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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

domingo, 17 de julho de 2011

Full of Life Now

Full of life now, compact, visible,
I, forty years old the eighty.third year of the States,
To one a century hence or any number of centuries hence,
To you yet unborn these, seeking you.

When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking
       me,
Fancying how happy you were if I could be with you and become
       your comrade;
Be it as if were with you. (Be not too certain but I am now with
       you.)

Walt Whitman, Calamus

Dance of the Blessed Spirits

7

Celebrar, isso mesmo! Ser destinado a celebrar,
surgiu como minérios que na pedra assomem
do silêncio. Seu coração, efémero lagar
de um vinho inesgotável para o homem.

Nunca a voz lhe falhou no pó, se fosse
do exemplo divino possuído.
Tudo se torna vinha, ou cacho de uva doce,
em seu sul sensível amadurecido.

Nem os reis que nas criptas apodrecem
desmentem seus louvores, nem, quando descem,
lá da parte dos deuses, sombras baças.

Porque ele é um dos mensageiros vivos:
transpõe o limiar dos mortos e ergue as taças
com os seus frutos de esplendor votivos.

Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu

sábado, 9 de julho de 2011

Amarcord theme - Nino Rota

A Crença num só Deus

«Há um só Deus, tal e tal na Natureza e nos Atributos.
Digo «tal e tal» porque, a não ser que explique o que entendo por «um só Deus», uso palavras que podem significar tudo ou nada. Posso querer indicar uma simples anima mundi; ou um princípio inicial que outrora esteve em acção, e agora não; ou a humanidade colectiva. Falo, pois, do Deus do Teísta e do Cristão: um Deus que é numericamente Um só, que é Pessoal; o Autor, o Sustentador e o Consumador de todas as coisas, a vida da Lei e da Ordem, o Governador moral; Um só que é Supremo e Único; igual a Si próprio, diferente de todas as coisas além de Si, que são apenas criaturas suas; distinto e independente de todas elas; Um só que é auto-existente, absolutamente infinito, que nunca foi ou será, para o qual nada é passado ou futuro; que é toda a perfeição, a plenitude e o arquétipo de toda a excelência possível, a própria Verdade, Sabedoria, Amor, Justiça, Santidade; Um só que é Todo-poderoso, Omnisciente, Omnipresente, Incompreensível. Eis algumas das prerrogativas distintivas que atribuo incondicionalmente e sem reserva ao grande Ser a que chamo Deus.
Como Ele é o que os Teístas têm em mente quando falam de Deus, o seu assentimento a esta verdade admite, sem dificuldade, ser o que denominei um assentimento nocional. É um assentimento que se segue a actos de inferência e a outros exercícios puramente intelectuais; e é um assentimento a um amplo desenvolvimento de predicados, entre si correlativos ou, pelo menos, intimamente ligados entre si, como que desenhados no papel, tal como poderíamos cartografar um país que jamais vimos, construir tabelas matemáticas ou dominar os métodos da descoberta de Newton ou de Davy, sem sermos geógrafos, matemáticos ou químicos.
Até aqui, tudo é claro; mas segue-se a questão: poderei chegar a um assentimento mais vivo ao Ser de um Deus do que aquele que é simplesmente dado às noções do intelecto? Poderei ingressar com um pensamento pessoal no círculo de verdades que constituem esta grande ideia? Poderei alcandorar-me ao que chamei uma apreensão imaginativa dEle? Poderei acreditar, como se visse? Uma vez que esse assentimento elevado exige uma experiência ou memória presente do facto, é como se, à primeira vista, a resposta houvesse de ser negativa; pois, como poderei dar um assentimento como se visse, a não ser que tenha realmente visto? Mas ninguém nesta vida pode ver Deus. Concebo, todavia, que um assentimento real é possível, e irei mostrar como.
Quando se diz que não podemos ver Deus, isto é inegável; mas, ainda assim, em que sentido temos nós um discernimento das suas criaturas, dos seres individuais que nos rodeiam? A prova que da sua presença temos reside nos fenómenos que se dirigem aos nossos sentidos, e a nossa garantia para os aceitar como demonstração é a nossa certeza instintiva de que eles são prova. Pela lei da nossa natureza, associamos esses fenómenos sensíveis ou impressões a certas unidades, indivíduos, substâncias, seja qual for o seu nome, que estão fora e além do alcance dos sentidos, e que nós mesmos representamos nesses fenómenos. Os fenómenos são como que quadros; mas, ao mesmo tempo, não nos proporcionam, para lá deles, nenhuma exacta medida ou característica das coisas incógnitas - pois, quem dirá que existe qualquer uniformidade entre as impressões que dois de nós respectivamente teriam de uma terceira coisa, supondo que um de nós tinha apenas o sentido do tacto, e o outro somente o sentido do ouvido? Por conseguinte, ao dizermos que temos um quadro das coisas apercebidas através dos sentidos, queremos significar uma certa representação, quanto possível verdadeira, mas não adequada.»

