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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

quinta-feira, 24 de março de 2011

26 Novembro de 2000

26 de Novembro de 2000
Estamos em crise. Chegou o momento em que já não se pode esconder aquilo que era evidente há algum tempo. Mas esta crise não é uma crise nova. É uma repetição. No tempo de Cavaco Silva, existiram dois momentos marcantes assinalados por intervenções marcantes do então Primeiro-Ministro. As afirmações “deixem-nos trabalhar” e a assumpção de um oásis inexistente, mostravam naquela altura aquilo de que os políticos não se sabiam ocupar: os problemas concretos das pessoas. Com António Guterres, nos últimos tempos, a ideia de oásis foi transformada na afirmação de que Portugal è um país tranquilo, na periferia de uma Europa agitada. Lá, na Europa, existe agitação social, motivada pelos aumentos dos preços dos combustíveis. Aqui, no nosso cantinho, estamos em paz, porque o nosso guia espiritual não quis arranjar confusões e lembrou-se dos pobrezinhos que andam de carro todos os dias de casa para o emprego. Mais recentemente, inquirido acerca das últimas estimativas de grandes organizações internacionais acerca do insuficiente crescimento da economia, António Guterres apenas respondeu que não se preocupava com essas coisas porque apenas sabia trabalhar pelos interesses de Portugal. Como são sábios os nossos políticos-avestruzes!
 O nosso cantinho está tão arrumadinho que nem sabemos que bem perto de nós existem bandos organizados de neo-nazis que matam diante de cidadãos que os temem e receiam enfrentar. A indiferença è um dos maiores males da condição humana. O seu exercício mais elevado não se manifesta, è cego, surdo e mudo. Ninguém viu, ouviu ou disse. O mal avança e nós contemplamo-lo como se ele existisse dentro uma qualquer residência vigiada. Só que sem vigilantes. Apenas com observadores que se limitam a fazer o nobre trabalho de investigação com base nos modos como homens e mulheres reagem sob a pressão de um qualquer cativeiro.
Comemorou-se ontem o vigésimo quinto aniversário do 25 de Novembro de 1975. Que dizer de uma data que fez emergir os últimos heróis desta nação em delirium tremens? È bom sabermos que alguns ainda estão vivos, que ainda respiram. Mas toda esta energia organizativa não será muito mais fruto de uma necessidade de mostrar como os homens podem ser bons e, por reflexo, sugerir que os políticos, descendentes daqueles homens, também são, pelo menos, bem intencionados? Logo se verá.
O mês que passou mostrou-me um Proust que eu não conhecia e que ainda saboreio. 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Doença

