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Oeiras, Portugal
Aluno e Professor. Sempre aluno.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

W. A. Mozart, Krönungsmesse

O meu espírito individualista vacila quando ouço vozes como estas que se encontram num lugar qualquer. Esse encontro, se é que se dá mesmo, terá de ocorrer num espaço mágico, em transcendência. É para aí que aponto.

2. Sanctus & Benedictus (Krönungsmesse KV 317)

Are you going with me?

1. Pat Metheny, Travels, 1983




Há discos que me acompanham quase desde que me conheço e não sei porquê. Travels é a minha fonte e o meu refúgio absoluto. Quando penso no grande Pat, é neste disco que repousam as minhas memórias. É estranho, mas é comigo que me encontro quando ouço Travels. Há discos que são capazes de operar o milagre da recuperação do tempo passado.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Alice, por fim...

De acordo com Humpty Dumpty um nome denota e determina uma forma. Um nome não se refere apenas ao seu portador, mas determina a forma do seu portador. Deste modo, a forma, na perspectiva de Humpty Dumpty, é apresentada, por um lado, como objecto de denotação à posteriori, e, por outro, como efeito do uso do nome, daqui decorrendo que as palavras têm consequências físicas, capazes de determinarem, partindo da forma adquirida pelo portador de um determinado nome próprio, se o nome é bom ou mau.
Humpty Dumpty interpreta perguntas de forma a entendê-las como capazes de terem uma solução. É o caso, por exemplo, da pergunta sobre a extensão ou significado de “estar aqui sozinho”, apresentando como resposta “porque não tenho ninguém ao pé de mim”, como se a solução para a resposta (esta resposta) resultasse simplesmente da sua extracção a partir da forma da pergunta. Por conseguinte, Humpty Dumpty entende todas as perguntas como se fossem adivinhas, o que, para ele, corresponde a poder responder a todas as perguntas, visto que, procedendo deste modo, a resposta não depende do conhecimento, tratando-se, então, de derivar a resposta dos termos da pergunta formulada.
Para Humpty Dumpty, adivinhas são coisas que podem não ser notoriamente adivinhas, mas que podem ser adivinhas. Tal como os poemas. O significado de uma adivinha, como dos poemas, encontra-se no interior da pergunta, daqui resultando um método que não distingue quem percebe de quem não percebe alguma coisa. Sendo assim, responder a uma pergunta implica interpretar, enquanto que responder a uma adivinha, não implica interpretar. O confronto que se apresenta no texto, corresponde àquilo que ocorre com Alice, no momento em que ela interpreta uma coisa que não era para interpretar, ao afirmar a sua idade, em contraponto com a maneira como Humpty Dumpty reage a qualquer pergunta. Com efeito, Alice calcula, reconhece a distinção entre sentido e intenção e, por isso mesmo, interpreta, enquanto que Humpty Dumpty não reconhece, não calcula e, por esse motivo, não interpreta. Daqui decorre que, para Humpty Dumpty, não é possível saber-se o significado de nenhum termo antes que ele seja estipulado por quem fala, esgotando-se em cada ocorrência, numa máquina de estipular imparável.
De certo modo, aquilo que em Humpty Dumpty se encontra em relação a adivinhas, parece ter uma correspondência com a ideia de moral de que podemos dar conta em relação à Duquesa. Para um como para o outro, adivinhas e morais, respectivamente, têm uma relação com a forma do que se afirma, não com questões relacionadas com cálculo ou com interpretação, envolvendo, assim, uma ideia de que é possível extrapolar seja o que for em relação a qualquer coisa.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

