Na velha casa, o pastor, um albino de olhos encovados, ofereceu-nos truta e leite.
«Sim, é o meu caixão» e indicava a urna num cantinho da igreja. «Há aqui tão pouca gente, que quando chegar a hora não se pode esperar que tratem de tudo, já fazem muito se o meterem aos ombros e o levarem para o cemitério. Aliás, quando eu pressentir que a minha hora está a chegar, vou estender-me lá dentro com a Bíblia na mão, como fez o Sera Asmundur Sveinsson, o meu antecessor, que agora jaz sob um rio de lava. Dois anos, senhor, as cinzas enegreciam quase todos os dias o céu; depois cataratas de lava, rios ardentes que escorriam do Hekla, o sol estava escuro como o sangue, aqueles pássaros pretos que existem apenas no Hekla caíam fulminados no ar ardente.»
Claudio Magris, Às Cegas