«- (...) Lembro-me de intelectuais degradando-se muito depressa, enquanto estivadores ou pessoas habituadas ao trabalho manual resistiam melhor. Não há critério absoluto; os critérios eram outros. Um deles era o peso do corpo: é evidente que um homem como eu, franzino de natureza, que pesava, à chegada ao Lager, quarenta e nove quilos, necessitava de menos calorias do que um homem de oitenta ou noventa quilos; no meu caso, foi m factor de sobrevivência, uma vantagem. Muitos intelectuais soçobravam porque se encontravam face a um trabalho que nunca tinham efectuado, confrontados com a obrigação de trabalhar fisicamente, de se ocuparem de coisas que um homem abastado nunca faz, escovar as roupas sem escova, com as mãos, com as unhas...
- De cuidar de si próprio.
- Sim, em vez de deixar esse cuidado a outros.
- Com efeito, nas famílias esse trabalho recaía sobre as mulheres, a esposa, a criada...
- Claro, encarregava-se dele qualquer outra pessoa. Em contrapartida, no Lager era necessário tomá-lo a peito. Eu próprio estive em grande perigo nos primeiros dias por causa de um facto importante para nós italianos: a impossibilidade de comunicar; e creio que fui salvo pela amizade. Senti essa impossibilidade como um ferro em brasa a queimar-me, como uma tortura; caíamos num meio onde não compreendíamos uma palavra, onde a palavra não podia ser compreendida, onde não conseguíamos ser entendidos. Era uma grande sorte encontrar um italiano com quem comunicar. Éramos poucos italianos, cerca de cem em dez mil, um por cento dos presos do Lager, e os estrangeiros a falar a nossa língua eram raros; entre nós quase ninguém falava alemão ou polaco, só alguns falavam francês. Sofríamos de um terrível isolamento linguístico. E descobrir uma brecha, um meio de ultrapassar esse isolamento linguístico, era um factor de sobrevivência. E encontrar na outra extremidade do fio uma pessoa amiga era a salvação. Ora, este rapaz, Alberto, de quem falei frequentemente nos meus livros, era o homem providencial, tinha coragem para dar e vender, para ele e para os outros, tinha todas as condições para a prodigalizar e eu fui parar ao pé dele por mero acaso, sem nunca compreender muito bem... Encontrei nele um salvador; não sei o que é que ele encontrava em mim para me dizer: "És uma pessoa de sorte." Eu não sabia bem no que ele se baseava para dizer isso, mas o destino veio a mostrar-me depois que tive sorte. Tentei várias vezes teorizar sobre o que me tinha salvo e concluí pouca coisa, concluí que o acaso tinha sido o factor dominante. Por exemplo, no meu caso, eu, que não tinha uma saúde particularmente sólida, estive um ano inteiro sem adoecer, mesmo de uma banal infecção, que aliás podia ser perigosa.
- E depois, finalmente...
- Fiquei doente numa altura propícia, quando era uma sorte, porque os alemães abandonaram, de forma completamente imprevisível, os doentes ao seu destino.»

Primo Levi, O Dever de Memória

Donne ch'avete intelletto d'amore

Donne ch'avete intelletto d'amore,
i' vo' con voi la mia donna dire,
non perch'io creda sua laude finire,
ma ragionar per isfogar la mente.
Io dico che pensando il suo valore,
Amor sì dolce mi si fa sentire,
che s'io allora non perdessi ardire,
farei parlando innamorar la gente.
E io non vo' parlar sì altamente,
ch'io divenisse per temenza vile;
ma tratterò del suo stato gentile
a respetto di lei leggeramente,
donne e donzelle amorose, con vui,
ché non è cosa da parlarne altrui.

Dante Alighieri, Vita Nuova

Artur Agostinho no Leão da Estrela

segunda-feira, 21 de março de 2011

Francis Poulenc - Litanies à la Vierge Noire

ESTÉTICA DA ABDICAÇÃO

«Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias.»

Fernando Pessoa

domingo, 20 de março de 2011

Best Coast - Boyfriend

Viaggio

«2. Il viaggio dunque come persuasione. Forse è soprattutto nei viaggi che ho conosciuto la persuasione, nel senso dato a questa parola da Carlo Michelstaedter; quella vita autosufficiente, libera e appagata che Enrico, il personaggio del mio romanzo Un altro mare, insegue con autodistruttivo e vano accanimento. La persuasione: il possesso presente della propria vita, la capacità di vivere l'attimo, ogni attimo e non solo quelli privilegiati ed eccezionali, senza sacrificarlo al futuro, senza annientarlo nei progetti e nei programmi, senza considerarlo semplicemente un momento da far passare presto per raggiungere qualcosa d'altro. Quasi sempre, nella propria esistenza, si hanno troppe ragioni per sperare che essa passi il più rapidamente possibile, che il presente diventi quanto più velocemente futuro, che il domani arrivi quanto prima, perché si attende con ansia il responso del medico, l'inizio delle vacanze, il compimento di un libro, il risultato di un'attività o di un'iniziativa e così si vive non per vivere ma per avere già vissuto, per essere più vicini alla morte, per morire.»