Religião e Serenidade

É comum afirmar-se que a religião proporciona o consolo e a serenidade que nenhuma filosofia pode dar. No entanto, como consideração de facto, não ousaria dizer que seja deste modo. Olho à minha volta e recolho as minhas recordações dos homens religiosos (e entendo ingenuamente crentes numa determinada religião),com quem vivi ou com quem me confrontei, e não os reconheço como sendo ou tendo sido mais serenos ou conturbados do que os outros homens não religiosos (não crentes), que também conheci. As manifestações de alegria e de dor são as mesmas nuns como nos outros. Nem mesmo a história me oferece um espectáculo diferente, a história dos santos, dos grandes santos que eram grandes homens: todos eles inquietos, agitados pela dúvida, atormentados pelo escrúpulo moral e pelo sentido da impureza. Tal e qual como os que não são santos (refiro-me aos não santificados).
Dir-se-á que os homens religiosos e os santos também são homens,com as humanas fraquezas e misérias. E está bem. Coloquemos de parte a questão de facto. Assim sendo, por que razão ideal a religião seria capaz de proporcionar a serenidade que a filosofia não pode dar? Podemos responder: porque oferece a estabilidade da fé. Mas a fé não é específica da religião: todos os pensamentos, desde que sejam pensados, tornam-se fé, ou seja, de coisa em devir passam a coisa concretizada, de coisa pensada a coisa não pensada, da coisa dinâmica a coisa estável ou estática. Desse modo temos a fé dos materialistas, dos positivistas e de toda a espécie de pensadores: fé que é evidentíssima sobretudo nos seus estudos: fé que ultrapassa montanhas (mesmo que sejam montanhas de coisas despropositadas). – Mas a fé da religião é inabalável e a destas filosofias e escolas vacila constantemente. – Não é verdade. É sólida e vacilante, nem mais nem menos que a das religiões, cujos dogmas são sujeitos à discussão e evoluem e que, de qualquer maneira, são obrigados a circundar-se de uma apologética, que não existiria se não existisse a possibilidade de dúvidas sobre a fé.
O argumento, portanto, não serve. Será que podemos então apresentar um outro argumento, segundo o qual as religiões (pelo menos algumas religiões), colocando a personalidade de Deus, tornam possível uma relação do homem com Deus, que se manifesta na oração, no pedido de socorro, suprema via de consolo «no desespero», tal como dizia Vico «a respeito de todos os socorros da natureza»? Esta seria a grande consolação, que a filosofia não pode dar? - O problema é que pedir ajuda e obtê-la são duas coisas diferentes. E a oração permanece frequentemente por ouvir. Daí que não é raro o espectáculo do homem que se torna descrente, ou que acusa a justiça de Deus e blasfema. E se, por nobreza de alma, não cai em nenhum destes erros, e se resigna à vontade divina, a Deus que vê mais longe do que nós, que faz ele afinal de diferente daquilo que fazem todos os homens não religiosos? Resignar-se, aceitar o que aconteceu, ter fé na racionalidade do mundo e da história do mundo?
Contudo, dir-se-á, por fim, que a religião (pelo menos em certas formas) é consoladora, porque promete que todos os sofrimentos, todas as perdas por nós sofridas, a própria morte, serão abolidos e compensados numa outra vida. Na verdade, também aqui, gostaria de recordar que a coisa não parece verdadeira, porque todos, crentes e não-crentes, temem e desprezam do mesmo modo o sofrimento e a morte e todos se consolam, à medida que o tempo passa, com a recuperação do trabalho da vida. Mas esta afirmação é falsa, mesmo quando examinada como ideia, visto que o pensamento da vida futura permanece, como teria dito Leibnitz, um pensamento surdo, não verdadeiramente pensado, inerte e, neste caso, não consola. Ou consola do mesmo modo que uma certa e vaga espera por um bem inesperado, que Heine, em tom de brincadeira, apresentava, dizendo, a propósito da imortalidade, que não acreditava que ela existisse, mas não podia tirar da sua mente a esperança de que o bom Deus nos prepara, depois da morte, «uma agradável surpresa». Ou então, por fim, pretende que seja um pensamento verdadeiro e, nesse caso, é preciso pensá-lo, e, pensando-o, examinando aquilo que nele é importante, fazendo nascer dele as suas consequências, vê-se que a vida ultra-terrena não é a terrena, que a beatitude celeste exclui os afectos terrenos e os desumaniza, que no paraíso não existirão, nem pais, nem mães, nem filhos, nem irmãos, nem esposas, nem amantes, mas espíritos beatos em Deus. Em suma, a outra vida é o perfeito oposto da vida terrena, que se perdeu ou se está para perder e que, ainda que única, aquela única vida, brama. Nós não reclamamos por termos em troca da criança perdida, da criança que enchia e fazia traquinices pela casa, um anjinho, no qual aquela criança se tenha transfigurado e tornado ireeconhecível; não reclamamos a mulher angelicada cujos lábios não beijámos, mas aquela que beijámos na vida. Impulsos egoístas, bem o sabemos, e que é preciso vencer, e vencer no pensamento da imortalidade. No entanto, exactamente por isso, da imortalidade purificada das escórias egoístas que a tornam contraditória, da imortalidade que a filosofia nos promete, a qual afirma, também ela, a imortalidade ultra-terrena e supra-individual, e demonstra que qualquer dos nossos actos, mal esteja concluído, se destaca de nós e vive uma vida imortal, e nós próprios (aqueles que realmente não somos outra coisa senão o processo dos nossos actos)somos imortais, visto que ter vivido é viver sempre. Pensamento que me parece mais consolador que o das religiões, pois diz o mesmo que elas dizem, mas di-lo de uma maneira mais clara e segura. Por que razão uma consolação clara e segura terá de ser menos válida que uma outra obscura e incerta?

Benedetto Croce, in «Etica e Politica»

