Martin Heidegger, Che cosa significa pensare?
Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Anche in una società più decente di questa, mi sa che mi troverò a mio agio e d'accordo sempre con una minoranza. (Nanni Moreti)
Acerca de mim
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Imparare
«Imparare significa: far corrispondere il nostro fare e non fare con ciò che di volta in volta si rivolge a noi in un ambito essenziale. Per esserci capaci di trovare tale corrispondenza, dobbiamo metterci in cammino. Quando impariamo a pensare, durante il cammino che abbiamo deciso di seguire non dobbiamo innanzi tutto concentrarci precipitosamente sulle questioni più urgenti, ma dobbiamo abbandonarci a quelle questioni che cercano quello che nessuna invenzione può trovare. Tanto più che noi moderni possiamo soltanto imparare, se al tempo stesso anche disimpariamo. E detto con riferimento al caso che ci riguarda: noi possiamo soltanto imparare a pensare, se disimpariamo radicalmente l'essenza del pensiero che è durata fino ad oggi. Ma per far questo è necessario che noi al tempo stesso ne facciamo la conoscenza.»
domingo, 22 de maio de 2011
Humanidade
«A tese que pretendo propor é que na sociedade dos media, em vez de um ideal de emancipação modelado pela autoconsciência completamente definida, conforme o perfeito conhecimento de quem sabe como estão as coisas (seja ele o Espírito Absoluto de Hegel ou o homem não mais escravo da ideologia como o pensa Marx), abre caminho a um ideal de emancipação que tem antes na sua base a oscilação, a pluralidade, e por fim o desgaste do próprio «princípio de realidade». O homem, hoje, pode finalmente tornar-se consciente de que a perfeita liberdade não é a de Espinosa, não é - como sempre sonhou a metafísica - conhecer a estrutura necessária do real e adaptar-se a ela. A importância do ensino filosófico de autores como Nietzsche e Heidegger está toda aqui, no facto de que eles nos oferecem os instrumentos para compreender o sentido de emancipação do fim da modernidade e da sua ideia de história. De facto, Nietzsche mostrou que a imagem de uma realidade ordenada racionalmente com base num fundamento (a imagem que a metafísica teve sempre do mundo) é apenas um mito «tranquilizador» próprio de uma humanidade ainda primitiva e bárbara: a metafísica é ainda uma forma violenta de reagir a uma situação de perigo e de violência; procura, de facto, apoderar-se da realidade com um «golpe de mão», alcançando (ou imaginando alcançar) o princípio primeiro de que tudo depende (e assegurando-se assim ilusoriamente o domínio dos acontecimentos). Heidegger, prosseguindo nesta linha de Nietzsche, mostrou que pensar o ser como fundamento, e a realidade como sistema racional de causa e efeitos, é apenas uma forma de alargar a todo o ser o modelo da objectividade «científica», da mentalidade que, para poder dominar e organizar rigorosamente todas as coisas, as deve reduzir ao nível de puras presenças mensuráveis, manipuláveis, substituíveis - reduzindo por fim a este nível também o próprio homem, a sua interioridade, a sua historicidade.»
Gianni Vattimo, A Sociedade transparente
sábado, 21 de maio de 2011
O eu si-próprio
«Pessoa, fazedor de outras pessoas, objectos descartados, feitos duplos e opositores, torna-se espaço relacional: Sou a cena nua onde passam vários actores representando várias peças. E no entanto Pessoa [o que supera o Pessoa ortónimo E todo este mundo meu de gente entre si alheia só é tal, pelo outro, que nele, e, para ele, se vai desenvolvendo.
Daí, por outro lado, que o esgotante devir-outro seja o devir-si-próprio. Quanto mais se é outro mais se é - Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos.
