figurati che un signore, credo uno scienziato del ramo medico che vive negli Stati Uniti e che assicura di avermi conosciuto a Genova vent'anni fa, ha scritto una lettera al regista Fernando Lopes dove pretende che la sua figura (di lui, il medico) mi sarebbe servita per il personaggio di Spino, abbassando però il livello sociale e profissionale. Spino in realtà sarei io, perché dentro la sua pelle ci avrei infilato il me stesso di allora, un uomo di un pessimismo funereo, dice, praticamente nichilista, privo di teoretica e soprattutto senza ideali né speranza. So già cosa mi risponderesti: e il padrone della Tabaccheria ha sorriso. D'accordo, però a quel signore direi volentieri che se Spino sono io, ma in fondo ci si riconosce lui, ebbene, non è vero soltanto che quando si scrive l'Io è un altro, come ci insegnano. È un altro anche lui, finalmente, e che non se la prenda troppo; qualcuno gli ha fatto cambiare pelle, una volta nella vita. Vita che sarà anche brillante, soddisfacente e di prima classe, mas questo non elimina la monotonia. Io l'ho fatto viaggiare in terza classe, anche se per poche pagine, ma grazie a me ha fatto un'esperienza che forse in vita sua non avrebbe mai fatto. Insomma, un'autobiografia altrui, se così posso dire, fatta da un mio lettore, che a suo modo è una poetica a posteriori anch'essa, e che certo non mi lascio scappare, perché merita un suo posto fra queste mie poetiche a posteriori tendenzialmente illogiche, carenti di deontologia, cariche di false memorie e false volontà, messaggere di un senso che ci sforziamo pateticamente di dare poi a qualcosa che avvenne prima. Vedrai: ipotesi vagabonde, nomadi e soprattutto arbitrarie, alle quali non si addice nessuna filologia. E che sono soprattutto un pretesto per parlare di libri altrui. Credo sia questo il senso delle pagine che ti mando, pagine che valgono per quello che valgono, a parte il valore che ha la menzogna, volontaria o involontaria che sia. Perché la menzogna ha comunque una certa utilità: serve a definire i confini della verità".»

Antonio Tabucchi, Lettera a un amico

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vozes

Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, e daqueles que são
para nós perdidos como os mortos.

Às vezes nos nossos sonhos falam;
às vezes no pensamento as ouve a mente.

E com o seu som por um momento regressam
sons da primeira poesia da nossa vida -
qual música,à noite,  longínqua, que se apaga.

Konstandinos Kavafis

sábado, 26 de janeiro de 2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

Vida

«Mas a vida. A lenta derrocada dos grandes caules verdes de tal modo que a flor acaba por se virar, ao cair, inundando-nos com uma luz de púrpura e vermelho. Por que é que, bem vistas as coisas, não nascemos  ali em vez de aqui, desamparados, incapazes de ajustarmos como deve ser a luz do olhar, rastejando na erva entre as raízes, entre os calcanhares dos Gigantes? Porque dizer o que são as árvores, e o que são homens e o que são mulheres, ou sequer o que é haver coisas como árvores, homens e mulheres, não será algo que estejamos em condições  de fazer nos próximos cinquenta anos. Não há nada por vezes senão espaços de luz e de escuridão, intersectados por grandes hastes densas e talvez bastante mais acima manchas em forma de rosa - rosa-pálido ou azul-pálido - de cor indecisa, e tudo isso, à medida que o tempo passa, se vai tornando mais definido e se transforma - em não se pode saber o quê.»

Virginia Woolf, «A Marca na Parede» 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Luz Casal ► Piensa en mi

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Rimembranza

«Mentre il mondo del futuro è aperto all'immaginazione, e non ti appartiene più, il mondo del passato è quello in cui attraverso la rimembranza ti rifugi in te stesso, ritorni in te stesso, ricostruisci la tua identità, che si è venuta formando e rivelando nella ininterrotta serie dei tuoi atti di vita, concatenati gli uni con gli altri, ti giudichi, ti assolvi, ti condanni, puoi anche tentare, quando il corso della vita sta per essere consumato, di fare il bilancio finale. Bisogna affrettarsi. Il vecchio vive di ricordi e per i ricordi, ma la sua memoria si affievolisce di giorno in giorno. Il tempo della memoria procede all'inverso di quello reale: tanto più vivi i ricordi che affiorano nella reminiscenza quanto più lontani nel tempo gli eventi. Ma sai anche che ciò che è rimasto, o sei riuscito a scavare in quel pozzo senza fondo, non è cha un'infinitesima  parte della storia della tua vita. Non arrestarti. Non tralasciare di continuare a scavare. Ogni volto, ogni gesto, ogni parola,ogni più lontano canto, ritrovati, che sembravano perduti per sempre, ti aiutano a sopravvivere.»