sábado, 19 de dezembro de 2009

O sol è grande e o vento arrebata as folhas que violentamente se precipitam no alcatrão de uma estrada de estios longínquos. Sonhava com estios que me tirassem a roupa e me transportassem para longe. Desde que me conheço que sei não ser este o meu lugar, mas o pior è que também não sei qual è o meu lugar. Por isso vagueio, por isso persisto em buscar qualquer coisa, uma qualquer imprecisão que desconheço, mas que seguramente me permitirá um encontro. Não deve ser casual o facto de me dispersar facilmente diante das coisas comuns, tornando-as muitas vezes complicadas. Sem razão eu sou outro e adquiro características diferentes de mim mesmo em circunstâncias por vezes semelhantes. A minha ironia corresponde a uma necessidade vital de confrontar-me de forma sistemática com os poderes da argumentação. Argumentar corresponde a um processo de distanciação, muitas vezes profunda, entre as minhas teses temporárias e a perspectiva de as poder modificar. Quando me refiro aos meus problemas, estou sinceramente a nomear uma categoria de condições que trago comigo e para as quais procuro respostas. Eu sou da espécie daqueles que não têm um chão seguro, que sabem que qualquer certeza è suspceptível de ser aperfeiçoada, nem que seja pelo simples facto de poder ser contrariada de forma absoluta. O meu desafio è este e tem que ver em primeiro lugar comigo próprio. Por isso argumento.
No meio do caminho havia uma selva escura, não que me atormentasse a selva, mas as raízes profundas das suas árvores que escondidas agitavam a minha estrutura em construção. Pelos caminhos sinuosos da selva eu percorria um calvário de inseguranças que mais não eram do que a incapacidade de me deter a mim próprio no meu cogitar leviano. Não sei por que terei agitado o vaso da tranqulidade, não sei por que terei deixado verter a terra que me servira de suporte. Tudo aconteceu em mim e è comigo que me tenho de reencontrar. Escrevo porque uma serenidade subita me tomou e me permitiu alcançar o primeiro degrau da ordem interior. Que dizer de alguém que tem tudo e não descansa por atingir sempre mais. Eu vejo a morte acordar todas as manhãs, trago-a comigo e rio dela enquanto posso, mesmo que seja por pouco tempo. Ao mesmo tempo, prossigo em desafio, troço e desdenho, sabendo da sua irreversibilidade. A selva de que falo, persegue-me como se de uma figuração da morte se tratasse, agora que me encontro perdido, ela actua como um vírus tirânico, assola-me o espírito. O mais desconcertante è a minha insanidade que me faz transportar sistematicamente a um lugar outro em que eu sei que serei capaz de me iludir, julgando-me, mesmo que por breves momentos feliz vencedor de uma contenda sem história. Dentro de mim encontro razões para a necessidade vital de me alhear da inexorabilidade de um encontro, na fugacidade das coisas que apenas se deixam tocar.
Fazia muito calor. Um calor anormal para aquela época do ano. Noutras circunstâncias, teria sido capaz de se meter no carro e de partir à procura de uma praia onde não corresse riscos de encontrar alguém conhecido. Transpirava mesmo enquanto permanecia quieto. Bem vistas as coisas, podia agora aproveitar para ler um daqueles livros que sempre deixara para trás, enquanto aspirava uns sumos de limão muito açucarados. No entanto, à lembrança apenas lhe ocorriam pequenas histórias, entrecortadas por associações que lhe impossibilitavam atingir um final. Lembrava-se de alguns familiares, das suas características particulares. De um irmão que vivia numa cadeira de rodas desde os sete anos, de um avô que desde pequeno lhe alimentara o gosto pela aventura que ao mar se associava na sua terra natal. Havia, contudo, um espaço do seu raciocínio que ele ainda não conseguia alcançar. Ainda não era capaz de verbalizar os movimentos instintivos que sentia em determinados momentos em que o discernimento se lhe tolhia e apenas concedia a existência de um vaguear vazio que muitas vezes o fizera abeirar do abismo. Permanecia sentado numa enorme poltrona que Lorenzo comprara em Porta Portese no fim-de-semana anterior. Dissera-lhe que fora uma pechincha e que a comprara a um casal de filipinos com ar de esfomeados. Ao longe parecia rumorejar a cidade. O lugar, sentia-o Filipe, apresentava-se-lhe propício à errância. Desde muito jovem que se habituara a andar sem destino. Os amigos chamavam-lhe carinhosamente Stanton, a partir da sua admiração por um filme dos anos oitenta em que havia uma personagem que caminhava sem destino pelas terras áridas do Texas.
De repente, deixou de estar sozinho. A irmã de Lorenzo viera buscar alguma roupa de cama para poder acomodar convenientemente uns hóspedes que chegariam no dia seguinte. Filipe nunca simpatizara com Ilaria, mas esforçava-se por manter a cordialidade quando se encontrava com ela. No fim de contas, só teria de se relacionar com ela enquanto permanecesse naquele apartamento. Pela manhã, enquanto se dirigia para a Universidade, pensava sempre em Madalena e nos meninos. Aos poucos tinha concluído que eles eram tudo aquilo que o ligava à sua terra natal. Aos poucos tinha compreendido que a sua terra era aquela em que em cada momento se encontrava. Ainda perplexo com a descoberta, pensava na diferença que existe em conjecturar uma situação e vivê-la de facto. Descobrira que facilmente conseguiria sair para qualquer lado a qualquer momento e que o maior peso que teria de carregar seria o de si próprio e das suas constantes inquietações. Tamanha descoberta provocou nele o gosto por olhar do lado de fora as coisas que mais intimamente sentia. Tornara-se um ser silencioso. A disciplina da palavra conhecia-a agora ele intimamente. Sabia que toda a palavra podia ser diferentemente utilizada consoante a situação em que fosse pronunciada.
Era uma vez uma flor que brilhava num terreno baldio. Eu contemplei essa flor. Não que ela possuísse uma cor viva, ou sequer que tivesse dimensões exageradas. Tratava-se simplesmente de uma flor. Num primeiro momento limitei-me a contemplá-la. Aos poucos fui gradualmente dando conta da sua imensa singularidade. Era flor. Apenas fui capaz de a sentir, tocar, cheirar, mas não sabia dizê-la. Até porque aquela flor não me recordava nenhuma outra flor que alguma vez tivesse visto, mesmo que fosse igual a tantas outras. A recordação da imagem daquela flor apenas me trazia à memória um campo verde, inexistente, e o som da voz de um rapaz, ao longe. E música, continuamente música. Gostava de descrever esta ideia de flor que de mim se apoderara, mas não sabia como. Apenas sabia que, para a descrever, teria que determinar os nexos que em mim se criaram entretanto e que estavam fora dela. Isto é, na vontade de mostrar a flor, eu não estava senão a traí-la, porque aquilo que eu nela observava não se encontrava nela, mas numa espécie de mentira que eu sentia como verdadeira. No fundo eu interpretava a flor. Não tenho, no entanto, a certeza de que estivesse a ser mentiroso.
O processo em que desenvolvia a minha observação tinha em conta, mais do que a flor, uma certa imagem que em mim e de mim mesmo eu criara. Em vez de interpretar a flor, interpretava-me a mim próprio. Ou pelo menos interpretava qualquer coisa que existia dentro das minhas recordações. Poder-se-á dizer que, a um certo nível, a flor desempenhou uma função e que se encontrava naquele lugar para provocar em mim uma espécie de memória adormecida.