O eu si-próprio que preside à alteridade e à heteronímia, sendo pura relação é, nesta diferença de si a si, que encontra a sua identidade. A identidade torna-se, portanto, em Pessoa (e em termos próximos de Heidegger), relação pura. Ser eu é ser diferente de mim, é ser distância ao ser. Ora esta diferença de si a si, primeira na ordem da fundamentação do ser-ente (Dasein) é a essencialidade de toda a forma de o eu se sentir. O ser outro passa por este corredor tensional [o incómodo (...) corredor / Do pensamento para as palavras de Caeiro, o negro Intervalo de Bernardo Soares], na tentativa de reduzir a fissura entre a sensação e a consciência, pela substancialização da consciência dessa relação.
A apropriação de si implica esse «duplo movimento do deslizar para fora de si e de reapropriação (aberta, não-totalizada) de si, de todas as coisas e de toda a existência»
É o desejo, a força desse poder ser, que fazem da personalidade pessoana que é Bernardo Soares um caso assumido, in-extremis, desta natural alteridade que todos temos. Ele quis viver essa diferença ontológica, preencher o vazio pelo sonho e pelo olhar.
«O olho do pensamento», essa visão interior, visão vidente (um outro filão melancólico), controla e dinamiza o processo, por um lado, em profundidade temporal e valorativa, por outro, em extensão espacial e diversificante.»
Daí, por outro lado, que o esgotante devir-outro seja o devir-si-próprio. Quanto mais se é outro mais se é - Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos.
O eu si-próprio que preside à alteridade e à heteronímia, sendo pura relação é, nesta diferença de si a si, que encontra a sua identidade. A identidade torna-se, portanto, em Pessoa (e em termos próximos de Heidegger), relação pura. Ser eu é ser diferente de mim, é ser distância ao ser. Ora esta diferença de si a si, primeira na ordem da fundamentação do ser-ente (Dasein) é a essencialidade de toda a forma de o eu se sentir. O ser outro passa por este corredor tensional [o incómodo (...) corredor / Do pensamento para as palavras de Caeiro, o negro Intervalo de Bernardo Soares], na tentativa de reduzir a fissura entre a sensação e a consciência, pela substancialização da consciência dessa relação.
A apropriação de si implica esse «duplo movimento do deslizar para fora de si e de reapropriação (aberta, não-totalizada) de si, de todas as coisas e de toda a existência»
É o desejo, a força desse poder ser, que fazem da personalidade pessoana que é Bernardo Soares um caso assumido, in-extremis, desta natural alteridade que todos temos. Ele quis viver essa diferença ontológica, preencher o vazio pelo sonho e pelo olhar.
«O olho do pensamento», essa visão interior, visão vidente (um outro filão melancólico), controla e dinamiza o processo, por um lado, em profundidade temporal e valorativa, por outro, em extensão espacial e diversificante.»
Ricardina Guerreiro, De Luto por existir, a melancolia de Bernardo Soares à luz de Walter Benjamin
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
Fogo de Artifício
James Ensor, «Fireworks»
«Consigo ver um vulcão nessa imagem, que é um pormenor de uma pintura de Ensor, cuja obra tinha acabado de rever em Paris e que admiro imenso. Pergunto-me se fiz bem em cortá-la. É um fogo-de-artifício na cidade. A parte de baixo tem a escuridão e as pessoas minúsculas que estão a assistir ao fogo. Assim ficou mais misterioso. Essa imagem sustenta a passagem do químico ao alquimista. É a chama que quero pôr em relevo.
Também é verdade que me ocorreu um vulcão, sugestionada por Goethe, que está muito presente nestes textos, e pela sua viagem a Itália, no final do século XVIII.
Goethe subiu ao Vesúvio três vezes, e com perigo uma das vezes. No quadro de Ensor não se vêem as cinzas. É uma imagem invertida daquilo que Benjamin diz que a passagem do químico ao alquimista é a passagem do comentário à crítica. Essa passagem não está assegurada, pode dar-se ou não. Quando se dá, ela consiste em ver nas cinzas uma chama. A imagem proclama a chama, mas omite as cinzas. Em Goethe, o tema das cinzas não é decisivo. Não é que Goethe não conheça bem a indigência, a aflição, a perda, a angústia da vida. Mas o tema das cinzas não é muito goethiano. Nem baudelairiano. Baudelaire fala mais dos restos, dos despojos. Benjamin utiliza muito a imagem das cinzas.»
