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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Na Ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
    manhãs e madrugadas em que não precisamos de
    morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
    em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
    palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
    mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
    vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
    sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
    mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
    ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
    como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago, Provavelmente Alegria

Marc-Antoine Charpentier - Actéon (5/5)

Marc-Antoine Charpentier - Actéon (4/5)

Parêntesis

«Certo, nell'opporre alle legioni dei diversamenti pensanti o diversamente favellanti queste proposizioni apodittiche si à ben consapevoli che esse sono proprio di quelle che possono far sorridere o muovere a scherni verso il filosofo, il qual par che caschi sul mondo come un uomo dell'altro mondo, ignaro di ciò che la realtà è, cieco e sordo alle sue dure fattezze e alla sua voce o ai suoi gridi. Anche senza soffermarsi sugli avvenimenti e sulle condizioni contemporanee onde in molti paesi gli ordini liberali, che furono il grande acquisto del secolo decimonono e sembrano acquisto in perpetuo, sono crollati e in molti altri s'allarga il desiderio di questo crollo, la storia tutta mostra, con brevi intervalli d'inquieta, malsicura e disordinata libertà, con rari lampeggiamenti di una felicità piuttosto intravista che mai posseduta, un accavallarsi di oppresioni, d'invasioni barbariche, di depredazioni, di tirannie profane ed ecclesiastiche, di guerre tra i popoli e nei popoli, di persecuzioni, di esilî e di patiboli. E, con questa vista innanzi agli occhi, il detto che la storia è storia della libertà, suona come un'ironia o, asserito sul serio, come una balordaggine.
Senonché la filosofia non sta al mondo per lasciarsi sopraffare dalla realtà quale si configura nelle immaginazioni percosse e smarrite, ma per interpretarla, sgombrando le immaginazioni. Così, indagando e interpretando, essa, la quale ben sa come l'uomo che rende schiavo l'altro uomo sveglia nell'altro la coscienza di sé e lo avviva alla libertà, vede serenamente succedere a periodi di maggiore altri di minore libertà, perché quanto più stabilito e indisputato è un ordinamento liberale, tanto più decade ad abitudine, e, scemando nell'abitudine la vigile coscienza di sé stesso e la prontezza della difesa, si dà luogo ad un vichiano ricorso di ciò che si credeva ch enon sarebbe mai riapparso al mondo, e cha a sua volta aprirà un nuovo corso.»

Benedetto Croce, La Storia come pensiero e come azione

terça-feira, 19 de abril de 2011

Marc-Antoine Charpentier - Actéon (3/5)

Hommage

Le silence déjà funèbre d'une moire
Dispose plus qu'un pli seul sur le mobilier
Que doit un tassement du principal pilier
Précipiter avec le manque de mémoire.

Notre si vieil ébat triomphal du grimoire,
Hiéroglyphes dont s'exalte le milier
A propager de l'aile un frisson familier!
Enfouissez-le moi plutôt dans une armoire.

Du souriant fracas originel hai
Entre elles de clartés maîtresses a jailli
Jusque vers un parvis né pour leur simulacre,

Trompettes tout haut d'or pâmé sur les vélins,
Le dieu Richard Wagner irradiant un sacre
Mal tû par l'oncre même en sanglots sibylins.

Stéphane Mallarmé, Poésie

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Marc-Antoine Charpentier - Actéon (2/5)