"Car les impressions suivantes ne le sont plus [originais]. Je collectionnerais pour les romans les reliures d’autrefois, celles du temps où je lus mes premiers romans et qui entendaient tant de fois papa me dire: “Tiens-toi droit!” Comme la robe où nous vîmes pour la première fois une femme, elles m’aideraient à retrouver l’amour que j’avais alors, la beautè sur laquelle j’ai superposé trop d’images de moins en moins aimées, pour pouvoir retrouver la première, moi qui ne suis pas le moi qui l’ai vue et qui dois céder la place au moi que j’étais alors, s’il appelle la chose qu’il connut et que mon moi d’aujourd’hui ne connaît point."

Até que ponto será possível afirmar a necessidade da memória como único meio, única estratégia redentora? Nesta passagem da Recherche, existe uma tese embrionária: a de que a única imagem verdadeira é a primeira, aquela que guardamos de um primeiro encontro, na medida em que, a esta, apenas poderão suceder outras imagens só que reveladoras de uma perda. A perda do momento inaugural. Proust afirma que, na prática, só se nasce uma vez, mas que se pode renascer constantemente. Isto é, a partir do momento em que se afirma no texto que o “moi qui ne suis pas le moi qui l’ai vue et qui dois céder la place au moi que j’étais alors”, é conveniente esclarecer que, de um ponto de vista da “argumentação redentora”, o autor, por mais que aponte para um desfalecimento gradual em relação ao primeiro encontro, ele sabe também que o eu que ele é agora é outro e que, até como forma de minimizar os efeitos da perda, podemos evocar sempre um ser-se outro em que o tempo nos transforma e que nos permite, por sua vez, aceder a uma distância que, separando as diferentes imagens de uma mesma circunstância, obtidas em momentos e em graus diferentes, nos proporciona a possibilidade de um recomeço.
O recomeço, conforme é aqui sugerido, é o espaço vital em que a vida pode continuar, o espaço que permite a verbalização, a narrativa. Talvez seja neste registo que possamos prestar atenção à seguinte passagem de Bloom:

"In una delle sue formulazioni più vicine allo stile di Amleto, Nietzsche afferma che le cose per cui riusciamo a trovare le parole sono già morte nel nostro cuore; nell’atto del parlare vi è dunque sempre una sorta di disprezzo"

Acontece que, de certo modo, a afirmação de Bloom, remete para uma ideia, segundo a qual, apenas seremos capazes de falar daquilo que já sentimos como morto, de coisas mortas. Nesta perspectiva, falar, “trovare le parole”, constitui o gesto redentor por excelência, único capaz de gerar recomeços. Ocorre-me pensar em traumas e superações de situações traumáticas.
No caso concreto de Proust, a estratégia parece ser a de procurar na palavra a possibilidade de, estando em contacto com a morte, ser-se capaz, por um processo de anamnese, vislumbrar aquilo que constitui o presente, partindo de impressões do passado. Estaremos a falar de interpretação do passado e do modo como, por via dessa interpretação do passado, damos conta de como a distância pode ser libertadora, mas também e fundamentalmente das alterações que se verificaram no eu que já fui, de tal modo que se repercutem vivamente no eu que sou agora.

