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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Proust e Madalenas

Madalenas

Havia já muitos anos que, de Combray, não existia para mim tudo o que não fosse o teatro e o drama do meu deitar, quando, num dia de Inverno, ao regressar a casa, a minha mãe, vendo-me com frio, me propôs que, contra o meu hábito, tomasse um chá. Comecei por recusar e, não sei porquê, mudei de opinião. Ela mandou buscar um daqueles bolos pequenos e roliços chamados «madalenas», que parecem ter sido moldados na concha estriada de uma vieira. E não tardou que, maquinalmente, abatido pelo dia taciturno e pela perspectiva de um triste dia seguinte, levei à boca uma colher de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no preciso instante em que o gole com migalhas de bolo misturadas me tocou no céu-da-boca, estremeci, atento ao que de extraordinário estava a passar-se em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, um prazer isolado, sem a noção da sua causa. Tornara-me imediatamente indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou, antes, tal essência não estava em mim, era eu mesmo. Deixara de me sentir medíocre, contingente, mortal. Donde poderia ter vindo aquela poderosa alegria? Sentia-a ligada ao gosto do chá e do bolo, mas ultrapassava-o infinitamente, não devia ser da mesma natureza. Donde vinha? Que significava? Onde agarrá-la? Bebo um segundo gole, no qual nada encontro a mais que no primeiro, e um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece estar a diminuir. É evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela despertou-a, mas não a conhece, e não pode mais que repetir indefinidamente, cada vez com menos força, aquele mesmo testemunho que não sei interpretar e que, pelo menos, quero poder tornar a pedir-lhe e reencontrar intacto, à minha disposição, daqui a pouco, para um decisivo esclarecimento. Poiso a xícara e volto- -me para o meu espírito. A ele cabe encontrar a verdade. Mas como? Grave incerteza, sempre que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando ele, o explorador, é todo ele o país escuro que tem a explorar e onde lhe não servirá de nada toda a sua bagagem. Explorar? Não só: criar. Está diante de algo que não é ainda e que só ele pode tornar real e depois fazer entrar na sua luz.

E recomeço a perguntar a mim mesmo qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia consigo qualquer prova lógica, mas sim a evidência da sua felicidade, da sua realidade, diante da qual as outras se esfumavam. Pretendo tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao momento em que tomei a primeira colher de chá. Reencontro o mesmo estado, sem uma clareza nova. Peço ao meu espírito mais um esforço, que me traga mais uma vez a sensação que se escapa.

PROUST, Marcel, Em Busca do tempo perdido, Vol. I, «Do Lado de Swann»

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Santo Agostinho

O furto é punido pela Vossa lei, ó Senhor, lei que, indelevelmente gravada nos corações dos homens, nem sequer a mesma iniquidade poderá apagar. Ora que ladrão haverá que suporte com gosto outro ladrão, se até o rico não perdoa ao indigente que foi compelido ao roubo pela miséria? E eu quis roubar; roubei, não instigado pela necessidade mas somente pela penúria, fastio da justiça e pelo excesso da maldade. Tanto é assim que furtei o que tinha em abundância e em muito melhores condições. Não pretendia desfrutar do furto mas do roubo em si e do pecado.
Havia, próximo da nossa vinha, uma pereira carregada de frutos nada sedutores nem pela beleza nem pelo sabor. Alta noite, pois tínhamos o perverso costume de prolongar nas eiras os jogos até essas horas, eu com alguns jovens malvados fomos sacudi-la para lhe roubarmos os frutos. Tirámos grande quantidade, não para nos banquetearmos, se bem que provámos alguns, mas para os lançarmos aos porcos. Portanto, todo o nosso prazer consistia em praticarmos o que nos agradava, pelo facto do roubo ser ilícito.
Eis o meu coração, Senhor, eis o meu coração que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Diga-Vos ele agora o que buscava nesse sorvedouro, sendo eu mau desinteressadamente e não havendo outro motivo para a minha malícia, senão a própria malícia. Era asquerosa e amei-a. Amei a minha morte, amei o meu pecado. Amei, não aquilo a que era arrastado, senão a mesma queda. Que alma tão forte que se apartava do Vosso firme apoio, para se lançar na morte, apetecendo, não uma parcela da desvergonha mas a própria vergonha!
Santo Agostinho, Confissões

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Alegoria do Bom Governo da Cidade