Entrevista a Maria Filomena Molder, «Público», 20 de Maio de 2011
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quinta-feira, 19 de maio de 2011
Pereira
«Pereira si riscosse quando passò davanti a Santo Amaro. Era una bella spiaggia arcuata e si vedevano le baracche di tela a trisce bianche e azzurre. Il treno si fermò e Pereira pensò di scendere e di andare a fare un bagno, tanto poteva prendere il treno successivo. Fu più forte di lui. Pereira non saprebbe dire perché sentì quell'impulso, forse perché aveva pensato ai suoi tempi di Coimbra e ai bagni alla Granja. Scese con la sua piccola valigia e attraversò il sottopassaggio che portava alla spiaggia. Quando arrivò sulla sabbia si tolse le scarpe e i calzini e avanzò così, tenendo in una mano la valigia e nell'altra le scarpe. Vide subito il bagnino, un giovanottone abbronzato che sorvegliava i bagnanti stando disteso su una sdraio. Pereira gli si avvicinò e disse che voleva affittare un costume da bagno e uno spogliatoio. Il bagnino lo squadrò da capo a piedi con aria sorniona e mormorò: non so se abbiamo un costume della sua taglia, comunque le do la chiave del magazzino, è la cabina più grande, la numero uno. E poi chiese con un'aria che a Pereira sembrò ironica: ha bisogno anche di un salvagente? So nuotare molto bene, rispose Pereira, forse molto meglio di lei, non si preoccupi. Prese la chiave del magazzino e la chiave dello spogliatoio e si avviò. Nel magazzino c'era un po' di tutto: boe, salvagenti gonfiabili, una rete da pesca coperta di sugheri, costumi da bagno. Frugò fra i costumi da bagno per vedere se ne trovava uno all'antica, di quelli completi, che gli coprisse anche la pancia. Riuscì a trovarlo e lo indossò.»
Antonio Tabucchi, Sostiene Pereira
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Ode I, 3
Assim a diva rainha do Chipre,
assim os irmãos de Helena, luzentes estrelas,
assim o pai dos ventos,
apresando todos excepto o Iápix,
te conduzam, navio, tu que a ti próprio
Vergílio deves em empréstimo, suplico,
que o devolvas, incólume, às fronteiras da Ática,
e que preserves a minha alma metade.
Carvalho e triplo bronze tinha
em seu peito aquele que primeiro arremeteu
frágil seu barco ao cruel pélago,
não receando nem o impetuoso Áfrico,
que com os ventos de Áquilo peleja,
nem as tristes Híades, nem a fúria de Noto:
maior juiz não há no Adriático,
a seu bel-prazer as ondas elevando ou amainando.
Temeu os inexoráveis passos da morte
aquele que de olhos enxutos monstros viu a nadar,
e o mar encapelado,
e os mal afamados rochedos de Acroceráunios?
Em vão o previdente deus
a terra do incompossível oceano separou,
se ainda assim ímpios os navios
sulcam os mares que jamais deveriam ser cruzados!
A humanidade, temerária
até no sofrimento, precipita-se no erro proibido.
Temerário o filho de Jápeto
o fogo aos homens, com funesta perfídia, trouxe,
e depois de o ter furtado
de sua celeste morada, sobre a terra se estendeu
a fome e um exército novo de febres,
e a necessidade da morte, outrora tão vagarosa
e remota, o seu passo aligeirou.
Aventurou-se pelo ar vazio Dédalo
com asas ao homem não concedidas:
foi empresa de Hércules no Aqueronte irromper.