John Henry Newman, Ensaio a Favor de Uma Gramática do Assentimento

sexta-feira, 8 de julho de 2011

De Profundis

The Eternal in Man

«Man's eternity is implanted in the soil of creation. Being loved and loving are the two moments of his life, separate before God, yet united in man, and creation would be the And between them. Being loved comes to man from God, loving turns toward the world. How else could they count as one for him? How else could he be conscious of loving God by loving his neighbor if he did not know from the first and the innermost that the neighbor is God's creature and that his love of neighbor is love of the creatures. And how could he be conscious of being loved by God other than as the equal of him whom he himself loves in the neighbor; how else than because God has created in his image that which is common to him and his neighbor, namely the fact that the latter is "like him" so that both "are men". He is the creature of God and the image of God, and this is the foundation, laid down from creation, on which he can build the house of his eternal life in the temporal cross-currents of love of God and love of neighbor.»

Franz Rosenzweig, The Star of Redemption

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Antony And The Johnsons - Hope There's Someone { Live Jools Holland 2005}

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«A quem deixarei o meu cansaço,
as unhas sujas, as marcas
do martelo falhado, a quem
senão a quem...?
- Serão de quem viver depois do dia de hoje
o dia de hoje que eu vivi doado
e a obra pequenina que fabrico
no silêncio que a rua me permite.

Pedro Tamen,  O Livro do sapateiro

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Peggy Lee: Fever!

Remorso

»Dantes, nos bons tempos de outrora, quem cedia às tentações era um pecador. Hoje em dia é apenas um transgressor, ou nem isso, visto que já não há nada para transgredir. Mas sem pecado também não existe perdão, e nisto consiste o nosso inferno moderno: num lugar indiferenciado, sem miséria, sem resgate e sem grandeza. Um dia, ao olhar com espanto para as «Tentações de Santo Antão», de Bosch, pensei que se o homem dos nossos tempos perdera todas as tentações, restava-lhe todavia o remorso. E assim, imaginei uma personagem possuída  pela obsessão do remorso. Porque o remorso existe, isso sim. E às vezes leva-nos para onde quer, até mesmo à tentação suprema.»

Antonio Tabucchi, As Tentações

Requiem de Mozart - Lacrimosa - Karl Böhm - Filarmónica de Viena

E se a pobreza não fosse uma fatalidade?