1338-40

Alegoria

«A alegoria, tal como muitas outras formas de expressão, não perdeu o seu significado pelo simples facto de se tornar «antiquada». Pelo contrário, e como acontece frequentemente, gerou-se um antagonismo entre a forma antiga e a mais recente, tanto mais dado a desenrolar-se em silêncio quanto ers desprovido de conceitos, profundo e exasperado. O pensamento simbolizante de finais do século XVIII era tão estranho à forma de expressão alegórica original que as tentativas, muito esporádicas, de discussão teórica conducente ao esclarecimento da alegoria não têm qualquer valor - facto bem representativo desse antagonismo profundo. Goethe faz, de passagem, uma reconstrução negativa da alegoria que pode ser vista como sintomática: «Há uma grande diferença entre o poeta procurar o particular para chegar ao geral e contemplar o geral no particular. No primeiro procedimento temos uma alegoria e o particular serve apenas como exemplo, como caso exemplar do geral. Mas na segunda situação estamos de facto perante a natureza da poesia: ela dá expressão a um particular sem pensar no geral e sem apontar directamente para ele. Quem for capaz de apreender esse particular como coisa viva dispõe ao mesmo tempo do geral, mesmo sem disso ter consciência, ou só chegando a tê-la mais tarde.»

Walter Benjamin, Origem do Drama Trágico Alemão

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Alberto Caeiro

Sonho de Fernando Pessoa, poeta e fingidor

Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor, sonhou que acordava. Tomou o café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero. Enfiou a gabardina, porque lá fora chovia. Quando saiu faltavam vinte minutos para as oito, e às oito em ponto estava na estação do Rossio, na plataforma do comboio com destino a Santarém. O comboio partiu pontualmente às oito e cinco. Fernando Pessoa tomou lugar num compartimento onde estava sentada uma senhora aparentando cinquenta anos, que lia. Era a sua mãe e não era a sua mãe, e estava imersa na leitura. Fernando Pessoa pôs-se também a ler. Naquele dia tinha de ler duas cartas que lhe tinham chegado da África do Sul e lhe falavam de uma infância longínqua.
Fui como uma erva e não me arrancaram, disse a certo ponto a senhora que aparentava cinquenta anos. A frase agradou a Fernando Pessoa, que a anotou num caderninho. Entretanto, diante deles, passava a paisagem plana do Ribatejo, com arrozais e campinas.
Quando chegaram a Santarém, Fernando Pessoa apanhou a tipóia. Sabe onde fica uma casa isolada caiada de branco?, perguntou ao cocheiro. O cocheiro era um homenzinho anafado, com o nariza vermelho do álcool. Claro, disse, é a casa do senhor Caeiro, conheço-a bem. E fustigou o cavalo. O cavalo começou a trotar na estrada principal ladeada de palmeiras. Nos campos viam-se palhotas com um ou outro preto à porta.
Mas onde estamos nós?, perguntou Pessoa ao cocheiro, para onde me leva?
Estamos na África do Sul, respondeu o cocheiro, e estou a levá-lo a casa do senhor Caeiro.
Pessoa tranquilizou-se e apoiou-se às costas do assento. Ah, estava então na África do Sul, era mesmo isso que queria. Cruzou as pernas com satisfação e viu os seus tornozelos nus, dentro de umas calças à marinheiro. Compreendeu que era um rapazinho, o que muito o alegrou. Era bom ser um rapazinho que viajava para a África do Sul. Pegou num maço de cigarros e acendeu um com volúpia. Ofereceu um ao cocheiro, que aceitou avidamente.
Caía o crepúsculo quando avistaram uma casa branca que ficava numa colina ponteada de ciprestes. Era uma típica casa ribatejana, comprida e baixa, com as telhas vermelhas com beirais. A tipóia entrou na alameda de ciprestes, o cascalho rangeu debaixo das rodas, um cão ladrou no campo.
À porta da casa estava uma velhota com óculos e uma touca branca. Pessoa percebeu subitamente que se tratava da tia-avó de Alberto Caeiro, e erguendo-se em bicos de pés, beijou-a nas faces.
Não me canse muito meu Alberto, disse a velhota, tem uma saúde tão fraca.
Afastou-se para o lado e Pessoa entrou na casa. Era uma sala ampla, mobilada com simplicidade. Havia um fogão de sala, uma pequena estante, um aparador cheio de pratos, um sofá e duas poltronas. Alberto Caeiro estava sentado numa poltrona e tinha a cabeça inclinada para trás. Era o Headmaster Nicholas, o seu professor da High School.
Não sabia que Caeiro fosse o senhor, disse Fernando Pessoa, e fez um ligeiro cumprimento com a cabeça. Alberto Caeiro fez-lhe um gesto fatigado para entrar. Entre, caro Pessoa, convoquei-o aqui porque queria que soubesse a verdade.
Entretanto a tia-avó chegou com uma bandeja com chá e bolinhos. Caeiro e Pessoa serviram-se e pegaram nas chávenas.
Pessoa lembrou-se de não espetar o dedo mindinho, porque não era elegante. Ajeitou a gola do seu fatinho à marinheiro e acendeu um cigarro. O senhor é o meu mestre, disse.
Caeiro suspirou, e depois sorriu. É uma longa história, disse, mas é inútil contar-lha de fio a pavio, você é inteligente e compreenderá mesmo se eu saltar algumas passagens. Saiba apenas isto, que eu sou você.
Explique-se melhor, disse Pessoa.
Sou a sua parte mais profunda, disse Caeiro, a sua parte obscura. Por isso sou o seu mestre.
Um campanário, na aldeia vizinha, deu as horas.
E eu, o que devo fazer?, perguntou Pessoa.
Deve seguir a minha voz, disse Caeiro, ouvir-me-á na vigília e no sono, às vezes hei-de perturbá-lo, outras vezes não quererá ouvir-me. Mas terá de escutar-me, deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta.
Fá-lo-ei, disse Pessoa, prometo-lhe.
Levantou-se e despediu-se. A tipóia esperava-o à porta. Agora tornara-se de novo adulto e tinha-lhe crescido o bigode. Para onde quer que o leve?, perguntou o cocheiro. Leve-me para o fim do sonho, disse Pessoa, hoje é o dia triunfal da minha vida.
Era o dia oito de Março, e pela janela de Pessoa entrava um sol tímido.

