Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Literatura
«A literatura ocupa-se de muitos saberes. Num romance como Robinson Crusoé existe um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza para a cultura). Se por um qualquer excesso de socialismo ou de barbárie todas as nossas disciplinas fossem retiradas do ensino, exceptuando uma, a literatura deveria ser a disciplina salvaguardada, porque todas as ciências se encontram disseminadas no monumento literário. E é por isso que se pode dizer que a literatura, qualquer que seja a escola em nome da qual se manifeste, é absoluta e categoricamente realista: ela é a realidade, realidade essa que é um luar do real. Todavia, e nesse aspecto é verdadeiramente enciclopédica, a literatura desvaira os saberes, não estabelece ou fetichiza nenhum deles; concede-lhes um lugar dissimulado e essa dissimulação é preciosa. Por um lado, permite designar saberes possíveis - insuspeitos, inacabados: a literatura trabalha nos interstícios da ciência: está sempre para além ou aquém dela, tal como a pedra de Bolonha que irradia à noite o brilho que acumulou durante o dia e com esse luar ténue ilumina o novo dia que desperta. A ciência é grosseira, a vida é subtil, e a literatura interessa-nos na medida em que tende a corrigir essa distância, essa diferença. Por outro lado, o saber que a literatura mobiliza nunca é nem completo nem tão pouco conclusivo; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que conhece alguma coisa acerca desse saber, que sabe muito sobre os homens. O que ela conhece acerca dos homens é aquilo a que poderíamos chamar o grande emaranhado de linguagem, que eles manipulam e que os manipula, quer ela reproduza a diversidade dos sociolectos, quer, a partir dessa diversidade que experimenta como um despedaçamento, imagine e procure elaborar uma linguagem-limite que fosse o seu grau zero. É porque a literatura põe em cena a linguagem, em vez de simplesmente a utilizar, que engrena o saber no mecanismo da reflexividade infinita: através da escrita o saber reflecte continuamente sobre o saber, segundo um discurso que já não é epistemológico, mas dramático.»
Roland Barthes, Lição
terça-feira, 31 de maio de 2011
Ironia
«É na incapacidade de ironia que reside o traço mais funda do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment - o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência", em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.»
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment - o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência", em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.»
Fernando Pessoa, Os Portugueses
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Treta e Mentira
«A comparação pertinente não está, contudo, entre dizer uma mentira e produzir uma treta qualquer. O pai Simpson identifica a alternativa à mentira como "safar-se com uma treta qualquer". Isto não implica apenas dizer uma treta; implica todo um programa de produção de treta à medida da necessidade ditada pelas circunstâncias. Esta é, talvez, a chave para a sua preferência pela treta em detrimento da mentira. Mentir é um acto que implica uma focagem muito precisa. Está concebido para inserir uma determinada falsidade num ponto específico de um sistema de crenças e valores, de forma a evitar as consequências de ter esse ponto ocupado pela verdade. Isto requer um grau de perfeição artesanal, no qual o autor da mentira se sujeita aos limites objectivos impostos por aquilo que ele considera ser a verdade. O mentiroso está inevitavelmente preocupado com o valor-verdade. Para inventar uma mentira, ele precisa de começar por pensar que sabe o que é a verdade. E de forma a inventar uma mentira eficaz, ele tem de conceber a sua falsidade à luz dessa verdade.»
Harry G. Frankfurt, Da Treta
O longe a as imagens
«O gosto pelo mundo das imagens não se alimentará de uma obscura resistência ao saber? Olho para a paisagem lá fora: o mar parece um espelho na sua baía, as florestas sobem até ao cume do monte como as massas imóveis e mudas; mais longe, as ruínas de um castelo, desde há séculos inalteradas; o céu resplandece sem nuvens, no seu azul eterno. É isto que o sonhador deseja. Que esse mar sobe e desce em biliões e biliões de ondas, que as florestas estremecem a cada momento da raíz até às folhas, que nas pedras das ruínas do castelo estão continuamente em acção forças que as fazem desmoronar-se e esfarelar-se, que no céu os gases entram em turbilhão, em lutas invisíveis - tudo isso ele tem de esquecer para se entregar às imagens. Nelas encontra serenidade, eternidade. Cada asa de pássaro que o roça, cada golpe de vento que lhe provoca um frémito, cada coisa próxima que o toca o desmente. Mas toda a distância lhe reconstrói o sonho, que se apoia em cada parede de nuvens, que se ilumina de novo com a luz de cada janela. E revela-se-lhe na sua máxima perfeição quando consegue retirar o aguilhão ao próprio movimento e transformar o golpe de vento num sussurro e a rápida passagem dos pássaros no deslizar das aves migratórias. O prazer do sonhador é o de fixar a natureza na moldura das imagens esmaecidas. O dom do poeta é o de a conjurar a cada novo chamamento.»