Claudio Magris, L'Infinito Viaggiare

Angela GHEORGHIU - Vissi d'arte - Tosca - Puccini

13. Ela

Eu sou. De pé eu sou
igual a mim mesma e ao passado
por onde não passaste
nem passarás acaso
senão como faúlha,
breve e cálida ilusão
na escuridão fechada.

Eu sou. E não sei que te digo,
aqui de pé por sobre as tábuas
que alguém pôs sob os meus pés
e se desfazem no meu peito
no exacto momento
em que ele próprio se constrói.

Pedro Tamen, Um Teatro às Escuras

sábado, 19 de março de 2011

RENATA TEBALDI -LA RONDINE- G.Puccini -sogno di Doretta- Aria di Magda

Experiência da morte

«Mas então, como é que «regressa» - se é que regressa, tal como me parece - o religioso na minha-nossa experiência actual? No que me diz respeito pessoalmente, não me envergonho de dizer que ela tem a ver com a experiência da morte - de pessoas queridas com quem tinha pensado percorrer um caminho muito mais longo, nalguns casos pessoas que sempre imaginara perto de mim quando chegasse a minha vez de me ir embora e que considerava estimáveis pela sua capacidade (afectuosa ironia perante o mundo, aceitação dos limites de cada um...) de tornar aceitável e vivível a própria morte (...).
Talvez, para lá destes incidentes, aquilo que volte a pôr em jogo, a certa altura da vida, a questão da religião tenha a ver com a fisiologia da maturação e do envelhecimento. A ideia de fazer coincidir «exterior» e «interior», segundo o sonho do idealismo alemão (era esta a definição da obra de arte em Hegel, mas também, no fundo, o trabalho da razão para Fichte), isto é, a existência de facto com o seu significado, é redimensionada no decorrer da vida. Isto tem como consequência avivar a esperança de que esta coincidência, que não parece realizável no tempo histórico e no decurso de uma vida humana média, possa realizar-se num tempo diferente. Os postulados da imortalidade da alma e da existência de Deus em Kant justificam-se precisamente com um argumento deste tipo. Se o esforço de praticar o bem, de agir segundo a lei moral, tem que ter um sentido, é preciso que se possa esperar racionalmente que o bem (isto é, a união da virtude e da felicidade) se realize noutro mundo, visto que neste, manifestamente, não se dá.»

Gianni Vattimo, Acreditar em Acreditar

O Sorriso louco das mães

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara loura
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tom Waits In the Neighborhood

Luís de Camões

Camões é Os Lusíadas. O lírico, em quem os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico.
Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene – e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens, - distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeias, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica.
A vastidão impressiva de fábula, que uma epopeia requer, buscaram-na os antigos e os grandes modernos já na lenda ou na história indirecta, já no Além. Em aquelas se fundamentam, de diverso modo, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Jerusalém de Tasso; na lenda absoluta, ou fantasia pura, o poema de Spencer e o Orlando; no Além – o Além pagão do Cristismo – a epopeia de Dante e a de Milton.
A Camões bastou a história próxima para lenda e Além. O povo, que cantou, fizera da ficção certeza, da distância colónia, da imaginação vontade. Sob os próprios olhos do épico se desenrolou o inimaginável e o impossível se conseguiu. Sua epopeia não foi mais que uma reportagem transcendente, que o assunto obrigou a nascer épica. Este Apolónio podia ter falado com seus Argonautas, este Homero ter ouvido da boca dos companheiros de seus Ulisses os terrores da caverna do Ciclope e a notícia imediata do encantamento das sereias. Em certo modo viveu o que cantou, sendo, assim, o único épico que foi lírico ao sê-lo. Essa sua singularidade, que é uma virtude, é, como todas as virtudes, origem de vários defeitos.
Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. Os sobre-homens da nossa glória constelada – o Infante e Albuquerque mais que todos – não cabem no que ele podia abarcar. A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.


Fernando Pessoa, “Luís de Camões”
[Diário de Lisboa, 4 de Fevereiro de 1924]


quinta-feira, 17 de março de 2011

My One And Only Love Art Tatum & Ben Webster

259.