Ampulheta

Imaginei uma ampulheta. Uma ampulheta que media a duração do sono de Alice. Nunca no texto se fala dessa ampulheta e só Alice a conhece. Imaginei esta ampulheta a partir daquilo que, durante a discussão, foi dito sobre “sobrevivência”. Porque sabe da sua existência (da ampulheta), Alice reconhece que o seu tempo de sono está a terminar e, por esse motivo, sabe que tem de acabar com o “recreio” e dar um “murro na mesa”. O tribunal em que Alice se encontra é o melhor dos tribunais, na sua perspectiva, na medida em que, dando a possibilidade a outrem de se sentir juiz, é ela quem de facto determina a sentença final e escolhe o momento para o fazer. Alice é a dona do recreio. É no exercício deste papel que ela reconhece o momento em que tem de intervir de forma a garantir a sua sobrevivência.
A propósito de sobrevivência e interpretação, o colega Pedro (não estou certo que seja este o seu nome), apresentou o exemplo daquilo que decorre de um combate de boxe. Na sua perspectiva, durante um combate de boxe não será possível interpretar o que acontece, na medida em que, ao fazê-lo o pugilista perde o momento e arrisca-se a perder. Eu próprio sugeri a possibilidade de fazer uma antecipação do combate, em termos estratégicos, parecendo-me que, ao proceder-se deste modo, se estará a interpretar por antecipação. Será que podemos interpretar por antecipação?
Como o pugilista, Alice, neste sentido, aproxima-se mais de uma posição em que tem de reagir a acontecimentos imediatos. A táctica do pugilista é ditada previamente, perante o estudo do adversário; a táctica de Alice parece resultar desse facto singular que consiste em ela ser a única criatura que tem conhecimento da ampulheta.
Julgo, então, ter compreendido o sentido das palavras do colega Nuno, quando afirmou que Alice não interpreta os poemas que vão surgindo ao longo da obra. Eu também sinto alguma dificuldade em assumir desde logo uma aproximação entre respostas imediatas a estímulos e interpretações. Mesmo que essas respostas imediatas a estímulos possam envolver uma leitura dos acontecimentos a partir da história pessoal de cada um.
Por esse motivo sugeri a ideia de intuição.
De qualquer maneira, julgo que a discussão mantida ao longo da sessão não terá andado longe de se tentar perceber afinal de contas de que ferramentas nos podemos ou devemos servir quando interpretamos. Mais do que saber das maneiras que podemos ter de interpretar textos, julgo que foi de ferramentas que podemos usar para interpretar que andámos à procura.
Alice, pelo contrário, parece saber que, para interpretar, apenas precisa de uma ampulheta.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Esta voz vem de longe, de muito longe, de lugares que às vezes parecem escondidos e que, de repente, aparecem à nossa frente. Reencontramo-nos com a volúpia de uma sugestão de vibrato, tão suave, tão mansa, tão prometedora.
O desacordo entre alguém que vai directamente ao encontro da palavra e alguém que vai ao encontro de particularidades da palavra, parece ser o centro do problema da distinção entre “uso” e “menção”. As confusões resultantes do confronto destas duas palavras emergem por exemplo da distinção entre nome e coisa em si. Com efeito, quando falamos de menção referimo-nos a descrições, erróneas ou verdadeiras, de coisas; quando falamos de uso, estamos a ter em consideração a coisa, aquilo a que nos referimos especificamente. Deste modo, à menção estará associada a ideia de uma intencionalidade particular, que, por si, é susceptível de criar ambiguidade, uma intencionalidade que apenas naquele que enuncia um discurso é susceptível de encontrar uma justificação. Por sua vez a nomeação, enquanto uso de uma coisa em si, centra-se no objecto observado, em concreto, na sua especificidade particular e geral. Pelos motivos apresentados podemos, então, verificar a relação que pode ser estabelecida entre um rótulo e aquilo a que o rótulo alude. Não sendo necessário que o rótulo espelhe aquilo a que se refere, ele é uma forma de apresentação intencional, que apresenta características particulares da coisa rotulada, não a referindo, contudo, naquilo que ela é em si mesma, mas, partindo de uma característica particular dela extraída, a caracteriza numa determinada perspectiva.
Mesmo correndo o risco de não ser muito exacto, julgo que, num certo sentido, o exemplo das ocorrências habituais da expressão “o material tem sempre razão”, pode ilustrar o que acabo de afirmar. Todos nós já ouvimos em determinadas circunstâncias alguém dizer que “o material tem sempre razão”, nomeadamente quando numa oficina, o mecânico nos explica a razão de um determinado problema no automóvel. Dizer-se que “o material tem sempre razão”, entendido como dizer-se, por exemplo, que “o tubo de escape tem sempre razão”, implica ter em consideração a coisa em si, o tubo de escape, sendo que, no momento em que o mecânico se refere a esta peça do automóvel, não está senão a referir-se a ela especificamente, enquanto origem de um problema. De outro modo, a circunstância de um automóvel circular com um tubo de escape deteriorado suscita, pelo menos o incómodo da vizinhança. O ruído provocado por um tubo de escape estragado pode, em si, sugerir a nomeação do problema através de uma menção, imaginando que, em virtude de o sr. Alfredo ter o tubo de escape do seu automóvel estragado, alguns vizinhos terem passado a referir-se a ele como o “escapes”, ou mesmo a chamar-lhe “escapes”, estabelecendo, deste modo, uma maneira de o mencionarem. Nesse sentido, quando alguém, aludindo ao sr. Alfredo, se refere ao “escapes”, não está a fazer mais do que a apresentar uma designação intencional que apenas é susceptível de ser representada pelo sr. Alfredo.
A um outro nível, podemos imaginar que, com o tempo, a menção “escapes” se possa estender a outras situações e que se venha a tornar, no contexto do sr. Alfredo e dos seus vizinhos, sinónimo de alguém que tem o tubo de escape estragado e, deste modo, apesar de reveladora de uma gramaticalidade questionável, uma afirmação como “o “escapes” vai amanhã ao dentista”, adquire um valor particular que a torna compreensível por todos e cuja tradução se encontra implícita no modo como a palavra “escapes” é utilizada.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Interpretar