Antonio Tabucchi, Sonhos de Sonhos

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Vozes Alfonsinas

Sá de Miranda

No final da “Carta a EL-Rei D. João Nosso Senhor”, Sá de Miranda legitima a sua epístola assumindo-a como um discurso recreativo, quando se refere ao seu texto como o resultado de uma sucessão de palavras que se enlaçam “ponto por ponto” e são produzidas por um “guarda-cabras”. No acto declarativo com que termina a Carta, o poeta retira o tom enfático da reflexão crítica àquilo que se passa na corte e junto daqueles que estão mais próximos do Rei, servindo-se de um recurso discursivo que insinua um tom despreocupado nas suas palavras, que, desse modo entendidas, constituiriam um momento lúdico para o Rei, na perspectiva de que este, por sua vez, pudesse vir a ocupar “mea hora” de recreio na leitura, enquanto decorresse uma pausa dos seus trabalhos.

As palavras finais de Sá de Miranda devem, contudo, ser lidas à luz de uma estratégia particular com vista a ganhar o favor do Rei, de modo a que este se deixe sensibilizar pelos avisos que lhe são apresentados pelo poeta. Ainda assim, o final da Carta pode ser enquadrado na sequência das estrofes de abertura do poema, em que Sá de Miranda utiliza a captatio benevolentiae, com vista a obter a atenção do Rei para o “entretenimento” que lhe propõe. Contudo, o “entretenimento” a que o poeta alude e assume, ultrapassa o âmbito da mera recreação e apenas se apresenta deste modo, na perspectiva de que o Rei, presumivelmente crente nas palavras e avisos de conselheiros cobiçosos, estará naturalmente susceptível a errar nas suas decisões e favores. Sá de Miranda actua deste modo em conformidade com o seu pensamento e com a sua linha de actuação ética, na medida em que toma para si a tarefa de, não se deixando calar e encontrando-se fora do círculo da corte, alertar o Rei para os eventuais enganos em que este pode cair no caso de não ser capaz de distinguir o homem honesto do homem dissimulado, que, nas palavras do poeta correspondem ao aldeão, que Sá de Miranda diz ser, e ao cortesão. É disto que nos dá conta a estrofe 24, no momento em que o poeta refere o “gracejar” que ele diz ouvir no seu ambiente bucólico, em que ele, o aldeão, se encontra e onde, em contraponto às insidias da corte, nos é sugerido o lugar de uma virtude e de uma natureza primordial imaculada, a que se encontra associado o cariz bucólico da Carta e do pastor que dela emerge. Num certo sentido, Sá de Miranda actualiza a Ode de Horácio e é como “homem justo e tenaz no seu propósito”, que não vacila na sua honestidade, que apresenta ao Rei os perigos a que este está sujeito na sua acção, fazendo-o enquanto “Homem dum só parecer, /Dum só rosto e dũa fé” que do lado de fora da corte e da corrupção enuncia os perigos a que o Rei está sujeito.
Existe em Sá de Miranda uma afirmação de um conceito de tempo que encontra nas palavras de outros autores a sua raiz. Na Carta, Sá de Miranda evoca sistematicamente aspectos relacionados com um presente que, sendo o seu, contém características que podem ser observadas em todas as épocas e em todos os lugares. Um tempo corrompido pela ânsia de poder e pela intriga. A Carta que Sá de Miranda dirige ao Rei inscreve-se num registo que vem a ser mais tarde recuperado por Camões quando, por exemplo, se dirige a D. Sebastião, lamentando os favores que junto deste, uma corte dissimulada procura obter. Sá de Miranda, como Camões, apresenta-se como uma espécie de reserva ética perante um mundo governado pelo interesse particular e pela dissimulação.
Aparentemente, Sá de Miranda parece, motivado pelo desencanto que o presente lhe traz, apenas crer nas suas palavras enquanto motivo de ocupação de um tempo hipotecado. Ainda assim, através das suas palavras, o simples facto de haver uma intenção de seduzir o Rei para a sua causa, a de contribuir para o bom governo, para o governo dos justos, pode acrescentar à Carta a ideia de que, apesar de tudo, ainda poderá ser pelo exercício da palavra que se dará uma espécie de redenção do mundo, e que, desse modo, ainda haverá lugar para a esperança. Se assim entendermos as palavras de Sá de Miranda, então não poderemos, pelo menos ao nível das intenções, deixar de pensar que o desencanto sentido pelo poeta não corresponde a uma qualquer espécie de derrota diante da voragem de um presente corrupto, mas muito mais a uma crença de que um dia, motivado pela esperança, lhe seja dado a observar um mundo concertado.
O presente passa a ser entendido como uma mera transição para outra coisa, desse modo remetendo o exercício da ventura para o futuro, para o lugar onde poderá eventualmente emergir o resultado de uma educação ética. Assim, não é estranho notar que o presente em Sá de Miranda é o lugar de todos os males e é nesse tempo que se engendram as estratégias que visam o poder e em que se estabelecem os ardis com vista a alcançar-se aquilo que é próprio do carácter efémero da vida dos homens, o espaço em que estes podem aspirar à ilusão de um poder que, para o poeta, apenas pode ser concretizável numa outra dimensão, a um outro nível.
Sendo assim, a “Carta a El-Rei D. João Nosso Senhor” pode ser entendida como um poema didáctico que estabelece as regras segundo as quais o Rei deverá orientar a sua acção com vista a governar bem e com justiça. Contudo, a Carta apenas se serve da figura do Rei como se de um farol se tratasse, na medida em que a posição privilegiada do Rei na condução dos homens, pode permitir pensar que uma vez agindo de uma certa forma o Rei será capaz de mudar as regras do mundo. O Rei aparece, assim, ao longo da Carta, como o último recurso a que o poeta pode recorrer na esperança de que ainda seja possível salvar um mundo sem remédio, na medida em que é próprio da natureza humana a queda perante a ilusão de um poder que, sendo terreno, nunca deixará de ser efémero e apenas ilusoriamente permite aos que produzem a intriga aceder à ilusão do domínio de um tempo, o presente. Contudo, o tempo de Sá de Miranda, apesar de sofrer as penas do presente, projecta-se num futuro desejavelmente redentor, mas em que o poeta descrê. Contudo, apesar da sua descrença, em vez de se deixar levar pelo movimento geral, ele reage e o facto de fazer uso da palavra, bem como de se dirigir ao Rei, pode insinuar que, para Sá de Miranda ainda pode ser possível alterar um estado de coisas que, embora reconhecendo, o fazem permanecer do lado de fora da corte, qual pastor que não se deixa corromper pelos vícios do mundo.