Walter Benjamin, Imagens de Pensamento
domingo, 29 de maio de 2011
Castanheiro
«Em frente das colunas geminadas do arco romântico do mosteiro de Mariabronn erguia-se um castanheiro, nobre árvore de tronco poderoso, solitário filho do Sul, trazido outrora de Roma por um peregrino; exposto ao vento o largo peito, debruçava fagueiro a copa sobre a estrada e, quando na Primavera tudo em redor vicejava e já as nogueiras da cerca se revestiam de folhagem avermelhada, ainda ele demorava a folheação; só mais tarde, no tempo das noites curtas, desabrochavam por entre tufos de folhagem os jactos bizarros das suas desmaiadas flores de cor branco-esverdeada, de tão acre, pungente e nostálgico aroma; em Outubro, após as colheitas da fruta e do vinho, deixava cair da copa amarelecida pelo vento outonal os frutos eriçados de espinhos, que nem todos os anos amadureciam e por cuja posse brigavam os rapazes do convento; o vice-prior Gregório, oriundo da Itália, assava-os à lareira da sua cela. Estranha e meiga, a bela árvore baloiçava ao vento a frondosa ramagem à entrada do mosteiro; hóspede delicado e um tanto friorento, proveniente de outras paragens, secretamente aparentado com as esbeltas colunas geminadas do portal e com os ornatos dos arcos das janelas, das cornijas e dos pilares, era amado pelos italianos e outros latinos e admirado, por exótico, pelos nativos.»
Hermann Hesse, Narciso e Goldmundo
Madame Bovary
«Qual é o terreno fértil de nescidade, o meio mais estúpido, o mais produtivo em absurdos, o mais abundante em imbecis intolerantes?
«A província.
«E, lá, quais são os actores mais insuportáveis?
«As pessoas insignificantes que se agitam em funções insignificantes cujo exercício lhes falseia as ideias.
«Qual é o facto mais gasto, o mais prostituído, o realejo mais estafado?
«O Adultério.
«Não preciso, pensou o poeta, de que a minha heroína seja uma heroína. Para que seja interessante basta que seja suficientemente bonita, que tenha nervos, ambição, uma aspiração irrefreável a um mundo superior. Aliás, a proeza será mais nobre, e a nossa pecadora terá pelo menos o mérito - comparativamente tão raro - de se distinguir das faustosas tagarelices da época que nos antecedeu.
«Não preciso de me preocupar com o estilo, com a composição pitoresca da descrição dos ambientes; possuo todas essas qualidades num grau superabundante; caminharei apoiando-me na análise e na lógica, e provarei assim que todos os assuntos são indiferentemente bons ou maus consoante o modo como são tratados, e que os mais vulgares podem vir a ser os melhores.»
E assim era criada Madame Bovary - um desafio, um verdadeiro desafio, uma aposta como todas as obras de arte.
Ao autor, para realizar a proeza por inteiro, só restava despojar-se (tanto quanto possível) do seu sexo e de tornar-se mulher. Do que resultou uma maravilha; é que, apesar de todo o seu zelo de comediante, não conseguiu deixar de infundir um sangue viril nas veias da sua criatura, e, no que tem de mais enérgico e de mais ambicioso, e também de mais sonhador, Madame Bovary ficou sendo homem. Como Pallas saindo armada do cérebro de Zeus, este estranho andrógino conservou todas as seduções de uma alma viril num atraente corpo feminino.»