«Em 2006, o Nobel da Paz foi entregue a um banqueiro, Muhammad Yunus: foi o reconhecimento universal de que o combate à pobreza é o combate pela paz. Num dos países mais pobres do mundo, o Bangladesh, Yunus criou o “banco dos pobres” e tirou mais de seis milhões de famílias da miséria. A sua convicção, que demonstrou ser certa, é a de que todos os seres humanos têm as mesmas capacidades se lhes forem facultadas as mesmas oportunidades.
Em Portugal, um estudo feito pelo ISEG que analisou um grupo de famílias pobres num período de seis anos revelou que, face a novas oportunidades, metade dessas famílias conseguiu ter sucesso e sair da pobreza, ganhando competências que lhes permitiram autonomizar-se.
A pobreza não é uma fatalidade mas uma indignidade. Perceber isso é altamente perturbador num país como o nosso, com dois milhões de pobres e uma abordagem da pobreza que assenta, ainda e principalmente, em “assalariar” a pobreza através de subsídios em vez de microcrédito, em ver num pobre um assistido em vez de um cidadão que precisa de uma oportunidade, um problema em vez de parte da solução.
A pobreza é um fenómeno complexo, radica em causas muito diversas e não se compadece com abordagens simplistas, metodologias rígidas ou procedimentos uniformes que constituem um álibi para o fracasso dos resultados. Um mau ambiente é gerador de pobreza, como o é um mau urbanismo: a falta de habitação ou um sistema de saúde pouco equitativo; o abandono e o insucesso escolar, a doença ou o desemprego. Sabemos que é muito mais difícil olhar um pobre como alguém que tem direito à sua oportunidade do que introduzi-lo no sistema informático para receber uns euros. É muito mais desgastante trabalhar com uma família pobre para construir com ela as alternativas possíveis do que lançá-la nos meandros da burocracia social. Mas é este esforço e este empenhamento que se exige num combate tão desigual, que convoca o Estado e a sociedade em geral e nos interpela a cada um de nós, pessoalmente, todos os dias.
A pobreza não se resolve com pacotes de medidas governamentais, com leis ou retórica. Há que inovar face a modelos esgotados, promover abordagens interdisciplinares, construir redes de proximidade às pessoas, aos problemas e às suas causas. É preciso estabelecer parcerias transparentes com o Terceiro Sector que assegurem a continuidade e a sustentabilidade das intervenções. E ter uma visão prospectiva face a novos fenómenos igualmente exigentes: as novas doenças, a demografia, os movimentos migratórios, a info-exclusão e tantos outros.
Precisamos de muita inquietação e pouco conformismo. Porque a pobreza não é uma fatalidade mas a nossa vergonha colectiva.»

Maria José Nogueira Pinto, Público, 23-09-10

Pet Shop boys - The King of Rome

Frei Luis de León, O CÂNTICO DOS CÂNTICOS. EXPOSIÇÃO DO LIVRO DE JOB

«A Bíblia, cujo nome grego é plural, significa «os livros». É, com efeito, uma biblioteca dos livros fundamentais da literatura hebraica ordenados sem grande rigor cronológico e atribuídos ao Espírito, ao Ruach. Abarca a cosmogonia, a história, a poesia, as parábolas, a meditação e a ira profética. Os diversos autores correspondem a diversas épocas e a diversas regiões. São, para o piedoso leitor, meros amanuenses do Espírito, que determina cada palavra e, segundo os cabalistas, cada letra e o seu valor numérico e as suas possíveis ou fatais combinações. O mais curioso desses textos é o Livro de Job.
Em 1853, Froude predisse que este livro, chegado o seu devido tempo, seria considerado o maior de todos quanto os homens escreveram. O tema, o eterno tema, é o facto de um justo poder ser feliz. Job, na sua lixeira, queixa-se e maldiz e os seus amigos aconselham-no. Esperamos raciocínios, mas o raciocínio, próprio do grego, é alheio à alma semítica e a obra limita-se a oferecer-nos esplêndidas metáforas. A discussão é árdua e porfiada. Nos capítulos finais, a voz de Deus fala de um remoinho e condena por igual aqueles que o culpam ou o justificam. Declara que é inexplicável e de uma forma indirecta compara-se com as suas mais estranhas criaturas, o elefante (o Behemoth, cujo nome, como o das Escrituras, é plural, dado que significa «animais», por ser tão grande) e a baleia, ou Levietã. Max Brod, em Heidentum, Christentum, Judentum, ein Bekenntnisbuch, analisou esta passagem. O mundo seria regido por um enigma.
A data da redacção é incerta. H. G. Wells escreveu que o Livro de Job é a grande resposta dos Hebreus aos diálogos de Platão.
Publicamos aqui a versão literal de frei Luis de León, a sua explicação de cada versículo e outra versão em verso hendecassílabo e rimado, ao jeito italiano. A prosa de frei Luis é, em geral, de uma serenidade exemplar; o original hebraico impõe-lhe aqui música de violências. Quando ouve a trompa, diz: «Ah! ah, cheira logo a batalha, o ruído dos capitães e o estrondo dos soldados.»
Esta biblioteca inclui também o Cântico dos Cânticos ou, como traduz frei Luis, Cantar de cantares. Define-o como écloga pastoril e dá-lhe um sentido alegórico. O esposo, profeticamente, seria Cristo; a esposa, a Igreja. O amor terreno seria um emblema do amor divino. Talvez não seja de mais recordar que a mais ardorosa obra da língua castelhana, a de São João da Cruz, provém deste livro.»