Actéon

«A primeira causa de dor, Cadmo, no meio de tanta felicidade, foi o teu neto, a cuja fronte se somaram estranhos cornos, e vós, cadelas, que vos saciastes com o sangue do vosso dono. Mas se indagares bem, descobrirás que a culpa foi da Fortuna, não de um crime dele. Pois desde quando um erro é um crime?
O monte estava tingido pela matança da mais diversa caça, e já o meio-dia reduzira ao mínimo as sombras das coisas e o sol se encontrava a igual distância de ambas as metas, quando o jovem dos Hiantes, em tom tranquilo, chama e diz aos colegas de caça que vagueavam por barrancos afastados: "As redes e as armas, amigos, estão tintas do sangue das feras, e o dia concedeu-nos sorte bastante. Mal a próxima Aurora conduzir de volta o dia, montada no carro da cor do açafrão, retomaremos a tarefa planeada. Febo dista agora o mesmo das duas metas, e com calor escaldante abre gretas na terra. Parai as presentes tarefas e desarmadilhai as nodosas redes." Os homens cumprem as ordens e interrompem o trabalho.
Havia ali um vale, coberto de pinheiros e esguios ciprestes; Sagrado a Diana, a de veste arregaçada, chamava-se Gargáfia. Na parte mais recôndita, no meio do bosque, fica uma gruta por arte humana alguma trabalhada. Com a sua criatividade, a natureza imitara a arte, pois ela própria construíra um arco natural em pedra-pomes viva e em leve tufo.
À direita, murmura uma cristalina nascente de água límpida, formando uma laguna larga, cingida por margens herbosas. Era ali que a deusa dos bosques, quando cansada da caça, costumava banhar o corpo virginal em transparentes águas. Nessa ocasião, ao chegar ao local, confiou a uma das ninfas, que era sua escudeira, a lança de caça, a aljava e o arco desapertado; outra segurou nos braços as vestes que ela despira; duas outras descalçaram-lhe as sandálias dos pés. Crócale, a do Ismeno, a mais sábia, ata-lhe com um nó o cabelo solto caído pelos ombros, embora ela o traga solto. Acartam água Néfele, Híale, Rânis, e Psécade, e Fíale, derramam-na em enormes vasilhas.
Enquanto a neta do Titã aí se banha nas águas habituais, eis que o neto de Cadmo, adiada a jornada de trabalho, deambulando ao acaso pela floresta que não conhecia, chega a este arvoredo sagrado: assim o levava o destino. Logo que ele entrou na gruta oralhada pela nascente, as ninfas, à vista do homem, desnudadas como estavam, puseram-se a bater no peito e encheram o bosque inteiro de gritos de surpresa. Rodearam então Diana, cobrindo-a com os seus próprios corpos. Mas a deusa era mais alta que elas, e do pescoço para cima ultrapassava a todas. E aquela cor que costumam ter as nuvens quando tingidas pelos golpes do sol defronte, ou a da purpúrea Aurora, essa foi a cor no rosto de Diana ao ser vista sem roupas. E apesar de rodeada pelo seu grupo de companheiras, virou-se de lado e voltou o seu olhar para trás.
Embora o que ela quisesse fosse ter as flechas prontas, pegou em água (era o que tinha à mão) e atirou à cara do rapaz. Salpicando os cabelos com a água vingadora, lançou tais dizeres, prenunciadores da iminente desgraça: "Agora, poderás contar que me viste despojada de roupas - se conseguires falar..." Sem mais ameaças, faz surgir na cabeça que molhara as hastes de um veado já velho, alonga-lhe o pescoço e aguça-lhe as pontas das orelhas; muda-lhe as mãos em pés e os braços em longas patas, e reveste-lhe o corpo todo de uma pelagem malhada; por último, instila-lhe o medo. O herói filho de Autónoe desata a fugir, e, ao correr, pasma-se por se ver tão veloz. [Mas quando vislumbrou na água o focinho e as hastes,] "Ai de mim!", queria ele gritar: mas voz alguma saiu.
Soltou foi um bramido: era a sua voz!; e as lágrimas caíram pelas faces que não eram as suas. Só restou a antiga mente. Que haveria de fazer? Voltar para casa, ao palácio do rei? Ocultar-se no bosque? Isto impede o medo, aquilo o pudor.
Hesitava ele, quando os seus cães o avistam. Melampo e o sagaz Icnóbates, os primeiros, dão o sinal a ladrar: Icnóbates é de Cnosso, Melampo, de estirpe espartana. Depois lançam-se outros, mais lestos que o rápido vento: Pânfago e Dorceu e Oríbaso, todos eles da Arcádia; o pujante Nebrófono e o feroz Téron, junto de Lélape; Ptérelas, útil pela voz corrida, e Agre, útil pelo seu faro; Hileu, que há pouco fora ferido por um feroz javali; Nape, filha de lobo; Pémenis, guardadora de rebanhos, e Harpia, acompanhada pelos seus dois cachorros; Ládon de Sicíon, que tinha os flancos bem estreitos; e Dromas e Cánaque, Esticte e Tigre e Alce, e Lêucon, de pêlo alvo como neve, e Ásbolo, de pêlo negro; e o possantíssimo Lácon, e Aelo, infatigável na corrida; e Tóos e a veloz Licisca junto com seu irmão Cíprio; e Hárpalo, inconfundível pela sua mancha branca no meio da negra fronte, e Melaneu, e a peluda Lacne; Labro e Argíodo, filhos de pai do Dicte e de mãe lacónia, e Hilactor, com o seu ladrar estridente; e muitos outros que seria demorado referir. Na ânsia de o caçar, a matilha persegue-o por escarpas e penhas e inacessíveis rochedos, por onde o caminho é difícil, onde não há caminho algum. Ele foge por onde tantas vezes perseguira as suas presas, oh!, ele foge aos seus próprios servidores! Queria gritar, ["Sou eu, Actéon! Não me reconheceis, o vosso dono?"] mas faltam palavras ao seu querer; o céu ecoa com latidos. A primeira a atingi-lo foi Melanquetes, ferindo-o nas costas; depois foi Terodamente; Oresítrofo pendura-se no ombro: tinham saído atrasados, mas lá chegaram primeiro por uns atalhos da serra. Enquanto seguram o dono, o resto da matilha cai sobre ele e ferra os dentes na carne. Já falta espaço para as feridas. Ele geme, soltando um som que, embora não sendo humano, cervo algum pode lançar, e enche os cimos tão familiares de lamentosos queixumes. De joelhos, implorante, como se numa prece, lança à volta o olhar silencioso, como se estendesse os braços. Ora, os camaradas, sem saber, açulam a matilha impetuosa com os usuais gritos de incitamento. Com o olhar buscam Actéon, e à compita Actéon chamam como se fosse ausente (e ele vira a cabeça ao nome!). Lamentam a ausência, perder por preguiça o espectáculo da presa que lhes surgira. Bem queria ele não estar ali, mas está. E ele bem gostaria de ver, mas não sentir a ferocidade dos seus próprios cães. De todo o lado o cercam e mergulham os focinhos na carne, dilacerando o dono sob a enganadora aparência de veado.
E a ira de Diana, a portadora da aljava, não se saciou, dizem, antes de se pôr termo à vida dele com incontáveis feridas.»