«A província.
«E, lá, quais são os actores mais insuportáveis?
«As pessoas insignificantes que se agitam em funções insignificantes cujo exercício lhes falseia as ideias.
«Qual é o facto mais gasto, o mais prostituído, o realejo mais estafado?
«O Adultério.
«Não preciso, pensou o poeta, de que a minha heroína seja uma heroína. Para que seja interessante basta que seja suficientemente bonita, que tenha nervos, ambição, uma aspiração irrefreável a um mundo superior. Aliás, a proeza será mais nobre, e a nossa pecadora terá pelo menos o mérito - comparativamente tão raro - de se distinguir das faustosas tagarelices da época que nos antecedeu.
«Não preciso de me preocupar com o estilo, com a composição pitoresca da descrição dos ambientes; possuo todas essas qualidades num grau superabundante; caminharei apoiando-me na análise e na lógica, e provarei assim que todos os assuntos são indiferentemente bons ou maus consoante o modo como são tratados, e que os mais vulgares podem vir a ser os melhores.»
E assim era criada Madame Bovary - um desafio, um verdadeiro desafio, uma aposta como todas as obras de arte.
Ao autor, para realizar a proeza por inteiro, só restava despojar-se (tanto quanto possível) do seu sexo e de tornar-se mulher. Do que resultou uma maravilha; é que, apesar de todo o seu zelo de comediante, não conseguiu deixar de infundir um sangue viril nas veias da sua criatura, e, no que tem de mais enérgico e de mais ambicioso, e também de mais sonhador, Madame Bovary ficou sendo homem. Como Pallas saindo armada do cérebro de Zeus, este estranho andrógino conservou todas as seduções de uma alma viril num atraente corpo feminino.»
Charles Baudelaire, A Invenção da Modernidade (sobre Arte, Literatura e Música)
sexta-feira, 27 de maio de 2011
A-GRAMATICALIDADE
O problema que se coloca nestas eleições é de ordem gramatical.
O problema é votarmos neles para eles continuarem a fazer de conta que nunca foram dos nossos…
O problema destas eleições é que, esquecendo-se que alguma vez forma dos nossos, eles querem perpetuar um poder que não é deles e que só transitoriamente ocupam. Com o tempo, criaram raízes, que, com os anos, se tornaram cada vez mais fortes. Com o tempo, fizeram-nos perceber que já não somos livres e que a liberdade que tanto nos custou a alcançar é apenas formal. Com o tempo, iludiram-nos de que vivíamos num progresso sem fim, cuja curva se projectava para além das estrelas. Com o tempo percebemos que essa curva não é nossa, mas apenas deles, que fazem de conta que nunca foram dos nossos. Com o tempo percebemos que o rico se envergonha do pobre e que faz de conta que ele não existe, em vez de se envergonhar por viver ao lado da miséria dos outros, em indiferença. Disseram-nos que isso era coisa do antigamente e que agora todos éramos iguais. Com o tempo, percebemos que a natureza humana não tem arranjo possível e que apenas individualmente seremos capazes de fazer as nossas próprias revoluções. Com o tempo.
Por isso, votar no dia 5 é participar desta farsa a que temos chamado democracia constitucional. Votar, no dia 5, é respeitar os nossos mortos e os deles. Que esses também não imaginariam ao que as suas memórias estavam destinadas. Segunda morte.
Eu vou votar. Há muito tempo que deixei de votar em convicção. No meio de tudo, dou comigo a pensar com qual dos principais candidatos a primeiro-ministro eu gostaria de partilhar a mesa. Descubro que não é o candidato em quem vou votar. O candidato em quem vou votar não é o meu candidato, mas apenas o candidato que eu quero que me safe. Reconheço a incapacidade do sistema partidário para a renovação. Vejo os tentáculos que se agarram onde podem para alcançar mais um tempo de poder…
Vejo diariamente gente que deixou há muito tempo de se preocupar com a causa pública, com o amanhã, com uma visão de conjunto, perspectiva. Gente que apenas se preocupa em alcançar o sustento próprio, em vez de erguer ao nível de causa primeira o bem daqueles que diz representar. Há muito tempo que a representação parlamentar é uma brincadeira, onde, vaidosos, os representantes se pavoneiam.