Para os mortais nada há de difícil:
estultos o próprio céu reclamamos,
nem permitimos, por nosso crime,
Júpiter iracundos depor seus raios.
assim os irmãos de Helena, luzentes estrelas,
assim o pai dos ventos,
apresando todos excepto o Iápix,
te conduzam, navio, tu que a ti próprio
Vergílio deves em empréstimo, suplico,
que o devolvas, incólume, às fronteiras da Ática,
e que preserves a minha alma metade.
Carvalho e triplo bronze tinha
em seu peito aquele que primeiro arremeteu
frágil seu barco ao cruel pélago,
não receando nem o impetuoso Áfrico,
que com os ventos de Áquilo peleja,
nem as tristes Híades, nem a fúria de Noto:
maior juiz não há no Adriático,
a seu bel-prazer as ondas elevando ou amainando.
Temeu os inexoráveis passos da morte
aquele que de olhos enxutos monstros viu a nadar,
e o mar encapelado,
e os mal afamados rochedos de Acroceráunios?
Em vão o previdente deus
a terra do incompossível oceano separou,
se ainda assim ímpios os navios
sulcam os mares que jamais deveriam ser cruzados!
A humanidade, temerária
até no sofrimento, precipita-se no erro proibido.
Temerário o filho de Jápeto
o fogo aos homens, com funesta perfídia, trouxe,
e depois de o ter furtado
de sua celeste morada, sobre a terra se estendeu
a fome e um exército novo de febres,
e a necessidade da morte, outrora tão vagarosa
e remota, o seu passo aligeirou.
Aventurou-se pelo ar vazio Dédalo
com asas ao homem não concedidas:
foi empresa de Hércules no Aqueronte irromper.
Para os mortais nada há de difícil:
estultos o próprio céu reclamamos,
nem permitimos, por nosso crime,
Júpiter iracundos depor seus raios.
Horácio, Odes, I, 3
terça-feira, 17 de maio de 2011
Johannes Climacus
«Climacus tornou-se estudante; foi aprovado no segundo exame da universidade, fez vinte anos e, contudo, nenhuma mudança operou-se nele, ele era e permaneceu estranho ao mundo. Não que fugisse das pessoas; ao contrário, procurava encontrar a companhia de espíritos semelhantes ao seu. Mas não fazia confidências e jamais deixava transparecer o que se passava em seu íntimo; seu erotismo era muito profundo para isso; parecia-lhe que teria corado se falasse, temia saber muito ou muito pouco. Por outro lado, estava sempre atento ao que os outros diziam. Como uma jovem profundamente enamorada não fala de bom grado do seu amor, mas escuta com um fervor quase doloroso as outras jovens falarem dos seus, para em silêncio descobrir se está tão feliz quanto elas ou mais ainda, para captar o menor indício que pudesse guiá-la, Johannes, em silêncio, escutava tudo atentamente. Ao voltar para casa, examinava o que haviam dito os filosofantes, pois, sem dúvida, era a companhia deles que buscava.»
Soren Kierkegaard, Johannes Climacus ou É preciso duvidar de tudo
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Ciência Nova
«Nas relações quase sempre tempestuosas entre a filosofia e a poesia, o filósofo napolitano Giambattista Vico (1669-1744) assume uma posição tão idiossincrática quanto a obra que lhe dá expressão. O seu livro mais importante, a Ciência Nova, fornece um dos primeiros e mais fortes contributos para definir a especificidade daquilo a que hoje chamamos as ciências humanas por oposição às ciências naturais. O que distingue as humanidades destas últimas assenta no facto de o seu objecto de estudo ter sido criado pelo próprio homem, ao passo que o filósofo natural encontra o material para as suas cogitações no mundo que antecede a criação das isntituições sociais, das leis e da própria linguagem. Isso implica o desenvolvimento de um método distinto e específico para estudar tudo o que diz respeito às ciências humanas, chegando Vico à conclusão de que, nestas, o método coincide com o objecto de estudo. Esse objecto é, para todos os efeitos, indiscernível da própria história da disciplina.»