Ovídio, Metamorfoses, III, 138-252

domingo, 17 de abril de 2011

Marc-Antoine Charpentier - Actéon (1/5)

Paesaggio VIII

I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume. L'acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti.

Nel silenzio del buio sale uno sciacquo
dove passano voci e risa remote;
s'accompagna al brusío un colore vano
che è di sole, di rive e di sguardi chiari.
Un'estate di voci. Ogni viso contiene
come un frutto maturo un sapore andato.

Ogni occhiata che torna, conserva un gusto
di erba e cose impregnate di sole a sera
sulla spiaggia. Conserva un fiato di mare.
Come un mare notturno è quest'ombra vaga
di ansie e brividi antichi, che il cielo sfiora
e ogni sera ritorna. Le voci morte
assomigliano al frangersi di quel mare.

Cesare Pavese, Lavorare Stanca 

sábado, 16 de abril de 2011

Alla sera di Ugo Foscolo




Forse perché della fatal quïete
Tu sei l'imago a me sì cara vieni
O sera! E quando ti corteggian liete
Le nubi estive e i zeffiri sereni,

E quando dal nevoso aere inquïete
Tenebre e lunghe all'universo meni
Sempre scendi invocata, e le secrete
Vie del mio cor soavemente tieni.

Vagar mi fai co' miei pensier su l'orme
che vanno al nulla eterno; e intanto fugge
questo reo tempo, e van con lui le torme

Delle cure onde meco egli si strugge;
e mentre io guardo la tua pace, dorme
Quello spirto guerrier ch'entro mi rugge.