Jorge Luís Borges, «Biblioteca Pessoal. Prólogos», in Obras Completas, 1975-1988 

terça-feira, 5 de julho de 2011

New Order - Regret - Live Reading Festival 1998

Realidade

«O espaço e as coisas da cidade são susceptíveis de três grandes regimes de visão: a visão do sono, a da Realidade, e a da Vida como revelação do Apocalipse. Também aqui Lisboa ocupa um espaço-limiar de passagem ou de transformação de um regime ao outro.
O sonho é o bom desassossego, que permite viajar nas sensações, transfigurando a cidade. Descolar, desligar-se da terra, das ruas baixas, pairar na atmosfera sobre os telhados, ou olhá-los de cima «da janella alta» do quarto ou escritório é entrar no plano de visão do sonho. É um plano de movimento que transporta o sujeito para um fora aéreo sem gravidade.
A Realidade é o exterior absoluto, a visão do «polícia como Deus o vê»: «Reparar em tudo pela primeira vez, não apocalypticamente, como revelações do Mysterio, ms directamente como florações da Realidade.» A Realidade é pura exterioridade sem mistério porque «é só de Deus, ou de si mesma, (...) não contém mysterio nem verdade, que, pois que é real ou finge ser, algures exista fixa, livre de ser temporal ou eterna, imagem absoluta, ideia de uma alma que fosse exterior». (A Realidade como «o que finge ser» é a Realidade da poesia.)

José Gil, O Devir-Eu de Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de julho de 2011

The Cure - Pictures of You

Ética

«Uma indiciação das disposições éticas é dada pelo prazer e pelo sofrimento que acompanham as nossas acções. Por um lado, o que se abstém dos prazeres do corpo e nisso encontra motivo de regozijo é temperado; mas já o que se entedia com essa prática é devasso. Do mesmo modo, é corajoso quem resiste em situações terríveis e nisso encontra motivo de regozijo ou, pelo menos, não sente medo. Por outro lado, já é cobarde o que nas mesmas situações sente medo. A excelência ética constitui-se, portanto, em vista de fenómenos de prazer e de sofrimento.
É, assim, por causa do prazer que incorremos, por um lado, em acções vergonhosas. É, do mesmo modo, também por causa da ansiedade causada pelo medo que nos podemos afastar de feitos gloriosos. Por isso devemos ser levados logo desde novos, como diz Platão, a fazer gosto no que deve ser e a sentir desgosto pelo que não deve ser. É essa a educação correcta. Além do mais, se as excelências se constituem a partir das acções e afecções - o prazer e o sofrimento acompanham toda a afecção e toda a acção -, também sob esse fundamento a excelência se constitui sobre os prazeres e os sofrimentos.»