João R. Figueiredo, «Prefácio» a Poesia e Ciência Nova, o conhecimento segundo Giambattista Vico, de Ana Cláudia Santos
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João R. Figueiredo
domingo, 15 de maio de 2011
Kitsch
«Estético não coincide, por conseguinte, com o sistema de valores da arte, mas exclusivamente com a realização de uma forma, qualquer que ela seja: este pão, um tecido, uma lei, uma escultura, um axioma. Se o aspecto estético isolado do ético conduz à degradação, o aspecto ético sem realização estética atrai o desespero, tocado de impotência, de esterilidade. Em rigor, o movimento de dar forma não vale mais do que a forma realizada, mas é posto em perigo quando as formas realizadas se tomam como cânones sufocantes, aniquilando qualquer experiência da "primeira vez", pervertendo qualquer esforço futuro de dar forma, satisfazendo pela reprodução mimética o tédio de matar o tempo, que retorna cada vez mais exigente. A arte kitsch é uma das suas expressões. Brich toma-a como o mal, o mal radicar no sistema de valores da arte. Em oposição ao mal dogmático, que consiste na destruição de um sistema de valores por outro (por exemplo, o sistema político que tenta reduzir à submissão o sistema artístico ou religioso), o mal radica é a destruição que um sistema pratica contra si próprio, como um ladrão que roubasse a sua própria casa (todos estes conceitos são desenvolvidos em "O mal no sistema de valores da arte").»
Maria Filomena Molder, O Absoluto que pertence à terra
sábado, 14 de maio de 2011
A Terceira Coisa
Ela vinha.
tu falavas-lhe
até que a podias já tocar
E agora é a tua fala
quem lhe toca
de tão perto
que mais que ouvi-la
ela a sente.
Ela vem e chega.
Tu a descobres ou inventas,
mas decide-te.
Eu descubro-te e invento-te
e então eu oiço-a dizer-nos:
Eu sou a terceira coisa;
A personagem: o herói -
- a terceira pessoa.
tu falavas-lhe
até que a podias já tocar
E agora é a tua fala
quem lhe toca
de tão perto
que mais que ouvi-la
ela a sente.
Ela vem e chega.
Tu a descobres ou inventas,
mas decide-te.
Eu descubro-te e invento-te
e então eu oiço-a dizer-nos:
Eu sou a terceira coisa;
A personagem: o herói -
- a terceira pessoa.
Manuel Gusmão, A Terceira mão
Livros e leitura(s)
Fui convidado amavelmente pelo Tomás Castro e pelo meu colega Carlos Lopes para participar num encontro que eles próprios pretendiam organizar, tendo como motivo central o livro e a leitura. Por dever, de profissional e de estudante, bem como por consideração às pessoas que tão amavelmente se dispuseram a ser pacientes para comigo, aceitei a proposta, agradecido, e espero não defraudar as suas expectativas.
Confesso que, apesar de a minha vida ter conhecido desde sempre e em permanência essa coisa a que chamamos livro, sempre que me pedem que exponha uma ideia que seja sobre a leitura, é sempre com algum cuidado que me refiro a este objecto, como se se tratasse de lidar com uma pessoa muito querida, por quem tenho estima e consideração e, por esse motivo, não ser capaz de a ele me dirigir sem a reverência e o respeito que considero serem-lhe devidos.
A leitura democratizou-se nos últimos anos. É um facto. O número de livros vendidos, bem como os resultados dos inquéritos sobre a leitura que têm sido divulgados, são uma prova irrefutável disso mesmo. Quero deixar desde já claro que me congratulo vivamente com este facto. No entanto, dou comigo por vezes a pensar se o simples facto de se ler mais, e, por conseguinte, de os livros se terem tornado mais acessíveis aos cidadãos, pode ser, em si mesmo, um factor que serve para aliviar os espíritos mais inquietos daqueles que, do livro e da leitura, não são capazes de dissociar uma vertente diacrónica na sua abordagem.