Proust

Nietzsche (I)

Nietzsche

Raymond Aron sobre Marx

Raymond Aron

O ano lectivo de 1921-1922, que considero decisivo para a minha vida, foi historicamente marcado pelos últimos sobressaltos da grande crise, de guerra e revolucionária. Nada aprendi, sobre a política, a economia, o bolchevismo e Karl Marx, mas vislumbrei, pela primeira vez, o universo encantado da especulação, ou muito simplesmente, do pensamento. Escolhera a variante A, menos por gosto das línguas antigas que por medo da Matemática. Quase ficara traumatizado, no quarto ano, por um incidente que não esqueci: não descobrira a solução de um problema. O professor escrevera a vermelho na cópia: como é que não descobriu solução para um problema tão fácil? Recuei perante o obstáculo: noutras circunstâncias, talvez me tenha escapado também aos obstáculos. Escrever ensaios, assinar contratos para livros secundários, não terá sido uma forma de evasão?

(…) Porque teria sentido uma ruptura entre a cadeira de Francês – logo, de literatura – e a de Filosofia? Ainda hoje me pergunto.
(…) O professor Aillet preparou toda a vida uma tese de Filosofia do Direito que nunca terminou (uma tese próxima do tema desencorajara-o). Segundo um artigo publicado na “Revue de Métaphysique et de Morale”, esforçava-se por interpretar a prática dos tribunais à luz de uma filosofia do julgamento e não do conceito (julgar os casos na sua singularidade, mais do que deduzir a partir do conceito de julgamento que convier ao caso) (…). A inspiração filosófica pouco importava. Aillet reflectia à nossa frente; não estava couraçado por um sistema, procurava ao alto, penosamente, a verdade. O seu discurso, por vezes embaraçado, arriscava-se a desencorajar os jovens ouvintes. Cheguei a retraduzir para os meus amigos (…) as explicações do professor, mas o trabalho do pensamento, autêntico, sem comédia, oferecido a vinte rapazes de dezassete ou dezoito anos, não um espectáculo mas uma comédia humana, tomou para alguns de nós um valor único, incomparável. Pela primeira vez, o professor não sabia, buscava; não havia verdade a transmitir, mas sim um modo de reflexão a sugerir. Claro que os verdadeiros sábios ensinam menos a verdade adquirida do que a arte ou o método de a adquirir.
(…) Deverei dizer que a cadeira de Filosofia me levou à École Normale Supérieur e à agregação porque tal caminho se abria por si só? Eu dedicava-me ao exercício intelectual para o qual era aparentemente mais dotado do que para outros. Creio que esta severidade é excessiva. A cadeira de Filosofia ensinara-me que podemos pensar na nossa existência em vez de sofrer com ela, enriquecê-la com a reflexão, manter uma relação com os grandes espíritos. Um ano de familiaridade com a obra de Kant curou-me, de uma vez por todas, a vaidade (pelo menos em profundidade).

