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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

sábado, 11 de junho de 2011

Benedetto Croce

«Benedetto Croce, um dos poucos escritores importantes da Itália contemporânea - o outro é Luigi Pirandello -, nasceu na vilória de Pescasseroli, na província de Aquila, a 25 de Fevereiro de 1866. Era ainda menino quando os seus pais se estabeleceram em Nápoles. Recebeu uma educação católica, muito atenuada pela indiferença dos seus professores e até pela sua incredulidade. Em 1883, um terramoto que durou noventa segundos abalou o Sul da Itália. Nesse terramoto pereceram os seus pais e a sua irmã, e ele próprio ficou enterrado entre os escombros. Duas ou três horas depois salvaram-no. Para fugir a um total desespero, resolveu pensar no Universo: processo geral dos infelizes, e às vezes bálsamo.
Explorou os metódicos labirintos da filosofia. Em 1893, publicou dois ensaios: um sobre a crítica literária, outro sobre a história. Em 1899, advertiu, com uma espécie de receio parecido momentaneamente com o pânico e momentaneamente com a felicidade, que os problemas metafísicos estavam a organizar-se nele, e que a solução - ou uma solução - era quase iminente. Deixou então de ler, dedicou as suas manhãs e as suas noites à vigília e caminhou pela cidade sem ver nada, calado e conjecturando. Tinha feito trinta e três anos: a idade, segundo os cabalistas, do primeiro homem quando o formaram do barro.
Em 1902, inaugurou a sua Filosofia do Espírito com um primeiro volume: a Estética. (Nesse livro, estéril, mas brilhante, nega a diferença entre fundo e forma e reduz tudo a intuições.) A Lógica apareceu em 1905; a Prática, em 1908; a Teoria e storia della storiografia, em 1916.
De 1910 a 1917, Croce foi senador do Reino. Quando a guerra foi declarada e todos os escritores se abandonaram aos prazeres lucrativos do ódio, Croce manteve-se imparcial. Desde Junho de 1920 até Julho de 1921 exerceu o cargo de ministro da Instrução Pública.
Em 1923, a Universidade de Oxford fê-lo doutor honoris causa.
A sua obra ultrapassa já os vinte volumes e compreende uma história de Itália, um estudo das literaturas da Europa durante o século XIX, e monografias sobre Hegel, Vico, Dante, Aristóteles, Shakespeare, Goethe e Corneille.»

Jorge Luís Borges, Textos Cativos

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Marcin Wasilewski Trio - Big Foot (from "Faithful")

Kien

«Kien detestava a mentira. Desde a sua meninice tinha-se mantido fiel à verdade. Não se recordava de qualquer mentira, exceptuando aquela que, de resto, se censurava. Apenas a conversa com o rapazito - seu vivo retrato nessa idade - lha tinha feito evocar. Basta por agora, pensou, são quase oito horas. Às oito em ponto começava o seu trabalho, o seu labor ao serviço da verdade. Ciência e verdade eram para ele conceitos idênticos. Uma pessoa aproxima-se da verdade quando se afasta dos homens. A vida quotidiana é uma teia superficial de mentiras. Cada transeunte era um mentiroso. Por isso, nem sequer os olhava. Quem, entre os péssimos actores que integravam a massa, tinha um rosto capaz de o interessar? Mudavam de cara a cada momento; não representavam o mesmo papel o dia inteiro. Desde um determinado momento soube que qualquer experiência era, nestes casos, supérflua. Desejava perseverar tenazmente na sua própria essência. Não apenas um mês, nem apenas um ano: toda a sua vida permaneceria igual a si mesmo. O carácter, quando alguém o possui, determina também o aspecto físico. Recordava-se de ter sido sempre um homem alto e magro. Apenas conhecia a sua cara fugazmente, por vê-la reflectida nos vidros das montras das livrarias. Em casa não tinha um único espelho; não sobrava espaço entre tantos livros. Contudo, sabia que era magro, severo e ossudo; isso bastava-lhe.
Como não tinha qualquer desejo de observar quem quer que fosse, mantinha os olhos baixos ou olhava por cima das pessoas.Adivinhava com exactidão onde havia livrarias. O seu instinto nunca falhava. Nesses casos, guiava-o a mesma força que guia os cavalos de regresso ao estábulo. Saía a passear a fim de respirar o ar de outros livros; estes provocavam o seu desacordo ou reanimavam-no um pouco. Na biblioteca, tudo se passava no melhor dos mundos. Entre as sete e as oito horas da manhã concedia a si próprio uma daquelas liberdades que parecem constituir toda a vida dos outros.»