Por outras palavras, lê-se de facto muito mais, mas será que se lê e que as pessoas são incentivadas a ler aquilo que interessa? Ou seja, aquilo que se repercute mais vivamente nas nossas vidas, como sejam, por exemplo, estratégias para se pensar, para se exercer um espírito crítico vivo e susceptível de formar cidadãos que sejam capazes de estruturar raciocínios e apresentar argumentos complexos, que sejam capazes de desenvolver o espírito imaginativo nos leitores. Um espírito imaginativo de onde mane uma capacidade que permita a quem lê aceder a novos lugares, a novos pontos de observação de uma mesma paisagem. Ou seja, que permita a quem lê a possibilidade de, perante uma dada realidade, que pode ser apresentada como coisa acabada, encontrar outros focos de interesse e, a partir daí, reconstruir a paisagem, porque, tendo passado a ser observada a partir de outro ângulo, se torna, entretanto, outra. Será que as nossas maneiras de ler envolvem a noção de tempo, e, por conseguinte, que lemos um livro adivinhando nele, por exemplo, um determinado espírito de época? Será que somos capazes de ler o nosso tempo devidamente, no pressuposto de que um conhecimento que envolva uma dimensão histórica permitirá alargar a nossa capacidade de apropriação daquilo que é actual, através das lições que o tempo nos pode ser capaz de oferecer?
Não estou certo que assim aconteça. E receio que não aconteça mesmo, até porque nos últimos anos se tem vindo a fomentar a ideia, em meu entender perversa, de que ler é uma actividade “fácil”. Não deixa de ser contraditório o facto de, sob o pretexto da “empregabilidade” se insistir, por um lado, na ideia de que ler é uma coisa boa, mas, no momento em que, por exemplo, os alunos devem escolher uma área de estudos para a frequência do ensino secundário, quem lê passe a ser entendido como alguém que, não tendo jeito para outras coisas, se refugia na área do saber que sempre lhe terá sido apresentada como a mais fácil. Estranho mundo este em que, debaixo do guarda-chuva de uma coisa a que chamam empregabilidade se cria a ilusão de que ainda existem empregos e trabalhos à espera de alguém num qualquer lugar, apenas por não ser na área de letras. Estranho mundo este onde emerge o totalitarismo utilitário a mostrar aos homens de boa vontade que, afinal de contas, a sua liberdade individual não se encontra naquilo que eles são em si mesmo, mas no modo como se relacionam com os outros e se inserem na sociedade. Pensamento perverso…
Relembro agora aquilo que nunca deixo de dizer aos meus alunos: a leitura é um trabalho, só que é um trabalho com características específicas. Com efeito, a leitura é uma actividade que leveda, que, por mais que pensemos que a teremos abandonado, ela volta sempre, mostrando-nos o quanto nos podemos ir construindo a partir das sempre renovadas lembranças de um livro que tenhamos lido há muito tempo.
Nós não precisamos de estar num escritório para trabalhar quando trabalhamos com livros. Apenas precisamos de os pensar, nesse modo ocioso e simultaneamente produtivo de o fazer. Para que isto aconteça é necessário que sejamos capazes de lidar com a instância temporal e de compreender a importância de coisas aparentemente tão simples, como a paciência ou a capacidade de concentração, que dela advém.