Aristóteles, Ética a Nicómano 

domingo, 3 de julho de 2011

Six Feet Under Opening Sequence

Morte

«As diferenças não se ficam pelo prolongamento da vida. No século XIX, os doentes eram, quando o eram, tratados por médicos de clínica geral, enquanto hoje o são por equipas multidisciplinares, o que, além dos efeitos positivos, tem uma consequência negativa: a ligação entre doente e médico tende a dissolver-se. Outro aspecto importante diz respeito ao local da morte. Dantes, tudo se passava em casa, com a família ao lado. Hoje, a morte ocorre em unidades de Cuidados Intensivos, onde o doente se vê sozinho ou, o que não é melhor, ao lado de gente que não conhece. Outrora asilo de miseráveis, o hospital tornou-se  o local onde o doente recebe os tratamentos que o levarão à cura ou à morte.
Esta mudança foi excepcionalmente rápida em Portugal: em 1970, só 20% das pessoas morria no hospital; quarenta anos depois, tal acontece em 60% dos casos. Por outro lado, a morte transformou-se num acontecimento estranho. Há algum tempo, deparei-me num jornal, com o título: «Morre-se muito nos hospitais». Mas de que estava à espera quem tal escreveu? Organizados por agências funerárias, que tendem a copiar o modelo americano, os enterros deixaram de ter carga emocional. Tanto as empresas quanto as famílias querem que tudo se passe com rapidez. Uma vez que as sociedades não desejam encarar o facto de sermos mortais, a contemplação do morto é reduzida ao mínimo. Enquanto, na Idade Média, os santos gostavam de ter, diante de si, uma caveira, a fim de recordar quão breve era a passagem pelo mundo, os contemporâneos procuram esquecer a mortalidade. Daí a dessacralização dos enterros. O que se passa nas capelas mortuárias das igrejas parece-se, cada vez mais, com um garden party. Por outro lado, enterrado o morto, ninguém visita o túmulo. A ida aos cemitérios, a 2 de Novembro, Dia dos Fiéis Defuntos, está praticamente limitada às classes rurais.»

Maria Filomena Mónica, A Morte

sábado, 2 de julho de 2011

Antonio Vivaldi: Gloria in excelsis Deo (Gloria, RV 589) - Coro L. Gazzotti

Primavera

«Por mais que as várias centenas de milhares de pessoas concentradas num território pequeno se esforçassem por desfigurar a terra em que se apertavam, por mais que a cravassem de pedras para que nada crescesse nela, por mais que exterminassem a mínima erva que brotasse, por mais que a enchessem de fumo do carvão e do petróleo, por mais que cortassem as árvores e escorraçassem todos os animais e pássaros - a Primavera era a Primavera mesmo na cidade. O sol aquecia, a erva, renascendo, crescia e verdejava por todo o lado onde não a raspassem, não só nos canteiros dos bulevares, mas entre as lajes da calçada, e bétulas, choupos e pados abriam as suas folhas pegajosas e fragrantes, os gomos das tílias inchavam até rebentarem; as gralhas-de-nuca-cinzenta, os pardais e os pombos, com alegria primaveril, já preparavam os ninhos, as moscas aquecidas pelo sol já zuniam junto às paredes. As pessoas, porém - as pessoas grandes, adultas - não deixavam de se enganar e de se magoar, a elas mesmas e aos outros. Achavam elas que o sagrado e importante não era a beleza primaveril  nem a beleza do mundo de Deus concedida para o bem de todas as criaturas - beleza que predispunha à paz, à concórdia e ao amor - mas que o sagrado e importante era o que elas próprias tinham inventado para ganharem poder umas sobre as outras.»

Lev Tolstoy, Ressurreição 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

New Order -love will tear us apart.

A Natureza

«A capacidade que o Homem tem de ligar o pensamento ao seu símbolo próprio e de o exprimir depende da simplicidade do seu carácter, ou seja, do seu amor da verdade e do seu desejo de a comunicar sem perda. A corrupção do Homem tem como consequência a corrupção da linguagem. Quando a simplicidade de carácter e do domínio das ideias são destruídos pela prevalência de desejos secundários - o desejo de riquezas, de prazer, de poder, e de honra - e a duplicidade e falsidade substituem a simplicidade e a verdade, o domínio sobre a Natureza como intérprete da vontade perde-se; cessa a criação de novas imagens e velhas palavras são distorcidas até significarem coisas que o não são; usa-se papel-moeda quando já não há barras de ouro na caixa forte. Em devido tempo a fraude é descoberta e as palavras perdem todo o poder de estimular o entendimento ou os afectos. Em qualquer nação há muito civilizada se podem encontrar centenas de escritores que, por breve espaço de tempo, acreditam e podem fazer crer que vêem e exprimem verdades, que, por si próprios, não envolvem um pensamento nas suas vestes naturais, mas que, inconscientemente, se alimentam de língua criada pelos escritores primordiais do país, ou seja, aqueles que se atêm, primordialmente, à Natureza.»

Ralph Waldo Emerson, A Natureza