Não há quem se apresente a defender uma causa que não seja em benefício próprio. A nosso estado de anestesia propicia esta gente que só quer ser como nós quando procura o voto.
Eu voto, contrafeito, mas voto. Voto para que as raízes sejam arrancadas à terra que as fortalece, mesmo sabendo que outros, em breve, as substituirão.
Voto porque voto e porque sempre votei. Voto porque não posso perder a (quase) única oportunidade que me dão para manifestar a minha desilusão. Voto em quem se constitui para mim como o mal menor.
Gostava que um político um dia se apresentasse e fosse capaz de desenhar um mapa-mundo, onde se pudesse observar o conjunto em que as partes se irão desenvolver.
Voto, apesar da agramaticalidade democrática em que vivemos. Voto para mostrar a eles que nós ainda existimos.
Voto. Apenas isso.
47
E no entanto chega luz,
uma estranha, inesperada luz,
à catacumba onde estou vivo
por força destas mãos.
Da matéria que afago à minha frente
irrompe ou brota uma solar,
uma ardente e sereníssima claridade,
de que me valho ao ver o universo,
vendo e vivendo os dias que passaram
e os que em nascer persistem.
uma estranha, inesperada luz,
à catacumba onde estou vivo
por força destas mãos.
Da matéria que afago à minha frente
irrompe ou brota uma solar,
uma ardente e sereníssima claridade,
de que me valho ao ver o universo,
vendo e vivendo os dias que passaram
e os que em nascer persistem.
Pedro Tamen, O Livro do sapateiro
Novo Génesis
«Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
O homem - não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade -, o homem, assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na Terra.
Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza; príncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e soberbo com as recordações do passado, baixo, vil e miserável pela desgraça do presente.
Destas duas tão opostas actuações constantes, que já per si sós o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado e impossível, complicado das regras, a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias, a qual mais oposta. E, vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, raquítico; colocou-o no meio do Éden fantástico de sua criação - verdadeiro inferno de tolices - e disse-lhe, invertendo com blasfemo arremedo as palavras de Deus criador:
«De nenhuma árvore da horta, comendo, comerás.
«Porém da árvore da ciência do bem e do mal, dela só comerás se quiseres viver.»
Indigestão de ciência que não comutou seu mau estômago, presunção e vaidade que dela se originaram - tal foi o resultado daquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.
E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer o desejo de sair desta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sobre ele, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o aperta no ecúleo doloroso de suas formas.
Ou há-de morrer ou ficar monstruoso e aleijão.»
O homem - não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade -, o homem, assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na Terra.
Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza; príncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e soberbo com as recordações do passado, baixo, vil e miserável pela desgraça do presente.
Destas duas tão opostas actuações constantes, que já per si sós o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado e impossível, complicado das regras, a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias, a qual mais oposta. E, vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, raquítico; colocou-o no meio do Éden fantástico de sua criação - verdadeiro inferno de tolices - e disse-lhe, invertendo com blasfemo arremedo as palavras de Deus criador:
«De nenhuma árvore da horta, comendo, comerás.
«Porém da árvore da ciência do bem e do mal, dela só comerás se quiseres viver.»
Indigestão de ciência que não comutou seu mau estômago, presunção e vaidade que dela se originaram - tal foi o resultado daquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.
E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer o desejo de sair desta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sobre ele, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o aperta no ecúleo doloroso de suas formas.
Ou há-de morrer ou ficar monstruoso e aleijão.»