Raymond Aron, Memórias

domingo, 5 de dezembro de 2010

Truth





Oh, it's a strange day
In such a lonely way
I saw some children dance
I watched my life in a trance
And the people around me
Seemed so glad to be here
Will my time pass so slowly
On the day that I fear?

And the noise that surrounds me
Pulls so loud in my head
From the promise that healed us
To the lies that I said
Oh, it's a strange day
In such a lonely way
Some people look down on me,
I know they like what they see

Strange day,
Such a strange day
Such a strange day

O Desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Luís de Camões

sábado, 4 de dezembro de 2010

Francisco de Sá de Miranda

Carta a El-Rei D. João Nosso Senhor

Rei de muitos Reis, se um dia,/ Se ua hora só, mal me atrevo/ Ocupar-vos, mal faria;/ E ao bem comum não teria/ O respeito que ter devo.
Que em outras partes da Esfera,/Em outros céus diferentes,/ Que Deus té'agora escondera,/ Cada ua de tantas gentes,/ Vossos despachos espera.
Porque, senhor, eles sós/ (Justo e poderoso Rei!)/ Desdão ou lhe cortam nós,/ Como também entre nós,/ Que sois nossa viva lei.
Onde há homens há cobiça:/ Cá e lá tudo ela empeça,/ Se a santa, igual justiça/ Não corta, ou não desempeça/ O que a má malícia enliça.
Senhor, qu'é muito atrevida!/ E onde ela nós cegos deu,/ Cortar é cousa devida:/ Exemplo, o julgo de Mida,/ Que el-Rei vosso avô fez seu.
Ora eu que respeito havendo/ Ao tempo mais que ao estilo,/ Irei fugindo ao que entendo:/ Farei como os cães do Nilo,/ Que correm e vão bebendo.
A dignidade Real,/ Que tem o mundo a direito,/ (Sem ela ter-se-ia mal)/ É sagrada, é natural:/ Deixemos medo e proveito.
As vossas velas, que vão/ Dando quase ao mundo volta,/ Raramente contarão/ Gente de algum Rei solta:/ Sem cabeça o corpo é vão.
Dignidade alta e suprema,/ Quem há que a não reconheça?/ Viu-se em Marco António tema/ De a César pôr diadema/ Real sobre a cabeça.
Que o nome de Emperador/ D'antes a César se dera,/ Sem suspeita e sem temor;/ Que inda então muito mais era/ Ser Cônsul, ser Ditador.
Um Rei ao reino convém:/ Vemos que alumia o mundo/ Um sol; um Deus o sustém./ Certa a queda e a fim tem/ O reino onde há Rei segundo.
Não, a sabor das orelhas,/ Arenga cuidada e branda./ Abastem as razões velhas:/ A cabeça os membros manda;/ Seu Rei seguem as abelhas.
A seu tempo o Rei perdoa,/ A tempo o ferro é mezinha;/ Grandeza e condição boa/ Ao Leão deram coroa/ Entre a gente montesinha.
Às aves, tamanho bando,/ Doutra liga e doutra lei,/ Por vencer todas voando,/ A águia foi dada por Rei,/ Que o sol claro atura olhando.
Quanto que sempre guardou/ David lealdade e fé/ A Saúl! Quanto o chorou!/ Quantas maldições lançou/ Aos montes de Gelboé!
Onde caíra o escudo/ Do seu Rei, inda que imigo,/ Inda que já mal sesudo,/ Saindo de tal perigo/ E subindo a mandar tudo!
O senhor da natureza/ De que o céu e a terra é chea,/ Vestindo em nossa baixeza,/ De Real sangue se preza,/ Por Rei na cruz se nomea.
Sobre obrigações tamanhas,/ Velem-se com tudo os Reis/ Dos rostos falsos e manhas,/ Com que lhes fazem das leis/ Fracas teas das aranhas.
Que se não pode fazer/ Por arte, por força ou graça./ Salvo o que a justiça quer,/ Senhor, não chamam poder/ Salvo o que lhes vai na praça.
E por muito que os Reis olhem,/ Vão por fora mil inchaços,/ Que ante vós, senhor, se encolhem./
Duns gigantes de cem braços,/ Com que dão e com que tolhem.
Quem graça ante o Rei alcança/ E i fala o que não deve,/ (Mal grande de má privança)/ Peçonha na fonte lança/ De que toda a terra bebe.
Quem joga onde engano vai/ Em vão corre e torna atrás,/ Em vão sobre a face cai:/ Mal hajam as graças más/ De que tanto engano sai!
Homem dum só parecer,/ Dum rosto e dua fé./ D'antes quebrar que volver,/ Outra cousa pode ser,/ Mas de corte homem não é.