Num texto de Italo Calvino existe uma personagem que afirma a sua necessidade de reler os livros, visto que em cada releitura lhe parece ler pela primeira vez um livro novo.
Confrontamo-nos muitas vezes com o facto de o mesmo texto se revelar de maneiras diferentes a cada releitura e, desse modo, um texto que lemos aos quarenta anos aparece-nos como coisa diferente do mesmo texto lido vinte anos antes. O facto é que o texto está lá, não mudou. Aquilo que mudou foi o seu leitor. A leitura, a interpretação é o lugar onde em permanência procuramos estabilizar o nosso entendimento do mundo e dos livros que lemos. Os textos estão fixados apenas pelo envólucro do livro de papel, mas as estratégias interpretativas variam. Ao leitor cabe engendrar estratégias para pôr em discussão o texto e estabilizá-lo numa determinada comunidade de leitores. Interpretar envolve fazer escolhas e nessas escolhas o leitor tem um papel determinante.
Dante propõe no Convivio quatro etapas para a construção de uma interpretação: literal, alegórica, moral e anagógica. Ao assim proceder, ele afirma que existe uma primeira fase na observação de um texto, que passa pela identificação dos significados das palavras, pelo primeiro contacto com o texto. Mais adiante, define como segunda etapa, o sentido alegórico de um texto, a partir do qual se pode intuir um significado aparente. Só posteriormente surgem os sentidos moral e anagógico do texto. A estes dois últimos sentidos estarão associados aspectos relacionados com a experiência do leitor e com a sua maneira de observar o mundo.
A interpretação de um texto envolve, por outro lado, um momento intuitivo, em que a observação, embora partindo do sentido literal do texto, pressupõe uma tentativa de fixação dos problemas que resultam de uma primeira leitura e permite estabelecer as primeiras propostas para a sua resolução. A este momento intuitivo seguir-se-á um momento crítico, que conduz o momento intuitivo a um patamar superior, pondo à prova as intuições provenientes do momento inicial.
A interpretação não existe independentemente da experiência do leitor. Ainda assim, a experiência do leitor é ela própria o produto de um conjunto de assumpções interpretativas. A interpretação é uma actividade em permanente actualização, cabendo ao leitor engendrar formas de validação do sentido do texto, com base na sua experiência pessoal, tendo em vista uma comunidade de leitores específica. Esta validação a que me refiro é fundamental, visto que sem ela, não existe verdadeiramente aquilo a que chamamos interpretação, na medida em que, apesar de se tratar de uma experiência pessoal, uma interpretação requer um reconhecimento, não dos seus argumentos, mas da sua fixação, mesmo que temporária.
Todos nós fomos contactando ao longo da vida com interpretações variadas de textos variados, que não constituíam propostas de leitura, mas uma espécie de assumpção da “leitura verdadeira” de um texto. Este modo de funcionar, facilitava, de certo modo, a tarefa do leitor. Contudo, quem assim procede parece ter a aspiração de fixar definitivamente um texto, como se fosse possível fixar definitivamente a vida. Ora, um dos problemas da interpretação resulta do facto de o terreno em que ela se exerce parecer muitas vezes movediço, sendo que, nessa medida, o papel do leitor que interpreta assume um lugar determinante na sua actualização.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Por vezes, julgamos acreditar que a memória é uma coisa fiável. Mas não é. Quanto muito, a haver alguma fiabilidade na memória ela será selectiva e corresponderá à identificação de aspectos particulares que, independentemente da vontade, mais vincadamente permaneceram em nós. Além disso, quando nos falha a memória, somos muitas vezes tentados a elaborar uma declaração de princípio para nós próprios, como forma de tentarmos superar o sintoma de fracasso em que se revela essa falha, nomeadamente recorrendo a afirmações do género da que Alice pronuncia quando se encontra na floresta: “I will remember, if I can! I’m determined to do it!” Afirmações deste género são frequentes, mesmo que saibamos que o verbo lembrar não encerra uma acção. Contudo, somos capazes de reconhecer situações deste tipo na vida do dia a dia.
O conjunto das invenções do Cavaleiro Branco aparece como o modo como na personagem se exerce a ideia de acto mental. Para o Cavaleiro, o simples facto de ele pensar alguma coisa, corresponde de imediato à invenção dessa coisa, na perspectiva de que inventar é qualquer coisa que se parece com ter um plano ou uma ideia, não existindo na forma de agir da personagem uma diferença entre ter uma ideia, ou uma teoria ou passar-lhe uma coisa pela cabeça. Assim sendo, na medida em que, a partir do momento em que aquilo que é inventado apenas existe na sua cabeça, uma personagem assim torna-se esquiva em relação à ideia de discussão.
Além disso, é interessante verificar o conceito de experiência no Cavaleiro Branco. Entendendo que, para o Cavaleiro, a sua prática é mental, a sua experimentação existe apenas ao nível daquilo que ele pensa e, deste modo, ele é o lugar onde ocorrem experiências unicamente mentais, na medida em que não compreende a relação entre mente e corpo.
De certa forma, aquilo que tenho vindo a afirmar está presente no poema contido no capítulo VIII de Through th Looking-Glass. Embora nos seja apresentado como um diálogo, este poema não o é. Não é um diálogo na medida em que, apesar de nele nos ser apresentada uma personagem que fala, aquilo que dele retiramos é o exercício mental do Cavaleiro, enquanto enunciador do discurso. É no discurso em si que se focaliza o Cavaleiro e não na figura do “aged aged man” que é referida no poema. A construção mental do Cavaleiro pressupõe que o “aged aged man” nomeado seja uma figura ligada ao mundo, enquanto parte do todo em que está inserido. Em contraponto, o poema corresponde a um momento de distracção, por parte do Cavaleiro. De uma distracção que, no fundo está de acordo com os seus procedimentos habituais, enquanto inventor. Deste modo, o poema aparece como uma extensão e como um exemplo de alguém que está sempre a pensar noutra coisa, tal como a certa altura nele se afirma: “But I was thinking of a way/ To feed oneself on batter,” (na estrofe 5). O “aged aged man” faz parte do poema, mas enquanto figura por quem se passa enquanto se faz outra coisa, enquanto parte da paisagem, ao mesmo tempo que, para o Cavaleiro Branco o importante é o seu caso mental, a sua distracção inventiva.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Não é minha a intenção de engendrar uma teoria do sonho. Contudo, julgo que poderei propor alguns tópicos de discussão acerca de uma eventual teoria do sonho.