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Ciência
«Mas o que é que significa a ciência para Nietzsche? Certamente não a ciência no sentido da Antiguidade, isto é, um sistema de proposições fundadas sobre princípios universais, ligadas numa concatenação férrea, deduzidas e demonstradas umas mediante as outras. Mas também não no sentido moderno, ou seja, como conhecimentos obtidos através da recolha,, da indução, do experimento, e introduzidos depois, também eles, no mecanismo dedutivo, se, como parece, as teses e as discussões de Humano são apresentadas por Nietzsche como exemplos de actividade científica. Ele desenvolve já nesta obra, e de modo aprofundado nos escritos que se hão-de seguir, uma crítica cerrada contra o pensamento lógico e dedutivo, e a própria forma aforística que introduz em Humano aponta para a desconfiança para com o carácter produtivo das cadeias demonstrativas. Pode-se mesmo observar um contraste paradoxal entre a prosa de Richard Wagner em Bayreuth, onde, para exaltar a arte e a paixão, ele procura de modo elaborado, quase penoso, explicar, deduzir, demonstrar, e a de Humano, na qual a preeminência da ciência, ou em geral da razão, se exprime em lampejos, no máximo em discussões onde os pensamentos se mostram bastante mais coordenados do que subordinados. Por capacidade científica entende Nietzsche, na verdade, sobretudo a do juízo, de um juízo, além disso, no qual os termos se ligam não por uma necessidade inerente à razão de todos os homens, mas por um vínculo que nem a todos é dado entender. Ele alcança assim o essencial no que está contido dentro de certos limites. Aquilo que caracterizaria este juízo é o seu carácter concreto: sujeito e predicado são tirados directamente da esfera intuitiva, sensível, ou são determinações interiores de natureza ética, que se relacionam com as raízes do aprazível e do doloroso, do desejável e do evitável, e, na medida em que precisam de ser abstraídos, são universais já não lógicos mas sim éticos, ou pelo menos extraídos do mundo do devir.»
Giorgio Colli, Escritos sobre Nietzsche
terça-feira, 24 de maio de 2011
La Famille du Sage
Au bruit d'une source de nuit, sous une cloche de feuilles,
d'un même arbre contre le tronc, calme et froid - Père - ainsi,
dans une chambre fraîche, un jour te présence nous fut.
Tu étais froid, sous un seul drap, voilé, une fenêtre ouverte.
Quel équilibre nous quatre ensemble, sans heure tous assis,
toi-même mieux encore reposé, étendu, mort.
Quelle pure santé du vert-feillu, du sol, et du liquide.
Égale en nous coulait une eau en silence du cou sans cesse
dans le dos jusqu'aux membres sous l'herbe. Par la fenêtre
sourde, un souffle, versé du fond obscur du ciel, essuyait sur les
tempes des femmes la sueur du soir.
Et qu'une étoile aussi, pareille à l'oeil du fils, s'avive,
Sans le dire, tu en jouissais, Père!
d'un même arbre contre le tronc, calme et froid - Père - ainsi,
dans une chambre fraîche, un jour te présence nous fut.
Tu étais froid, sous un seul drap, voilé, une fenêtre ouverte.
Quel équilibre nous quatre ensemble, sans heure tous assis,
toi-même mieux encore reposé, étendu, mort.
Quelle pure santé du vert-feillu, du sol, et du liquide.
Égale en nous coulait une eau en silence du cou sans cesse
dans le dos jusqu'aux membres sous l'herbe. Par la fenêtre
sourde, un souffle, versé du fond obscur du ciel, essuyait sur les
tempes des femmes la sueur du soir.
Et qu'une étoile aussi, pareille à l'oeil du fils, s'avive,
Sans le dire, tu en jouissais, Père!
Francis Ponge, Alguns Poemas
Pai
«O meu pai tem uma colecção de discos metidos em caixas de papelão, arrumadas contra a parede do quarto, que se vai enchendo da poeira do Novo México. Nesta colecção, o campeão é um Al Jolson original, em 78 rotações, com a capa colada com fita adesiva e até a fita está meio rasgada. Da última vez que o vi, tentou convencer-me a levar o disco para L.A. e a vendê-lo por uma boa maquia. Está convencido de que vale, pelo menos, mil dólares. Talvez mais, consoante o mercado. Diz que, nos últimos tempos, tem perdido o contacto com os negócios.
O meu pai tem um quadro, na parede da cozinha, por cima do lava-loiças, que mostra uma señorita espanhola toda empoada. Tem mesmo. Leva-me a ver o quadro e ficamos ambos a apreciá-lo. «As pessoas pensam que ela deve estar nua, debaixo daquilo, mas aposto que tem alguma coisa vestida», diz ele.