Ouço gracejar, de cá,/ De quem vai inteiro e são,/ Nem se contrafaz mais lá:/ - Como este vem aldeão,/ Que não sabe onde se está!
As públicas santidades,/ Estes rostos transportados,/ Não em ermos, mas cidades,/ Para Deus são vaidades,/ Para nós vão rebuçados.
Mas, despois, que lhes fazemos?/ Pode ser, pode não ser,/ Adiante o saberemos:/ Estamos um pouco a ver,/ Cai-lhes o rebuço e vemos.
Senhor, hei-vos de falar/ (Vossa mansidão m'esforça)/ Claro o que posso alcançar:/ Andam pera vos tomar/ Por manha, que não por força.
Per minas trazem suas azes,/ Encobertos seus assanhos,/ Falsas guerras, falsas pazes:/ De fora são mansos anhos,/ De dentro lobos robazes.
Tudo sua cura tem:/ Que é assi, bem o sabeis/ E o remédio também./ Querei-los conhecer bem?/ No fruto os conhecereis.
Obras, que palavras não!/ Porém, senhor, somos muitos./ E, entre tanta obrigação,/ Tresmalhamos-vos os fruitos/ Que não saibais cujos são.
Um que por outro se vende/ Lança a pedra e a mão esconde./ O dano longe se estende./ Aquele a quem dói entende:/ Com sós suspiros responde.
A vida desaparece./ Entretanto, geme e jaz/ O que caiu, e acontece/ Que de um mal que se lhe faz/ Muito mais se lhe recrece.
Pena e galardão igual/ O mundo em peso sustém./ É ua regra geral:/ A pena se deve ao mal,/ O galardão ao bem.
Se algua hora aconteceu/ Na paz, muito mais na guerra,/ Que a balança mais pendeu,/ Faz-se engano às leis da terra,/ Nunca se fez às do céu.
Ante os Lombardos havia/ Lei escrita e lei usada,/ Como inda hoje, parecia:/ Onde a prova falecia/ Que o provasse a espada.
Ali no campo, às singelas,/ Em fim, morrer ou vencer./ Fosse qual quisesse delas,/ Não era milhor morrer/ A ferro que de cautelas?
A um nosso Rei excelente,/ Dom Dinis, tão acabado,/ Tão justo, a Deus tão temente,/ Falsa e maliciosamente/ Foi grande aleive assacado.
Ele posto em tal perigo,/ (Rei que Reis fez e desfez!)/ Co'as manhas do falso imigo,/ Foi-lhe forçado essa vez/ A lei chamar-se que digo,
E às vilas e às cidades,/ A que cumpriu d'acudir/ Pelas suas lealdades:/ Tanto são más as verdades/ Às vezes de descobrir!
Da mesma casa Real/ Em verdade um grande Ifante,/ Tratado por manhas mal,/ Bradava por campo igual/ E imigos claros diante.
Em fim, vendo astúcia e arte/ Quanto que pode, chamou/ Um leal conde a de parte:/ Só com ele se apartou,/ Foi viver à milhor parte.
Onde tudo é certo e claro,/ Onde são sempre uas leis,/ Príncipe no mundo raro!/ Sobre tanto desemparo,/ Foram três seus filhos Reis.
Ò senhor, quantos suores,/ Sua o corpo e a alma em vão/ Em poder de envolvedores!/ E em fim, batalhas que são/ Salvo uns desafios móres?
Co'a mão sobre um ouvido/ Ouvia Alexandre as partes,/ Como quem tinha entendido/ Por fazer certo o fingido/ Quantas que se buscam d'artes.
Quardava ele aquele inteiro/ Para a parte não ouvida;/ Não vá nada em ser primeiro;/ Quem muito sabe duvida:/ Só Deus é o verdadeiro.
A tudo dão novas cores/ Envolvendo os peitos puros,/ E falam sempre em primores./ Ante os Reis, vossos senhores,/ Vindes com rostos seguros.
Contais, gabais, estendeis/ Serviços e lealdade./ Olhai, que a não daneis:/ Falai em tudo verdade/ A quem em tudo a deveis.
Senhor, nosso padre Adão/ Pecara: chama-o o juiz./ Tenha que dizer ou não,/ I sua fraca razão/ Porém livremente diz.
Sempre foi, sempre há-de ser:/ Onde ua só parte fala/ Sempr'a outra haja de gemer./ Se um jogo todos iguala,/ As leis que devem fazer?
Vidas e honras tomais/ Debaixo do vosso emparo,/ De estranhos e naturais:/ Suspiram, não podem mais,/ E às vezes isto mal claro.
Também trás aquela arde/ Tão estimada a fazenda,/ Por mais que se vele e guarde./ Tem ela milhor emenda,/ Se não fosse mal, e tarde.