Elias Canetti, Auto de Fé

Igor Stravinsky - Oedipus Rex, Act I (1/3)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tolerância

«A tolerância, ou seja, o diálogo e as suas contradições constituem um problema universal, que se põe hoje à consciência - e até à legislação - com uma urgência nunca antes conhecida na história. Sob este perfil, a nossa cultura parece talvez impreparada para as devastadoras transformações do mundo que investem a nossa vida, a nossa sociedade, os nossos valores. Nestas enormes mudanças já não há, como no passado, culturas compactas, fechadas sobre si mesmas e o edifício dos seus próprios valores, quase ignaras da existência de outros diferentes sistemas de valores de outras culturas. Hoje em dia as civilizações deslocam-se e misturam-se, povos e estirpes afastadas encontram-se e as suas visões do mundo - religiosas, políticas, sociais - vivem lado a lado, como aquelas barracas de Haia, num politeísmo de valores, significados, tradições, costumes e instituições que ninguém pode ignorar. É um processo que enriquece as nossas culturas e ao mesmo tempo desperta medos e obsessões defensivas. Na globalização toda a identidade se sente ameaçada,  com o temor de se dissolver e desaparecer, e então exaspera a sua particularidade, faz dela uma diferença absoluta e selvagem, um ídolo - que, como todos os ídolos, impele facilmente à violência e ao sacrifício de sangue. Algo semelhante - disse Beniamino Andreatta, em Trieste, num dos seus últimos discursos - tinha acontecido na Grécia no século V a. C., com a dissolução das antigas comunidades familiares-tribais no Estado, na pólis; processo do qual em parte nasceu a tragédia grega.»

Claudio Magris, A História não acabou

Ildebrando Pizzetti: Canti della stagione alta (1930) (1/3)

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put the crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policeman wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and may Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one;
Pack up the moon and diamantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

W.H.Auden, Tell Me the Truth About Love

Violon - Julia Fischer - Concerto N° 3 in B Minor Op 61 - Molto Moderato -N.wmv

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Le Mouvement du Soir

Petit feu d'occasion miroir
Abeille et plume détachée
Loin de la gerbe des rues
Des familles des retraites

Devant tes yeux petit feu
Qui soulève tes paupières
Et qui passe et qui s'en va
Dans le soir limpide et frais

Vers d'autres yeux tout pareils
De plus en plus assombris
De plus en plus achevés
De moins en moins existants.

Paul Éluard, Derniers Poèmes d'Amour

terça-feira, 7 de junho de 2011

Il luogotenente Kije, suite per orchestra op. 60 - 5 Sepoltura di Kije

Paradoxo

«Dans Alice comme dans De l'autre côté du miroir, il s'agit d'une catégorie de choses très spéciales: les événements, les événements purs. Quand je dis «Alice grandit», je veux dire qu'elle devient plus grande qu'elle n'était. Mais par la-même aussi, elle devient plus petite qu'elle n'est maintenant. Bien sûr, ce n'est pas en même temps qu'elle le devient. Elle est plus grande maintenant, elle était plus petite auparavant. Mais c'est en même temps, du même coup, qu'on deviant plus grand qu'on n'était, et qu'on se fait plus petit qu'on ne devient. Telle est la simultanéité d'un devenir dont le propre est d'esquiver le présent. En tant qu'il esquive le présent, le devenir ne supporte pas la séparation ni la distinction de l'avant et de l'après, du passé et du futur. Il appartient à l'essence du devenir d'aller, de tirer dans les deuz sens à la fois: Alice ne grandit pas sans rapetisser, et inversement. Le bon sens est l'affirmation que, en toutes choses, il y a un sens déterminable; mais le paradoxe est l'affirmation des deux sens à la fois.»

Gilles Deleuze, Logique du Sens

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Rinaldo Alessandrini-Concerto Italiano "Ave regina Coelorum"

Noble nature

«But though not deaf, nor obstinate to find
Error without excuse upon the side
Of them who strove against us, mor delight
We took, and let this freely be confessed,
In painting to ourselves the miseries
Of royal courts, and that voluptuous life
Unfeeling, where the man who is of soul
The meanest thrives the most; where dignity,
True personal dignity, abideth not;
A light, a cruel, and vain world cut off
From the natural inlets of just sentiment,
From lowly sympathy and chastening truth;
Where good and evil interchange their names,
And thirst for bloody spoils abroad is paired
With vice at home. We added dearest themes -
Man and his noble nature, as it is
The gift which God has placed within his power,
His blind desire and steady faculties
Capable of clear truth, the one to break
Bondage, the other to build liberty
On firm foundations, making social life,
Through knowledge spreading and imperishable,
As just in regulation, and as pure
As individual in the wise and good.»
(...)