Uma vez, guiou-me numa visita a todas as suas paredes. Todas as suas paredes estão cobertas por quadros e gravuras. Recortes de revistas de uma ponta a outra das paredes. Cada quadro ou recorte é um ponto de vista. Como se nos debruçássemos de várias janelas sobre paisagens emaranhadas. Observo os quadros. Uma queda de água com rochas verdadeiras coladas em primeiro plano. Rochas que achou que ficavam bem no quadro. Um cão branco com um peixe verde na boca. Cactus Saguaro ao pôr do sol, recortados de uma Arizona Highways de 1954. Um orangotango cor de laranja brincando com os órgãos genitais. Uma esquadrilha de bombardeiros B-52 em pleno voo. Uma colagem de rostos salpicada de manchas de gordura.
O meu pai tem uma colecção de beatas numa lata de café Yutan. Compro-lhe um maço de Old Golds mas nem lhe toca. Continua a vasculhar tabaco nas beatas e enrola tudo o que encontra, em cima de um saco de mercearia, de forma a não perder o mais ínfimo bocadinho. Olha desdenhosamente para o meu maço de cigarros, vermelhos e brancos e enrolados na fábrica.
Gastou em Bourbon todo o dinheiro que eu lhe tinha dado para comida. Encheu o frigorífico de garrafas. Tinha o cabelo cortado rente, tal qual um piloto da segunda guerra mundial. Brilhavam-lhe os olhos de contentamento sempre que passava a mão pelo cabelo rente e duro que nem cerda. Dizia que costumavam cortá-lo assim rente para que os capacetes pudessem encaixar bem nas cabeças. Mostrava-me as cicatrizes dos estilhaços ainda nítidas na nuca.
O meu pai vive sozinho no deserto. Não se dá com gente, diz.»
4/79
Santa Fé, Novo México
O meu pai tem um quadro, na parede da cozinha, por cima do lava-loiças, que mostra uma señorita espanhola toda empoada. Tem mesmo. Leva-me a ver o quadro e ficamos ambos a apreciá-lo. «As pessoas pensam que ela deve estar nua, debaixo daquilo, mas aposto que tem alguma coisa vestida», diz ele.
Uma vez, guiou-me numa visita a todas as suas paredes. Todas as suas paredes estão cobertas por quadros e gravuras. Recortes de revistas de uma ponta a outra das paredes. Cada quadro ou recorte é um ponto de vista. Como se nos debruçássemos de várias janelas sobre paisagens emaranhadas. Observo os quadros. Uma queda de água com rochas verdadeiras coladas em primeiro plano. Rochas que achou que ficavam bem no quadro. Um cão branco com um peixe verde na boca. Cactus Saguaro ao pôr do sol, recortados de uma Arizona Highways de 1954. Um orangotango cor de laranja brincando com os órgãos genitais. Uma esquadrilha de bombardeiros B-52 em pleno voo. Uma colagem de rostos salpicada de manchas de gordura.
O meu pai tem uma colecção de beatas numa lata de café Yutan. Compro-lhe um maço de Old Golds mas nem lhe toca. Continua a vasculhar tabaco nas beatas e enrola tudo o que encontra, em cima de um saco de mercearia, de forma a não perder o mais ínfimo bocadinho. Olha desdenhosamente para o meu maço de cigarros, vermelhos e brancos e enrolados na fábrica.
Gastou em Bourbon todo o dinheiro que eu lhe tinha dado para comida. Encheu o frigorífico de garrafas. Tinha o cabelo cortado rente, tal qual um piloto da segunda guerra mundial. Brilhavam-lhe os olhos de contentamento sempre que passava a mão pelo cabelo rente e duro que nem cerda. Dizia que costumavam cortá-lo assim rente para que os capacetes pudessem encaixar bem nas cabeças. Mostrava-me as cicatrizes dos estilhaços ainda nítidas na nuca.
O meu pai vive sozinho no deserto. Não se dá com gente, diz.»
4/79
Santa Fé, Novo México
Sam Shepard, Crónicas americanas
segunda-feira, 23 de maio de 2011
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