Durante este ano lectivo, depois de apresentar a uma turma a proposta de leitura de um livro, fui interrompido por um aluno que afirmou: “eu não consigo ler um livro inteiro porque não me consigo concentrar, porque, ao mesmo tempo que os meus olhos passam pelas linhas da página, eu não estou a pensar nas palavras que leio mas sim noutra coisa qualquer, simplesmente outra coisa, não interessa que coisa seja.” Acontece que felizmente me apareceu uma resposta pronta para lhe dar. Comecei por lhe perguntar se ele gostava de jogar na PS3. De seguida, fi-lo compreender que, na medida em que era capaz de obter períodos alargados de concentração enquanto joga, ele poderia servir-se dessa sua experiência pessoal para a estender a outras actividades que pratique, nomeadamente à leitura. De facto, eu não acredito que os alunos não sejam capazes de se concentrarem na leitura, apenas não estão afinados para se concentrarem diante de um livro, apesar de o serem capazes de fazer em relação a outras coisas.
Afinal de contas, por mais Planos Nacionais de Leitura que se façam, haverá sempre quem não tenha essa paciência particular que envolve um leitor no acto de ler. Sendo a leitura o resultado de uma motivação interior, de uma espécie de chamamento, não estou certo que o facto de se elaborarem Planos Nacionais de Leitura venha a ser razão incontornável para se dizer que se lê mais. Até porque, segundo me parece (e se estiver enganado gostaria de ser corrigido), a forma de se medir a leitura (se isso é possível) numa biblioteca, por exemplo, resulta do somatório de visitas, ou do número de requisições de livros efectuadas por um leitor. Que ideia é esta de se medir a leitura? Como posso garantir que alguém que requisitou 10 livros os tenha lido todos? E o que importa isso?
Às vezes fico com a impressão de que o tratamento dos dados assim efectuado é suficiente para se acreditar que temos leitores. Contudo, nenhum destes dados me satisfaz. Por isso suspeito. Suspeito que o modo como o mundo está organizado ou então o modo como nos pretendem fazer crer que se organiza, sem a apropriação devida e necessária de aspectos relacionados com a busca de visões de conjunto, em vez de visões parcelares do mundo, resulta de um sinal dos tempos em que vivemos, em que, apesar de se pretender iludir os homens para a sua dimensão de liberdade, apenas se releva aquilo que neles se considera ser susceptível de os tornar menos autónomos, porque cada vez mais expostos e dirigidos, na sua formação individual, não para aquilo que a sua natureza lhes pede, mas para aquilo que a sociedade pode vir a pretender deles, na perspectiva de que ao fazer certas escolhas em detrimento de outras eles terão mais possibilidades de garantir o seu sustento. Tudo isto acontece, hoje em dia, perante um cenário em que a chamada empregabilidade se tornou um conceito quase exotérico, na medida em que, mesmo que sigamos por aí, em quase nenhuma área profissional é garantido que se obtenha lugar imediato.
Pediram-me que falasse de livros e de leitura. Começo pelo princípio. Existem pessoas em relação às quais ficamos devedores para o resto da vida. Eu sou devedor em relação a muitas pessoas, mas em relação à leitura, a minha primeira e definitiva dívida é para com o meu irmão mais velho, que, tendo entrado na primeira classe, ao mesmo tempo que aprendia as primeiras letras, vinha para casa mostrar-me as coisas novas que lhe eram mostradas. Sem dar por isso, e como se se tratasse de um jogo, foi ele que me ensinou a ler e a escrever. O certo é que a leitura colou-se-me à pele e não mais me largou. Lembro-me de ter começado a ler desde muito novo os Evangelhos e a entendê-los para além daquilo que deles se dizia nas eucaristias em que participava ao domingo.
Mais tarde passei por aquilo a que poderei chamar um momento decisivo da minha vida. Acontece que, na passagem para o 1º ano do ciclo preparatório, actual 5º ano de escolaridade, foi-me diagnosticada uma hepatite, que me obrigou a permanecer em casa durante três meses. Aproveitei essa altura para percorrer as filas de livros que havia em casa. Foi então que li Carles Dickens, adaptações da Ilíada, da Odisseia, da Eneida, romances de Walter Scott, bem como os meus primeiros livros de Camilo Castelo-Branco. Pelo meio havia mais, até porque a leitura era a minha maneira de ocupar o tempo de uma forma muito agradável.