William Wordsworth, The Prelude

domingo, 5 de junho de 2011

PINO DANIELE - NAPUL' È - RDS SHOWCASE

Imperfeição

«É evidente que nós continuamos a pintar os homens sobre um fundo dourado como os Primitivos. Nós, eles, os homens, continuamos diante do indeterminado, de uma coisa indeterminada, por vezes postos sobre ouro, outras, mais frequentes, sobre cinzas, por vezes na luz, mais vezes ainda na escuridão insondável.
Para conhecermos os homens, é preciso isolá-los. O fundo dourado (ou cinzento) isola naturalmente. Esse isolamento cancela, apaga todas as diferenças, as pequenas, ínfimas e grandiosas diferenças de toda a coisa por relação a cada coisa, porque as faz descolar, sem peso, sem o peso da terra, para o avesso de uma paisagem, não-lugar para onde nos desterram as expressões da subjectividade pura, do puro espírito.
Se conhecer é um acto de isolamento, então é uma forma de colocar os homens diante do indeterminado. Mas conhecer comporta graus: o conhecimento amadurecido descobre entre os homens as suas relações, prepara a transformação do indeterminado, mesmo aquele de ouro puro, em paisagem. Em rigor, não se passa para lá da preparação, pois as cinzas caem sem cessar, as cinzas chamam-nos, inundam, apagam constantemente a paisagem. Vale-nos o recurso ao ouro, em cuja alquimia as cinzas começam a brilhar, e a escuridão insondável se torna em insondável beleza.»

Maria Filomena Molder, A Imperfeição da Filosofia

sábado, 4 de junho de 2011

Ton Koopman - J.S. Bach/from: Frenche Suites - Sarabande

Criticism

«Often by illuminating the context in which the artwork has been produced, the critic is better able to assist the audience in understanding of the work and, in addition, in understanding of the critic's evaluation of it. Roughly speaking, by placing a work in a historical context - whether art historical or a more broadly social one - the critic is able to refine further the nature of the artist's ambition in a manner that suggests the ways in which to estimate his success or failure, at least on his own terms. For example, if the context of the work is described in terms of a problematic to be solved, then an important aspect of the critical evaluation of the artwork will concern whether the problem was solved or, if not solved, whether some advance was made toward a solution.
The contexts of which the critic can avail himself are various. Some are art historical, and some of the art historical ones blend into the kind of categorization explored above. Specifically, the critic may situate the artwork in terms of a tradition with an animating problematic in order to draw a bead on the work's aspiration.»

Noel Carroll, On Criticism

JORGE PALMA -Estrela do mar

Amor Platónico

Quando me falaste do sentimento em Petrarca,
e da imagem ideal da mulher na sua poesia, lembrei-me
dos seus esforços para contrariar o vivo desejo,
mantendo o amor no que ele considerava o plano
abstracto de uma visão angélica. Mas não sei se foi
a mulher que ele amava que o
fez tomar consciência da sua prisão
terrestre, como se fosse no céu que os corpos se
encontrassem, ou as almas mantivessem o impulso
que os olhos exprimem, quando o brilho do reencontro
os ilumina; ou se acaso a filosofia e a consciência
de uma condição mortal do ser lhe trouxeram
a dúvida que arrefece o fogo do coaração,
fazendo-o tremer de frio ao calor da chama
mais doce. Uma ou outra coisa, o que sei
é que todas as metáforas se desvanecem perante
o que vi nos teus olhos, quando me falaste
do sentimento em Petrarca.

Nuno Júdice, Geometria Variável

Beethoven Symphony No.6 Mov.1(1) Myung-Whun Chung, Rundfunk-Sinfonieorchester Saarbrucken

Constrained and Unconstrained Vision

«Wheres in Adam Smith moral and socially beneficial behavior could be evoked froma man only by incentives, in William Godwin man's understanding and disposition were capable of intentionally creating social benefits. Godwin regarded the intention to benefit others as being "of the essence of virtue", and virtue in turn as being the road to human happiness. Unintentional social benefits were treated by Godwin as scarcely worthy of notice. His was the unconstrained vision of human nature, in which mas was capable of directly feeling other people's needs as more important than his own, and therefore of consistently acting impartially, even when his own interests or those of his family were involved. This was not meant as an empirical generalization about the way most people currently behaved. It was meant as a statement of the underlying nature of human potential.
Conceding current egocentric behavior did not imply that it was a permanent feature of human nature, as human nature was conceived in the unconstrained vision. Godwin said: "Men are capable, no doubt, of preferring an inferior interest of their own to a superior interest of others; but this preferrence arises from a combination of circumstances and is not the necessary and invariable law of our nature." Godwin referred to "men as they hereafter may be made," in contrast to Burke's view: "We cannot change the Nature of thins and of men - but must act upon them the best we can".»