O poema final de Through the Looking-Glass and what Alice found there parece sugerir a ideia de que as únicas crianças boas, são as crianças mortas, quietas, que “não dão trabalho”. Se nos apropriarmos de alguns conceitos de Freud, podemos pensar que o sonho de Alice pode constituir uma espécie de descontracção da censura, momento durante o qual, servindo-se da trégua motivada pelo sono, a personagem transporia a barreira da repressão. Quando a acção decorre ao sabor do sonho, torna-se indiscernível a distinção entre sonho e realidade, visto que, no sonho, tudo adquire uma dimensão de verdade. É nesta perspectiva que Alice, ao longo das duas obras, cresce, também do ponto de vista da relevância do seu papel, nomeadamente quando ascende à condição de “rainha”.
No final da obra, o “fazer de conta” por parte de Kitty recupera a circunstância que ocorre no primeiro capítulo de Through the Looking-Glass, quando Alice afirma ter discutido com a irmã por esta não ter aceite a sua proposta para “fazerem de conta que eram reis e rainhas”. De certo modo, quando, mais adiante, Alice, dirigindo-se a Kitty, afirma “Let’s pretend that you’re the Red Queen”, ela parece estar a assumir a sua gata como uma solução de recurso. O que decorre desta passagem da gata a Rainha de Copas é o castigo a que Alice a condena, colocando-a na “Looking-Glass House”. Ora, no final do último capítulo de Through the Looking-Glass, a reacção da gata parece corresponder a uma espécie de resposta ao castigo do primeiro capítulo. Sendo assim, na perspectiva de que é Alice quem sonha e que, por via do sonho, é capaz de comandar as acções, o facto de Kitty fingir introduz uma variável que me parece digna de atenção.
Apesar de ser comum podermos atribuir interpretações a determinadas acções e gestos de animais, não poderemos afirmar com toda a certeza que aquilo que intuímos acerca desses gestos corresponda ao que se passa, de facto, com o animal em concreto que observámos. Contudo, uma situação deste género é susceptível de ser entendida como verdadeira ao nível do sonho. Neste caso, se entendermos que, no capítulo final de Through the Looking-Glass, Alice acordou, saindo, desse modo, do “outro lado do espelho”, os gestos da gata, nestas novas circunstâncias não deveriam de continuar a ser interpretados dentro do mesmo universo de referências, que, presumivelmente moldariam as reacções de Alice. De certo modo, Alice, mesmo acordando, parece ter dificuldade em estabelecer os limites entre aquilo que é próprio do sonho e aquilo que o não é e, por isso, o seu registo perante Kitty, não parece modificar-se.
A interrogação final colocada no final do capítulo XII de Through the Looking-Glass remete, no fundo, para a eventualidade de em certas circunstâncias se tornarem problemáticas as distinções entre “estar ou não estar” a sonhar e “estar ou não estar acordado”.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O princípio da individuação está presente, enquanto problema, no diálogo entre a pomba e Alice no capítulo V de Alice’s adventures in wonderland e resulta do facto de, ao afirmar ser indiferente que Alice seja uma “little girl” ou “a serpent”, a pomba, no fundo, provocar uma reacção particular de Alice. Como podemos observar a partir da leitura da obra, Alice vai sendo várias coisas sem que esboce uma reacção como aquela que nesta passagem revela. A questão que se coloca, entre outras, é a de que Alice parece pretender ser reconhecida pela pomba como aquilo que ela é, ou por aquilo que ela considera ser. Contudo, não estou certo que ela saiba “o que é”. É esse o seu problema. Passando por várias transformações e diferentes modos de ser nomeada, Alice parece não ser capaz de responder para si própria à pergunta: o que és tu, Alice? Perante esta circunstância, a afirmação da pomba proporciona a Alice a necessidade de ser capaz de se distinguir dos outros e de se reconhecer em si própria. Esta é uma necessidade primordial e um objectivo a cumprir.
De certo modo, a Alice falta um sentido de totalidade que a possa fazer repousar numa identidade pessoal básica, ao nível, por exemplo, da utilidade que essa identidade pode ter para a sua vida prática. Por outras palavras, não sendo capaz de se identificar, nem com aquilo que lhe é dito pela pomba, nem com a construção mental que tem de si mesma, Alice reage, afirmando uma especificidade que não lhe é dada por um nome, mas por uma categoria particular que, eventualmente, poderá ser formulada em termos não muito distantes de: Alice é igual a alguém que não procura ovos, muito menos os da pomba.
Esta definição de Alice, no entanto, peca por ser redutora.
Ao longo da obra encontramos respostas incompatíveis entre si à pergunta “o que é a Alice?”, respostas que escapam àquilo que mais facilmente poderia ser dito: que simplesmente, Alice é algo que depende das circunstâncias. Neste sentido, Alice é mostrada em constante evolução. Uma evolução que a faz ser constantemente outra coisa. Deste modo, da resposta “depende” parece emergir a ideia de que Alice vai sendo isto ou aquilo e que, por esse motivo, a sua definição depende das circunstâncias e das criaturas com que se vai cruzando.
A partir daquilo que acontece a Alice, lembrei-me de uma passagem do Breviário de estética, em que Benedetto Croce afirma que “a vida ulterior do espírito, renovando e multiplicando os problemas, torna, já não falsas, mas inadequadas as soluções precedentes, parte das quais cai no número daquelas verdades que se subentendem, e outra parte deve ser retomada e integrada.” A impressão que sou tentado a registar é a de que, muito mais do que um problema para a Alice, o facto de existir uma dificuldade na sua descrição é um problema para quem pretenda encontrar um sentido para a obra, na medida em que, devido à necessidade de categorizarmos uma coisa, de a arrumarmos, corrermos o risco de não a chegar a intuir da forma mais adequada, que consiste em perceber a sua evolução e o modo como esta evolução, partindo de uma ocorrência, poderá ou não relacionar-se com o que a precedeu e com aquilo que se sucederá.
Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte.
Platão, República, 338c