Pediram-me que escolhesse alguns livros para deles vir aqui falar. Aproveitei para trazer alguns dos meus amigos: Cesare Pavese, Hermann Broch, Baldassare Castiglione, Maria Filomena Molder, Camilo Castelo-Branco, Horácio e o meu autor de referência, Benedetto Croce. A todos eles associo fases importantes da minha vida.
Pavese que apresenta a sua vida e a sua obra como elementos constitutivos um do outro, de tal modo que as páginas finais do seu diário, quando lidas à luz dos factos históricos da sua vida pessoal, nos interpelam directamente para o facto de, enquanto “seres do meio”, nas palavras de Maria Filomena Molder, não podermos aceder ao controlo das nossas existências.
Broch, que, a partir da biografia de Virgílio, apresenta uma reflexão acerca dos problemas do homem contemporâneo e da sua posição perante a incomensurabilidade do mundo.
Castiglione, porque, ainda hoje nos ensina que o bom cortesão é aquele que possui um espírito nobre assente em critério de equilíbrio, gentileza, harmonia com os outros e com o mundo.
Maria Filomena Molder, enquanto autora de uma sensibilidade profunda no modo como lê os outros, bem como pela maneira como nos mostra os percursos de autores que foram capazes de, com paciência e tenacidade, perseguirem os seus objectivos mesmo quando envolvidos em ambientes extraordinariamente adversos.
Horácio, porque tem um dos meus poemas preferidos, o terceiro poema da terceira Ode, em que destaca a atitude do homem determinado que, quando firme nos seus propósitos, não se perturba com o furor dos outros cidadãos.
O meu Camilo é o das Memórias do Cárcere. O homem que, mesmo entregue à sua sorte e ao abandono, não deixa de estudar os recantos mais escondidos da alma humana.
Por fim, o meu autor, aquele que me acompanha há quase vinte anos: Benedetto Croce, de um livro aparentemente muito simples, mas extraordinariamente amplificado através das ramificações que em cada página, escondidas, vão sendo reveladoras de um espírito que, por via de um conceito de bem e de bondade, é capaz de superar o acantonamento a que é votado por questões políticas, e, ainda assim, num momento em que volta a fazer parte do círculo do poder no estado italiano, não deixa de exercer a sua magnanimidade, procedendo olimpicamente em relação àqueles que o isolaram durante quase vinte anos.
Em todos estes autores preside aquilo que é para mim, o objecto mais louvável de uma vida ética, e, por conseguinte, da literatura: a bondade. Quando escolhi estes livros foi segundo o critério da bondade que o fiz.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Studio
«Neppure chiusi del tutto l'orecchio, in Italia e tra gli esuli dall'Italia, a coloro che vagheggiavano azioni più prontamente risolutive e cospiravano; ma ciò feci, a dir vero, piuttosto per condiscendenza e per non dare impressione di scoraggiante timidezza. che per fede che io avessi in quei metodi o per capacità che sentissi in me di praticarli, perché tutta la mia vita ho giocato a carte scoperte e non so giocare altrimenti, anche quando forse sarebbe necessario. Ma poiché, come ho detto, quello che io sentivom scosso, sconvolto e traballante era il fondamento di ogni serio concetto e di ogni elevata azione politica, la mia migliore opposizione, ossia quella a me più confacente e nella quale potevo dare maggiore rendimento, doveva consistere nella difesa e restaurazione delle necessarie premesse intellettali e morali e nella continuazione resa più intensa della mia opera personale di pensatore e di scrittore. Gli studi per sé stessi, anche quelli che paiono distaccati dalla pratica, como il gusto per la poesia o la diligenza nell'indagine filologica, hanno sempre il potere di introdurre negli animi qualcosa di universale, che contrasta e tempera l'esclusiva caccia delle utilità immediate.»
Benedetto Croce, Contributo alla critica di me stesso
terça-feira, 10 de maio de 2011
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