Thomas Sowell, A Conflict of Visions

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Henry Purcell - Jubilate Deo in D major, Z. 232 / The Choir of Clare College, Cambridge

Critica d'arte

«La vera critica d'arte è certamente critica estetica, ma non perché disdegni la filosofia come quella pseudoestetica, anzi perché opera come filosofia e concezione dell'arte; ed è critica storica, ma non perché si attenga all'estrinseco dell'arte, come quella pseudostorica, ma anzi perché, dopo essersi valsa dei dati storici per la riproduzione fantastica (e fin qui non è ancora storia), ottenuta che si sia la riproduzione fantastica, si fa storia, determinando che cosa è quel fatto che ha riprodotto nella sua fantasia, e cioè caratterizzando il fatto mercé il concetto, e stabilendo quale è propriamente il fatto che à accaduto. Cosicché le due tendenze, che sono in contrasto negli indirizzi inferiori alla critica, nella critica coincidono; e «critica storica dell'arte» e «critica estetica» sono il medesimo: adoperare l'una o l'altra parola à indifferente, e l'una e l'altra può avere il suo uso particolare solo per ragioni di opportunità, come quando si voglia, per esempio, con la prima richiamare più specialmente alla necessità dell'intelligenza dell'arte, e con la seconda, all'oggettività storica della considerazione. Viene cosí parimenti risoluto il problema, posto da taluni metodologisti, se la storia entri nella critica d'arte come mezzo o come fine: essendo ormai chiaro che quella storia che si adopera come mezzo, appunto perché mezzo, non è storia, ma materiale esegetico; e quella che ha valore di fine, è certamente storia, ma non entra nella critica come un elemento particolare sí bene come il costituente e il tutto; il che per l'appunto esprime la parola «fine».»

Benedetto Croce, «La Critica e La Storia dell'Arte», in Breviario di estetica 

Quatuor Caliente au Duc des Lombards

Literatura

«A literatura ocupa-se de muitos saberes. Num romance como Robinson Crusoé existe um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza para a cultura). Se por um qualquer excesso de socialismo ou de barbárie todas as nossas disciplinas fossem retiradas do ensino, exceptuando uma, a literatura deveria ser a disciplina salvaguardada, porque todas as ciências se encontram disseminadas no monumento literário. E é por isso que se pode dizer que a literatura, qualquer que seja a escola em nome da qual se manifeste, é absoluta e categoricamente realista: ela é a realidade, realidade essa que é um luar do real. Todavia, e nesse aspecto é verdadeiramente enciclopédica, a literatura desvaira os saberes, não estabelece ou fetichiza nenhum deles; concede-lhes um lugar dissimulado e essa dissimulação é preciosa. Por um lado, permite designar saberes possíveis - insuspeitos, inacabados: a literatura trabalha nos interstícios da ciência: está sempre para além ou aquém dela, tal como a pedra de Bolonha que irradia à noite o brilho que acumulou durante o dia e com esse luar ténue ilumina o novo dia que desperta. A ciência é grosseira, a vida é subtil, e a literatura interessa-nos na medida em que tende a corrigir essa distância, essa diferença. Por outro lado, o saber que a literatura mobiliza nunca é nem completo nem tão pouco conclusivo; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que conhece alguma coisa acerca desse saber, que sabe muito sobre os homens. O que ela conhece acerca dos homens é aquilo a que poderíamos chamar o grande emaranhado de linguagem, que eles manipulam e que os manipula, quer ela reproduza a diversidade dos sociolectos, quer, a partir dessa diversidade que experimenta como um despedaçamento, imagine e procure elaborar uma linguagem-limite que fosse o seu grau zero. É porque a literatura põe em cena a linguagem, em vez de simplesmente a utilizar, que engrena o saber no mecanismo da reflexividade infinita: através da escrita o saber reflecte continuamente sobre o saber, segundo um discurso que já não é epistemológico, mas dramático.»

Roland Barthes, Lição