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu veto manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Miles Davis - Concierto de Aranjuez (1/2)

Lusíadas

«A glória actual de Os Lusíadas parece por isso estar relacionada com aspectos da obra, convenientemente expurgados de implicações políticas e autobiográficas indesejáveia, e a obra é hoje celebrada, pelo menos em Portugal, sobretudo pelo seu valor cognitivo e acúmen filosófico. Dúzias de livros e artigos, a maior parte dos quais entusiasticamente encorajados por comissões e institutos públicos (et pour cause) têm ultimamente sido devotados às descrições minuciosas que Camões terá feito de calamidades meteorológicas, pormenores geográficos, espécies vegetais e animais, curiosidades etnográficas e coisas de marinharia. O poeta foi alternadamente louvado pela sua antecipação do cálculo infinitesimal e do materialismo histórico, coincidindo a maior parte dos louvores na exaltação de um extraordinário encontro de culturas que Os Lusíadas, ao arrepio de uma prevalecente pandemia eurocêntrica, inauguram. É bom ver que o excepcionalismo português está bem e se recomenda, apesar de todas as expedições etnológicas do poema invariavelmente terminarem na farsa e no desastre, com Fernões Velosos (no Canto V) e Leonardos (no Canto IX), seguros da sua força (no primeiro caso) e do seu Petrarca (no segundo) a reiterarem, isso sim, a figura do arroseur arrosé, do etnólogo caçado pelos seus objectos: onde imagináramos o Tenente Valadim, encontramos sempre Ovídio. A obstinação com que teses gerais sobre o livro contradizem os pormenores mais incontroversos do próprio livro parece sugerir que o que em todos estes casos se dá por adquirido é porventura o dócil valor de exemplo do poema propriamente dito. Em consequência, quer o cepticismo cognitivo difuso do poema, quer as suas qualidades literárias (sem falar na relação entre estas duas coisas) foram quase completamente esquecidos - e justamente só não foram esquecidos pelos melhores comentadores do poema, a começar por Faria e Sousa.»

Miguel Tamen, Artigos Portugueses

terça-feira, 15 de março de 2011

Bob Dylan - Sweetheart Like You

Portugal

«O que permitiu à Europa dominar Portugal, chegando ao extremo de lhe apresentar o que há de mais estrangeiro, de mais alheio à índole nacional, como inteiramente nacionalista, foi o pecado de ter levantado como valores supremos de vida humana os do adulto, o saber, o trabalho e aquela separação de sujeito-objecto que permite a filosofia, a ciência e a técnica. A Europa se vendeu ao Diabo e o dinheiro que nisso ganhou lhe serviu para comprar Portugal.
E, comprendo-o, destruiu o último refúgio que ainda poderia haver no mundo para as qualidades distintivamente humanas, as da imaginação, em vez do saber, do jogo, em vez do trabalho, da totalidade, em vez da separação; são essas e não as outras as que têm demonstrado os grandes criadores de ciência, os grandes artistas, ou os grandes políticos: por isso os perseguimos quando vivos e os aproveitamos, porque já eficientes, quando seguramente mortos. Não haverá salvação para o mundo enquanto não entendermos e fizermos penetrar me nossas consciências este facto basilar, e enquanto as nossas escolas, transformando-se inteiramente, não forem, em lugar de máquinas de fabricar adultos, viveiros de conservar crianças; enquanto não forem as crianças que nos levem, não pelo caminho que uma ciência fáustica previu, mas pelo que houver, dando a mão, ao mesmo tempo, a nós e às coisas: enquanto não for o Menino Jesus nosso Deus verdadeiro.»

Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa

segunda-feira, 14 de março de 2011

LAURIE ANDERSON - KOKOKU

Mitzváh

«O que quer dizer para mim o Kipúr? Quer dizer sentir-me judeu. E que quer dizer sentir-me judeu? Quer dizer sentir-me eu próprio. Uma pessoa que vem de longe, que atravessou muitas vidas numa só e que sempre teve como ponto de referência o ser judeu. Ser judeu quer dizer prestar atenção, fazer o melhor possível para garantir alguma certeza a si mesmo e aos outros. Quer dizer saber ser olhado com suspeita, com inveja ou com respeito excessivo, mas de quelaquer modo como um perigo. Ser judeu quer dizer ter de defender-se, tentar construir uma força interior para não ser destruído. Ser judeu quer dizer ter a responsabilidade de levar para a frente a cultura de um povo com mais de cinco mil anos de história e que ninguém ainda conseguiu, apesar das muitíssimas tentativas, exterminar, mandar calar. Ser judeu é um exercício de modéstia. É preciso saber a priori que nem tudo é acessível a um judeu, assim como a uma pessoa de cor, a um homossexual ou um cigano.
Procurei não esquecer, em nenhuma circunstância, o facto de ser judeu e, portanto, de pertencer a um povo que, por um motivo ou por outro, sempre foi objecto de admiração, mas sobretudo de perseguição, de escárnio, de intolerância. O facto de se nascer assim pode enfraquecer ou tornar mais forte. O preconceito serve para aprender a defender-se, a lutar, a querer ser mais do que nunca nós mesmos, e mais do que nunca pertencer àquele povo de pastores errantes escolhido por Deus como povo eleito.
Quando vou ao deserto, aos países do Médio Oriente ou do Norte de África, sei que aqueles lugares são as minhas origens. Dali fugiu, depois da destruição do templo de Jerusalém, a família da minha mãe para ir para Espanha e para ser, mais tarde, expulsa pela Rainha Isabel, a Católica, e ter de se refugiar no Piemonte, donde foi novamente forçada pelas leis raciais, promulgadas em 1938 por mussolini e pelo rei Vítor Emanuel II, a emigrar para os Estados Unidos.
De Jerusalém  fugiu a família do meu pai para refugiar-se na Alemanha, depois na Alsácia e por fim nos Estados Unidos.
Na minha família falaram-se muitas línguas: o espanhol, o italiano, o inglês, o francês, o alemão, mas a única que sempre a manteve unida foi a das orações. O Shemá Israel que se reza de manhã ao acordar e o Kadish que se reza durante as funções religiosas e também quando se está de luto.»

Alain Elkann, Mitzváh

domingo, 13 de março de 2011

Natalie Dessay - La Sonnambula: Care compagne...Sovra il sen la man mi posa - LIVE Vienna 2010

Luís Vaz de Camões

«Os trigais, as vinhas, as árvores de fruto, extensões agrestes e estéreis eram o país. Os judeus estavam em fuga e as moedas luziam menos debaixo da chuva. Portugal estava bem povoado, excepto no Algarve, diz Monetarius; e Setúbal abastecia de sardinha todo o Mediterrâneo até Constantinopla.
Luís Vaz teria feito riqueza nos Países Baixos, se Coimbra não tivesse sido determinante para a sua escrita. Conta-se que, um dia, outro rapaz injuriou-o. Luís Vaz correu a dizer a seu tio Bento. Este não tinha em Santa Cruz uma espada para lhe dar. Uma dessas peças de cabo trabalhado a pedras semi-preciosas e bronze. Tirou da mesa de trabalho uma pena e molhou-a na ferruginosa tinta. Era uma pena com incrustações a azul e marfim e, quem sabe se carregada de poderes. Luís Vaz segurou-a com a mão nervosa e o riso escarninho dos louros atlânticos. A surpresa do gesto de seu tio anulou-lhe a injúria e uma ordem na voz avassalaria as escritas suas contemporâneas. Versos a Pero Moniz, por exemplo, que foi natural de Alenquer e que viria aos vinte e poucos anos a ser repasto de peixes no mar da Abassia; afrontas do destino era o seu fado narrá-las.»

João MIguel Fernandes Jorge, Uma Paixão Inocente