Geralmente é presumptuosa/ Espanha, e disso se preza:/ Gente ousada e belicosa./ Culpam-na de cobiçosa:/ Tudo sabe Vossa Alteza.
Pensamentos nunca cheos,/ Não tem fundo aqueles sacos!/ Ainda mal, com tantos meos,/ Para viver dos mais fracos/ E dos suores alheos.
Que eu vejo nos povoados/ Muitos dos salteadores/ Com nome e rosto d'honrados:/ Vão quentes, andam forrados/ De peles de lavradores.
E, senhor, não me creais,/ Se as não acham mais finas/ Que as dos lobos cervais,/ Que arminhos e zebelinas,/ Custam menos, cobrem mais.
Ah, senhor, que vos direi?/ Que acode mais vento às velas./ Nunca se descuide o Rei:/ Que inda não é feita a lei,/ Já se lhe buscam cautelas.
Então, tristes das mulheres,/ Tristes dos órfãos coitados,/ E a pobreza dos mesteres,/ Que nem falar são ousados/ Diante os móres poderes!
Os quais quem os assi quer,/ Quem os negocea assi?/ Que fará dês que as houver?/ Nossos houveram de ser,/ Buscaram-nos para si.
[Ora já que as consciências/ O tempo as levou consigo,/ Venhamos às penitências./ Senhor, se eu visse castigo.../ Boas são as residências.
Mas eu vejo cá na Aldea,/ Nos enterros abastados,/ Muito padre que passea,/ Em fim, ventre e bolsa chea/ E assoltos de seus pecados.
Se querem reconciliar,/ Uns cos outros tem seu trato:/ Abasta-lhes acenar;/ Não nos fazem tal barato/ Ò tempo de confessar.]
Senhor, esta vossa vara/ Como as mãos emque anda é./ A boa é ave mui rara:/ Crede que esta nunca é cara,/ Que seja muita a mercê.
Livre de toda a cobiça,/ A Deus temente e a vós,/ Sem respeitos, sem perguiça,/ Varas direitas, sem nós,/ Se quereis que haja i justiça
Tomai, senhor, o conselho/ Do bom Jetro ao genro amigo:/ É verdade, é Evangelho./ Como disse aquele velho,/ Humilmente assi vos digo.
Que estas leis Justinianas,/ Se não há quem as bem reja/ Fora de paixões humanas,/ São um campo de peleja,/ Com razões fracas e ufanas.
Morre o nobre Conradino/ C'o parceiro, em todo igual,/ Cada um de tal morte indino,/ Porque o duro, ou o malino/ Doutor interpreta mal.
Diz Agostinho sãmente/ Cesse o sangue, a guerra finda./ Diz mais, d'alguns maiormente;/ Vem grosas, que corra ainda/ O Real sangue inocente.
Mas, senhor, milhor o temos:/ Sendo vós o que mandais,/ Todos nos revolveremos,/ Os que tanto não podemos/ E aqueles que podem mais.
Quem por amor se encadea/ Não é nome errado ou novo/ Se por livre se nomea./ Não tem tanto amor do povo/ Rei em quanto o mar rodea.
Não assoberbam soldados/ Aqui, nem soa o atambor./ Os outros Reis seus estados/ Guardam, de armas rodeados, Vós rodeado de amor.
Achar-nos-ão as divinas,/ No meo dos corações,/ Esculpidas vossas quinas:/ Estas são as guarnições/ De vós e dos vossos dinas.
É sem dúvida o Francês/ A seu Rei de amor aceso:/ Não lho nega o Português;/ Traz porém guarda Escocês,/ Que não é de pouco peso.
O Padre sancto assi faz,/ A quem certo se devia/ Alto assossego, alta paz./ E tem guardas todavia/ Com que vai seguro e jaz.
Que se pode ir mais avante/ C'os olhos, nem c'o sentido?/ Sem ferro e fogo que espante,/ Com duas canas diante,/ Ia amado e is temido.
Uns sobre os outros corremos/ A morrer por vós com gosto:/ Grandes testemunhas temos/ Com que mãos e com que rosto/ Por Deus e por vós morremos.
Outrossi pera os reveses/ (Queira Deus que não releve!)/ Em vós tem os Portugueses/ Codro dos Atenieses,/ Décios, que só Roma teve.
Do vosso nome um grão Rei/ Neste reino Lusitano/ Se pôs essa mesma lei,/ Que diz seu Pelicano:/ Pola Lei e pola Grei.
Mas eu sou um guarda-cabras:/ Vão-se assi de ponto em ponto./ Queria só duas palavras/ Que dos gados e das lavras/ Despois não tem fim nem conto.
Assi que seja aqui a fim:/ Tornem as práticas vivas;/ Perdestes mea hora em mim, Das que chamam sucessivas/ Estes que sabem latim.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Eyes Wide Shut Vals