Esta afirmação de Trasímaco parece ecoar no modo como a justiça é exercida no capítulo 3 de Alice’s adventures in wonderland, no momento em que Dodó sugere que todos participem numa “Caucus-Race”. A sugestão de Dodó resulta do insucesso da proposta do Rato, que pressupunha que todos ficariam secos se ouvissem histórias enfadonhas. No texto, a identificação da autoridade, primeiro do Rato e depois do Dodó, resulta à primeira vista pouco explicada: o Rato porque “seemed to be a person of some authority among them”; o Dodó, porque fala num tom solene e se põe de pé. À partida, estas parecem ser razões pouco credíveis para que a alguém seja atribuído um estatuto de autoridade. Contudo, no contexto em que a acção decorre, estas razões são susceptíveis de ser entendidas como boas. Num certo sentido, o nível destas explicações não difere muito daquele em que o Gato define que é maluco, através da caracterização que apresenta do cão, ao afirmar que o cão não é maluco porque rosna quando está zangado e que dá ao rabo quando está feliz, enquanto ele, Gato, rosna quando está feliz e dá ao rabo quando está zangado. Esta definição de maluco, se lida à luz de uma ideia que pressupõe que a um maluco é permitido dizer tudo sem que se lhe exija um nexo, parece ser susceptível de ser associada àquilo que acontece no episódio da “Caucus-Race”, acima mencionado.
Esta situação aproxima-se também daquilo que acontece no capítulo VIII, durante o jogo de croquete, e adquire visibilidade maior no momento em que, lamuriando-se, Alice diz ao Gato que “não lhe parece que eles joguem como deve ser”. Alice tem a noção de que num jogo, como numa discussão, deve existir uma ordem, que devem existir regras claras, ao mesmo tempo que constata que não é isso que acontece no jogo em que ela participa naquele momento.
Alice sabe que a ordem natural de uma discussão pressupõe à partida a ideia de que existem regras e que o exercício dessas regras é executado pela justiça. Neste sentido, a justiça consiste numa prática de actuação que envolve várias partes, todas elas sujeitas a regras de debate, de organização. Ora, a partir do momento em que as regras são pouco claras, ou mesmo arbitrárias e sujeitas aos desejos de alguém que exerce a autoridade, deixa de haver um critério nítido de justiça, se enquadrado ao nível da experiência pessoal de Alice. É esta situação de arbitrariedade que a desconforta e que lhe frustra as expectativas, visto que os critérios de atribuição de sentido e de ordem se encontram postos em causa, partindo da experiência anterior da protagonista.
A “conveniência do mais forte” a que Trasímaco faz referência pode ser um meio de exercer um poder ilegítimo, assente na arbitrariedade das decisões, de acordo com os interesses daquele que exerce a autoridade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Suspeito que Camilo Castelo-Branco não tivesse um projecto prévio em relação às Memórias do Cárcere. Pelo menos no sentido de pretender determinar certos padrões de comportamento, com o seu texto. Camilo conhecia demasiado intimamente os diferentes e imprevisíveis matizes do comportamento das pessoas, para ter a veleidade de pretender antecipar ou influenciar comportamentos. Por isso, o seu texto contém descrições intrincadas, finas, das pessoas que nomeia. Sabendo da impossibilidade de determinar um modo de agir particular nos outros, porque ele próprio era dado às flutuações do momento que a vida lhe oferecia, restava-lhe descrever, como se fosse "em carne viva", processos e situações que aconteciam nas vidas dos outros e também na sua. De vidas entregues à circunstância e ao acaso derivado da sua condição. O livre-arbítrio a que o homem tem de dar resposta em todos os movimentos do seu espírito é assumido como uma vantagem, mas também como um modo de dar resposta à liberdade de proceder a escolhas e de reconhecer as dificuldades que a elas muitas vezes são inerentes. É a liberdade do espírito, do seu próprio e dos outros que é mostrada ao longo de Memórias do Cárcere.