Ugo Foscolo

Interpretation

«In other words interpretative communities are no more stable than texts because interpretative strategies are not natural or universal, beu learned. This does not mean that there is a point at which an individual has not yet learned any. The ability to interpret is not acquired; it is constitutive of being human. What is acquired are the ways of interpreting and those same ways can also be forgotten or supplanted, or complicated or dropped from favor ("no one reads that way anymore"). When any of these things happens, there is a corresponding change in texts, not because they are being read differently, but because they are being written differently.
The only stability, then, inheres in the fact (at least in my model) that interpretative strategies are always beign deployed, and this means that communication is a much more chancy affair than we are accustomed to think it. For it there are no fixed texts, but only interpretative strategies making them, and if interpretative strategies are not natural, but learned (and are therefore unavailable to a finite description), what is it utterers are in the business of handing over ready-made or prefabricated meanings. Those meanings are said to be enconded, and the code is assumed to be in the world independently of the individuals who are obliged to attach themselves to it (if they do not they run the danger of being declared deviant). In my model, however, meanings are not extracted but made and made not by encoded forms but by interpretative strategies that call forms into being. It follows then that what utterers do is give hearers and readers the opportunity to make meanings (and texts) by inviting them to put into execution a set of strategies. It is presumed that the invitation will be recognized, and that presumption rests on a projection on the part of a speaker or author of the moves he would make if confronted by the sounds or marks he is uttering or setting down.
It would seem at first that this account of things simply reintroduces the old objection; for isn't this an admission that there is after all a formal encoding, not perhaps of meanings, but of the directions for making them, for executing interpretative strategies? The answer is that they will only be  directions to those who already have the interpretative strategies in the first place. Rather than producing interpretative acts, they are the products of one. An author hazards his projection, not because of something "in" the marks, but because of something he assumes to be in his reader. The very existence of the "marks" is a function of an interpretative community, for they will be recognized (that is, made) only by its members. Those outside that community will be deploying a different set of interpretative strategies (interpretation cannot be withheld) and will therefore be making different marks.»

Stanley Fish, «Interpretating the Variorum», in Is there a text in this class?

Animal Collective - Brothersport

Avó

«Um dia, perguntei à minha avó:
- Como é que se faz para não ter frio na sepultura, no Inverno?
A minha avó era uma mulher simples e devota que via Deus em toda a parte; mesmo no mal, mesmo no castigo, mesmo na injustiça. Nenhum acontecimento a surpreendia sem orações. A sua pele tinha a brancura da areia do deserto. Sobre a cabeça, ela usava um enorme lenço preto, de que parecia não se conseguir separar.
- Quem não se esquece de Deus não tem frio na sepultura - disse ela.
- Que é que o mantém quente? - insisti eu.
A sua voz fraca tornou-se um murmúrio: era um segredo.
- O bom Deus em pessoa.
Um sorriso benevolente iluminou-lhe o rosto até à beira do lenço que lhe cobria metade da fronte. Ela sorria desta maneira de cada vez que eu lhe colocava uma pergunta cuja resposta lhe parecia ser evidente.
- Será que o bom Deus também está na sepultura, juntamente com os homens e as mulheres que são enterrados?
- Sim - asseverou a minha avó. - É ele quem os mantém quentes.
Lembro-me que então uma tristeza turva desceu sobre mim. Eu compadeci-me de Deus. Eu dizia a mim mesmo: Ele é mais infeliz que o homem, que só morre uma vez, que é enterrado numa única sepultura.
- Avó, diz-me, Deus também morre?
- Não, Deus é imortal.
A sua resposta impressionou-me. Tive vontade de chorar. Deus é enterrado vivo! Eu teria preferido inverter os papéis, pensar que Deus é mortal e o homem não. Acreditar que, quando um homem finge morrer, é Deus quem é coberto de terra.»

Elie Wiesel, Dia

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rameau Les Paladins 1 *Added words in box*

Le Principe de Charité

«En quoi donc le geste chrétien - exemplairement désigné par Paul comme agapè - consiste-t-il? Dans ses Enquêtes su la vérité et l'interprétation, Donald Davidson a développé ce qu'il appelle le Principe de Charité: «Le but n'est pas celui, absurde, de faire disparaître le désaccord et l'erreur. C'est plutôt qu'un large accord est ce sur fond de quoi seulement on peut interpréter conflits et erreurs.» En ce sens: «Ce qui rend donc l'interprétation possible est le fait que nous puissions écarter a priori la possibilité d'erreur massive.» Comme le souligne Davidson, cette assomption ne relève pas simplement du choix à faire ou à ne pas faire, mais d'une sorte d'a priori de la parole, d'une présupposition qui nous détermine dans le silence et que nous suivons du moment que nous entrons en communication avec les autres:

«Puisque la charité n'est pas une option, mais la condition même qui nous permet d'avoir une théorie maniable, cela n'as pas de sens de suggérer que nous pourrions tomber dans une erreur massive en l'adoptant. [...] La charité nous est imposé; que cela nous plaise ou non, si nous voulons comprendre les autres, nous devons considérer qu'ils ont raison sur la plupart des sujets.»