Norbeto Bobbio, De Senectute e altri scritti autobiografici

sábado, 5 de janeiro de 2013

New Order - Regret (Official Video) High Quality

O Silva

Morreu o filho do barbeiro,
Uma criança de cinco anos.
Conheço o pai - há um ano inteiro
Que me barbeia e nos falamos.

Quando mo disse, o que em mim há
De coração sofreu assombro
E eu abracei-o, incerto já,
E ele chorou sobre o meu ombro.

Nunca acho uma atitude plana
Na vida estúpida e tranquila;
mas, meu Deus, sinto a dor humana!
Nunca me tires o senti-la!

Fernando Pessoa, Poemas de Fernando Pessoa (1934-1935) [edição de Luís Prista] 

New Order - Ceremony (Live At Finsbury Park 9th June 02)

Morte

«É provável que o pensamento filosófico tenha nascido como reflexão sobre o começo, sobre o arkhé - como nos ensinam os pré-socráticos -, mas essa reflexão foi certamente inspirada pela constatação de que as coisas, para além de um começo, também têm um fim. Por outro lado, o exemplo clássico do silogismo (logo, de um raciocínio incontestável) é: «Todos os homens são mortais, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal.» Que Sócrates também é mortal é o resultado de uma inferência, mas que todos os homens o sejam é uma premissa indiscutível. Muitas outras verdades indiscutíveis (que o Sol gira à volta da Terra, que há uma geração espontânea, que a pedra filosofal existe) foram revogadas pela dúvida ao longo da História - mas que todos os homens sejam mortais, não. No máximo, os crentes assumem que houve Um que ressuscitou: mas para poder ressuscitar teve de morrer.
É por isto que quem pratica a filosofia aceita a morte como o nosso horizonte normal, e não foi necessário esperar por Heidegger para que se afirmasse que quem pensa vive para a morte. Escrevi «quem pensa» referindo-me ao pensamento filosófico, porque conheço muitas pessoas, mesmo cultas, que quando alguém fala na morte (e nem sequer na deles) fazem logo gestos de esconjuro. O filósofo não, sabe que deve morrer e vive operosamente nesta espera. Quem acredita numa vida sobrenatural espera a morte com serenidade, mas espera-a igualmente com serenidade quem pensa (como Epicuro) que, quando o momento chega, não nos devemos preocupar, porque, nesse instante, já cá não estaremos.»

Umberto Eco, A Passo de Caranguejo, Guerra quentes e populismo mediático

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Lambchop - Nixon - The Old Gold Shoe

Natureza

«Quero dizer algumas palavras em nome da Natureza, da liberdade absoluta e do estado selvagem, por contraste com a liberdade e a cultura meramente civilizadas, com o intuito de ver no homem um habitante, uma parte ou uma parcela da Natureza, e não um mero membro da sociedade. Pretendo fazer declarações muito duras, senão mesmo categóricas, pois há já muitos paladinos da civilização: os padres, as congregações escolares e todos vós se encarregarão dessa tarefa.»

Henry David Thoreau, Caminhada

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Bitcrush - Prologue

Autobiografia

«Sim, uma autobiografia é irresistível. Aquele pobre, tolo e presumido secretário Pepys ganhou entrada, falando pelos cotovelos, no círculo dos Imortais; consciente de que na indiscrição está a parte de leão do valor, afadiga-se entre eles, perfeitamente à vontade, na sua «felpuda casaca violeta de botões dourados e renda em arco», que tanto gosta de nos descrever, enquanto se vai gabando, para seu e nosso infinito prazer, do saiote azul da Índia que comprou para a mulher, das «fressuras de um belo porco» e do «agradável fricassé francês de vitela» que adorava comer, dos seus jogos de bola e arco com Will Joyce, da sua «caça às mulheres», das suas declamações dominicais de Hamlet, de como tocava violeta nos dias de semana, e outras coisas triviais ou pecaminosas. Nem mesmo na vida real o egotismo deixa de ter atractivos. As pessoas que nos falam dos outros são normalmente desinteressantes. Quando nos falam de si mesmas são quase sempre interessantes, e, se fôssemos capazes de calá-las quando se tornam aborrecidas, com a mesma facilidade com que podemos fechar um livro de que nos cansámos, seriam absolutamente perfeitas.»

Oscar Wilde, Intenções, quatro ensaios sobre estética