História de um Sonho

«Talvez por ser mais impetuosa, mais verdadeira ou temperamental, Albertine foi quem primeiro conseguiu reunir a coragem suficiente para se abrir numa confissão honesta. Com a voz trémula, procurou trazer à memória de Fridolin uma noite no passado Verão, na costa dinamarquesa, quando um homem jovem acompanhado de dois oficiais se sentou a uma mesa ao lado da sua, e, durante a refeição, recebeu um telegrama que de imediato o fez abandonar os dois amigos.
Fridolin assentiu com a cabeça- - Sim, lembro-me. Que é que tinha o rapaz? - inquiriu.
- Já o tinha visto nessa manhã - retorquiu Albertine -, quando subia a escadaria do hotel transportando uma mala amarela. Olhou-me quando nos cruzámos, mas, uns passos adiante, parou e voltou-se na minha direcção. Os nossos olhares detiveram-se um no outro. Não me sorriu; aliás, o seu semblante pareceu turvar-se e eu devo ter reagido de igual modo, porque senti uma perturbação nunca experimentada antes. Passei o dia na praia deitada ao sol, perdida em divagações. Se me tivesse chamado, não teria sido capaz de resistir (ou, pelo menos, assim pensei). Achei-me capaz de fazer o que quer que fosse. Estava pronta a deixar-te a ti, à nossa filha, a abdicar do nosso futuro, mas ao mesmo tempo (acreditas?), eras-me mais querido do que nunca. Nessa mesma tarde (lembras-te?) falámos confiadamente de uma imensidade de coisas - do nosso futuro a dois, da nossa filha - como já não acontecia havia tempo. Depois, ao entardecer, quando estávamos sentados no terraço, ele passou diante de nós na praia sem olhar para cima, e redobrei de felicidade. Mas era a tua fronte que eu acariciava, eram os teus cabelos que beijava. E no meu amor por ti havia também muita compaixão dorida. Nessa noite trazia uma rosa branca no cinto e tu próprio disseste que eu estava muito bonita. Talvez não tenha sido por acaso que o estranho se sentou com os amigos junto de nós. O seu olhar não me procurou, mas eu brincava com a ideia de me juntar a ele na sua mesa e dizer-lhe: «Aqui estou, meu amor tão ansiado, meu querido. Leva-me contigo». Foi nessa altura que lhe entregaram o telegrama: leu-o, empalideceu, sussurrou algumas palavras ao oficial mais jovem e deixou a sala dirigindo-me um olhar enigmático.
- E depois? - perguntou Fridolin secamente, quando ela se calou.
- Termina assim. Apenas sei que na manhã seguinte acordei nervosa e apreensiva. Não consigo exprimir-te o que me atormentava - se o facto de ele ter partido, se a possibilidade de ter ficado. Não o sei agora, e não o soube naquela altura. Mas quando, à hora do almoço, ele ainda não tinha aparecido, respirei de alívio. Não me faças mais perguntas, Fridolin. Contei-te toda a verdade. Sei que também tu viveste uma experiência idêntica nessa praia. Tenho a certeza disso.»

Arthur Schnitzler, A História de um Sonho

Paciência (I)

Paciência

Húmus

«As paixões dormem, o riso postiço criou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutraliza, e só um ruído sobreleva, o da morte, que tem diante de si o tempo ilimitado para roer. Há aqui ódios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, , cada ano minam um palmo. A paciência é infinita e mete espigões pela terra dentro; adquiriu a cor da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da vida; é a insignificância que governa a vila. É a paciência, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde: - Tem paciência - e os seus dedos ágeis tecem uma teia de ferro. Não há obstáculo que a esmoreça. - Tem paciência - e rodeia, volta atrás, espera ano atrás de ano, e olha com os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente acha agradável. - Pois sim... pois sim... - Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os hábitos lentamente acumulados. E o tempo mói: mói a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.»

Raúl Brandão, Húmus

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Estado de Excepção

«Não há qualquer salvaguarda institucional em condições de garantir que os poderes de emergência são efectivamente usados para o fim de salvar a constituição. Só a determinação do próprio povo em verificar que são usados com esse escopo pode garanti-lo [...]. As disposições quase ditatoriais dos sistemas constitucionais modernos, sejam elas a lei marcial, o estado de sítio ou os poderes de emergência constitucional, não podem realizar um controlo efectivo da concentração de poder. Por conseguinte, todos estes institutos correm o risco de ser transformados em sistemas totalitários se se apresentarem condições favoráveis.»

Friedrich, C., citado em Agamben, Giorgio, Estado de Excepção

Chico Fininho