Le Principe de Charité de Davidson n'est donc qu'un autre nom pour le «grand Autre» de Lacan: il représente la garantie ultime de la Vérité sur laquelle nous ne pouvons pas ne pas nous appuyer, même si nous mentons à nos interlocuteurs, et ce précisément afin de réussir à les tromper.»

Slavoj Zizek, Fragile absolu, Pourquoi l'héritage chrétien vaut-il d'être défendu?

Diamanda Galás - Baby's Insane

Desconfiar

«Uma realidade que não está embelezada pelas fábulas é mais difícil de suportar que um inferno envolto em mitos. O homem sempre preferiu as figurações incertas à visão despojada que desmascara os dias. O medo de afrontar a ausência na sua alma e no tempo fê-lo povoar de ilusões o céu e a terra: os deuses impalpáveis como as preocupações quotidianas resultaram. O pavor de contemplar no seio da vida, o silêncio que a precede, e aquele que lhe sucede, fê-lo aceitar o fracasso que se chama viver, ao qual cada um junta o receio de se escutar a si mesmo e de nada ouvir.»

Emil Cioran, Exercices négatifs

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Arvo Part - Cantus In Memory Of Benjamin Britten/Festina Lente

12. Degradação dos Valores (1)

«Esta vida disparatada terá ainda realidade? Esta realidade hipertrófica terá ainda vida? O gesto patético de uma disposição gigantesca remata-se com um encolher de ombros - não sabem por que morrem; privados de realidade, caem no vácuo, sem deixarem de estar cercados e de serem mortos por uma realidade que é bem deles, visto lhe concederem causalidade.
O irreal é o ilógico. E esta época não parece já poder elevar-se a um mais alto grau no ilógico, no antilógico: dir-se-á que a monstruosa realidade da guerra suprimiu a realidade do mundo. O fantástico torna-se realidade lógica, mas a realidade dissolve-se na mais lógica das fantasmagorias. Uma época cobarde e mais triste que todas precedentes afoga-se em sangue e em gases asfixiantes, multidões de empregados bancários e de especuladores lançavam-se contra arames farpados, um humanitarismo bem organizado não impede nada, mas organiza-se em Cruz Vermelha e empenha-se no fabrico de membros artificiais; cidades morrem de fome e cunham moeda com a sua própria fome, mestres-escola de óculos comandam pelotões de assalto, habitantes das grandes cidades vivem em cavernas, operários fabris e outros paisanos rastejam com as patrulhas de reconhecimento, e quando, finalmente, encontram a retaguarda, com a vida salva, os seus membros artificiais criam novos especuladores. Na dissolução de toda a forma, à luz crepuscular de uma incerteza embotada que ilumina um mundo de espectros, o homem, tal como uma criança perdida, caminha às apalpadelas, seguindo o frio de uma qualquer logicazinha de curto fôlego, caminha às apalpadelas numa paisagem de sonho a que chama realidade e que, no entanto, não passa de um pesadelo para ele.»

Hermann Broch, Os Sonâmbulos, Huguenau ou o Realismo

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Egberto Gismonti

Democracia

«Desde que os cidadãos começaram a possuir a terra por outros modos que não eram os da tendência feudal, e desde que, uma vez conhecida a riqueza mobiliária, esta pôde por seu turno criar influência e dar poder, não se fizeram descobertas nas artes, não se introduziram novos procedimentos no comércio e na indústria, sem que se criassem como que outros tantos elementos de igualdade entre os homens. A partir desse momento, todos os procedimentos que se descobrem, todas as necessidades que nascem, todos os desejos que reclamam satisfação, são progressos em direcção ao nivelamento universal. O gosto do luxo, o amor da guerra, o império da moda, as paixões mais superficiais do coração humano como as mais profundas, parecem trabalhar de concerto para empobrecer os ricos e para enriquecer os pobres.
Desde que os trabalhos da inteligência se tornaram fontes de força e de riquezas, passou a ter de se considerar cada desenvolvimento da ciência, cada conhecimento novo, cada ideia nova, como um germe de poder posto ao alcance do povo. A poesia, a eloquência, a memória, as graças do espírito, os fulgores da imaginação, a profundidade do pensamento, todos estes dons que o céu repartiu ao acaso, aproveitaram à democracia, e ainda quando se acharam na posse dos seus adversários, continuaram a servir a sua causa, pondo em relevo a grandeza natural do homem; as suas conquistas alargaram-se pois com as da civilização e das luzes, e a literatura foi um arsenal aberto a todos, aonde os fracos e os pobres foram cada dia buscar armas.
Quando se percorrem as páginas da nossa história, não se encontram por assim dizer grandes acontecimentos que de há setecentos anos a esta parte não tenham vindo a mostrar-se favoráveis à igualdade.»

Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América

terça-feira, 12 de abril de 2011

DEIDDA CANTA PAVESE - ANCHE TU SEI L'AMORE





Anche tu sei l'amore.
Sei di sangue e di terra
come gli altri. Cammini
come chi non si stacca
dalla porta di casa.
Guardi come chi attende
e non vede. Sei terra
che dolora e che tace.
Hai sussulti e stanchezze,
hai parole - cammini
in attesa. L'amore
è il tuo sangue - non altro

Cesare Pavese

Mariano Deidda legge Pessoa . ( inedito)

Vida do Espírito

«Alma - Eu ainda não aprendi nada, pois começo a viver neste instante; e deve ser por isso que não te entendo. Mas, diz-me,  excelência e infelicidade extraordinária são, substancialmente, uma mesma coisa? Ou, caso sejam duas coisas, não as poderias desassociar uma do outra?

Natureza - Nas almas dos homens, e proporcionalmente nas de todas as espécies animais, pode dizer-se que uma e outra coisa são quase o mesmo: porque a excelência das almas implica uma maior intensidade da vida delas; a qual implica uma maior consciência da própria felicidade, o que é como se eu dissesse uma maior infelicidade. De modo idêntico, a vida superior dos espíritos contém um grau mais elevado de amor-próprio, seja para onde for que ele se incline, e seja qual for o aspecto sob o qual se manifeste: essa maior dimensão de amor próprio comporta um maior desejo de suprema felicidade, e, por conseguinte, mais descontentamento e angústia por se estar privado dela, e mais sofrimento devido aos infortúnios que sobrevêm. Tudo isto faz parte da ordem primordial e perpétua das coisas criadas, a qual eu não posso alterar. Para além disso, a subtileza do teu intelecto e a fertilidade da imaginação privar-te-ão de uma grande parte do teu livre-arbítrio. Os animais selvagens usam facilmente, para os fins que pretendem, todas as suas capacidades e força. Mas os homens rarissimamente fazem tudo aquilo que podem fazer, impedidos, normalmente, pela razão e pela imaginativa, que originam mil incertezas no deliberar e mil hesitações no executar. Os menos aptos, ou menos habituados a ponderar e a avaliar por si mesmos, são os que mais prontamente se decidem e, na execução, os mais eficazes. Mas as almas semelhantes a ti, debruçadas continuamente sobre si próprias e como que dominadas pela grandeza das suas próprias faculdades, e portanto incapazes de auto-domínio, estão, a maior do tempo, sujeitas à indecisão, tanto para deliberar como para agir: a qual é um dos maiores tormentos que angustiam a vida humana. Acresce que, enquanto pela excelência das tuas capacidades ultrapassarás facilmente e em pouco tempo quase todas as outras da tua espécie nos saberes mais relevantes e até nas matérias mais difíceis, no entanto ser-te-á sempre impossível ou extremamente difícil aprender ou pôr em prática imensas coisas insignificantes em si mesmas, mas indispensáveis para conviver com os outros homens; as quais verás, ao mesmo tempo, serem perfeitamente executadas e aprendidas sem esforço por inúmeros espíritos, não só inferiores a ti, como desprezíveis em todos os sentidos. Estas e outras dificuldades e desgraças infinitas ocupam e rodeiam as grandes almas. Mas são largamente recompensadas pela fama, pelos louvores e pelas honras que a grandeza destes espíritos insignes lhes rende, e pela perenidade da lembrança que de si deixam aos seus pósteros.»

Giacomo Leopardi, Pequenas Obras Morais